O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta MANOEL DE ANDRADE / curitiba

ENTREVISTA COM O POETA MANOEL DE ANDRADE PARA A REVISTA CLIC MAGAZINE:

 

 

  1.        O poeta Manoel de Andrade, sempre foi um poeta participante? Vida e poesia são indissociáveis?

R. Aos vinte anos eu tinha uma visão muito intelectual do processo poético. Era o início da década de sessenta, época em que o dadaísmo propunha desconstruir a construção poética e o concretismo, pelo contrário, impunha uma excessiva preocupação teórica sobre como construir a poesia. É dessa fase o Poema Brabo com o qual ganhei, em 1964, um primeiro lugar num concurso de poesia moderna instituído pelo Centro de Letras do Paraná e o jornal “O Estado do Paraná”. Mas a influência concretista foi  efêmera. O golpe militar de 1964 me induziu a fazer uma rápida autocrítica e minha condição de poeta participante começa já em 1965, quando ao participar no Teatro Guaíra,  da Noite da Poesia Paranaense, ao lado de  João Manuel Simões, Helena Kolody, Leopoldo Scherner, Hélio de Freitas Puglielli, Paulo Leminski, Sônia Regis Barreto e outros, fui o único a apresentar no poema A Náusea, versos politicamente explícitos contra a Ditadura, como os deste fragmento:

(…) E tu, entre tantos,

saberás conter essa indignação

somente no lirismo dos teus versos,

ou irás colar teu escarro no pátio sangrento dos quartéis?

 

Vida e poesia devem ser indissociáveis, contudo, e infelizmente, passei 30 anos distante da poesia, não como leitor, mas como escritor.

 

Sua poesia é mais discursiva… Você acredita nos prodígios da simples palavra poética?

R. A poesia é um prodígio quando se encontra a palavra certa. A palavra essencial, na expressão de Antonio Machado. Ousadia e encanto integram o mistério desse prodígio. Se a poesia social realmente é mais discursiva é porque está identificada com o tempo histórico em que vive o poeta. Seu propósito social, seu pendor libertário exige essa implícita oralidade, esse tom discursivo. Creio que é missão dos poetas semear a esperança e denunciar as injustiças, sobretudo em tempos de crueldade. Por isso caíram Garcia Lorca, Otto René Castillo, Javier Heraud, Ariel Santibanhez. Contudo esse engajamento, essa preocupação com os fatos sociais não deve e não pode ofender a tessitura poética, pois sem lirismo não há poesia.

       Ação política e ação poética, podem convergir para um mesmo ideal ou utopia?

  1. Esses dois fatores dependem das circunstâncias históricas para se armarem na mesma trincheira. Escrevi poesia política nas décadas de 60/70, período em que no Brasil foram silenciadas todas as expressões da cultura ideológica e na América Latina as bandeiras de uma sociedade socialista estavam hasteadas na consciência das classes oprimidas e nas vanguardas revolucionáriasem luta. Esseideal de um mundo novo e essa utopia com que tantos sonharam era o sublime conteúdo dos meus versos.

  1. O signo verbal, a seu ver, será sempre o instrumento mais forte de comunicação do poético?

R. Tenho na mídia eletrônica um artigo chamado “Poesia e Oralidade”, onde escrevi sobre a importância do verso pronunciado sem desmerecer a poesia escrita. O signo verbal tanto pode ser oral como escrito, mas é no tom declamatório que o poema está realmente “vivo”. Creio que a magia da poesia está na sua oralidade, mas essa estesia  foi se perdendo com a indigesta presença da modernidade,  que amordaçou o lirismo. Felizmente os grandes festivais de poesia têm mantido acesa esta chama.

  1. O poeta pode ser o rapsodo reinventando o mundo pelas linguagens?

R. Isso tem muito a ver com uma parte de minha vida, quando eu era um bardo errante ao longo dos caminhos da América. Naqueles anos ‘o mundo tinha o tamanho dos nossos sonhos’ e tudo estava sendo reinventado com tantas formas de linguagens. A poesia buscava a sua verdade na história e tinha plena cidadania no coração dos jovens. Hoje, nós, os poetas, somos seres desgarrados. E, contudo,  a poesia segue impassível seu caminho,  sublimada em sua própria transcendência. É ela que liberta a palavra nessa angustiante crise da expressão humana. Sempre foi e segue sendo uma operação mágica. Uma alquimia em busca do nobre metal do encanto.

  1. Conte-nos um pouco da sua trajetória poética e de vida.

Minha real trajetória poética aconteceu fora do Brasil. Deixei o país em março de 1969 e meu primeiro livro, Poemas para la libertad,  foi publicado no ano seguinteem La Paz, com varias edições posteriores no Continente. Nessa época minha vida e minha poesia eram indissociáveis. Foram 16 países percorridos, denunciando a opressão, dando nome aos tiranos, declamando a liberdade e pronunciando a esperança. Fugas, prisões e expulsões marcaram minha vida com a sublime cumplicidade de meus versos. Escrevo, atualmente, um livro de memórias sobre aos anos que passei na América Latina e é onde espero contar a história libertária da América, colhida nos passos de minha trajetória poética.

  1. Como você vê as novas mídias hoje? Algum palpite sobre o futuro do poema feito com palavras? 
  2. R-Vejo-as com muito interesse porque praticamente só publico na internet e já não leio jornais impressos. Contudo, das mídias tradicionais só não abro mão do rádio.  Também já não faço nenhuma questão que meus poemas ou artigos sejam publicados na imprensa porque o jornal é flor de um dia. Ter um texto publicado na web é uma expectativa permanente de interação com o mundo. Tenho alguns blogs onde publico normalmente e uma revista eletrônica bilíngue onde assino uma coluna trimestral. Além de suas inumeráveis utilidades, creio que a internet é uma agenda diária imprescindível para um intelectual.

Completando a resposta,  não consigo imaginar um futuro em que um poema não seja feito com palavras.

  1. Das suas obras, quais as que mais o projetaram como poeta?

R. Tenho três livros de poesia publicados e co-autoria em outros.  Publiqueidois no exterior e dois no Brasil, sendo um destes uma reedição brasileira de Poemas para la libertad, editado há 40 anos na Bolívia.  Poemas para a liberdade, que somente foi publicado no Brasil em 2009, numa edição bilíngue pela Editora Escrituras, foi o livro que mais dimensão deu a minha poesia. Alguns dos seus poemas foram escritos no Brasil mas, sua maior parte nasceu no exílio e se me projetaram como poeta é porque nasceram na imensa trincheira de luta que foi a América Latina nos anos 70. Começaram sua trajetória em edições e reedições panfletárias no Peru, espalharam-se pelo Continente através de mochileiros de muitas nacionalidades  e foram lidos em teatros, galerias de arte, sindicatos, minas, reuniões públicas e clandestinas, congresso de poetas, festivais de cultura  e para muitos milhares de estudantes das maiores universidades latino-americanas.

  1. Pra finalizar: o público de poesia, a seu ver, melhorou ou piorou nos últimos tempos?

R. Esta é uma pergunta que eu também gostaria de fazer a quem realmente soubesse responder. Creio que a poesia tem a sua linguagem e são tão poucos os que realmente  falam, leem e escrevem esse idioma… Todos sabemos que hoje a poesia é uma nobre mendiga, rogando quem a escute. É muito triste tudo isso para nós, os poetas, que ansiamos partilhar com todos o nosso lirismo e o nosso encantamento. Já disse algures que a poesia é o patinho feio da literatura, desprezada pelas editoras e “escondida” nas livrarias. Creio que são os sinais dos tempos. Vivemos num mundo ética e esteticamente falido e onde a cultura da aparência é a própria expressão da mediocridade. Creio que tudo isso há de passar. Que há de vir um tempo em que a poesia volte a palpitar no coração dos homens, por ser a mais bela expressão de sua alma e porque, pelo seu mistério e seu encanto, a poesia é imperecível.

1. Como foi a repercussão na mídia da sua edição de CANTARES, 2007, editora escrituras?

R. Foi muito boa e a edição está praticamente esgotada. Esse livro marcou, em 2002, meu retorno à poesia depois de 30 anos de total afastamento da literatura. Voltei ao Brasil em meados de 72, numa fase aguda da repressão política, obrigando-me a ficar muitos anos no total anonimato social e literário. Tudo isso me desmotivou a escrever e somente voltei à poesia na primavera de 2002. provocado por um fato meramente circunstancial. Cinco anos depois lancei o livro Cantares, retratando na sua primeira parte a importância que o mar teve em minha infância, um lírico resgate de uma fase extraordinária de minha vida. Voltando à pergunta quero dizer que sua repercussão na mídia foi a melhor possível, seja pela credibilidade dos comentários, entrevistas e resenhas, mas sobretudo porque todos os poemas do livro estão publicados em vários blogues nacionais e alguns internacionais.

 


3 Respostas

  1. Já disse diretamente a ele, muitas vezes; portanto, não estou fazendo crítica negativa: prefiro o Manoel de Andrade lírico, com todo os respeito por sua história de cavaleiro andante de uma cruzada utópica. Sua poesia política é uma flecha que dele sai em busca de alvos racionais e talvez quiméricos. Já seu lirismo é jorro de espírito, de dentro, da pura emoção, de realidade incontestável. Não necessita de expansão metafórica para bradar ideias, apenas deixa brotar a palavra simples para recordar e contar as histórias que os olhos de menino gravaram. Mas também aceito a dualidade, que faz dele, sem dúvida alguma, um grande poeta.

  2. Bom para a literatura, otimo para a poesia a volta de Manoel de Andrade.
    Sua entrevista mostra o quanto o mundo literario ganhou. Poeta moderno que escreve sobre a atualidade sem entretanto esquecer suas raizes. Parabens.

  3. A poesia revolucionaria de Manoel de Andrade é um retrato comovente de uma fase historica do nosso continente, e readquire destaque no atual contexto de reabertura de arquivos ditatoriais, contribuindo para que a historia dos paises latinoamericanos seja reescrita. Nesse contexto, aguardamos ansiosamente a publicaçao das suas “Memorias” para ler seus relatos dessa época, dessa vez em forma de prosa.

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