Vinicius de Moraes, toda a poesia – por marcelo sandmann / são paulo.sp

Manuel Bandeira, apreciando Cinco elegias (1943), foi lapidar a respeito do autor: “Porque ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e finalmente, homem bem do seu tempo, a liberdade, a licença, o esplêndido cinismo dos modernos.” Já na “Advertência” que abre sua Antologia poética (1954), Vinicius propunha a existência de duas fases na sua poesia: uma primeira, “transcendental, frequentemente mística, resultante de sua fase cristã”; e uma seguinte, “de aproximação do mundo material, com a difícil mas consistente repulsa ao idealismo dos primeiros anos”. De uma forma ou de outra, essas duas considerações ainda hoje conformam boa parte dos juízos da crítica a respeito dos desenvolvimentos de sua obra.

Vinicius de Moraes estréia na literatura com O caminho para a distância, em 1933, sob o influxo do catolicismo militante de Jackson de Figueiredo, Tristão de Athayde e Octavio de Faria. Predominam os poemas em versos longos e livres, à maneira de versículos bíblicos, de tom elevado e solene, às voltas com os temas do espiritualismo cristão caro àqueles escritores. Trata-se de uma poesia tributária da herança simbolista, programaticamente distante do humor e da irreverência do Modernismo de 1922. Os livros seguintes, Forma e exegese(1935) e Ariana, a mulher (1936), seguem, em linhas gerais, o mesmo caminho.

Uma transformação evidente se processa a partir de Novos poemas (1938) e se consolida com Poemas, sonetos e baladas (1946), Antologia poética (1954) eNovos poemas II (1959). A poesia torna-se formalmente multifacetada, com textos em versos livres e outros com base em metros e formas da tradição (como o decassílabo e a redondilha, a balada e o soneto). Ao mesmo tempo em que maneja os recursos expressivos da poesia moderna, torna-se um renovador dos antigos modos de poetar. Em Livro de sonetos (1957), reúne o que de melhor produziu dentro dessa forma, da qual se tornou um dos principais cultores em língua portuguesa no século XX. Na poesia madura de Vinicius de Moraes, o tom elevado dos primeiros livros convive com uma linguagem mais despojada e coloquial, que soube aprender as lições de Bandeira, Mário de Andrade e Drummond. São desses anos alguns de seus poemas mais conhecidos, como “Soneto de Fidelidade”, “Balada do Mangue”, “O Dia da Criação”, “Soneto de Separação”, “Pátria Minha”, “Poética”, “Receita de Mulher” e “O Operário em Construção”.

A partir de meados dos anos 50, a poesia passa a dividir com a música popular as energias criativas do autor. Na literatura, publica Para viver um grande amor(1962), que reúne crônicas e poemas; Para uma menina com uma flor (1966), com crônicas; A arca de Noé (1970), com poemas voltados ao público infantil; e outros volumes de poesia, em edições de pequena tiragem e mais restrita circulação, como História natural de Pablo Neruda (1974), A casa (1975) e Um signo, uma mulher (1975). Na música, paralelamente, Vinicius de Moraes projeta-se como o grande letrista da Bossa Nova e nome referencial da MPB dos anos 60 e 70, fazendo a ponte entre a poesia do livro e a letra de canção. A partir de Vinicius, compositores mais jovens, como Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, adentram o campo literário e passam a ser percebidos como “poetas” pelas novas gerações. A música popular atinge um estatuto de igualdade em relação à produção cultural mais crítica e criativa do país, num reconhecimento que chega ao meio acadêmico. A partir de Vinicius, e assim como ele, outros poetas vão transitar com desenvoltura entre o poema e a letra de música, como Torquato Neto, Cacaso, Wally Salomão, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Antonio Cicero e Arnaldo Antunes, numa tendência viva até os dias de hoje.

Toda a poesia de Vinicius de Moraes na Brasiliana USP:

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