DA UTOPIA E DO CRIME – por jorge lescano / são paulo


 

Para Urda Klueger

 

Não há nada de quixotesco nem romântico em querer mudar o mundo.

É possível. É o ofício ao qual a humanidade se dedicou desde sempre.

 Não concebo melhor vida que uma dedicada à efervescência, às ilusões,

à teimosia que nega a inevitabilidade do caos e à esperança.

Gioconda Belli

Em termos gerais concordo com o pensamento da escritora nicaragüense, de quem conheço apenas esta frase, remetida por uma companheira de utopia. O que me motivou a escrever a nota são os conceitos quixotesco e romântico, citados por ela como pejorativos, ao gosto da mentalidade liberal burguesa.

Nada mais humano que o homicídio premeditado, o matricídio, o parricídio, o fratricídio, o latrocínio e a tortura. Nenhuma outra espécie comete estes crimes em sã consciência, eles são atributos exclusivamente humanos. O que um homem fez, a espécie faz. Nenhum indivíduo pode se declarar isento das características da manada humana. Nada mais humano, também, que o anseio de conhecimento, de liberdade, de justiça, de felicidade.

A sombra de Hitler nunca ofuscará a luminosidade de Mozart, a inquietante clarividência de Kafka. A prepotência de Mussolini não apagou a alegria de Vivaldi. Os crimes de Stalin só ressaltam a verdade da obra de Dostoievski que denuncia o absurdo da violência dos homens. O obscurantismo de Franco nunca empanou a lucidez de Cervantes. A desfaçatez de Obama que pretende justificar guerras injustificáveis, não perturba o reconhecimento das românticas viagens de Poe à região nebulosa da mente, não pode ocultar a melancolia dos quadros de Hopper nem o bom humor da música de Cage. É óbvio que tais nomes não esgotam o elenco de protagonistas da eterna luta entre a luz e as trevas. Eles perambulam anônimos ao nosso redor.

Toda revolução é romântica porque pretende mudar o mundo, realizar a utopia.

É revolucionário – não importa qual seja o teor da atividade nem o volume de sua tarefa – todo aquele que sonha com a justiça plena, isto é: os mesmos direitos para todas as diferenças. Muda-se o mundo menos pela gestão política que pela consciência individual que obrigará o político a obedecer.

Descreio de instituições cuja única função é disputar cargos públicos. A diferença entre um partido político e o movimento político é que aquele concorre ao governo do Estado (entidade semidivina na atualidade) e este educa, forma as pessoas para a autogestão. Em geral é trabalho realizado individualmente porque o poder político sempre acaba institucionalizando (entenda-se encampando, neutralizando e manipulando) os frutos da tarefa coletiva.

Se não podemos mudar de mundo, mudar o mundo é a única alternativa, única utopia válida. Deve-se pretender o máximo para conseguir o mínimo. Assim funciona a sociedade humana.

O Quixote era uma sátira na época de Cervantes, tornou-se paradigma moral e moralista por algum tempo, volta a ser exemplo de estupidez, de ingenuidade e loucura (?) nos tempos que correm porque não produz lucros monetários, valor máximo da comunidade ocidental e cristã.

A arte, por revolucionária que seja, não muda o mundo, apenas ilustra a doutrina de que a pensamento não deve ficar preso a preceitos estabelecidos pela “autoridade”. Isto é válido em todos os ramos, para todas as categorias. O conhecimento científico também caminha assim, desrespeitando a autoridade estabelecida pelo poder político das academias. O pensamento deve ser campo aberto para o cultivo. Somente os dogmas afirmam possuir verdades imutáveis.

Reivindico para mim os motes de romântico e quixotesco pelo que eles têm de inconformismo, e não é preciso que ninguém aprove ou adira à minha escolha. Tenho o mau costume de ver a realidade pelo avesso. Não fosse assim e teria me dedicado a vender apólices de seguros de vida e estaria em paz com os deuses (todos eles!) e com o mundo.

Atribuem-me a (má?) fama de iconoclasta. Não sei se isto é verdadeiro, sei sim que nunca pactuei com o culto à personalidade de nenhum ídolo, que sempre acaba servindo ou criando seitas, clubes, partidos apenas diferentes nas cores e tamanhos. Isto não impede que reconheça o valor de pessoas e obras sem que, necessariamente, deva render-lhes culto.

Em meus rascunhos abundam nomes de artistas. Suas obras, de diversos modos, moldaram a minha escrita. Também Natividad Cardozo, minha mãe e lavadeira analfabeta, colaborou com ela; e se não deixou frase memorável para ser citada formou o homem que sou hoje, com todos meus defeitos.

Talvez o sentido da vida de cada um seja procurar a perfeição (?), esta a utopia individual. Nisto acreditam diversas seitas de todas as latitudes. Eu me reservo o direito à dúvida.

7 Respostas

  1. Ora… tenho certeza de que sim, também porque esse diálogo está se tornando pitoresco… pra não dizer um pouquinho bizarro, afinal, quantos se mostrariam tão arredios diante do que eu chamo “exposição de simples verdade” e você denomina “exageros”. Haja modéstia. Você tem todo direito a ela, mas, cuidado para não se transformar no “campeão mundial da modéstia”. Lembra dessa brincadeira?

  2. Ora, ora, ora, não é bem assim. Pode elogiar, afinal se os amigos não elogiam quem será por nós? Repito: pode elogiar, porém, sem exagerar. Quando a esmola é demais… Certo? Relendo achei que este dueto ficou bem. Será que mais alguém leu?

  3. Está bem, não elogio mais, prometo.

  4. Senhoras e senhores, respeitável público! Para acabar com este pingue-pongue amistoso, admito: sou um gênio de fim de semana. Prova disto é o slogan que acabo de criar para um baraticida: ELE CHEGA E MATA ONDE O SAPATO NÃO ALCANÇA!

  5. Não se iludam os leitores que venham a ler meu comentário e a resposta de Jorge Lescano ao meu comentário sobre e a partir do seu presente texto. Os pais nem sempre estão cegos quando atestam da beleza de seus pimpolhos, assim como os amigos muitas vezes têm razão quando vêm falar da virtude de seus amigos, como neste caso em que, certamente, eu tenho mais razão ao falar de suas virtudes do que ele ao minimizar, de modo eloquente, essas mesmas virtudes. De todo modo, é natural tal escrita, muito de acordo com os hábitos de contenção e de comedimento que sempre costumam pautar a conduta do autor de DA UTOPIA E DO CRIME.
    Zuleika dos Reis.

  6. Pode acontecer que a amizade cometa excessos. É o caso de Zuleika. Que o seu comentário não induza o virtual leitor de minha nota a descartá-la por considerá-la sobrevalorizada. Seja ele indulgente. Creio que o entusiasmo dela foi provocado pelo reconhecimento de temas do seu interesse em letra de forma. Virtude e perigo de toda publicação.
    Às vezes se torna inadmissível aceitar em público o que em privado pode ser indiferente. Falta-me ler muito Montaigne para me considerar um cronista sequer mediano.
    Escriba de pouca imaginação e escasso domínio da linguagem, fiz da cita menos alarde de erudição que ferramenta de trabalho, motor da usina de idéias que deve ser a escrita. Ficaria satisfeito se os meus textos funcionassem como uma pequena oficina de fundo de quintal.
    Agradeço aos amigos o fornecimento de assuntos. Como alguém já pode ter deduzido, terei que escrever algo SOBRE OS ELOGIOS E AS CITAÇÕES.
    Au revoire!

  7. Tocante texto-depoimento cuja leitura nos permite “ver” a integridade dos valores,da postura existencial de um homem romântico e quixotesco no mais autêntico e original sentido de tais palavras; texto-depoimento de um homem que não se dobra a aliciamentos do mundo, que a despeito de revezes e de desencantamentos, permanece sempre fiel a seus princípios. Texto-retrato de um grande poeta e de um grande mestre, este presente texto de Jorge Lescano.
    Zuleika dos Reis

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