NELSON RODRIGUES, 100 ANOS – por luis fernando pereira / curitiba.pr

É só isso? Foi a minha pergunta ao funcionário da acanhada sala do Teatro Glauce Rocha no Rio de Janeiro, escolhida pela Funarte para abrigar a recente exposição “Nelson Brasil Rodrigues – 100 anos do anjo pornográfico”. Não havia quase nada exposto na tal exposição. Alguns recortes de jornais sobre Nelson e a sua Remington Portable (uma máquina de escrever, explico em atenção aos mais novos). Patético. No final da década de setenta, já com saúde debilitada, Nelson Rodrigues foi do Rio a Florianópolis de carro (não andava de avião) para lançar O Reacionário. Pois na hora do lançamento não apareceu uma viva alma para comprar os livros autografados. Nelson estava em baixa. A exposição lá no Rio lembrou-me da sessão de autógrafos de Nelson em Florianópolis. Coisa triste. E muito injusta!
Exagero pouca coisa quando digo, vez ou outra, que Nelson é o escritor brasileiro mais importante de todos os tempos. Dramaturgo, cronista, romancista, frasista, polemista, ninguém escreveu tanto e tão bem. É claro que poucos concordam com a minha opinião. E Machado? Questionariam alguns. Não chega perto de Guimarães Rosa, afirmariam outros. Com certa razão, pode-se dizer que Érico Veríssimo produziu mais. Para mim é o Nelson porque eu acho que é e ponto final. Algo que o próprio Nelson classificaria como opinião de torcedor do Bonsucesso. Ou, ainda Nelson, “se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. O Nelson é o maior e não se fala mais nisso.
E digo que é o maior praticamente desconsiderando o Nelson dramaturgo. Aqui fico com o polonês Ziembinski – que disse o seguinte ao ser apresentado ao texto de Vestido de Noiva (peça que ele depois dirigiu): “Não conheço nada no teatro mundial que se pareça com isso”. Mesmo jogando fora toda a produção teatral, Nelson segue com o título do “melhor escritor brasileiro de todos os tempos” (título que eu mesmo criei e entreguei, em homenagem póstuma). Sobretudo agora, em desagravo pela exposição anoréxica lá do Rio.
O Nelson legítimo é o cronista-contista-frasista. E ainda poderíamos deixar de lado toda a crônica de futebol – que é deliciosa. O que há de mais importante em Nelson é a sua crônica do cotidiano. Joguem tudo fora (os romances, inclusive) e levem em conta apenas a Vida como Ela é. É o suficiente para garantir o título a Nelson. Por dez anos consecutivos (de 51 a 61) o sábio Samuel Wainer deu-lhe o espaço para as colunas diárias no jornal Última Hora. A coleção de crônicas e contos é admirável (há quem diga que eram ensaios; os mesmos que dizem que Nelson era o Montaigne do Brasil. Eu quase concordo). Na sua Remington Portable Nelson escrevia de forma alucinada (fumando e usando só dois dedos). Antes que critiquem o veículo das publicações, lembrem que Balzac também publicou boa parte da sua Comédia Humana em capítulos de revistas. Nelson é o nosso Balzac. Um Balzac de linguagem simplificada e um pouco mais pornográfico. São, aliás, as duas acusações preferidas dos críticos de Nelson.
“Reclamam que a minha linguagem é pobre”, dizia Nelson para logo em seguida complementar, com boa ironia: “não fazem ideia do esforço que faço para empobrecê-la”. Com esta linguagem pobre Nelson era sim pornográfico. Era nosso Marques de Sade sem o ressentimento da prisão; mais solto, irônico e caricato. Hoje é fácil ser pornográfico. Mas retratar moças virgens violentadas (Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária) na década de sessenta era um pouco mais complicado. Nelson não se importava. Tratou de sexo e adultério o tempo todo. “Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, dizia o nosso anjo pornográfico; que também dizia: “sexo é coisa para operário”.

Hoje em dia o adultério perdeu um pouco a graça. Quase não escandaliza. Não era sim nos dez anos da coluna no Última Hora (adultério ainda era crime previsto no Código Penal). Por isso ele impressionava quando dizia com frequência: “não existe família sem adúltera”. Ou, “ninguém se interessa por uma família sem adultério. É muito enfadonha”. Para logo em seguida poupar a mulher (“não se chama uma adúltera de adúltera, jamais” – dizia), explicando: “o adultério não depende da mulher, e sim do marido, da vocação do marido. O sujeito já nasce enganado”. Assim era Nelson Rodrigues.
Nelson era insuperável na frase. Ruy Castro (autor da biografia do escritor) disse que o nosso Nelson talvez fosse o maior frasista da história da língua portuguesa. Por que só da língua portuguesa? Leiam outros bons frasistas como H. L. Mencken, Karl Kraus, Oscar Wilde e mesmo Bernard Shaw (este último muito admirado por Nelson) e comparem com tudo que está reunido pelo próprio Ruy em Flor de Obsessão (Companhia das Letras). Nelson é melhor e pronto. Aqui no Brasil há quem prefira Mencken ou Shaw, mas é Nelson quem explica a razão: “o Brasil é muito impopular no Brasil”. Ou “o brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma; nem mesmo em cuspe a distância”. E mais: “O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nelson era e é vítima deste complexo de vira-lata” (expressão de Nelson, é claro).
Aqui meu desagravo a Nelson. Aproveito para dedicar o texto ao único paranaense que com ele realmente conviveu: nosso amigo Carlos Nasser (citado em algumas crônicas). A propósito, um dia Nelson descobriu que Carlos Nasser era nascido em São Paulo e comentou espantado (sempre ao seu estilo): “Meu Deus, o único paranaense que eu conheço é paulista!”.

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Uma resposta

  1. Concordo com você, Luís Fernando, Nelson Rodrigues é gênio e ponto final. Só as crônicas esportivas já bastariam…

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