“AO MENINO QUE BRINCAVA DE AVIÃO” – por omar de la roca / são paulo

 

Kevin então pigarreou, ajeitou as jóias da coroa para reunir coragem. Queria contar uma história mais leve.Mas o que vinha a cabeça dele agora eram os antigos e sempre presentes relatos sobre a grande fome , sobre os gigantes , “ banshees” que passavam voando baixo aos gritos.Humilhação e sofrimento. Corpos abandonados,sexo atrás dos muros da igreja quando ninguém estava olhando,ou nas praias durante os curtos verões.Longas viagens de navio para a América,das quais muitos não sobreviviam. Levantou a mão para persignar-se mas parou a mão no meio do caminho . A boa e velha culpa católica,incutida pelos padres de sua cidadezinha num recanto perdido da Hibérnia. Para disfarçar, abanou o rosto com a mão dizendo que estava com calor e só iria conseguir falar alguma coisa depois de mais uma cerveja. Pediu para que Sergio tomasse sua vez.

Sergio pediu um minuto,já que a cerveja fazia efeito rápido. “ Cambiare l’acqua de l’olive “, ele disse e retornou em poucos minutos. Jogou o chiclete que mascava para tirar o amargor da cerveja,era o que ele dizia, mas era dependente de açúcar e por isso comprava chiclete diet para enganar. Tossiu um pouco para chamar a atenção e começou a história, jurando que não era autobiográfica.

Já há alguns anos ele  elegeu como sua primeira memória de infância,ele mesmo saindo correndo pelo portão de casa na antiga Rua da Consolação com os braços abertos querendo ganhar o ar. E se maravilhava ao ouvir histórias de quem já havia voado. Naquela época, fim dos anos 50 as coisas eram mais difíceis. Ia-se a biblioteca para pesquisar biografias e, pasmem, havia um campeonato de carrinhos de rolimã que desciam a Av. Rebouças aos domingos.A pegadinha era que só ganhava o menino que trouxesse o carrinho até o ponto de partida, subindo a avenida. Mas ele só foi uma ou duas vezes.Naquela época,havia uma sessão de cinema matinal aos domingos com o Pica Pau,que ele raramente ia.É, as coisas eram mais difíceis. E não só para ele.” Mas não quero transformar este conto em livro, disse Sergio,até poderia mas ia ser difícil de contar .Para que colocar no papel todas as agressões sofridas? Todos nós tivemos más experiências na infância.”  Mas aquele episódio de violência sexual o marcou tão fundo que lhe perseguia através dos anos. Anos e anos querendo ser “ normal” mas sempre com aquela sombra,estigma e a inevitável depressão. A primeira namorada,que durou um dia, a segunda, que lhe  deu o fora no dia de seu aniversário , deixando-o arrasado.O retraimento. A introspecção. A miopia a falta de recursos para o óculos,a repetência na segunda série ,aquela sombra pesando cada vez mais.Agressões,auto agressões.O quanto não fez para sobreviver ? Foi como uma árvore criada entre muros, que o protegiam mas não lhe deixavam ver nada. E  não lhe protegiam deles mesmos. E sempre o peso ,o medo , a falta de orientação.A falta de alguém para conversar. Amigos poucos, quase nenhum. Um primo,que tinha que ter sempre razão e ia bem na escola.Mas ele não . Fez amizade com um rapaz e começou a freqüentar a casa dele que morava com a irmã e os pais. E para ele, era como um refúgio estar lá. E para ele eram todos amigos. Viajavam juntos, tinham coisas em comum, foi uma época bem legal. Estava tão escaldado do peso de tantas coisas que vivia meio desligado, com a cabeça na lua . As namoradas que nunca davam certo. Os amores platônicos sem continuidade. Para ele,  era apenas uma sólida amizade. Mas  faltou percepção para ver que para a irmã dele, as coisas não eram bem assim. Jurou que não foi por maldade,que não fazia a menor idéia. Um dia, estava na casa deles quando receberam visitas.Uma amiga de anos com o namorado. E uma voz falou ao  ouvido dele, “ Olha ai a tua mulher. “ .Estas coisas as vezes  acontecem a ele. Achar uma pessoa que o estava  esperando em um lugar que ele  não esperava encontrá-la. E muitos outros acasos os quais agora não cabem aqui. Passou algum tempo, voltou a encontrar aquela amiga,que já estava sozinha. E foi como se dois pólos opostos se atraíssem com força. Foi ela que o fez pensar que  poderia ser “ normal”,após tantos anos de sofrimento. Dali a uns anos se casaram e foi só ali que ele  percebeu que seus problemas haviam apenas começado.  “ Sergio fechou os olhos e roçou o dedo de leve por debaixo dos óculos.E nestes breves segundos passearam pela sua memória anos de rejeição, repressão e auto agressão.De depressão e auto controle. De fogo e gelo. “ Tossiu de leve e voltou a narrativa :  E sempre aquela ânsia pela normalidade,pela tranqüilidade.” Resolveu deixar de lado o relato de muitos anos,mesmo que o psicoterapeuta dissesse que conversar era uma forma de terapia e de compreender que muitas vezes não somos os únicos com aquele problema.Não ia interessar aos seus amigos ouvir as dificuldades de um terceiro.” Passados tantos e tantos anos assistiu ao filme “ O menino do pijama listrado “,e adaptou a música de início, quando o menino “ voa “ pelas ruas de Berlin  ( que na verdade era Budapeste ou Praga na versão do filme , ele não se lembrava bem) a sua primeira memória elegida, e quando não está bem retorna a ela   “ ouvindo “ a música junto . Fica se pegando em mínimas alegrias para manter a sanidade .Apega-se a pessoas , uma pessoa no escritório ( uma loura que não aquela da contabilidade ) a um amigo inglês que pescou na Internet há muitos anos atrás e que por coincidência tinha o mesmo problema de relacionamento com a mulher ( coisas do inconsciente coletivo )que ele tem. Sergio achou que devia explicar e o fez  dizendo que  o amigo,na época, entrou em um site que relacionava pessoas interessadas em trocar correspondências e enviou quase 20 e mails pedindo por amigos para escrever. Alguns poucos retornaram inclusive Trawets , que continua até hoje e se tratavam como Bro ( irmãos ). Então voltou a história .Perto do fim do ano recebeu um texto que falava sobre  Fênix   e renascimento e percebeu que na verdade tudo dependia dele. “ Sergio parou por um segundo e lembrou-se de um trecho do  conto de Omar que dizia ‘ vivi muito tempo em minha própria sombra,agora quero um pouco de luz.’ “E continuando o conto ,não quero mais arrastar minhas correntes, ninguém quer ouvir o barulho delas. Quero que elas se partam e caiam ao chão . Lembrou-se dos  quadros inacabados no alto da prateleira da cozinha. Não era um bom pintor,mas gostava da arte,do cheiro da terebintina e da mística que envolvia os pintores.Pintar o que conseguia era sua maneira de se vingar pela falta de oportunidade de estudar arte.Tinha adorado “ Meia Noite em Paris “.Gostaria de ter suas esculturas em bronze,mas o preço era proibitivo. A menos que conseguisse um mecenas que o patrocinasse.Mas também não era bom nisso. Mas para se vingar fazia as esculturas em argila e revestia com epóxi para criar resistência,e as cobria com folha de ouro para melhorar a apresentação . Deu-se conta de que as quedas se sucederiam, mas que teria que resistir a elas e ,a cada uma, ele iria se levantar mais rápido e mais sábio. Não deixaria mais de aprender algo com cada situação que a ele se apresentasse.  ‘” Sergio viu que os outros dois esboçavam uma cara de sono, tirou os óculos, fingiu que os limpava na gravata meio solta e disse que por enquanto era só.”

Anúncios

2 Respostas

  1. E eu me lembro de uma frase daquela musica que a Bethania canta :

    ” A arte de sorrir, cada vez que o mundo diz não… ”

    Bjk

  2. Pena o poder da memória quando ela nos ata à nossa história dessa forma, caro Omar, e isso eu digo por experiência própria,você o sabe.
    No meu caso, quando dores relembradas à exaustão me ocorrem, me vêm junto os versos de Drummond: ” Abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau-cheiro da memória”. Haja vidros de loção para seres de memória implacável como você, também como eu. Sobrevivamos,apesar dela. Continuemos tentando.
    Abraço
    Zu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: