Arquivos Diários: 5 janeiro, 2012

O Pensamento de Parmênides – editoria

 

Seu pensamento está exposto num poema filosófico intitulado Sobre a Natureza e sua permanência, dividido em duas partes distintas: uma que trata do caminho da verdade (alétheia) e outra que trata do caminho da opinião (dóxa), ou seja, daquilo onde não há nenhuma certeza. De modo simplificado, a doutrina de Parmênides sustenta o seguinte:

  • Unidade e a imobilidade do Ser;
  • O mundo sensível é uma ilusão;
  • O Ser é Uno, Eterno, Não-Gerado e Imutável.
  • Não se confia no que vê.

Devido a essas , alguns veem no poema de Parmênides o próprio surgimento da ontologia. Ao mesmo tempo, o pensamento de Parmênides é tradicionalmente visto como o oposto ao de Heráclito de Éfeso.

Para alguns estudiosos, Parmênides fundou a metafísica ocidental com sua distinção entre o Ser e o Não-Ser. Enquanto Heráclito ensinava que tudo está em perpétua mutação, Parmênides desenvolvia um pensamento completamente antagônico: “Toda a mutação é ilusória”.

Parmênides vai então afirmar toda a unidade e imobilidade do Ser. Fixando sua investigação na pergunta: “o que é”, ele tenta vislumbrar aquilo que está por detrás das aparências e das transformações.

Assim, ele dizia: “Vamos e dir-te-ei – e tu escutas e levas as minhas palavras. Os únicos caminhos da investigação em que se pode pensar: um, o caminho que é e não pode não ser, é a via da Persuasão, pois acompanha a Verdade; o outro, que não é e é forçoso que não seja, esse digo-te, é um caminho totalmente impensável. Pois não poderás conhecer o que não é, nem declará-lo.”

Numa interpretação mais aprofundada dos fragmentos de Heráclito e Parmênides, podemos achar um mesmo todo para os dois e esta oposição entre suas visões do todo passa a ser cada vez menor.

Parmênides comparava as qualidades umas com as outras e as ordenava em duas classes distintas. Por exemplo, comparou a luz e a escuridão, e para ele essa segunda qualidade nada mais era do que a negação da primeira.

Diferenciava qualidades positivas e negativas e, esforçava-se em encontrar essa oposição fundamental em toda a Natureza. Tomava outros opostos: leve-pesado, ativo-passivo, quente-frio, masculino-feminino, fogo-terra, vida-morte, e aplicava a mesma comparação do modelo luz-escuridão; o que corresponde à luz era a qualidade positiva e o que corresponde à escuridão, a qualidade negativa. O pesado era apenas uma negação do leve. O frio era uma negação do quente. O passivo uma negação ao ativo, o feminino uma negação do masculino e, cada um apenas como negação do outro.

Por fim, nosso mundo dividia-se em duas esferas: aquela das qualidades positivas (luz, quente, ativo, masculino, fogo, vida) e aquela das qualidade negativas (escuridão, frio, passivo, feminino, terra, morte). A esfera negativa era apenas uma negação da esfera positiva, isto é, a esfera negativa não continha as propriedades que existiam na esfera positiva.

Ao invés das expressões “positiva” e “negativa”, Parmênides usa os termos metafísicos de “ser” e “não-ser”. O não-ser era apenas uma negação do ser. Mas ser e não-ser são imutáveis e imóveis. No seu livro: Metafísica, Aristóteles expõe esse pensamento de Parmênides: “Julgando que fora do ser o não-ser é nada, forçosamente admite que só uma coisa é, a saber, o ser, e nenhuma outra… Mas, constrangido a seguir o real, admitindo ao mesmo tempo a unidade formal e a pluralidade sensível, estabelece duas causas e dois princípios: quente e frio, vale dizer, Fogo e Terra. Destes (dois princípios) ele ordena um (o quente) ao ser, o outro ao não-ser.”

O Vir-a-Ser

Quanto às mudanças e transformações físicas, o Vir-a-Ser, que a todo instante vemos ocorrer no mundo, Parmênides as explicava como sendo apenas uma mistura participativa de ser e não-ser. “Ao vir-a-ser é necessário tanto o ser quanto o não-ser. Se eles agem conjuntamente, então resulta um vir-a-ser”.

Um desejo era o fator que impelia os elementos de qualidades opostas a se unirem, e o resultado disso é um vir-a-ser. Quando o desejo está satisfeito, o ódio e o conflito interno impulsionam novamente o ser e o não-ser à separação.

Parmênides chega então à conclusão de que toda mudança é ilusória. Só o que existe realmente é o ser e o não-ser. O vir-a-ser é apenas uma ilusão sensível. Isto quer dizer que todas as percepções de nossos sentidos apenas criam ilusões, nas quais temos a tendência de pensar que o não-ser é, e que o vir-a-ser tem um ser.

O Ser-Absoluto

Toda nossa realidade é imutável, estática, e sua essência está incorporada na individualidade divina do Ser-Absoluto, o qual permeia todo o Universo. Esse Ser é onipresente, já que qualquer descontinuidade em sua presença seria equivalente à existência de seu oposto – o Não-Ser.

