Arquivos Diários: 15 dezembro, 2011

“PRIVATARIA TUCANA” esgota-se em 4 dias, é o best seller de 2011/12. Veja a entrevista de AMAURY RIBEIRO JR

o jornalista AMAURY RIBEIRO JUNIOR concede entrevista ao jornalista PAULO HENRIQUE AMORIM, veja:

UM clique no centro do vídeo:

A LEITURA NÃO É UM HÁBITO – por jorge lescano / são paulo


 

 

Hábito, subs. Masc: disposição duradoura adquirida

pela repetição freqüente de um ato; uso; costume.

Novo Dicionário Aurélio.

 

Eu sou afeiçoado a ler até os papéis rasgados das ruas

Miguel de Cervantes: Don Quixote

 

Hábito é enfiar o dedo no nariz,

a leitura é um trabalho intelectual.

Livro das cinzas e do vento

Sem pretensões de escrever uma tese acadêmica, uma vez que estas estão viciadas pelas normas do discurso universitário, das quais afortunadamente estou livre, gostaria de expor a minha visão do ato da leitura.

Atualmente conto mais de meio século de leituras anárquicas, isto é, livres de qualquer controle e direção a não ser o meu interesse e o meu gosto. Assim que fui alfabetizado descobri a leitura e o livro que se tornaram meus companheiros pela vida afora. Se a escrita-leitura está condicionada pelo entorno social, não se pode negar que também o indivíduo leitor, com todas as suas particularidades, físicas inclusive, faz parte do processo que denominamos leitura e que vai muito além da decodificação de signos gráficos.

Através do texto dois sujeitos se defrontam. O autor, que também é um leitor, e o leitor-autor de novos e imprevistos significados. Duvido que exista leitura errada, no máximo poderá haver leitura deficiente, leitura que não atinge todo o conteúdo do texto.

Ler é como andar, como falar. Quando a criança começa a falar e não consegue pronunciar como os adultos, se diz que fala errado. Grande injustiça! Quando anda feito um palmípede porque o tamanho do pé não permite a flexão e ainda estende os braços como asas para manter o equilíbrio, ninguém diz que anda errado. Todos reconhecem que anda segundo as suas possibilidades e até festejam cada nova conquista de terreno.

O meu campo de experimentação, por assim dizer, é o texto ficcional. A arte é de um modo geral um campo de experimentação. Nela podemos vivenciar idéias sentimentos e sensações de forma explícita sem correr qualquer risco. Interpretar “mal” uma situação ou um personagem literário não põe em risco a vida de ninguém, já ler deficientemente uma fórmula de química pode fazer a casa voar. A releitura do bom texto literário sempre acrescerá novas informações, interpretações e sentidos.

Confunde-se muitas vezes a quantidade com a qualidade. Um bom leitor é, para a maioria das pessoas, alguém que lê muito (?), que possui vasta biblioteca, real ou virtual em tempos de internet. Creio que um grande leitor pode ser o leitor de um único livro durante toda a vida. Alguns exemplos literários podem ilustrar esta idéia.

No romance L’Étranger, de Albert Camus, traduzido como O estrangeiro (deveria se chamar O estranho: a obra trata do estranhamento do protagonista em relação a si mesmo e não há qualquer estrangeiro na história, mas isto é tema para outra nota), Meusrault, seu protagonista, preso por haver matado um homem, encontra na cela uma folha de jornal na qual se narra a morte de um homem por sua mãe e irmã. Devo ter lido esta história milhares de vezes, diz. O caso o leva a refletir profundamente sobre a falta de sentido da vida e chega à conclusão de que bastaria viver um dia para ocupar o resto da vida com as lembranças. O próprio Camus deve ter pensado muito nisso, a notícia deu origem a sua peça dramática O mal entendido. Se Meusrault tivesse mais material de leitura talvez se distraísse e o seu pensamento poderia vagar sem rumo; nunca saberemos, a obra não nos dá qualquer pista a respeito.

Yannes, garimpeiro grego na Amazônia venezuelana, carrega como único pertence um exemplar da Odisséia, este é suficiente para preencher suas necessidades intelectuais. Isto acontece em Os passos perdidos, romance do cubano Alejo Carpentier. O autor não dá informações sobre o resultado dessas leituras e garante que o personagem é real. Real também é o fato mencionado por Camus.

Pierre Menard, autor do Quixote, de Jorge Luis Borges, é obra exemplar sobre a leitura. O personagem, leitor de Cervantes e poeta simbolista, decide escrever (não reescrever) o Don Quixote. Não queria compor outro Quixote – o que é fácil – mas o Quixote. Borges ilustra a idéia de que o leitor pode (talvez deva) ser o verdadeiro autor da obra. A leitura, diz, é um trabalho mais demorado, mais intelectual que a escrita.

Costumo dividir a leitura em três estágios básicos: o informativo, no qual o texto revela seu conteúdo imediato, seu significado semântico; o estrutural ou crítico, onde o leitor lê o corpo do texto, não apenas o nível gramatical ou sintático, mas onde reconhece outros elementos, tais como a ação, tempo, lugar e personagem, elementos básicos de qualquer narração e sem os quais nada pode ser narrado; finalmente o nível criativo, aqui o leitor mudou a sua natureza, ele é co-autor do texto. Ler é recriar o texto. É lugar comum dizer que um livro sem leitura é letra morta. Nada mais verdadeiro. Cada leitor recria o texto com suas próprias experiências, projeta sobre a obra o seu repertório único, intransferível, neste sentido ele já está escrevendo, já é um escritor. Pierre Menard é o paradigma deste estágio.

Mais de uma vez vi andarilhos parando para ler uma folha de papel jogada na rua. (Não devia haver muitas na época de Cervantes.) O caso é intrigante: o que procura esse leitor? Creio que não seja informação. Provavelmente não se importou em verificar a data de publicação. Penso que está exercendo o famigerado hábito da leitura preconizado por editores, críticos, professores, livreiros, jornalistas, curadores de feiras de livros e eventos afins e até escritores. Sim, uma vez superado o estágio de leitura com os lábios, surge o hábito de leitura, isto é, um reconhecimento compulsório do texto. Nos grandes centros urbanos é fácil verificar que lemos de forma impensada, contínua, quando andamos pela rua. Todo texto é reconhecido automaticamente, sem crítica e dificilmente fica registrado na memória. Isto é um hábito, será uma leitura?

Incentivar o hábito da leitura não será reforçar o hábito de consumo, substituir a qualidade pela quantidade? Se assim for, pode-se dizer que o hábito da leitura é bom para os negócios.

Estas são observações avulsas de um autodidata sem qualquer repertório epistemológico, como o leitor atento pode perceber, mas que não se considera vítima do hábito da leitura.

Dor em salva – de omar de la roca / são paulo

 

 

A líquida curva cristalina,

o céu azul de mar ascenso

presenciam tudo.O encontro,a ameaça.

A neblina na alma, pé no chão descalço.

O mar profundo e o céu profundo se encontram

dentro de mim e me esvaziam de toda possibilidade.

A impossível possibilidade,

a impassível  passividade.

Pedras cortando, fio de prata zunindo.

O esquecimento da euforia ,

a despedida das lembranças.

A impotência de nada fazer.

Nada poder fazer senão aceitar.

Aceitar tudo.Esperar tudo.

A esperança, a espuma que volta,

o som das ondas que cessa,

Aceitar a água alta que bate forte por dentro.

Cumprir o ritual, linha a linha,

sem retorno.

Ainda a esperança que aos poucos se esvai.

A areia fofa,as pedras,a onda quebrando a pedra,

A tempestade que dilui todo o cinza em mais cinza

A névoa que encobre tudo e tudo revela

Mãos que trazem conchas, algas,veneno e cura.

A dor em salva.

fitas coloridas, roupas brancas,

a dor que nada poupa.

Segredos,religião única ,

o ar que falta.

Ardor que a nada salva.

A luz do farol que nada ilumina.

Múltiplos credos, sabores, cores vibrantes, Bonfim,

fontes e fortes.

Nada mais importa.Tudo importa .Tudo passa.

Mas tudo fica,que a imaginação não para.

A imaginação segue seu caminho.

Sem rumos, sem freios e sem fronteiras.

Ad infinitum.

Querendo voltar ao abismo solar, amarelo,límpido.

Querendo voltar no tempo, impossível tempo,

que a tudo vê,sempiterno.Sempre vivo.

Mas que inexiste quando os segundos congelam.

 

Regina Braga: “Somos todos bissexuais”


Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella e mãe de Gabriel Braga Nunes, atriz conta que “se envolve com mulheres todos os dias”

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro 28/07/2011 11:40


O que para alguns é polêmica, para Regina Braga é assunto corriqueiro. Não só porque ela está em cartaz há dois meses em São Paulo com uma peça que aborda a vida da poetisa americana Elizabeth Bishop, lésbica assumida. Para a atriz, a opção sexual não é tabu. “Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, somos bissexuais. Eu sou bissexual, qual é o problema?”, afirma ela.

Casada há trinta anos com o médico Dráuzio Varella, ela não vê problema algum em lidar com isso. “Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”, diz, categórica.

A atriz está em cartaz em São Paulo com a peça “Um porto para Elizabeth Bishop”, sobre a estadia da poetisa americana por longos quinze anos no Brasil. Mesmo texto que ela apresentou, com igual sucesso, dez anos atrás. Em novembro, estréia no Solar de Botafogo, no Rio. Em breve volta à TV (sua última participação foi em “Tititi”), como uma fazendeira viúva na série “As Brasileiras”, na qual viverá um romance contra a aceitação da filha, interpretada pela Sandy Lima.

Em conversa exclusiva com o iG, Regina também comentou que não assiste às maldades do seu filho,Gabriel Braga Nunes, em “Insensato Coração”. “Me senti mal muitas vezes vendo esta novela”, diz.

iG: Elizabeth Bishop, ao chegar ao Brasil, tem uma visão meio Carlota Joaquina de tudo que vê. Como ela muda de ideia e se apaixona pelo País?
Regina Braga:
 Carlota Joaquina dos nossos tempos (risos)! Ela chega no porto de Santos, em dezembro, e acha tudo horrível. Tem um poema no qual ela descreve aqueles morros todos. Come um caju em Petrópolis e fica doente, pega uma alergia, e se interna no Rio. Fica apavorada, acha tudo corrupto, desorganizado, feio, provisório… Mas aí ela sente nosso calor humano, começa a tomar banhos de cachoeira, e aí se tornou uma poeta muito melhor.


“Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não”

iG: Qual é o grau de importância, a seu ver, de Elizabeth na poesia americana? 
Regina Braga: Só os mais intelectuais a conheciam. Mas ultimamente teve milhares de livros sendo lançados pelo mundo, tudo sobre ela… Teve um americano que esteve na Flip, o Michael Sledge, Ele lançou “A arte de perder”, baseado na vida e obra dela. Elizabeth foi amiga pessoal de Vinicius de Moraes e Manoel Bandeira. Adorava Drummond, conhecia João Cabral de Melo Neto. Ela era poeta revolucionária nos Estados Unidos.

“Se quisesse viver com uma mulher, poderia”

iG: E como é sua ligação com a poesia?
Regina Braga:
 Elizabeth me aproximou mais desse universo. Gosto dessa estranheza que ela tinha ao descrever o que via. “Eis uma costa/ Eis um porto…”. Ela te pega pela mão e começa a mostrar o que está vendo.

iG: O público expressa alguma reação negativa pelo fato de a personagem da peça ser lésbica?
Regina Braga: 
Há dez anos trás, era muito pior, sabia? As pessoas vinham me perguntar: ‘como é que você faz para fazer uma gay?”. Gente, como se isso fosse de um universo tão distante! Eu falava ‘mas que isso. Você está falando do quê?’. Como se fosse um ser diferente, sabe? Eu sinto que, pela reação de vários casais, a maioria sendo casais de mulheres, que vinham me procurar depois da apresentação, dizendo ‘muito obrigada pelo respeito que você está lidando com este tema’. Respeito? Então quer dizer que as pessoas não estavam acostumadas a serem tratadas com respeito.

iG: Você ainda sente a sociedade careta em relação a este assunto?
Regina Braga:
 Tem nichos caretas. Mas quanto mais se discutir, melhor.

iG: Onde o público lida melhor com esta temática: na TV ou no teatro?
Regina Braga:
 Tem que ser falado em geral. Tem que ser levado a sério. Tinha uma época que só aparecia gay no Brasil para fazer piada sexual, totalmente caricatura, um deboche. Para fazer rir os imbecis. Piada de sexo é para imbecil.


