Arquivos Diários: 16 dezembro, 2011

AS MULHERES AO REDOR – por olsen jr / ilha de santa catarina.sc

Estou na cama. As dores provocadas por uma crise de gota não se justificam, uma vez que sequer estou bebendo, mas o médico me irá esclarecer. O que importa agora é a constatação de que os meus atos passaram a ser pautados pela presença invisível de várias mulheres…

Batem à porta. Vou manquitolando atender pensando que o médico chegou cedo. Para surpresa minha, recebo a visita do jornalista, Valdir Alves. Chega com duas garrafas de vinho. Um dos meus poucos amigos, o Valdir “é da casa” como se diz, explico a situação e volto para o quarto. Ele aparece em seguida, puxa uma cadeira e senta-se ao lado da cama. Vai bebendo o seu “Cassillero Del Diablo” enquanto relato o que me atormentava antes dele chegar: as mulheres!

Ele escuta com um sorriso malicioso e certo brilho no olhar, percebo que está interessado e exponho o tal assédio. “Veja o caso da Dolores, por exemplo, vem aqui em casa, é metódica, fica ali no pé da cama, à minha direita, quase imperceptível, preciso me esforçar por dar por ela; depois tem as gêmeas, Janice e Janete, são tímidas, me lembra a minha infância, quando chegavam pessoas estranhas, a gente corria para se esconder, pois bem, elas ficam ali atrás daquela porta de vidro, espiam, fazem algum ruído e crêem que me divirto com isso, não digo que não, mas é curioso; tem a Gioconda, mais pretensiosa, metida a intelectual, ela prefere aquele nicho entre o balcão e a escrivaninha, já a surpreendi bisbilhotando os meus escritos, faço que não sei, mas sei. Não gosto quando vem acompanhada das três filhas, que já apelidei de Lalá, Lelé e Lili, uma alusão às sobrinhas do Pato Donald, porque são enxeridas, ficam bulindo os tabuleiros de xadrez, aquele de vidro (que ganhei do Horácio Braun) e aquele artesanal (presente do artista Telomar Florêncio), preciso intervir, quando então “as queridinhas” se contentam em pular em cima do tapete aqui em frente da minha cama…”

O Valdir continua sorrindo e esperando para ver onde aquela conversa iria dar. Como não diz nada, continuo: “Aí vem a Domitila, caseira, prefere ficar lá na cozinha, não sai da frente do fogão, tudo bem se gosta disso, penso; mas a mais terrível é a Claudia Castañeda, não precisa rir, porque parece que ela está sempre “chapada”, demorei em entender que aquele era o “seu jeito”, e com todo o respeito, há muito deixei de pretender reformar o mundo, mas o “duro” são as amigas, a trupe quando resolve reunir-se em frente da televisão. Abstraindo a Dulcinéia que prefere a permanência ao lado da escultura do Dom Quixote na sala, as outras tartamudeiam todas ao mesmo tempo sem o menor decoro; a Angélica prefere o espaldar do sofá, esbaforida e barulhenta, a Genoveva, aristocrática só no nome, foi reprimida em outros tempos, mas ali se esbalda e parece que se multiplica; A Christininha, uma incógnita porque a chamo no diminutivo, parece três e açambarcar toda a mesa de centro quando resolve se manifestar. Quer saber? Parece um bando de peruas planejando um assalto…”

Nesse ínterim, a chuva recrudesce, ouvimos um estalo seco ao lado da cama. O Valdir indaga: “o que foi isso?”. Digo que é apenas o espraiar guloso de uma gota de água estatelando-se num pote de sorvete que ele não pode ver e concluo: “esta é a Dolores, de quem já falei, e que acaba de chegar”.

Ele começa a rir… Digo que todas as goteiras aqui em casa têm nome de mulheres…

Está rindo é? A coisa é séria. Dia desses uma amiga esteve aqui com o filho, e quando soube disso, pediu para ser homenageada. Pensei na goteira na sala que cai em cima de uma cadeira de couro e faz um som diferente. Disse a ela e que seria a primeira batizada com o nome de alguém conhecida: Georgia! Que bom afirma, assim você pode pensar em mim, lembrei do Ray Charles,e tasquei, claro, sempre: “Georgia on my Mind”!

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NOTAS:

A canção é essa, “Georgia on my Mind”,

Música de Hoagy Carmichael com letra de Gorvel Stuart (1930) que escreveu-a para a irmão de Hoagy, chamada Georgia Carmichael…

A letra, no entanto, foi suficientemente ambígua para se reportar tanto ao Estado da Georgia (USA) como a mulher chamada Georgia, que foi a homenageada pelo compositor…

Ray Charles a gravou em 1960.