Esse Ser não pode ter sido criado por algo pois isso implicaria em admitir a existência de um outro Ser. Do mesmo modo, esse Ser não pode ter sido criado do nada, pois isso implicaria a existência do “Não-Ser”. Portanto, o Ser simplesmente é.

Simplício da Cilícia, em seu livro Física, assim nos explica sobre a natureza desse Ser-Absoluto de Parmênides: “Como poderia ser gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a geração se extingue e a destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é. Mas, imobilizado nos limites de cadeias potentes, é sem princípio ou fim, uma vez que a geração e a destruição foram afastadas, repelidas pela convicção verdadeira. É o mesmo, que permanece no mesmo e em si repousa, ficando assim firme no seu lugar. Pois a forte Necessidade o retém nos liames dos limites que de cada lado o encerra, porque não é lícito ao que é ser ilimitado; pois de nada necessita – se assim não fosse, de tudo careceria. Mas uma vez que tem um limite extremo, está completo de todos os lados; à maneira da massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio a partir do centro, em todas as direções; pois não pode ser algo mais aqui e algo menos ali.”

Ser-Absoluto não pode vir-a-ser. E não podem existir vários “Seres-Absolutos”, pois para separá-los precisaria haver algo que não fosse um Ser. Consequentemente, existe apenas a Unidade eterna.

texto original da wikipédia.

 

O poeta HÉLIO DE FREITAS PUGLIELLI é entrevistado pelo poeta JAIRO PEREIRA / curitiba.pr

  1. “Fúria em silêncio/império do Nada/rua Augusto Stelfeld 824”. (Autoretrato). Este excerto de poema da coletânea inominada de 67, com outros poetas do Paraná, dá mostra da força de sua poesia. O Hélio, é um poeta que nunca quis se mostrar?

Me mostrei até demais.,,inclusive o endereço, que há 20 anos não é mais esse. Muito jovem, entre 1957/60. pintei e bordei na página literária de “O Estado do Paraná” (que infelizmente deixou de circular este ano). Quando dediquei a página inteira a alguém que não sabia ser “persona non grata” do diretor do jornal, ele acabou com minha festa.

2.Seu olhar crítico acompanhou gerações de criadores no Paraná, focando mais na área de literatura. Como você avalia, a atual literatura no Estado?

Antigamente as pessoas escreviam, mas dificilmente publicavam livros. Hoje não é tão difícil publicar e vários escritores que nasceram e/ou vivem aqui conseguiram projeção nacional.

  1. A internet, a seu ver, é matriz determinante na evolução ou involução das linguagens poético-literárias?

Às vezes os meios são neutros, mas muitas vezes afetam o conteúdo. Creio que a internet faz alguns escritores involuírem e outros evoluírem. Tudo depende dos propósitos e da habilidade no uso dos recursos proporcionados pela WEB.

  1. Ainda muito jovem você escreveu um ensaio interessante: “O SER DE PARMÊNIDES CHAMA-SE BRAHMA”. A filosofia te persegue e reflete sempre na sua produção intelectual?

“O Ser…” é um pequeno poema escrito na maturidade, com intenções filosóficas, sim. Até hoje sou grato aos raros amigos que entenderam o texto (três ou quatro escreveram a respeito) e confesso que me desgostou a incompreensão de alguns que não entenderam ou fizeram-se de desentendidos.

  1. O intelectual, ao contrário do criador livre e loucos de todo gênero é o ser que por seu próprio juízo e razão, expõe o bem e o mal do mundo?

Para o meu gosto sim. A maioria do que se faz agora é literatura que não cheira nem fede, feita por criadores que nada têm de loucos e, por isso mesmo, não são portadores da chama (nem sagrada nem profana). Na minha concepção, se não for criador, um pouco louco e não mexer com o bem e o mal, nenhum escritor pode ser considerado grande. Veja o Guimarães Rosa: criador, louco pela linguagem e se imiscuindo no bem e no mal. Só poderia fazer grande literatura.

  1. Sente-se no Paraná e no Brasil, a ausência de críticos… Em que sentido isso é ruim pra literatura e a poesia?

Com o atual domínio por parte do mercado editorial e da mídia, não surpreende a ausência de críticos. Quem pode ser independente nessa engrenagem? Agora só temos teses de mestres e doutores em literatura. Quando essa gente faz textos críticos, em geral é uma coisa chatíssima, mas há exceções, é claro.

  1. O Hélio intelectual de formação acadêmica e o Hélio de cultura mundana, poética, crítica… combinam até que ponto?

“Formação acadêmica” no sentido de ter estudado e lecionado na Universidade Federal do Paraná (onde também estudou meu pai, filho de imigrante italiano pobre). Sempre fui inconformista e nunca derrapei na “literatura sorriso da sociedade”.

  1. Nessa entrevista que puxa sempre mais para o literário, o crítico, e o poético, é importante saber: o Hélio de Freitas Puglielli tem um projeto presente/futuro em ação?

Meu projeto presente é viver o “aqui e agora”. O projeto futuro é editar alguns livros que estão dormindo na gaveta há muito tempo e outros nem tanto.

9.A literatura oficialesca, no sentido de editorial, (aos que conseguem chegar numa editora) estabelecida, a seu ver representa o que há de melhor na produção paranaense e brasileira?

Aí é difícil julgar, pois a literatura não-oficialesca tem baixa visibilidade  para que se possa realmente comparar.  Mas li muita coisa boa nas revistas, internet e livros editados pelos próprios autores. Cito um amigo falecido, Sérgio Rubens Sossella e outros vivos que você, Jairo, sabe bem quem são.

  1. Como você vê o futuro do livro, da poesia e da literatura, ante a força arrebatadora dos meios eletrônicos (facebook, blogues, links…)?

Não tenho nenhum fetichismo com relação ao livro de papel. Os e-books se multiplicam cada vez mais e acho muito cômodo fazer download, já que não me incomoda ler diretamente no monitor, ao contrário daqueles que têm de imprimir primeiro para depois ler. A revolução da informática/internet eclodiu numa escala maior do que a revolução gutemberguiana. Queiram ou não, os efeitos tendem a ser irreversíveis.

  1. O ser transmoderno (internético) pode tornar-se anti-reflexivo, ou a velocidade dos links, não altera a performance do pensar?

Sem dúvida a reflexão demanda tempo. Mas não tem que ser necessariamente lenta. A performance do pensar sem dúvida está se alterando. Bobagens e sandices foram ditas em todas as épocas. Se bobagens e sandices são ditas hoje, a culpa é da desqualificação cultural dos que nem sabem usar o Google adequadamente para ampliar seus horizontes.

Parabéns ao entrevistador!

O RETORNO E A DÚVIDA DA POESIA – por almandrade / salvador.ba

A poesia é um conhecimento à parte da razão tecnocrata que rege
a sociedade contemporânea. Hoje em dia, o homem se defronta com outras
oportunidades de linguagens, outros conhecimentos, que deixou de lado
o hábito da leitura, principalmente a leitura de poesias. Diante da
informática, da música popular, do discurso político, não há lugar
para a poesia. Mas de repente um surto de poesia tomou conta da
cidade, saraus, recitais, debates, publicações, vão se espalhando e
ocupando pequenos espaços nos centros urbanos, bares, cafés,
bibliotecas. Páginas na internet. Parece que a poesia voltou a fazer
parte da cidade. Mais uma ilustração da crise da linguagem, do pensar
e da cidadania? Afinal de contas, poesia passou a ser tudo que alguém
escreve movido por uma “inspiração”, uma revolta, uma paixão, um
discurso livre e aleatório, como: a frase da mesa do bar, o bilhete da
namorada, o discurso de protesto etc. O poeta que já foi expulso da
cidade, volta ao cenário urbano na condição de sintoma da cidade
grande.

A POESIA E A CIDADE

“Os poetas nos ajudarão a descobrir em nós uma alegria tão expressiva
ao contemplar as coisas que às vezes viveremos, diante de um objeto
próximo, o engrandecimento de nosso espaço íntimo.”
Bachelard

Desde quando a cidade é objeto de trabalho de especialista, ela
passou a ser um corpo fragmentado e perdeu sua geografia poética.
Primeiro foram os filósofos que expulsaram os poetas de sua república,
depois foram os técnicos que destronaram a filosofia. Custou caro ao
filósofo aceitar que o saber foi uma invenção do poeta, que a
eternidade da Grécia  se deve primeiramente a um Homero e depois a um
Platão. Nessa mudança de século, a filosofia acabou ressuscitando um
Sócrates arrependido, solicitando do poeta seu retorno à  polis .
Pudera, em épocas de crise sempre se apela para o poeta, ele que nada
sabe, foi adivinho do passado e é livre para falar de suas emoções.
Mas ele nada pode resolver com relação aos equívocos dos especialistas
do urbano, a não ser restaurar a poesia perdida.
A cidade de políticos e de técnicos tem problemas mais
urgentes, para se preocupar com a poesia. Acreditava-se que a
tecnologia era uma solução universal, mas se mantêm longe de dar
respostas às demandas de habitação, segurança, transporte e educação.
Não se canta mais a cidade, fala-se para lamentar seus problemas. A
cidade precisa da poética e do pensamento. Quem se ocupa de conceitos
sabe, sem negar a importância da tecnologia, que a cidade atualmente
precisa mais do exercício da cidadania e das idéias, do que
intervenções técnicas sem uma compreensão mais ampla dos seus
problemas. As cidades modernas se ressentem da carência de uma nova
idéia de planejamento urbano que não a veja exclusivamente como o
cenário do mercado de trabalho. Pois a imagem urbana não se restringe
àquilo que a percepção capta, é muito mais o que a imaginação inventa
com a liberdade poética. As musas sabem que o poeta não vai salvar a
cidade, mas ele é quem lida com a fantasia e o devaneio,
indispensáveis para o sonho de uma outra expectativa de vida urbana.