D O B A I L E – por jorge lescano / são paulo.sp

A primeira dama havia lido a resenha de um grande baile de gala […]

a leitura propunha o questionamento e solução das sete seguintes fases:

Primeira: o baile como foi realmente oferecido há um século.

Segunda: o baile resenhado pelo cronista da época.

Terceira: o baile como a primeira dama imagina que foi,

com a resenha do cronista.

Quarta: o baile como a primeira dama imagina que foi,

sem a resenha do cronista.

Quinta: o baile como ela imagina dar.

Sexta: o baile como é realmente dado.

Sétima: o baile que pode ser levado a cabo,

utilizando a lembrança do baile como é realmente dado.

 

Virgilio Piñera, O baile, 1944

 

Segundo o encarregado do cotillon – a escolha do termo franco em detrimento do ianques coloquial, denotava o anacronismo do decorador e o habilitava para o cargo – , dever-se-ia respeitar as premissas do baile original se bem que acrescidas da técnica de última geração. A grande sala receberia iluminação indireta, porém, conservar-se-ia o grande lustre central, apagado. As fontes luminosas seriam arandelas douradas, devidamente guarnecidas de lâmpadas fluorescentes. O resto da ambientação não poderia violar este princípio. Por que a luz em primeiro lugar? O sorriso enigmático sugeria alguma causa mística – e nisto ele era perfeitamente contemporâneo – imaginasse a primeira dama os adereços correspondentes a partir desta causa não revelada.

O fashionista de moda (sic) sustentava opinião diversa. Para ele, a autenticidade da reprodução (sic) residia precisamente no uso do design e materiais pós-modernos – o itálico dava caráter de citação ao termo e habilitava o usuário para o cargo –, visto o idealizador do baile que se pretendia reeditar haver tido como referência um look prévio (vide V.Sa. o book & folderzinho anexos). De acordo com o cronista do baile (segundo nesta cronologia), os kits dos convivas eram exclusivos, criados especialmente para a ocasião, não streetwear nem week-end, com apenas um flashback da fashion do século retrô. Por tal motivo estavam, ele e seu competente team de fashionistas, ao inteiro dispor da primeira dama e seu wonderful catálogo de partners.

O músico da corte, tentando um caminho conciliatório – evitou a palavra alternativa por estar muito em voga –, sugeriu a inclusão de ritmos dançantes que remetessem aos bailes originais, melodias lights e um toque leve de música animal (sic). Acreditava que deste modo permitiria aos presentes a leitura simultânea do baile atual, devidamente justaposto à(s) lembrança(s) do(s) baile(s) original(is). Apreciasse a primeira dama o Song Book de artistas nacionais que acompanhava o parecer. Uma forte tendência para a simetria deu-lhe fama de espírito equilibrado, o qual o habilitava para o cargo.

Inúmeras objeções e conjeturas nutriram as tertúlias dos eruditos locais. Algum ficcionista cubano, de passagem por K, registrou as sete versões do baile, ou sete bailes possíveis, e as peripécias metafísicas e antropológicas vividas pela primeira dama e sua corte de senhoras bem nascidas. Seria cansativo referi-las neste parco resumo. Recorreu-se então à iconografia da(s) época(s)em questão. Saiu-seà caça de depoimentos de cidadãos provectos e de partituras mais ou menos consumidas pelas traças, uma vez que o Museu do Homem, em Paris, pegou fogo naqueles dias.

O patchwork party de ontem à noite nos Gardens de Calcutá City foi badaladíssimo. A iluminação light empolgou quem esteve lá. As teens vibraram com os mega insight do Luto Gacaz, que instalou spots Luiz XV munidos de psicodélicos pisca-pisca. O efeito alinear só foi superado pelo som, que circunviajou do hit Jesus Alegria dos Homens à oldfashioned tecno com paradas no country-rock& música étnica. A wearable Lulu Fueda Sertã estava diafânica. Vestiu saiote rodado, chapéu de plumas & peruca empoada à Maria Antonieta, com direito a fita de veludo blood no pescoço & franja irregular escorrendo para o decote free. Quem esteve animal foi Roland Small Pinto, 12. Seu black-tie, as polainas de verniz & hat a La Jack, o Stripper, compuseram um look zen. Arrasou! A promoter do evento passou a velada à margem esquerda de Sua Excelência. Digno de nota seu coque retrô. Vez por outra o sorriso spleen surgia por trás do leque de plástico made in Taiwan, decorado com graciosas figurinhas de Watteau. Sua Excelência vestia bermuda verde, óculos escuros, camiseta regata amarelo sorriso, tênis grunterssauro azuis, meias brancas com estampas de coqueiros & bonezinho Mickey Mouse. Spirit vídeo-clip, seu travel is do planalto to baía. Era-lhe impossível conservar a dignidade oficial, sempre identificada com a pose ice da pintura careta.

            O agito foi antológico, Yeah! Todos pediram bis. Uau!

Assim resenhou o baile um jornalista creditado no Palácio de Governo.*

*cf. Niu’s (Jornal Nacionalista) de 29/07/1997 (Nota de JL)

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2 Respostas

  1. Prezado Jairo, grato e honrado pelo seu comentário. Grande abraço.

  2. Um texto que traz o leitor pra dentro desse baile… daria uma crítica
    semiológica pro Roland Barthes. Muito bom mesmo, Lescano.

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