Arquivos Diários: 21 março, 2012

MARIANNE MOORE, NOTA SOBRE “POETRY” – por régis bonvicino / são paulo.sp

A tradução mais recente de Augusto de Campos é a de um conhecido poema de Marianne Moore, “Poetry”. Qual a necessidade de se traduzir este poema hoje? A pergunta é pertinente, pois a tradução pode ser um caprichoso jogo intelectual ou uma importante intervenção cultural, injetando nas veias da língua de chegada a vitalidade da poesia de saída, para gerar ideias.

Marianne Moore é considerada nos EUA uma autora modernista importante. Ainda assim, não desperta o mesmo interesse de outros pares de sua geração. Sua presença histórica existe, digamos, a despeito de não ter a força de Eliot, Williams ou Stevens. Destaque-se que “Poetry” já obteve versões para o português, anteriores a esta feita por Campos, mas uma razão segura para ele traduzi-lo seria a própria qualidade da tradução. Pois, apesar de tudo, assim o repertório da língua de chegada resultaria enriquecido.

“Poetry” tem várias versões, de distintas dimensões, mas a mais conhecida é a sua redução a um terceto:

In Poetry, 1919, Marianne Moore engages directly in a debate with Tolstoy and William Butler Yeats, quoting Tolstoy’s dislike of business documents and / school-books and Yeats’s condemnation of literalists of / the imagination, before defending the roots of poetry in the literal, businesslike raw material of everyday life, her equivalent of Eliot’svariety and complexity. In its original version (1919), the poem offers a defense of poetry along the lines of Stevens’s later quest for a poem of pure reality. As she revised the poem over the years, however, Moore cut out the lists of possible subjects for poetry and condensed the poem to just its three original opening lines. The condensation represented in a sense a return to the miniature forms of imagism, but now seeming to contain the whole relation of poetry to the social world in just three lines:

I, too, dislike it: there are things that are important beyond all this fiddle.
Reading it, however, with a perfect contempt for it, one discovers in
it after all, a place for the genuine. 
[1]
Esse possível enunciado da relação da poesia com o mundo social ganha, através da redução, uma notória ironia, que marca o primeiro verso: “Eu também não gosto dela…”. Trata-se de um gesto cult afoot da explícita evocação de Baudelaire: “Hypocrite lecteur, – mon semblable, – mon frère!”. Mas o que no gigante francês era desmascaramento em Marianne Moore é um dizer sutil: “Sim, eu também não gosto dela, mas…”. Não há essemasbut, no poema – ao menos, não de modo imediato. Ele aparece um pouco adiante, na forma de howevercontudono entanto… O que confirma a ironia envolvente e fina, que faz seu giro nesse however: “I, too, dislike it. / Reading it, however…”. A concordância inicial não passava de uma forma sedutora de preparar a discordância com o frontal “hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère”:

In her well-known poem, Poetry, Miss Moore begins, I too, dislike it. This line has been interpreted as ironic, as an attempt to disarm, or as evidence that she practices her art only half-seriously. Quite obviously, however, her reasoning is serious. [2]

Além de sutil e irônica no tom, a linguagem de Moore é natural e coloquial na sintaxe, o que combina com a ideia de envolver, de pactuar com o leitor.

Nada há disso, ao que parece, na versão de Augusto de Campos. Nem a ironia e o coloquialismo, que tentam capturar a atenção do leitor para uma arte que “contain the whole relation of poetry to the social world”. Tudo é perdido pela hipérbole semântica: “Eu também a abomino”. Abominar é “ter horror, detestar, execrar, odiar”. O que isso tem a ver com o simples desgosto contido nesse dislikeDislike pode também significar detestar, odiar, execrar, mas esses significados não estão autorizados pelo contexto do poema de Moore. O que explica essa escolha, ainda que não a justifique, é a opção imprópria por uma rima perfeita com “genuíno” no terceiro verso:

Eu também a abomino.
Lendo-a, porém, com total desdém, a gente des-
cobre ali, afinal, um lugar para o genuíno.
A dicção e a sonoridade de Marianne Moore são elegantes (talvez, elegantes demais): “I, too, dislike it./ Reading it, however, with a perfect contempt for it…”. Augusto de Campos, no entanto, impõe-lhe um ritmo entrecortado, além de comprometido por encontros e destaques vocálicos abertos, em eco, que absolutamente não existem no original:

Eu também a abomino [ah ah]
Lendo-a [ah], porém, com total [au] desdém, a [ah] gente des-
cobre ali [ah], afinal [ah au], um lugar para [ah ah] o genuíno.

Notar que o corte em descobrir, “des-/cobrir”, além de inexistente em “Poetry”, pretende realçar a duplicidade de descobrir e ocultar, um duplo sentido cansado e óbvio, verdadeira malversação do original.  “One” significa “alguém”. Pode igualmente significar “a gente”, mas, Moore diz, com simplicidade,  o seguinte: “o leitor, mesmo fazendo pouco-caso da poesia, poderá encontrar nela um “sítio” para o genuíno”, que, no poema, quer dizer o desafetado, o real, a realidade, condenando, deste modo, os poemas decorativos da época. Ela foi uma poeta modernista. “Contempt” significa desprezo orgulhoso, menosprezo, descaso. “Desdém” não está muito autorizado pelo original, embora possível, mas revela a atração do tradutor por rimas e por uma poética velha: “porém” (uma adversativa bacharelesca) e “desdém”, forçado, como interpretação. Tão forçado quanto  “a gente” (“one”), que, aqui, Moore usa, de fato, na acepção de  “descobre-se”:  “contudo, lendo poesia,  mesmo com menosprezo, descobre-se nela, enfim, um lugar para o genuíno”. A tradução de Augusto de Campos mina o sentido original, porque interpõe o verbo “cobrir” na cadeia semântica, quando só existe o verbo descobrir. Vejamos então o que o tradutor pretende encobrir.

Wallace Stevens define o poema de Marianne Moore como investigação da realidade, que, por isso, em sua versão de 1919, enumera, segundo ele, possíveis temas para outros poemas de gume duro. Pode-se então concluir que, ao que tudo indica, Augusto de Campos investiga aqui a investigação alheia. Mas, ao final, oculta a investigação da investigação, que é a tradução do poema, pela ilegibilidade kitsch do travestivemento gráfico de um então poema próprio, pilhado do trabalho alheio (cf.http://www.musarara.com.br/marianne-moore-em-tres-dimensoes). E o que era uma proposta de investigação de gume duro da realidade, a ser investigada pela tradução, torna-se show room tipológico. Um show room paradoxal, que se exibe, que se dá a ver, para ocultar tanto a realidade investigada pelo original como sua própria tradução. (Em 12 de março de 2012)

PARECE FÁCIL, MAS NÃO É! – por olsen jr / rio negrinho.sc


   Cansei da maçaroca. Lembrei de um livro do Salim Miguel ”Sezefredo das Neves, poeta”, que começa com o narrador afirmando que recebeu um “original” para ser lido mais tarde e que o apelidou logo de “a maçaroca”.

A maçaroca, no meu caso, é constituída de uma série de anotações feitas por aí e guardadas em um dos bolsos da calça. As calças mudam e as tais anotações continuam se amontoando sem que tome uma providência. São ideias para uma crônica, um conto, um dito espirituoso feito na hora apropriada, uma frase que capta um momento bem humorado, enfim, algo que pode ser trabalhado posteriormente. O suporte para tais anotações pode ser um guardanapo, um extrato bancário, um comprovante da medida de peso/altura de uma farmácia, uma nota de compra, um ticket de supermercado ou de posto de gasolina, o verso de um cartão de visitas, e se não tiver nada, a palma da mão também serve.

Hoje peguei aquela papelada toda e disse: chega! Só tomei a iniciativa, entretanto, quando um amigo me viu deixar cair tudo quando fui pagar o café no bar… Ele indagou “que maçaroca é essa?”.

Well, é de assombrar como se parte de coisinhas simples para se construir uma obra.

Muitas vezes é só um lembrete mesmo: “policial Henrique (livro)”… Lembrei que fui socorrido por um policial num acidente de carro. Quando soube que era um escritor disse que gostava muito de ler e eu prometi um livro. Na hora não tinha nenhum. O bilhete deve estar a uns quatro anos passando de bolso em bolso sem que cumpra com o prometido, vou fazer isso hoje; um outro diz: “filme do Cantinflas/ajudante de circo/pesos”, trata-se do comediante Mário Moreno, ele fazia o papel do ajudante, a atração principal era um fisioculturista (vestido com pele de tigre) que levantava vários artefatos em que estavam escritos em cada um o “seu” peso (150kg, 200kg,) e depois da encenação, o Cantinflas entrava e pegava todos eles com uma das mãos (eram de isopor) e o cinema vinha a baixo de riso, lembro a propósito de um colega de ginásio que assistia ao filme na cadeira de trás da minha e passava o tempo todo cantarolando a música “Leva eu Sodade”, um dos versos que dizia  “Oi leva eu…  eu também quero ir”… Dos “Cantores de Ébano” que fez sucesso na década de 1960… No outro lado do papel, um lembrete: “Eliane & Elias/ Piano” seguido de um número de telefone para contato… Cenas que poderiam integrar uma obra de ficção.

Numa comanda de hotel indicando como chegar a feijoada do Bar do Zé em Joinville, estava o texto “A mesma “coisa” feita de outro jeito, tem novo sentido”. Não me lembro do que se tratava, a “mesma coisa” para mim sempre foi um caminhão carregado de melancias, mas depois que os japoneses “criaram” a melancia quadrada (vi isso na internet) nem se pode usar mais a tal expressão.

Tinha elucubrações bem feitas e que só estavam ali porque não tivera disposição para transportá-las para um caderno onde faço tais registros, por exemplo, “Procuro ignorar os elogios e as críticas que fazem ao meu trabalho porque ambos são mendigos que me pedem esmolas: o elogio de minha vaidade e a crítica de minha ira. Tanto um como outro me empobrece”.

O meu favorito era um que afirmava “Os homens de talento, digo, os gênios, deveriam ser mais pacientes, afinal nós temos a eternidade pela frente”…

Tudo isso parece afetação, mas o que é que se pode esperar de alguém que pensa o dia inteiro? Claro, tinha os bilhetes que me faziam cair na realidade, esse que está em minhas mãos agora, para ilustrar, dizia “Pagar a ótica (R$175,00) no dia10”, consulto o calendário e já estamos no dia 22… O que “eles” iriam pensar do meu atraso? Talvez, na melhor das hipóteses: “paciência, os filósofos são distraídos mesmo, não são?”.

 

NOTAS:

 

A música poderia ser essa, “In the Summertime”, do Mungo Jerry…

Grupo inglês formado por Ray Dorset, Colin Earl, Paul King e Mike Cole…

http://www.youtube.com/watch?v=zc9wIzi96_E&feature=list_related&playnext=1&list=AVGxdCwVVULXdYIqsgEqjJnN0mDqo59BJK

Fizeram sua estreia no início dos anos 1970 no Festival Hollywood, Newcastle-Under-Lyme em Staffcorshire… A música “In the Summertime” foi direto ao topo, foi a número um em 26 países ao redor do mundo…

O nome do Grupo foi inspirado no poema “Mungojerrie” , de T. S. Eliott…

Segundo Joseph Murell no livro “O Livro dos Discos de Ouro” (1978) a “Mungomania” foi possivelmente o mais importante fenômeno pop a chegar a Grã-Bretanha desde os Beatles…