Arquivos Diários: 8 dezembro, 2011

Paisagens partidas – por amilcar neves / ilha de santa catarina


 

Tinha a cidade aos pés desde a noite anterior, uma cidade sobre rodas motorizadas (não se via uma bicicleta sequer, somente rodas ou os pés da gente que anda a pé). Ao fundo, barcos: lanchas, veleiros e um iate fundeados no Iate Clube Veleiros da Ilha, uma ou outra lancha pequena passando preguiçosa a longos intervalos no mar cinzento, reflexo de um céu forrado de nuvens escuras e varrido por um nordeste que mexia o ar mais do que esquentava, um clima ótimo para deixar toda arrepiada na beira da praia uma mulher de biquíni.

 

Apesar do ângulo aberto contado a partir do morro, nas encostas do Menino Deus, não via tudo o que havia: o prédio ao lado obstruía-lhe a visão das pontes e suas circunvizinhanças. Espiar a Hercílio Luz, então, só na imaginação: como o fazem há tempos aqueles que um dia a conheceram como ponte que suporta o trânsito cotidiano da cidade e como o farão, daqui a pouco, aqueles que chegaram a conhecê-la como monumento em acelerada decrepitude por obra da omissão de vários governantes, cujos nomes deverão ser gravados a fogo num monumento que se erguerá no lugar da estrutura metálica pênsil, e por desobra de muito dinheiro que, endereçado à HL, nunca chegou ao destino, como se a ponte já não houvesse mais e, portanto, nada nem ninguém pudesse chegar ao destino, sequer o dinheiro destinado a salvá-la (quando, antes, bastava mantê-la).

 

Diz o Houaiss que, em Estatística, dá-se à “falta de atividade, de trabalho; inércia, inatividade” o nome de desobra. Estatisticamente a Ponte cairá um dia, e nossos governos têm trabalhado arduamente para antecipar o quanto possam tal data fatal. Esquecem que, quando a queda da Ponte acontecer, ela deixará de lhes ser um valioso pretexto para, digamos assim, canalizar verbas e recursos outros.

 

À esquerda, o que resta de Mata Atlântica ao redor da subida do Senhor dos Passos bloqueia a visão das bocas Oeste do túnel duplo que liga a Prainha ao Saco dos Limões, desprezando o José Mendes à sua direita, para quem vai do Centro para o Sul da Ilha, para satisfação e tranquilidade do Júlio de Queiroz, que mora de frente para o mar sem o barulho contínuo e irritante de cidade em seu portão. Alguém teve a inspiração de dar ao caminho pelas entranhas do Mocotó o nome de Antonieta de Barros, uma mulher bem negra que foi professora respeitadíssima (quando se respeitavam os professores, para não dizer mais) por seu trabalho no magistério durante a primeira metade do século passado, mas o corporativismo da Assembleia Legislativa resolveu puxar um pouco a si a homenagem, batizando o túnel como Deputada Antonieta de Barros – ainda que ela tenha sido eleita a primeira deputada de Santa Catarina, sua obra mais significativa foi a de professora.

 

Restaria o mar à frente, com a Baía Sul toda desdobrada aos olhos – desde que o Fórum e o Tribunal de Justiça, de alturas excessivas, não fragmentassem de novo a paisagem, ladeados por construções mais humildes que afastam o mar de quem está em terra, a pé ou mesmo motorizado: uma passarela do samba, de costas para o mar, que não para de crescer cada vez mais feia, tendo já atropelado o local em que um papa rezou missa, e uma imensa caixa de sapatos toda fechada, de tampa verde, a que se dá o nome de centro de convenções ou algo similar. Na borda do mar desenhada já por aterros, construções desnecessárias para o local bloqueiam a simples visão do mar; em paralelo a elas, pistas de alta velocidade bloqueiam o mero acesso ao mar.

 

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / curitiba

ENTREVISTA COM O POETA MANOEL DE ANDRADE PARA A REVISTA CLIC MAGAZINE:

 

 

  1.        O poeta Manoel de Andrade, sempre foi um poeta participante? Vida e poesia são indissociáveis?

R. Aos vinte anos eu tinha uma visão muito intelectual do processo poético. Era o início da década de sessenta, época em que o dadaísmo propunha desconstruir a construção poética e o concretismo, pelo contrário, impunha uma excessiva preocupação teórica sobre como construir a poesia. É dessa fase o Poema Brabo com o qual ganhei, em 1964, um primeiro lugar num concurso de poesia moderna instituído pelo Centro de Letras do Paraná e o jornal “O Estado do Paraná”. Mas a influência concretista foi  efêmera. O golpe militar de 1964 me induziu a fazer uma rápida autocrítica e minha condição de poeta participante começa já em 1965, quando ao participar no Teatro Guaíra,  da Noite da Poesia Paranaense, ao lado de  João Manuel Simões, Helena Kolody, Leopoldo Scherner, Hélio de Freitas Puglielli, Paulo Leminski, Sônia Regis Barreto e outros, fui o único a apresentar no poema A Náusea, versos politicamente explícitos contra a Ditadura, como os deste fragmento:

(…) E tu, entre tantos,

saberás conter essa indignação

somente no lirismo dos teus versos,

ou irás colar teu escarro no pátio sangrento dos quartéis?

 

Vida e poesia devem ser indissociáveis, contudo, e infelizmente, passei 30 anos distante da poesia, não como leitor, mas como escritor.

 

Sua poesia é mais discursiva… Você acredita nos prodígios da simples palavra poética?

R. A poesia é um prodígio quando se encontra a palavra certa. A palavra essencial, na expressão de Antonio Machado. Ousadia e encanto integram o mistério desse prodígio. Se a poesia social realmente é mais discursiva é porque está identificada com o tempo histórico em que vive o poeta. Seu propósito social, seu pendor libertário exige essa implícita oralidade, esse tom discursivo. Creio que é missão dos poetas semear a esperança e denunciar as injustiças, sobretudo em tempos de crueldade. Por isso caíram Garcia Lorca, Otto René Castillo, Javier Heraud, Ariel Santibanhez. Contudo esse engajamento, essa preocupação com os fatos sociais não deve e não pode ofender a tessitura poética, pois sem lirismo não há poesia.

       Ação política e ação poética, podem convergir para um mesmo ideal ou utopia?

  1. Esses dois fatores dependem das circunstâncias históricas para se armarem na mesma trincheira. Escrevi poesia política nas décadas de 60/70, período em que no Brasil foram silenciadas todas as expressões da cultura ideológica e na América Latina as bandeiras de uma sociedade socialista estavam hasteadas na consciência das classes oprimidas e nas vanguardas revolucionáriasem luta. Esseideal de um mundo novo e essa utopia com que tantos sonharam era o sublime conteúdo dos meus versos.

  1. O signo verbal, a seu ver, será sempre o instrumento mais forte de comunicação do poético?

R. Tenho na mídia eletrônica um artigo chamado “Poesia e Oralidade”, onde escrevi sobre a importância do verso pronunciado sem desmerecer a poesia escrita. O signo verbal tanto pode ser oral como escrito, mas é no tom declamatório que o poema está realmente “vivo”. Creio que a magia da poesia está na sua oralidade, mas essa estesia  foi se perdendo com a indigesta presença da modernidade,  que amordaçou o lirismo. Felizmente os grandes festivais de poesia têm mantido acesa esta chama.

  1. O poeta pode ser o rapsodo reinventando o mundo pelas linguagens?

R. Isso tem muito a ver com uma parte de minha vida, quando eu era um bardo errante ao longo dos caminhos da América. Naqueles anos ‘o mundo tinha o tamanho dos nossos sonhos’ e tudo estava sendo reinventado com tantas formas de linguagens. A poesia buscava a sua verdade na história e tinha plena cidadania no coração dos jovens. Hoje, nós, os poetas, somos seres desgarrados. E, contudo,  a poesia segue impassível seu caminho,  sublimada em sua própria transcendência. É ela que liberta a palavra nessa angustiante crise da expressão humana. Sempre foi e segue sendo uma operação mágica. Uma alquimia em busca do nobre metal do encanto.

  1. Conte-nos um pouco da sua trajetória poética e de vida.

Minha real trajetória poética aconteceu fora do Brasil. Deixei o país em março de 1969 e meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  foi publicado no ano seguinteem La Paz, com varias edições posteriores no Continente. Nessa época minha vida e minha poesia eram indissociáveis. Foram 16 países percorridos, denunciando a opressão, dando nome aos tiranos, declamando a liberdade e pronunciando a esperança. Fugas, prisões e expulsões marcaram minha vida com a sublime cumplicidade de meus versos. Escrevo, atualmente, um livro de memórias sobre aos anos que passei na América Latina e é onde espero contar a história libertária da América, colhida nos passos de minha trajetória poética.

  1. Como você vê as novas mídias hoje? Algum palpite sobre o futuro do poema feito com palavras? 
  2. R-Vejo-as com muito interesse porque praticamente só publico na internet e já não leio jornais impressos. Contudo, das mídias tradicionais só não abro mão do rádio.  Também já não faço nenhuma questão que meus poemas ou artigos sejam publicados na imprensa porque o jornal é flor de um dia. Ter um texto publicado na web é uma expectativa permanente de interação com o mundo. Tenho alguns blogs onde publico normalmente e uma revista eletrônica bilíngue onde assino uma coluna trimestral. Além de suas inumeráveis utilidades, creio que a internet é uma agenda diária imprescindível para um intelectual.

Completando a resposta,  não consigo imaginar um futuro em que um poema não seja feito com palavras.

  1. Das suas obras, quais as que mais o projetaram como poeta?

R. Tenho três livros de poesia publicados e co-autoria em outros.  Publiqueidois no exterior e dois no Brasil, sendo um destes uma reedição brasileira de Poemas para la libertad, editado há 40 anos na Bolívia.  Poemas para a liberdade, que somente foi publicado no Brasil em 2009, numa edição bilíngue pela Editora Escrituras, foi o livro que mais dimensão deu a minha poesia. Alguns dos seus poemas foram escritos no Brasil mas, sua maior parte nasceu no exílio e se me projetaram como poeta é porque nasceram na imensa trincheira de luta que foi a América Latina nos anos 70. Começaram sua trajetória em edições e reedições panfletárias no Peru, espalharam-se pelo Continente através de mochileiros de muitas nacionalidades  e foram lidos em teatros, galerias de arte, sindicatos, minas, reuniões públicas e clandestinas, congresso de poetas, festivais de cultura  e para muitos milhares de estudantes das maiores universidades latino-americanas.

  1. Pra finalizar: o público de poesia, a seu ver, melhorou ou piorou nos últimos tempos?

R. Esta é uma pergunta que eu também gostaria de fazer a quem realmente soubesse responder. Creio que a poesia tem a sua linguagem e são tão poucos os que realmente  falam, leem e escrevem esse idioma… Todos sabemos que hoje a poesia é uma nobre mendiga, rogando quem a escute. É muito triste tudo isso para nós, os poetas, que ansiamos partilhar com todos o nosso lirismo e o nosso encantamento. Já disse algures que a poesia é o patinho feio da literatura, desprezada pelas editoras e “escondida” nas livrarias. Creio que são os sinais dos tempos. Vivemos num mundo ética e esteticamente falido e onde a cultura da aparência é a própria expressão da mediocridade. Creio que tudo isso há de passar. Que há de vir um tempo em que a poesia volte a palpitar no coração dos homens, por ser a mais bela expressão de sua alma e porque, pelo seu mistério e seu encanto, a poesia é imperecível.

1. Como foi a repercussão na mídia da sua edição de CANTARES, 2007, editora escrituras?

R. Foi muito boa e a edição está praticamente esgotada. Esse livro marcou, em 2002, meu retorno à poesia depois de 30 anos de total afastamento da literatura. Voltei ao Brasil em meados de 72, numa fase aguda da repressão política, obrigando-me a ficar muitos anos no total anonimato social e literário. Tudo isso me desmotivou a escrever e somente voltei à poesia na primavera de 2002. provocado por um fato meramente circunstancial. Cinco anos depois lancei o livro Cantares, retratando na sua primeira parte a importância que o mar teve em minha infância, um lírico resgate de uma fase extraordinária de minha vida. Voltando à pergunta quero dizer que sua repercussão na mídia foi a melhor possível, seja pela credibilidade dos comentários, entrevistas e resenhas, mas sobretudo porque todos os poemas do livro estão publicados em vários blogues nacionais e alguns internacionais.