JORGE LUIZ BALBYNS e JORGE LESCANO conviadam: em São Paulo

 

O   C A N T O   D O   C I S N E

 

 

O canto do cisne é uma das peças curtas de Anton Tchekhov escrita em 1897.

 

No desenrolar do texto, surgem os dois únicos personagens: Vânia e Nikita, ator e o ponto do teatro, respectivamente. Vânia, ator-personagem de 68 anos, traz em si questionamentos que revelam profunda solidão e angústia humanas. Por outro lado, como uma visão “sobrenatural”, surge o ponto, personagem esse que reforça a metalinguagem teatral, servindo de apoio para os devaneios histriônicos e autobiográficos da personagem central, Vânia.

 

Do camarim, embriagado, surge o personagem Vânia, em conflito com sua própria história de ator de 68 anos, mergulhado na sua realidade decadente e vil. A chegada de Nikita (o ponto) instiga (o ator) Vânia, carente e desiludido, abandonado a sua própria sorte, a representar, de maneira eloquente sua vida através de trechos de espetáculos e personagens supostamente vividos por ele em sua trajetória, tais como Rei Lear, Hamlet e Otelo e recita trechos de poesia de Boris Godunov, obra prima do maior poeta romântico russo, Alexander Puchkin. Esses momentos se confundem e tornam o texto cada vez mais denso e intrigante.

 

“Testar” a atualidade do teatro de Tchekhov através da leitura segundo Brecht e Beckett. O distanciamento do alemão e a identificação da decrepitude, característica dos personagens do irlandês. Seria possível esta leitura? Tal o desafio proposto.

 

A pesquisa sobre o texto incluiu o reconhecimento do momento histórico em que a obra foi escrita. Tratava-se de um momento de transição tanto estética quanto política na Rússia tzarista. Em verdade, a mudança estética retratava o momento político. Nesse contexto surgem os personagens decadentes, niilistas, anarquistas, e também os humilhados e ofendidos, os marginados, os esquecidos, retratados tanto por Tchekhov quanto por Turgueniev, Dostoievski, Tolstoi e Máximo Gorki, último escritor russo e primeiro soviético. Todos eles, nas palavras de Dostoievski, surgidos do Capote de Gógol, texto fundador da literatura russa associada ao realismo.

 

Talvez a característica que diferencie Tchekhov dos seus contemporâneos seja o humor particular, irônico e melancólico a um só tempo. Esta característica o aproxima dos vagabundos e despojados de Beckett, espécie de clowns sem circo. Seres exilados da vida sem sair do palco da realidade cotidiana. Também a permanência dos seus problemas permite que sejam representados e assimilados pelo público com a mesma atualidade de sua estréia no século XIX.

 

Parece não haver contradição ou traição ao autor ao relacioná-lo com as atuais poéticas teatrais. Antes, trata-se de atualizar também a pesquisa, que no momento da estréia obrigava Stanislavski a criar novos métodos de atuação. A pertinência desta escolha fica clara pelo resultado obtido.

About these ads

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 345 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: