OS MALABARISMOS DE UMA CONSCIÊNCIA INTENSAMENTE LÍRICA – por alexandre bonafim / são paulo.sp

A poesia de Almandrade faz-se, antes de tudo, daqueles temas
essenciais da condição humana, tão preciosos para os homens do nosso
tempo, distanciados da razão de existir. Uma perplexidade em constante
estado de nascimento acorda, aos olhos do leitor, uma realidade
múltipla e absurda. Ao lermos os textos do poeta baiano, deparamo-nos
com a densidade do real e com todos os seus limites e frustrações:
“cidade perplexa/ embalagem hostil/ inútil divertimento”. O eu lírico
dos poemas de Almandrade gasta-se nas arestas do mundo, rasga-se nos
ângulos dessa realidade limitada, em um viver de raríssimas
possibilidades de salvação ou transcendência (encontradas, como
veremos a seguir, apenas no erotismo e na epifania da palavra lírica):
“O andarilho inocente/ repete o caminho/ sem encontrar/ uma saída”.
Esse esgotamento das possibilidades do real lembra-nos dos angustiosos
labirintos Kafkianos, em que todas as direções nos encaminham, na
verdade, para lugar nenhum. O mesmo clima de abafamento, de
aprisionamento, entrevisto na ficção de Kafka, pode ser percebido
nesses poemas de agudeza existencial. Drummondiano, sem deixar de
possuir uma voz própria e peculiar, Almandrade recria, portanto,
aquele clima claustrofóbico da poesia do autor itabirano, tão bem
expresso pela persona inventada por Drummond, ou seja, o seu famoso
José.

Essa é uma poesia que, antes de instaurar a segurança,
desalenta-nos com as incertezas, com as dúvidas. Já na antiguidade,
Sócrates alardeava a importância do questionamento, em detrimento das
respostas. Pois bem, na poesia de Almandrade, temos a mesma sede de
indagação, a mesma escavação feita por perguntas que não se findam,
que instauram uma perpétua pesquisa do viver: Pensar é/ abrir portas,/
migrar/ para o desconhecido”. Em versos sucintos, verdadeiras farpas
de auto-iluminação, o poeta de Malabarismos das Pedras amplia a
potência do signo poético, como se a palavra funcionasse como um
verdadeiro golpe a acordar o leitor de sua letargia, de seu
sedimentado hábito de simplesmente estar no mundo: “Dormir,/ pode ser
uma covardia/ diante das circunstâncias/ e suas incertezas”. Essa
vigília em perene estado de exacerbação, funciona, portanto, como um
farol a desmascarar as farsas dessa nossa realidade tão estigmatizada
pela mídia e pela ideologia do consumo. Ao lermos Almandrade,
sublinhamos, em nosso âmago, a força da consciência e a sua capacidade
de detonar as verdades estereotipadas de nossa era pós-moderna.

Essa mesma consciência, vibrante, intensa, também vasculha a própria
fuga do tempo, e a revela, sem nos poupar e sem nos iludir: “a vida
quando vazia/ é um acúmulo de rugas”. Somos seres irremediavelmente
efêmeros e passageiros e, diante dessa situação existencial, resta-nos
somente a epifania da própria poesia, teia a nos interligar a um
eterno agora (apenas retido pela memória), momento pulsante,
orgiástico e, por isso, intensamente vivo mesmo em face da dissolução
do existir: “as coisas retidas na memória/ acariciam a eternidade”. É
dessa revelação da palavra, feita de som e fúria, que nasce um doce
erotismo, um terno desvelo pelo corpo feminino: “Em silêncio/ a
intimidade feminina/ acende o mistério/ que faz lembrar/ o aroma dos
devaneios/ que transporta/ o fim da tarde”. Dessa forma, diante das
amarras impostas pelo destino e pela realidade, nasce a iluminação do
desejo, energia a latejar o corpo, a incendiar a graça de ser: “Nem
mesmo/ a musicalidade dos pelos/ é maior que o apelo/ da cicatriz do
nascimento”.

A poesia de Almandrade, portanto, recorda-nos o mito de
Sísifo. O homem contemporâneo, acossado, muitas vezes, pelo vazio e
pela alienação, típicos em um tempo de consumismo desenfreado, está
condenado a rolar, em infinitas vezes, uma pedra ao topo de um monte.
Todavia, resta a esse homem, ao descer, de mãos vazias, a mesma
colina, a visão pródiga de um mar, feito de intenso azul, prazer e
glória a saciar-nos com o milagre da poesia: “Agora é dia, o sol
queima a letra”.

Alexandre Bonafim – Nasceu em Belo Horizonte. É mestre em literatura brasileira, poeta e professor universitário.

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A  RAZÃO  EM  COMA

Pobres bibliotecas vazias
sem títulos e sem Borges,
O tempo, indiferente
ao jogo dos relógios,
não é mais dos livros.
O saber é um desconforto
de uma civilização
que vive ao redor do imediato
e humilha a memória.

ALMANDRADE

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