MENINO E DEUS – por jorge lescano / são paulo.sp

O menino estava sentado no centro da nave do templo, mantinha os olhos fechados. O local vazio lhe dava um ar solene. O silêncio em volta aumentava a sensação de concentração do rosto moreno. Estava absolutamente imóvel, na penumbra poderia ser confundido com algum dos ídolos que se espalhavam pelo altar, ladeando o corpo esquálido e ensangüentado da figura principal.

Pelo silêncio e imobilidade poderia se acreditar que estava ali por não ter para onde ir. As roupas modestas e a trouxinha ao seu lado, os sapatos gastos, sugeriam que poderia ser um retirante, um dos tantos que nesses dias percorriam os campos e as estradas fugindo da violência das cidades devastadas, saqueadas, bombardeadas. As mãos juntas descansavam sobre as coxas.

Um grupo de pessoas entrou ocupando os bancos com murmúrios e cochichos. Desse grupo surgiu um rapaz que foi direto para o menino que deve ter sentido a sua presença, mas não abriu os olhos.

— O que você faz aqui? Este não é lugar para bandidos.

— Estou rezando – respondeu sem olhá-lo.

— Aqui? Você é um infiel!

— O templo estava vazio e eu precisava orar.

— Mas você é um infiel!

— Deus é um só, clemente e misericordioso e está em todo lugar – salmodiou o menino. – Por que não atenderia as prezes de um muçulmano na casa dos cristãos?

Uma resposta

  1. É preciso mesmo subverter a leitura do mundo, a que somos submetidos pelos discursos do reino. É preciso, para por luz no recinto.

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