A caserna volta a se coçar – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc



A imprensa nacional reproduziu declarações que o aposentado Gilberto Barbosa de Figueiredo deu na quinta-feira passada, 1º de março. Disse ele:


– Não vou aceitar ser cerceado do meu direito de expressar minha opinião. Não ofendi ninguém. Estou exercendo meu direito de expressar minha opinião, como todo e qualquer cidadão.


Suas palavras traduzem um brado retumbante, digamos assim, em favor do Estado de Direito e da Democracia, um juramento de respeito à Justiça e à Constituição. Belas palavras.


Figueiredo pronunciou-se deste modo após assinar um manifesto de título altamente belicoso, maniqueísta e provocativo: Alerta à Nação – Eles que venham. Por aqui não passarão!, com ponto de exclamação marcial e tudo. Eles quem, camarada? O texto do manifesto não deixa claro a quem são dirigidas tais ameaças.


Abrindo um parêntesis: segundo o maniqueísmo, “o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo”. Não há meio termo: se te opões ao golpe militar de 1964 e à ditadura que se seguiu, então és favorável à implantação de uma ditadura cubano-sino-soviética no Brasil. O maniqueísta não consegue conceber uma democracia e não entende como ela pode abrigar uma opinião contrária à sua. Fechando o parêntesis.


O manifesto citado, de 28 de fevereiro, referendava um outro, do dia 16, de título circunspecto: Manifesto interclubes militares. Neste, oficiais da reserva das Forças Armadas censuravam a presidenta Dilma por não ter censurado uma ministra sua que opinou sobre a possibilidade de surgirem processos judiciais em decorrência do trabalho da Comissão da Verdade, por não ter censurado outra ministra que opinou sobre a ditadura militar de 1964 a 1985, e por não ter censurado o seu partido, o PT, que decidiu realçar sua luta contra a repressão e o terrorismo de Estado promovidos pela mesma ditadura.


Como chefe das Forças Armadas, Dilma considerou quebra de hierarquia os termos do manifesto do dia 16, mandando tirá-lo do portal do Clube Militar (associação de oficias da reserva do Exército), o que resultou no manifesto do dia 28 – e aqui o cinismo – publicado no sítio A Verdade Sufocada (no qual, como na ditadura, se abusa da bandeira do Brasil, tentando associar o País às causas que defende), mantido por Maria Joseita Silva Brilhante Ustra, esposa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais notório torturador de presos políticos e opositores do regime ainda vivo.


No novo manifesto, os militares de pijama endossam o documento anterior, não reconhecem autoridade ao ministro da Defesa para retirá-lo do ar e – eis o cerne da questão! – investem contra a Comissão da Verdade, um “ato inconsequente de revanchismo explícito e de afronta à lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo”. Embora tenham feito tudo dentro da legalidade, embora tenham defendido a Pátria, embora tenham salvado a democracia, como dizem, esses senhores não aceitam que os arquivos da ditadura sejam abertos nem que a História seja conhecida, o que joga suspeita e desconfiança sobre todas as fardas, inclusive aquelas que se opõem às barbáries cometidas. Se não há o que esconder, por que escondem tudo?


Figueiredo, general reformado e ex-presidente do Clube Militar, brada pelo seu direito à opinião mas não o reconhece sequer para ministras de Estado. Como é que eu, humílimo aqui no meu Contexto, vou poder opinar sobre tal assunto?

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Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados.

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