Arquivos Diários: 5 fevereiro, 2012

MENINO E DEUS – por jorge lescano / são paulo.sp

O menino estava sentado no centro da nave do templo, mantinha os olhos fechados. O local vazio lhe dava um ar solene. O silêncio em volta aumentava a sensação de concentração do rosto moreno. Estava absolutamente imóvel, na penumbra poderia ser confundido com algum dos ídolos que se espalhavam pelo altar, ladeando o corpo esquálido e ensangüentado da figura principal.

Pelo silêncio e imobilidade poderia se acreditar que estava ali por não ter para onde ir. As roupas modestas e a trouxinha ao seu lado, os sapatos gastos, sugeriam que poderia ser um retirante, um dos tantos que nesses dias percorriam os campos e as estradas fugindo da violência das cidades devastadas, saqueadas, bombardeadas. As mãos juntas descansavam sobre as coxas.

Um grupo de pessoas entrou ocupando os bancos com murmúrios e cochichos. Desse grupo surgiu um rapaz que foi direto para o menino que deve ter sentido a sua presença, mas não abriu os olhos.

— O que você faz aqui? Este não é lugar para bandidos.

— Estou rezando – respondeu sem olhá-lo.

— Aqui? Você é um infiel!

— O templo estava vazio e eu precisava orar.

— Mas você é um infiel!

— Deus é um só, clemente e misericordioso e está em todo lugar – salmodiou o menino. – Por que não atenderia as prezes de um muçulmano na casa dos cristãos?

PELA BOLA SETE – por plinio marcos* / são paulo.sp

O Bereco era do devagar. Não queria nada com o batente. Seu negócio era sinuca. E nisso ele era cobra. De taco na mão, fazia embaixada. Conhecia os trambiques do jogo e sabia como entrutar o parceiro. Então, estava sempre com a bufunfa em cima. Sabe como é o lance. Sempre tem um panaca pra desconhecer o nome do mandarim. E o Bereco ajudava. Se vestia como um Zé Mané qualquer. Neca de beca legal. Isso espanta o loque. O babado era se fazer de besta. Tirar onda de operário trouxa, desses que dão um duro do cacete de sol a sol, se forram de prato feito e na folga vão fazer marola em boteco. Daí, sempre tem um malandrinho pra tomar os pixulés do otário. Se fazer passar por coió era o grande trambique do Bereco. Com essas e outras, ele engrupia até muito vagau escolado. Até no Bar Seleto de São Vicente, ponto certo dos grandes tacos do mundo, o Bereco deu esse deschavo. E grudou. Pensaram que ele era pão-ganho e ele tomou o sonante dos pinta. E assim o Bereco ia remando seu barco em maré mansa. Só ganhando. Um pato atrás do outro era depenado. Sem dó. Que, nas paqueras da vida, é cada um pra si. Até que um dia aconteceu um esquinapo.

Era fim de mês. Dia de pagamento da Refinaria de Petróleo. O Bereco, que estava por dentro, se picou pro Cubatão. Se plantou num salão dos bordejos da refinaria e ficou na moita. Logo foi baixando a freguesia. Tudo de capacete de lata. A patota estava contentona, de envelope no chorro. E o Bereco só espiando o lance. De vez em quando, tirava um paco de nota pra pagar uma Coca-Cola. Era a milonga. Logo, um capacete de lata mais afobado se assanhou com o dinheiro do majura. Sentiu a muquinha pega e quis tomar. Mediu o Bereco e foi no chaveco do pinta. O capacete de lata tinha um joguinho enganador. Desses que funcionam em mesa de sindicato. Mas levou fé em si e nenhuma no Bereco. Encarnou no moço:

— Como é, parceiro? Quer fazer um joguinho?
O Bereco não deu pala:
— Não jogo nada.
O capacete de lata cercou:
— A leite de pato.
O Bereco deixou andar:
— Se é brinquedo, vamos lá.

E começou o jogo. O Bereco sentiu o parceiro e tirou de letra. O capacete não sabia nada. O Bereco deu o engano. Os primeiros dez mirréis, os segundos e os terceiros, o Bereco empurrou pro trouxa. E se fez de bronqueado. Partiu pros vinte, pros cinqüenta e pros cem mil. O capacete de lata estava se deitando. Era seu bilhete premiado. Com o dinheiro que ganhou do Bereco e o seu ordenado, já tinha um milheiro no porão. Daí, o Bereco selou:

— Ou tudo ou nada.
O capacete de lata nem balançou:
— Um milhão na caçapa.

Todo mundo de botuca ligada na mesa. O capacete de lata saiu pela cinco. Errou. O Bereco se tocou que o xereta estava nervoso. Teve que maneirar. Cozinhar o galo. Senão, ia ficar escrachado o perereco. Errou na cinco, que estava cai, não cai. E o joguinho ficou de duas muquiranas. Só na bola da mesa. O Bereco não embocava. Só colhia as mancadas do capacete de lata. Se o bruto metia uma três, o Bereco fingia que era sem querer e deixava uma sinuca de bico pro inimigo. E na catimba do Bereco e no virador do capacete de lata, o jogo foi comprido paca. Os sapos nem chiavam. Seguravam as pontas. Era tudo torcedor do capacete de lata. Trabalhadores da refinaria. Mas o Bereco nem estava aí. Já contava com o dinheiro da caçapa. Aí chegaram na bola sete. Só a sete estava na mesa. E o jogo estava por ela. O Bereco, folgado, muito à vontade, encostou a negra na parede. O capacete de lata tremia, suava. Estava com o motor batendo acelerado. Fez mira. Começou a pensar que tinha quatro filhos no seu chatô, aluguel de casa, rango, escola, remédio e os cambaus. Pensou no que ia dizer pra mulher. Com a cabeça cheia de minhocas, deu na cara da bola. Uma chapada. A negra rolou pra um lado, a branca, pra outro. O capacete de lata sentiu um alívio. Pelo menos acertou na bola. Mas o recreio durou pouco. Quando as bolas pararam, a sete estava na boca da botija. Pedindo pra cair. E a branca, no meio da mesa. Ninguém, por mais cego que fosse, errava aquela bola. O Bereco sorriu. Deu a volta na mesa devagar. Bem devagarinho. Enrustido, sem dar bandeira, ia gozando as fuças dos otários. O capacete de lata só faltava abrir o bué. Deu a volta e ficou atrás da caçapa em que a bola ia cair. O Bereco deu uma dica de leve:

— Vai secar?

O capacete de lata quis falar, mas não deu. Se engasgou. O Bereco não se flagrou no olhar do panaca. Se tivesse visto as bolas de sangue nas botucas do capacete de lata, ia ficar cabreiro. Não viu e fez a presepada. Passou giz no taco, com calma. Se ajeitou na mesa, com calma. Aí, levantou a mira. Viu a bola branca, a sete, a caçapa, atrás da caçapa um revólver quarenta e cinco e, atrás do revólver, o capacete de lata. O Bereco quis saber:

— Que é isso, meu compadre?
O capacete de lata espumou, babou e resmungou:
— Se meter essa bola, eu te mato.

O Bereco viu logo que era jura. Se fechou em copas. Deu na bola de esguelha, o taco espirrou. Raspou na sete e as duas ficaram na berba da caçapa. Coladas. O Bereco fingiu que não havia nada. Deu a treta:

— Ficou pra você, compadre.

O capacete de lata guardou o revólver, a raiva e tudo. Foi de cabeça. Deu no taco e bimba. A branca e a negra mergulharam juntas. O Bereco ficou só olhando. As lágrimas correram dos olhos do capacete de lata. Estava tão por baixo que não dava pra pegar a arma e aprontar o salseiro. Só deu um lamento:

— Tenho quatro bacuris.

O Bereco fez que não escutou. Recolheu a grana e saiu de fininho. O capacete de lata saiu logo atrás. Ninguém se mexeu. Passou um tempo e veio o estouro. Meio mundo foi ver as rebarbas. No meio da rua, o capacete de lata estava estarrado. Tinha o revólver na mão e uma bala na orelha. Se acabou. O Bereco só teve pena de nunca mais poder dar grupo em trouxa do Cubatão. Perdeu um grande pesqueiro.

PLINIO MARCOS faleceu em 19 de novembro de 1999.

BEN GAZZARA: CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO / los angeles.eua

UM clique no centro do vídeo:

O poeta JAIRO PEREIRA entrevista o poeta ANTONIO THADEU WOJCIECHOWSKI / curitiba.pr

Poeta, compositor, professor e publicitário. Nascido em Curitiba em 24 de dezembro de 1950. Tem como filosofia de vida a seguinte máxima: tudo ao mesmo tempo agora já neste momento inclusive antes e depois. Boêmio e extremamente curioso com tudo que se refere a relações humanas. Livros de cabeceira: EU, do Augusto dos Anjos e Tao, o Livro, de Lao Tsé.

o poeta J B VIDAL e THADEU em Sambaqui, Floripa. foto do poeta VINÍCIUS ALVES.

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1.       Transitando por tantas linguagens o poeta é, ou pode tornar-se demiurgo?

É porque pode. O poeta tem uma certa tendência doentia (sic) a assenhorar-se do universo como espelho de si e de sua própria criação. Mas transitar entre inteligências e artes diversas é  um privilégio e pode dar a ele a capacidade de antecipação, de estar antes e poder contar. Pound o designa como antena da raça, mas atingir este estado não é pra qualquer um. A maioria se perde nos processos de racionalização e materialização do mundo.

2.       O poeta Thadeu, faz sua própria poesia, escreve a muitas mãos, traduz e se comunica com o mundo. A vida poética te exige muito?

Acho tudo muito divertido, escrever a sós ou a N mãos é a mesma coisa. As lâmpadas vão se acendendo, as idéias se multiplicando e a técnica entrando em ação. O mundo está cheio de mestres e mestres não dizem, mas mostram caminhos que vc pode trilhar para procurar.

Quando estou com o violão na mão ou quando um parceiro ao lado está, conversar é criar, compor, transgredir. A vida é movimento e é  certo que ela, viva, revela perfis inéditos através do trivial, do picaresco, do cotidiano, do fútil.

3.       Na tua visão pra onde caminha a poesia brasileira contemporânea?

Acho que para a apropriação de tudo, a perda da propriedade intelectual, fazer uso de algo existente para criar um diferente,  novo, todos os signos se inter-relacionando. As possibilidades já são quase infinitas, mas há um perigo em tudo isso: OS VENDILHÕES DO TEMPLO ESTÃO SEMPRE DE PLANTÃO. Não dá pra simplesmente eliminar a figura do mestre, daquele que veio antes. Pelo contrário, sua técnica, sua forma de arte, sua expressão, devem ser canibalizadas, deglutidas, incorporadas e só depois pode-se pensar em superação.

4.       O Tao, seria o caminho… no teu caminho Faustos vendem a alma ao diabo?

Eu traduzi as duas obras junto com o Roberto Prado, Alberto Centurião, Marcos Prado, Sérgio Viralobos. O TAO levou 14 anos pra ficar pronto, UM FAUSTO DOIS, 3 anos. Não sei se vendi a alma ao diabo ou se só a emprestei durante aquele período. Sei que caminhar dentro dessas duas obras deu a mim e à minha pena um apuramento da técnica e da musicalidade que eu considero essencial para conseguir fazer o que faço hoje em dia.

5.       Você nunca foi um poeta bem comportado, mas é um aglutinador de mentes privilegiadas, já se indispôs com muita gente?

Eu não tenho muita noção do que é ser bem comportado, eu sou feliz e vivo intensamente. Minha casa tem as portas abertas à criatividade e  à alegria. O pessoal vem pra cá porque é divertido, todos se sentem vivos e atuantes, participantes dessa maravilhosa aventura que é estar sobre o planeta Terra. A gente tem uns arranca-rabos de vez em quando, mas isso não é nada. Só expulsei um até hoje, era um poetinha, exatamente do tamanho do nada.

6.       Tua obra (vasta) traz o clássico (nas formas e conteúdos), o moderno, pós, transcontemporâneo e a construção despojada. O poema é Senhor do seu próprio destino?

Sim, mas só até eu enfiar a mão na cara dele, depois somos amparados um pelo outro. A diferença está na projeção de tempo que cada um faz.

7.        Até que ponto o poeta Thadeu W é o gestor majoritário dos signos da composição, seja na poesia ou na poesia/letra de MPB?

Não penso assim, como um cálculo a ser feito para se decidir o percentual de cada parceiro. Muitas vezes, assino um poema com mais meia dúzia, mas é só porque eles estavam lá e indiretamente participaram daquela energia criadora. Pra mim, estar de bem com a vida, me divertindo com os amigos, cantando até altas horas, ou simplesmente sentado no meu escritório escrevendo, é o que conta. E dividir com eles a autoria é um prazer enorme e justo.

8.       Música e poesia, na sua vida de poeta, convivem de que maneira?

Em tempo integral e inseparáveis. Fico o dia inteiro pensando versos e melodias. Criando, repetindo, analisando, consultando, lendo, relendo. Está cada vez mais difícil de trabalhar com propaganda, parece que estou em outro mundo. Queria chegar ao ponto de não precisar pensar em mais nada além da poesia e da música.

9.       O que mudou,  ao seu ver, com o advento da internet nas linguagens poéticas, e na sua particularmente?

Acho que nada, mas a exposição é muito maior e vc pode ter um feedback instantâneo sobre o que está fazendo. Em época nenhuma se veiculou tanta poesia, TVs, rádios tocando o dia inteiro, jornais, revistas, as mídias da internet etc. Não se fala aqui de qualidade e, sim, de quantidade. Mas o acesso leva inevitavelmente a um novo patamar de qualidade. Fazer arte é como treinar karatê, vc tem o estágio da faixa branca, amarela, laranja, alguns, infelizmente poucos, um belo dia, chegam à preta.

10.   É possível a poesia advir somente da linguagem, sem o sentir propriamente do poeta no social?

Pra mim, não. É como querer separar corpo e alma, mas tem muito poeta fazendo joguinhos de palavras, tipo monta-desmonta de terapia ocupacional, que pensa o contrário. Eu quero uma arte tão rica de imaginação, mas tão rica, que a realidade não possa mais interferir. E imaginar é criar a partir de mim, de tudo que sou,  vivo,  sei e sinto.

11.   O livro impresso, a palavra manchando a página branca, terá algum futuro… diante dos sistemas e meios eletrônicos, o e-book, blogs, facebook?

Bom, acho que o prazer táctil que um livro em sua forma impressa

me proporciona é insubstituível. Isso nunca vai acabar. Adoro livros, mas transito em outras mídias com a mesma desenvoltura. Tenho milhares de fãs que me conhecem somente através da internet, com os blogs, facebook, twitter, site, entre outros. Uma coisa não anula outra. O Tavinho Paz acaba de fazer um e-book com meus poemas e fotos. O lançamento vai ser no Rio. Veja só: ele pegou matéria da Internet e fez. O livro é meu, mas é dele também.

12.   Quantas gerações você já perdeu como poeta, ou elas podem ainda ser resgatadas no turbilhão dos signos estéreis?

Eu não perdi nada, eu encontrei muita coisa boa. Amigos excepcionalmente criativos, bons de conversa, melhor ainda de versos. Augusto dos Anjos, por exemplo, está quase sempre presente. Cruz e Sousa, Dante, Shakespeare, Rimbaud, Baudelaire, Maiakovski, Emily, Poe, Yeats, Bashô, Issa, Adam, Kliébnikov, Marcos Prado, Leminski, Machado, Dalton, Nelson Rodrigues, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, enfim, a companhia é grande. Tem sempre algo novo no antigo. Tem sempre algo antigo no novo. Muita gente acha que essas quinquilharias tecnológicas (espelhinhos pra enganar índio) são o novo. Vivem iludidos na matéria, trocando sua eternidade por produtinhos e artiguinhos de grifes, nem desconfiam que a novidade é uma impossibilidade matemática.

E pra terminar:

poeminha no cu da madrugada

tec

tec
tec
etc…

antonio thadeu wojciechowski

TRIBUNAL DE JUSTIÇA de Brasilia gasta com pessoal 5 vezes mais que Supremo

Corte mais cara do País, TJ-DF gasta com pessoal 5 vezes mais que Supremo

Folha de pagamento será de R$ 1,4 bi neste ano; contracheque supera R$ 400 mi no caso de um desembargador

A folha de pagamento do tribunal estadual mais caro do País vai custar R$ 1,4 bilhão aos cofres públicos este ano. Custeado pela União, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJ-DF) vai gastar cinco vezes mais que o Supremo Tribunal Federal (STF)com a folha de pagamento e o dobro das despesas do Superior Tribunal de Justiça (STJ) com pessoal. Essas cortes também são custeados pelo Orçamento da União.

Veja também:
link TCU já julgou indevidos salários e acúmulo de cargos de servidores

Assim como nos tribunais de Justiça de São Paulo e do Rio de Janeiro, a folha de subsídios da corte do DF (o mais caro entre todos os estaduais) é engordada com as chamadas “vantagens eventuais”. Em dezembro passado, os cofres federais pagaram salários milionários aos magistrados e servidores do tribunal na capital federal.

Naquele mês, um dos desembargadores recebeu de uma só vez R$ 370,3 mil em benefícios, que, incorporados ao salário de R$ 24,1 mil, garantiram ao magistrado um total de R$ 401,3 mil. No mesmo mês, um juiz substituto ganhou R$ 240,5 mil só em vantagens.

O relatório de pagamentos, publicado em cumprimento à Resolução 102 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), mostra que os benefícios não são exclusividade dos magistrados.

Um analista judiciário, cujo salário é de R$ 11 mil, recebeu R$ 205 mil em vantagens. Também em dezembro, um técnico ganhou R$ 145,9 mil, ou seja, 22 vezes mais do que o salário que recebe mensalmente pelo cargo que ocupa – R$ 6,5 mil.

Na soma de exemplos como esses, a folha atingiu R$ 205 milhões, sendo mais da metade – R$ 132 milhões – só com as vantagens. O valor retido pelo teto foi de R$ 160 mil.

Alana Rizzo, de O Estado de S. Paulo