“Eu vivo com ele (Dráuzio). Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também”

iG: Como quebrar este tabu? 
Regina Braga: Quebrar? Este termo dá ideia de bater e quebrar, no sentido de ser uma coisa agressiva. Talvez não seja quebrando, mas abrindo para conversas. Quanto mais informação as pessoas tiverem, mais educação e pensamentos ela terá para contrapor a realidade e rever a história.

iG: O que te leva a declarar a sua opção sexual?
Regina Braga: 
Sinceridade. Eu acho que nós somos, o ser humano em geral, bissexual. Eu sou bissexual, qual é o problema? Depende das circunstâncias, a gente pode ser expressamente gay ou não. Mas que todo mundo tem isso dentro da gente, ah, isso tem.

iG: Como você se deu conta disso?
Regina Braga:
 Temos que falar mais abertamente dessas coisas, tem que se tornar mais público. Não pode ficar só nestas coisas rasas. Achei importante ser sincera. Sinto isso em geral nas pessoas, tem que se desenvolver mais isso. Todo mundo é bissexual. E pode ficar homo ou não. Isso é secundário.

iG: Como sua bissexualidade aflora? Já se envolveu com mulheres?
Regina Braga:
 Eu me envolvo todos os dias. Todos os dias tenho várias paixões na minha vida. Tenho muitas amigas íntimas. Tenho esta sensação de que posso escolher o que eu quiser. Se eu quisesse viver com uma mulher eu poderia.

iG: O que o Dráuzio acha disso?
Regina Braga: 
Ele sabia desde sempre… Eu vivo com ele. Eu não escolhi viver com uma das minhas amigas. E ele está feliz com isso. E eu também.

iG: Você sofreu preconceito em algum momento da vida, por pensar e falar disso abertamente?
Regina Braga:
 Para falar a verdade, não (pausa). Ao contrário, sinto que as pessoas estão ávidas por quererem se ampliar. É claro que eu devo frequentar ambientes bem mais abertos que muita gente. De forma geral, em relação a esta questão gay, tão enraizada na humanidade, quando converso com as pessoas sobre isso, elas percebem como é normal. Mas tem casos lamentáveis, sempre.


“Me senti mal muitas vezes vendo Gabriel em ‘Insensato Coração’”

iG: Como quais, por exemplo? 
Regina Braga: Como aquele em que pai e filho foram confundidos com casal homossexual e foram agredidos. Isso é grupo terrorista!

iG: Você está com 62 anos. Sua relação com o sexo mudou depois dos 60?
Regina Braga:
 Sexo na terceira idade? (risos) Olha, aqui em casa está sendo possível (risos). É normal quando as pessoas estão em boa saúde. O sexo fica com elas até o fim.

A atriz diz que não gosta de assistir ao sofrimento do personagem do filho na novela

iG: Há quanto tempo está casada?
Regina Braga:
 Há trinta anos. Muito tempo, né? É bom, bom mesmo! Meu segundo casamento. No primeiro, fiquei dez anos casada com o pai do Gabriel e da Nina, que é fisioterapeuta. Ela tem duas crianças pequenas. Gabriel é um ano mais velho que ela.

iG: Tem acompanhado as cenas do Gabriel em “Insensato Coração”?
Regina Braga:
 Me senti mal muitas vezes vendo esta novela. Quando ele está por cima, costumo assistir melhor. Aquele jeito psicopata de ser é interessante. Mas agora, que ele tem sofrido, não gosto de ver, não. Logo no começo da novela tinha um acidente de moto, fiquei com as imagens na cabeça. É o meu filho, é a cara dele ali. Evito ver.

iG: Já teve pesadelo com o Léo (personagem do Gabriel)?
Regina Braga: 
Pesadelo ainda não. Mas olha só, Dráuzio uma vez viu alguém apontando o revólver na cabeça dele, numa dessas cenas da novela. De noite, ele não conseguiu dormir. Só pensando no Gabriel com o revólver mirado na cabeça. A gente fica com estas imagens, isso não é bom. Me incomoda muito este tipo de cena.