A canção também foi reverenciada pelos Beatles em “Back in the USSR”, com o verso “A Georgia está sempre em nossa mente”, alusão ao RSS, da Georgia (Georgia Soviética)…

Muitos intérpretes gravaram a música, Billy Holiday, Aretha Franklin, Willie Nelson…

A minha versão favorita é a de um grupo sul-africano que fez muito sucesso na década de 1970, chamado “The Square Set”, gravou “Georgia on my Mind” em ritmo de rock… Eles também ganharam notoriedade pela canção “That’s what I want”… Infelizmente, por razões que desconheço, não consigo encontrar a dita cuja no Google… Tenho o compacto simples aqui comigo, uma preciosidade, mas é outra história…

Fica a versão do soul man, Ray Charles, clássica, se vocês me entendem…

http://www.youtube.com/watch?v=_3clBZqaA54&feature=related

 

OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Cultura: do pensamento para o entretenimento – por almandrade / salvador.ba

Nada mais desprezível e repetitivo do que certas falas sobre cultura que jorram nos congressos, seminários, na mídia, hoje em dia. A impressão é que houve uma perda da capacidade de produzir pensamento e a ausência de platéias seduzidas pela reflexão. Não se interroga a produção simbólica, faz-se reivindicações, relatos, comentários para animar um auditório acostumado ao olhar da televisão. Se algum dia na história, o filósofo, o intelectual, o crítico, o artista, o poeta ocupavam o lugar privilegiado de formar opinião, hoje, esse lugar é ocupado pelo produtor, o empresário cultural, o profissional de marketing. E a cultura é vista apenas como um agente de estímulo da economia de uma sociedade em declínio.

 

O discurso fica na superficialidade. Que a cultura é um bem de consumo, ninguém duvida, gera emprego, garante retornos significativos para a economia de uma cidade. Mas os profissionais do marketing, os políticos e os empresários ignoram na cultura a sua lógica: a do sentido, que ela é uma dimensão da existência do homem. “O que chamamos ‘cultura’, portanto é a ciência e a consciência com que o homem ocupa o espaço e o tempo de sua morada histórica. E o homem culto é aquele que cultiva essa ciência e essa consciência.” (Gerardo Mello Mourão). A cultura é um conjunto de práticas por onde transitam uma autonomia, a experiência de uma saber e uma política específica. O patrocínio, que substituiu o antigo mecenato, reduziu os problemas da cultura às leis da economia e o poder do patrocinador acabou decidindo sobre padrões estéticos ou linguagens. Há uma valorização arbitrária de um produto cultural em detrimento de outro e a divulgação fica submetida a um jogo de poder de quem manipula direta ou indiretamente com os mídias e o mercado.

 

Somente com talento e invenção é difícil competir no mercado. Os profissionais que ganharam celebridade através do marketing cultural animam o espetáculo que faz da cultura um supermercado de entretenimentos. “Nos meios de comunicação, a confusão que se estabelece entre o princípio tradicional de celebridade baseado nas obras, e o princípio midiático baseado na visibilidade da mídia é cada vez maior.” (Pierre Bourdieu). A cultura passa a ser apenas o que ela representa no campo da economia e da diversão. Enquanto se discute as leis de incentivo à cultura, não se discute a idéia de cultura e as instituições culturais não cumprem o papel de difundir um princípio de cidadania cultural. Uma política cultural indecisa, calcada em princípios pouco profissionais que desprezam ou desconhecem o fazer e suas materialidades específicas. E sem trabalhos, sem críticas, sem um suporte que sustente a formação e a divulgação da informação não vamos construir nenhuma credibilidade cultural. “A arte age e continuará a agir sobre nós enquanto houver obras de arte” (Merleau-Ponty). E não discursos sobre as obras.

 

Uma cidade, um Estado, um País passam a ter uma existência cultural e conquistam um reconhecimento no futuro quando aprendem a respeitar seus artistas e intelectuais, quando aprendem a conviver e garantir as disparidades culturais. Entendemos que as instituições culturais como fundações, universidades, museus etc. têm um papel importante a cumprir na produção e divulgação da informação dos produtos artísticos acima de compromissos pessoais e políticos que ignoram a natureza das linguagens artísticas. “No curso de grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de existir e perceber” (Walter Benjamin). A produção cultural participa dessas mudanças com a tarefa de transformar a realidade dentro de um território determinado da sociedade e do pensar onde a cultura age.

 

 

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

ETTA JAMES interpreta seu sucesso AT LAST

UM clique no centro do vídeo: