O TEMPO (RE)VISITADO – por olsen jr / ilha de santa catarina

Já tentei livrar-me disso em outros tempos. Esta atitude de (re)visitar lugares, de repetir gestos e atitudes na expectativa de ( quem sabe) recapturar  uma emoção no antigo sítio  onde ela foi gerada… Só que muito tempo depois quando já está sublimada, quase esquecida. É algo involuntário, quando dou por mim já estou ali, fazendo de conta que é pela primeira vez esperando que tudo se repita.

Esta sensação vale para um restaurante, para uma cidade, uma rua, enfim, quando percebo que já estive no lugar em outros tempos e isso me traz recordações, pronto, já caí na armadilha. Palavra de escoteiro, muitas vezes não faço nada para provocar aquela catarse, mas por outro lado também não faço nada para evitá-la.

Assim, sem me dar conta, estou parando o carro em frente de um restaurante ao pé da serra “Dona Francisca”. Passa um pouco do meio-dia. Poderia ter almoçado antes, poderia ter seguido viagem, mas estaciono ali, precisamente.

Faz algum tempo que não apareço, entro e ouço a música “Yesterday”, dos Beatles, antes mesmo de cumprimentar a recepcionista e os outros atentendentes. Depois de lavar as mãos, quando saio do banheiro está tocando “Bridge Over Trouble Water”, com  Simon & Garfunkel. Mais tarde, já à mesa, percebo “I Can´t Stop Lovin´You” na voz do Ray Charles… Uma sensação agradável. Comento com a senhora no balcão, digo que pareço estar ouvindo os meus próprios discos. Ela faz uma cara entre alegre e triste e menciona o fato de que aquelas músicas eram de um tempo em que tudo parecia mais romântico, descompromissado e melhor. Finjo concordar porque quero continuar fazendo a “minha” própria viagem sozinho, ela se afasta e deixo os meus olhos vagarem nas paredes ornadas com fotografias antigas, em sépia, molduradas em preto com personagens de outros tempos. De onde estou não posso distinguir os rostos, assim, ponho os meus avós naquelas imagens, os meus pais em outros e eu também me vejo ali fixado na memória daquela parede sendo contemplado por outras pessoas que talvez estejam pensando o mesmo em algum dia do futuro…

Peço algo amargo para beber e não me atrevo a ir ao bufê me servir enquanto aquelas músicas entram em sucessão nostálgica, “Help” (Beatles) sorrio mentalmente pensando que quem precisa de ajuda naquele momento sou eu; “Satisfaction” (Rolling Stones) e sem quebrar o embalo “I´m Believer” (Monkees), quem se dispusesse a visitar os meus pensamentos naquele momento teria a certeza “o cara era um crente” pelo menos a música corroborava com a idéia, rio cinicamente, “The House of the Rising Sun” (Animals), “Whiter Shade of Pale” (Johnny Rivers)  e “Stand by me”  (John Lennon)… O que anoto mentalmente, acrescentando logo “era só o que me faltava pedir para alguém esperar por mim” afinal a minha vida andava tão amarga quando aquele bitter, mas a vida não era função hepática, desta vez tenho que rir pensandoem Ulysses Guimarãesquando usou a mesma expressão referindo-se a política. Falei de “discos” e a mulher lá no balcão concordou, não mencionamos CDs e nem DVDs, era “vinil” mesmo… A nossa geração estava impregnada de memória, estávamos sobrando onde esta “geração mais nova” estava faltando, semelhante aquele poema “Triunfo Supremo” do Cruz e Sousa e que está numa placa lá no Aeroporto Hercílio Luz, em seus últimos versos: “… Quem florestas e mares foi rasgando/ e entre raios, pedradas e metralhas,/ ficou gemendo, mas ficou sonhando!”.

O casal que entra no restaurante acompanhado dos dois filhos traz embalado pelo vento lá de fora, a fragrância do Dolce & Gabbana e todo o ar ali dentro vai desenhando as lembranças dela, na cadeira em frente, na mesa ao lado, nos fundos, mas tenho consciência de que já se passaram muitos anos e antes que sucumba àquele fascínio novamente, num último resquício de consciência, peço a conta. Ninguém entendeu quando saí sem tocar na comida. Lembrei do Kafka, não havia mérito em jejuar uma vez que não encontrara ainda a comida que me satisfizesse… Embora os sentimentos fossem os mesmos, o que mudou (neste tempo todo) foi a maneira de sentir, mas isso só descobri depois, quando este sentir já não pode mudar mais nada!

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NOTAS:

A música é esta “If”, do Bread e diz tudo…

As paixões do poeta continuam as mesmas… Talvez um tanto mais cético, mas receptivo… Sempre acreditando…

A literatura, a música, os amores que nunca se realizam ou a frase celebrizada no livro “Memórias de um Fingidor” … “Os  sonhos irrealizados e os desejos insatisfeitos”…

A família, o trabalho bem feito, os amigos… O compartilhar da boa mesa e das boas bebidas… Uma boa prosa que não tem preço, o idealismo e o sonho que tudo justificam..

Tudo embalado pela ânsia de fazer melhor, de chegar em outro lugar, de vislumbrar novos horizontes em toda a iniciativa para sair do lugar comum… De continuar tentando sempre, embora tudo pareça conspirar contra…

Estamos vivos e isso conta muito… E se  houver aí algum sonho ainda, melhor…

O “Bread” foi um grupo formado em Los Angeles em 1968 e que foi até 1973 e depois fizeram mais um disco de despedida…

Formado pelo  David Gates, Robb Royer (os dois que ainda estão vivos da formação original), Jimmy Griffin e Michael Botts…

Estouraram em 1970 com o single “Make it with you”… Foi primeiro lugar na parada norte-americana da Revista Billboard…

E a banda que era de estúdio viu-se obrigada a cair na estrada fazendo shows pelos Estados Unidos…

Depois vieram outros sucessos, “If”, “Everything I own”, “Baby I want you”. “Guitar man” e “Aubrey”, entre outros…

Conflitos entre egos fez a banda terminar em 1973… Voltaram em 1976 e lançaram um último álbum “Lost without your Love”…

E isso tudo encerra com o velho truísmo: não há bem que dure para sempre e nem mal que nunca termine…

Vai com o carinho do poeta, sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=WBcVebmt1Mk

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2 Respostas

  1. Zuleika, minha cara, enquanto houver sensibilidade haverá esperança… Nisso os poetas acreditam… Grato pela leitura e comentário…

  2. Seu texto de repente espelho-meu, inclusive no que reflete das músicas.

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