Arquivos Mensais: abril \30\UTC 2012

A TRIGÉSIMA MULHER – de zuleika dos reis / são paulo.sp

A TRIGÉSIMA MULHER

                                   Zuleika dos Reis

a morte

em  cada xícara

a face sem face

da trigésima mulher

árvore ave canção

sussurro das coisas mortas

em vão

a trigésima mulher

a derradeira

estrelas que estalam

noite que se quebra

cai

fragmentos

de nós

a dançar

ao redor de nós

ao redor de nós

as palavras sonhadas

as palavras sagradas

a morte que te quer

esta rival

teu grito

em mim

meu grito

em ti

os tempos de nós

que tento segurar

as xícaras

a porcelana da tarde

a tarde

vaso a se partir

o meu amor

partido

em ti

em ti

em mim

cacos de nós

o primeiro homem

a trigésima mulher

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números escritos ( I ) – por omar de la roca / são paulo.sp

Pus me a cismar…
Quer dizer,estava pensando na geometria das letras.Redondas como
círculos,angulosas como triangulos,retas como retas.E na aritmética
das palavras que vão somando as letras,os sentidos,eta palavrinha
dificil, sentidos.
Na matemática das sentenças, em sua densidade fluída,escorrendo para
dentro de nós, devagar ou rápido,de acordo com nosso entendimento,com
nossa vontade,com
nossa sede.
Na inexata exatidão das palavras,na precisão,necessidade,premência,com que
vem forçando passagem para se exprimir,nas expressões que vão se
formando e a gente nem sabe de onde vem.Só sabe que vem.
Como arteiras gotas de chuva,que vão se acumulando na calha esperando
alguem passar,para brincar de pega pega.E elas sempre pegam.
Assim como as palavras,que vão se acumulando na calha do pensamento
esperando para despencar sobre algum incauto.Que possa lhes mostrar o
brilho.Ou melhor,para mostrarem a ele o seu brilho.
Ou como as palavras,suspensas em galhos pesados,como frutas
aduras,esperando a brisa para cantarem com ela,enquanto aguardam
redondas pela colheita.Algumas na certa irão passar do ponto e
cairão.Quase sempre aquelas que não valhem a pena a colheita.Mas
sempre é bom dar uma olhada no conjunto que fica no chão.As vezes
formam figuras geometricas assimétricas,que valem um segundo olhar.As
vezes deixamos que os insetos as comam por serem indigestas ou
assustadoras.As vezes precisamos delas e as pegamos do chão,passamos
um paninho e colamos aqui ou ali para dar um sentido ou para esconder
outros.
Difícil esta profissão de matemático.Dar sentido a palavras sem
sentido algum.Ou lhes dar um sentido oculto,que revele tudo mas
esconda tudo também.Ou fazer apenas somas simples,que a todos
agradem,sem compromisso.  Ou então subir ate o alto da escada e ir
forçando pela garganta abaixo ( dos outros ) seus pensamentos
obtusos.( É, voce acertou,peguei obtuso do chão ha dois minutos
atrás).E me ocorreu mais uma soma.Uma soma ética como Aritmética,exata
como Humana.Somos todos produtos de somas diversas,multiplicações
complexas,divisões internas ( ate a sétima casa decimal ),e subtrações
frequentes.Normalmente a favor dos outros.Esquecendo do numero Pi
primordial que somos nos mesmos.Pares ou primos,seguimos a linha do
caderno,singulares ou plurais,vamos escrevendo para a frente.Ou para
trás.Ou de cima para baixo.Ou de tras pra frente.Mas sempre nos
expressando,calculando,acertando,errando. Com a borracha bem a mão,
para quando for necessário e possível.Para quando valer a pena.

O MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL – por almandrade / slavador.ba

O  MUSEU  E  SUA  FUNÇÃO  CULTURAL

O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua
memória, colecionando artefatos. Ele tem acesso ao seu passado através
de relatos ou depoimentos de testemunhas oculares, textos, enfim
documentos. Quando se defronta com a coleção de imagens e objetos,

particularidades da vida social, signos que habitam um museu, caverna
moderna onde o homem urbano fixa nas paredes os enigmas de sua
passagem no tempo ou no mundo. Com isso, não quero dizer que o museu é
um caminho em direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos
entre passado, presente e futuro. Olhar o passado é “estabelecer uma
continuidade entre o que aparentemente deixou de ser e o que ainda vai
ser”, (Frederico Morais).

Um abrigo do velho e do novo. Mais do que uma instituição de festas e
inaugurações de exposições, ele tem um papel cultural importante, além
de abrigar os registros do tempo, manifestações culturais de uma
região, país ou de um determinado povo, objetos que testemunham o
trabalho humano, é um veículo a serviço do conhecimento, da educação e
da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Os
museus são instituições com tipologias diferentes que guardam acervos,
peças integrantes da memória cultural de uma cidade, de um país.  O
ato de colecionar foi uma das ações que estimulou o seu surgimento e a
própria coleção vai educando o olhar, impondo exigências, critérios,
qualidades, exigindo espaços adequados etc. e a necessidade de ser
vista. Vai se constituindo num patrimônio que precisa ser preservado.
Seu destino é o museu.

2006 foi o ano nacional de museus determinado pelo Ministério da
Cultura. Como pensar os museus e sua função cultural nos tempos
difíceis que estamos vivendo? Eles passam por problemas como: falta de
recursos, de profissionais especializados, sem instalações adequadas,
enfim falta uma política pública para os museus que os vejam não como
dispositivos da indústria de entretenimentos. Mas se a própria
universidade, o lugar da produção de conhecimento, vem perdendo a
intimidade com a reflexão e se transformado numa fábrica de
mão-de-obra especializada, o que podemos esperar de uma instituição
museológica, neste contexto?  Para um pré-socrático chamado
Parmênides: saber é um discernir, para Sócrates e Platão (alegoria da
caverna), um discernir sobre o que é real e sua sombra projetada na
parede da caverna. Aprendemos com Espinosa que se não há pensamento,
não há liberdade. O homem é escravo do que não conhece. Esquecemos os
gregos, desprezamos a filosofia e o exercício da reflexão e estamos
construindo uma cultura descartável. Não há mais questão cultural em
jogo, mas um jogo de interesses da sociedade do espetáculo e da
indústria cultural.

Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço
quase que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana,
interesses alheios comprometeram o funcionamento das instituições
culturais. A cidade precisa de tecnologias, partidos políticos,
técnicos, políticos, empresários, especialistas em áreas diversas,
etc., mas acima de tudo, precisa de uma tradição cultural e do
exercício da cidadania, para que ela própria signifique. Um museu
guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social, uma
situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural.
Tudo que nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a
memória e a reflexão. Sua programação não deveria ser decidida por
patrocinadores que tem como objetivo final vender produtos muitas
vezes até desnecessários, e circular uma imagem de que está
contribuindo para o “desenvolvimento cultural”.

Estas instituições não são fantasmas do mundo civilizado alimentadas
pelo olhar apressado das câmaras fotográficas do turista curioso ou do
olhar atraente e mundano do público das vernissages. Estão a serviço
do pensamento crítico da sociedade e sua história, portanto um
laboratório reservado a estudos, experimentações, integrando
produtores e consumidores de produtos culturais.  Vinculadas a um
saber específico, que toda comunidade tem direito ao seu acesso, mas
na prática são espaços restritivos do ponto de vista intelectual,
principalmente em cidades sem uma “tradição cultural museográfica”.

Sua localização geográfica é fundamental no sentido de facilitar o
acesso de estudantes, curiosos, turistas, do público em geral que lida
com as diversas formas de saber. Em cidades como Salvador, um museu
poderia ser um agente de contribuição na revitalização do centro da
cidade, quando ele está próximo dos serviços urbanos oferecidos, como
sistema de transportes coletivos e segurança. Bom para a cidade e bom
para o museu. É preciso inventar soluções compatíveis e possíveis com
os poucos recursos disponíveis, para garantir sua vitalidade.
O que é visitar um museu? O que se busca nele? Um museu é um centro de
informação e reflexão, onde o homem se reencontra com as possíveis
invenções da estética, a história e a memória. Seu conceito foi
ampliado e renovado nos fins do século XVIII, com o advento da
revolução francesa. Mas sem um projeto cultural que valorize seu
próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles se
transformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um
lugar que atrai olhares dispersos, sem interesses culturais.

Sem recursos financeiros e depois que a responsabilidade cultural foi
transferida para a iniciativa privada, que tem como principal critério
de seus patrocínios o impacto na mídia, muitos museus vêm se
transformando em instituições de entretenimento para atrair grandes
públicos consumidores de subprodutos culturais, quem sabe também
futuros consumidores das marcas que patrocinam os seus eventos.

Os museus, em particular os de arte, ultrapassaram a simples função de
guardar e preservar bens culturais e assumiram várias tarefas e outras
funções como o ensino livre da arte, foram equipados com bibliotecas,
auditórios para debates, conferências, cinemateca. Umas das principais
vanguardas brasileiras na arte, o Neo-Concretismo surgiu praticamente
no curso do prof. Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro. As oficinas de arte Museu de Arte Moderna da Bahia vêm
prestando um trabalho social e educativo na formação de artistas e
público. A prática museológica tende a se ampliar e integrar o
desenvolvimento urbano, seu objeto de estudo diz respeito  também à
paisagem urbana, ruas, praças, quarteirões. “Museu é o mundo; é a
experiência cotidiana…”, (Hélio Oiticica). As cidades,
principalmente as cidades históricas são espaços museográficos.

Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

EM TORNO DAS 1001 NOITES – por jorge lescano / são paulo.sp

Em torno das 1001 Noites

© Jorge Lescano

 

 

 

Dahlmann había conseguido, esa tarde,

un ejemplar descabalado de las Mil y Una

Noches de Weil […] algo en la oscuridad

le rozó la frente, ¿un murciélago, un pájaro?

[…] la mano que se pasó por la frente salió

roja de sangre.

Jorge Luís Borges: El Sur

Em aula sobre as 1001 Noites transmitida pela televisão, o professor de língua e literatura árabe Mamede Mustafá Jarouche, recontou um episódio narrado por Jorge Luís Borges em vários dos seus textos. Trata-se de um acidente pessoal que ele relacionará com aquele livro. O episódio teria acontecido na infância de Borges. Nesta versão Georgie, como era chamado em família, havia corrido dentro de casa para receber uma nova edição das 1001 Noites que acabava de chegar pelo correio; na sua afobação não teria visto o batente de uma janela recém pintada, chocando a testa contra ela. O acidente teria acelerado o processo de cegueira que, nas palavras do próprio Borges, foi um lento crepúsculo que durou mais de meio século.

O fato é verídico, porém ocorreu de modo diverso.

 

Foi na véspera do Natal de 1938 – o mesmo ano em que meu pai morreu – que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Eu me esfolara no batente de uma janela aberta, recém pintada. Apesar do tratamento de urgência a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas ao hospital para uma operação imediata, declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, completamente sem o saber, entre a vida e a morte. (Muito depois iria escrever sobre isso no meu conto O Sul.) –  (Jorge Luís Borges: Perfis, Um ensaio autobiográfico; Porto Alegre, Globo, 1971; p. 106.)

Naquela data, Borges contava 39 anos e já havia sofrido várias cirurgias nos olhos; em algum lugar fala de oito operações. Se o fato não acelerou a cegueira, propiciou a Borges o início definitivo de sua carreira de ficcionista. O acidente fez com que ele temesse pela sua capacidade mental. Pierre Menard, Autor do Quixote, foi o desafio que se propôs para testar esta capacidade. Não devemos confiar demais no seu depoimento, que não inclui Aproximação a Almotásim, nem o as 1001 Noites; o livro é acréscimo posterior, um modo de aproximar a experiência à sua poética do fantástico. Sintomaticamente, no entanto, aqueles dois textos serão publicados no mesmo volume, Jardín de senderos que se bifurcan, em 1941. Já conhecemos os resultados do Pierre Menard: una técnica nueva (d)el arte detenido y rudimentario de la lectura.

Jorge Luís Borges, em hoje célebre citação, afirmou que há uma noite em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história, dessa forma chegará a vez em que outra Shahrazad narrará a história de uma Shahrazad que narra a história do rei Shahriar, e assim indefinidamente, à maneira das bonecas russas. O original diz assim:

 

¿No es portentoso que en la noche 602 el rey Shahriar oiga de boca de la reina su propia historia? A imitación del marco general, un cuento suele contener otros cuentos, de extensión no menor: escenas dentro de la escena como en la tragedia de Hamlet, elevaciones a potencia del sueño. (Jorge Luís Borges: Prosa Completa; vol. 1; Barcelona, Bruguera, 1980; p. 390)

 

Eu, como todos os leitores, fui buscar a tal noite, que, naturalmente, não encontrei. Repito as palavras do Professor Jarouche porque já antes havia realizado seu gesto. Durante algum tempo atribui minha frustração à qualidade das traduções consultadas, soube depois que a tal noite seria uma “invenção” de Borges. Interpretei o fato como sua contribuição ao livro, à maneira de Galland, Burton e outros tradutores, segundo ele mesmo aponta no artigo Os Tradutores das 1001 Noites. A respeito desta investigação sou menos otimista que o Prof. Jarouche: não acredito que todos os leitores fossem tão minuciosos. No conto El Jardín de senderos que se bifurcan, o sinólogo Albert  diz:

 

Recordé también esa noche que está en el centro de las 1001 Noches, cuando la reina Shahrazad (por una mágica distracción del copista) se pone a referir textualmente la historia de las 1001 Noches, con riesgo de llegar otra vez a la noche en que la refiere, y así hasta lo infinito. (op. cit. p.470)

Sendo um personagem de ficção, Albert tem o direito de lembrar um fato que não se encontra na obra real. Ou como Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck, citada por Júlio P. Pinto (Uma Memória do Mundo, S.P. Estação Liberdade, 1998), estaria legitimando a criação borgiana sem desconfiar da armadilha?

A este respeito, o Professor Jarouche revela que essa noite, aceita, como vimos, por alguns críticos como real e não criação ou acréscimo do autor argentino – e simultaneamente  questionada por outros críticos -, existe. Afirmou que na edição Breslau, que ninguém lê e provavelmente nem Borges conhecia, essa noite tem o número 999. Borges adivinhou essa noite? Não. No artigo já citado, tratando de uma versão alemã de 1895-1897, fornecida por Max Henning, arabista de Leipzig e tradutor do Curán (sic), à Universalbibliothek de Philipp Reclam, ele escreve:

Las ediciones de Bulak  y Breslau están representadas, amén de los manuscritos de Zotenberg y de las Noches Suplementarias de Burton. (op. cit., p. 388)

Portanto, Borges conhecia a edição de Breslau. Sua contribuição estaria então no deslocamento do episódio, situando-o no entremeio do livro, alterando, assim, a arte estática da leitura.

A história pessoal de Jean Antoine Galland, leitor de línguas orientais de Luis XIV, a vida venturosa do capitão Sir Richard Burton, e especialmente a participação criativa do famigerado Hanna (pois ele foi atingido pela fama através de sua colaboração com Galland), deveriam ser acrescidas ao corpo da narrativa de Shahrazad. De algum modo quer me parecer que isto já aconteceu, de forma não oficial. De fato, com cada tradução estas histórias vêm à tona.

O sírio Hanna “inventa” contos que não constavam no livro “original” (o manuscrito árabe que Galland havia adquirido em Istambul). Isto não invalida sua versão, antes, deveria legitimá-la. Hanna é uma espécie de rawi (rapsodo) que, pela sua função, tem o dever de interessar seus ouvintes, e para tal utiliza repertório próprio.

A controvérsia faz sentido no contexto do século XIX. A imprensa diária (a letra impressa) começa a impor sua autoridade sobre a expressão oral, a verdade tem que passar pela gráfica. O jornalismo inicia seu pontificado. A partir de então esta nova força, “independente”, será um divisor de águas. O jornalista passa a ser o árbitro do que seja verdade histórica, descartando os fatos que não se enquadrem no seu programa pré-estabelecido. É verdade que se as discussões transcorrem entre especialistas, a publicidade dos confrontos fica por conta da imprensa, que cada vez mais se arroga o direito de julgar os fatos, quando deveria limitar-se a noticiá-los.

Galland-Hanna serão acusados de falsificar um original desconhecido até aquele momento, e mais tarde questionado por diversos leitores. Este enredo secular não mereceria fazer parte da leitura das 1001 Noites?

A respeito do título, alguém sugeriu outra leitura. Livro das mil noites e uma noite: as mil noites em que Shahrazad narra suas histórias (os árabes preferem contar histórias à noite) mais a noite 999, que corresponderia à noite do leitor (com cada leitor o livro recomeça). Admitindo tal hipótese, o título poderia ser interpretado assim: Livro das mil noites e esta noite.

Para finalizar, o Professor Jarouche confessou que há vários anos vinha postergando a tradução do livro. A superstição rege sua atitude, solidária com a tradição da obra. Narrou os casos de editores e tradutores que não chegaram a completar a tarefa, interrompida pela morte ou por algum acidente, como o de Borges. Haveria uma espécie de fatalidade relacionando estreitamente a vida do livro à daqueles que se ocupam de sua divulgação. O Professor Jarouche, então, compreende que o livro é um talismã. Isto eu deduzo do seu comportamento: como Shahrazad, o tradutor não evita o trabalho para esquivar a morte, antes o assume, postergando-o, porém. A equação é digna do livro: adiar a tradução é adiar a morte.

Nota carnavalesca do Professor Mamede Mustafá Jarouche:

Caro Jorge:

Somente hoje, com muitíssimo atraso, pude ler o seu texto, do qual gostei muito. As aulas na Cultura são de 2002 — e, na época, eu citava de oitiva a história do acidente com Borges. Foi somente depois que li o texto de Perfis. Quanto à “troca” que Borges operou na localização da noite, não tinha me ocorrido que ele tivesse consultado a tradução de Burton, da qual só tenho o primeiro volume. Não sei se nos volumes suplementares de sua tradução ele inclui a versão final da edição de Breslau. É possível.

Enfim, é isso. Agradeço-lhe o envio de seu excelente e arguto texto, e mais uma vez me desculpo por somente ter podido ler hoje, nesta terça de carnaval.

Grande abraço,

Mamede.

(28/02/2006)

P.S.: A nota inclui um mal-entendido que poderia ser acrescentado à história paralela à narrativa de Shahrazad. Deixo ao meu leitor, mezcla rara de Museta y de  Schaunard (cf. José González Castillo: Griseta, tango, 1924) a tarefa de corrigi-lo.

O poeta MANOEL de ANDRADE escreve sobre sua resistente viagem pela América Latina no livro: “O BARDO ERRANTE” / curitiba.pr

Na década de 60 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras. O poeta Manoel de Andrade trilhou esse venturoso tempo pelos caminhos da América Latina, identificado com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente. Neste artigo ele faz uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente,  as utopias desterradas. Fala-nos da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Contudo, nesse impasse,  sua alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do  tempo nos reconduza a um amanhecer , aos territórios  da esperança e a um mundo possível e melhor.

 

 

 

NOS RASTROS DA UTOPIA (*)… (capitulo)

 

                                                              Manoel de Andrade

 

                                                                                                            Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

                                                                                                                   Mário Quintana

 

Eram os últimos dias de 1969 e, nas conversas em Lima, discutíamos a herança que recebéramos dos “anos rebeldes”. A década de 60 se iniciara com um exército murando a liberdade de Berlím, mas terminara com três astronautas abrindo os caminhos do universo. Naqueles anos o mundo comovera-se com a mensagem de paz e de amor, na imagem sacrificada de Martin Luther King, e conhecera o real significado da resistência, na figura irretocável de Ho Chi Minh. A revolta de Nanterre mobilizara os estudantes do mundo inteiro e, ao longo do
continente, aportávamos em 1970 na crista de uma poderosa onda libertária, cujas espumas espraiavam o exemplo de Che Guevara. Vivíamos num tempo sem liberalismo e sem globalização e Cuba surgia como uma alternativa socialista e referência da luta revolucionária. O mundo era uma alquimia de ideias e a América Latina seu melhor laboratório. A nova história, no contexto continental, era a de uma só nação, de um só povo, latino e “indo-americano”  — na expressão de Mariátegui. A esperança era uma bandeira hasteada no coração de todos os que ousavam sonhar com uma sociedade justa e fraterna, fossem eles um guerrilheiro, um intelectual engajado ou integrasse uma vanguarda estudantil. Nossa ancestralidade cultural – manchada pela violência colonial e por tantos mártires na memória sangrenta de cinco séculos – era redescoberta como uma fonte trazendo novas águas para interpretar a história. Nossos sonhos navegavam no misterioso veleiro do tempo, enfunado pelos ventos da fé revolucionária, carregado de hinos e canções libertárias, levando a mãe-terra e as sementes para os deserdados, carregado com as emoções e o encanto da solidariedade e rumando à sociedade que sonhávamos.

Nós, os poetas, expressávamo-nos pelos líricos rastros dessa ansiada utopia, cantando as primícias de um novo mundo e pressentindo as luzes daquele imenso amanhecer. Transitávamos na rota das estrelas, em busca de um porto no horizonte, em busca de um homem novo, de uma terra prometida a ser entrevista nos primeiros clarões da madrugada. Havia uma perseverante certeza no amanhã e muitos caíram lutando com essa crença tatuada na alma, embora os sobreviventes nunca tenham chegado a contemplar essa alvorada.

Nos anos 60, ser jovem significava estar comprometido com uma fé, com uma causa social e, naqueles passos da história, era um desconforto, perante o grupo, não ter um engajamento político e, pior ainda, ser de “direita”. Na juventude daqueles anos, ser um “reacionário” era um estigma. Essa era a palavra com que nós, da “esquerda”, desfazíamos ideologicamente os adversários da “direita” e até os dogmáticos do Partidão, por quem éramos chamados de revisionistas. Por outro lado, falava-se de um “Poder Jovem”. Mas que “poder jovem” era aquele, maquiado com a credibilidade das filosofias orientais se esse poder não estivesse comprometido com o significado social da liberdade e da justiça? A ideologia marxista não nos permitia confundir os ideais inconsequentes da contracultura com o ideário daqueles que estavam dispostos a dar a vida pela construção de uma nova sociedade. Era como se houvesse, na América Latina, duas Mecas para a juventude: uma em Berkeley e outra em Cuba.

Se a palavra “esquerda”, perante as benesses do poder, foi perdendo sua transparência ideológica, é imprescindível não se perder o significado histórico dessa dicotomia, já que na sua origem, durante a Revolução Francesa, o clero e a nobreza ficavam à direita do rei e os representantes do povo a sua esquerda. Passados duzentos e vinte anos, todos sabemos qual o lado que continua defendendo as causas sociais. Os princípios são intocáveis mas não as ideias. É razoável, portanto, que possamos resignificá-las redefinindo as cores de nossa antiga bandeira, assim como reconhecer os equívocos e os defeitos congênitos da propria  “esquerda”.

          Os anos 60, ricos pela geração de novas teses sociais, por filosofias que apontavam para o progresso das relações humanas, não mostrariam, no gosto amargo dos frutos, o doce sabor semeado pela esperança. Os grandes sonhos políticos foram desmobilizados por interesses ideológicos equivocados, pelo oportunismo eleitoral e pela sedução do poder. Os sonhos alimentados pela contracultura, inicialmente legitimados pelas postulações contra os males do capitalismo, perderam-se nas perigosas síndromes da ilusão propiciada pelas drogas, pelos desencantos da sexualidade e pela posterior dependência de tecnologias alienantes. Sonhos e esperanças  acabaram desaguando neste inquietante “mar de sargaços” em que se transformou o mundo, onde navegam os corsários da ambição e da crueldade.

          Mas também havia jovens que não vivenciaram essa sublime  emoção de indignar-se com as injustiças. Naqueles anos, numa outra linha de reações,  uma elitizada coluna de jovens marchava contra  tudo pelo que lutávamos. Conheci essas sinistras figuras nas ruas de Curitiba. Porta-vozes da alta hierarquia da Igreja, desfilavam altaneiras, com seus paramentos medievais, nos primeiros anos da ditadura no Brasil, defendendo o regime militar e os interesses conservadores da oligarquia que representavam com os estandartes da “Tradição, Família e Propriedade”. Vi também seus parceiros, no Chile, liderados por Maximiano Griffin Ríos, em 1969, durante o governo de Eduardo Frei, portando, nos panos ao vento com o emblema da “Fiducia”, o ódio social, o ressentimento contra um cristianismo que abraçava as causas populares e, sobretudo, plantando as sementes da conspiração que derrubaria, com outros aliados sanguinários, o governo legítimo de Salvador Allende.

          A partir da década de70 aascensão do capitalismo financeiro, sob o disfarce de globalização, começou a estender as suas redes e a ganhar, com armas invencíveis, essa nova e imensa guerra mundial, avançando com sua voracidade, desterrando os valores humanos, gerando multidões de excluídos,  triturando nossas utopias, transformando o planeta num supermercado e descaracterizando a própria  cultura com atraentes modelos de um consumismo supérfluo e descartável.

Ainda que haja, no Brasil, muitos jovens “conectados”, preocupados com a ética, com as fronteiras alarmantes da corrupção, com a redenção ambiental e com belos projetos comunitários, toda aquela geração foi vítima da nova ordem social imposta ao longo dos vinte e um anos de ditadura militar, sendo induzida a “educar-se” pela cartilha da Educação Moral e Cívica, focada na obediência, passividade, no anti-comunismo e num patrioterismo doentio. Vítimas de todo um processo subliminar de moldagem comportamental, os jovens que abdicaram da consciência crítica foram transformados em meros consumidores.  Formam parte da juventude apressada dos nossos dias, descomprometida com os problemas sociais, imediatista, avessos à leitura,  ou derrotada pelo vício. Essa é a face trágica de um segmento da juventude contemporânea: jovens como meras marionetes de um mercado global de ilusões, aculturados pelas novas midias, homogeneizados desde os primeiros anos para consumir, abdicando quase sempre da análise dos fatos e do estágio promissor da cidadania.

          Os precursores involuntários da pós-modernidade – leia-se Nietzsche e Heidegger – e os seus mais ilustres ideólogos, na filosofia e na arte, aliaram-se ao trabalho posterior de demolição comandado pela globalização. Reagindo aos paradigmas orgulhosos e dogmáticos da ciência mecanicista do século XIX, os intelectuais niilistas apostaram na reação generalizada da descrença nos valores humanos, desconstruindo o significado da verdade, da beleza e da transcendência do humanismo na tradição ocidental; anunciando uma liberdade sem a noção do dever; desrespeitando os arquétipos da religiosidade; desqualificando a história; invertendo a estética da arte ao despojá-la da estesia e do encanto  – (e se há algum mérito nos exageros da arte moderna é o de retratar o perfil catastrófico do mundo contemporâneo); retirando a melodia da música,  proclamando a irreverência  e ironizando os ideais e o significado da utopia. Sobre esse termo, tão desfigurado em nossos dias, certa vez estudantes colombianos fizeram ao celebrado cineasta argentino Fernando Birri, a seguinte pergunta: Para que serve a utopia? Ele respondeu que a utopia é como a linha do horizonte, está sempre a nossa frente e por isso nunca podemos alcançá-la. Se andamos dez, vinte, cem passos, ela sempre estará adiante de nós. Se a buscamos, ela se afasta. Para que serve a utopia? perguntou ele, respondendo: Para fazer-nos caminhar…

 

Embora  quase tudo tenha sido desconstruído, nossos ideais desterrados e a globalização já não nos deixe sonhar e nos insinue a esquecer, é imprescindível acreditar que há uma Fênix entre as cinzas que restaram do mundo pelo qual lutamos. Não abdicamos da esperança, mas reconhecemos que nosso veleiro soçobrou e que seus restos foram bater nas praias melancólicas desses anos. Sobrevivemos quais náufragos num mar de ultrajes e decepções, junto com os destroços das grandes ideologias e com as cruéis aberrações que envergonharam os nossos sonhos ao vermos  o marxismo dogmatizado pelo stalinismo e ao compreendermos porque murchava a “Primavera de Praga”. Sobrevivemos nas lágrimas derramadas sobre as páginas d’O Arquipélago Gulag,  no desencanto de saber a beleza da utopia hegeliana invertida pelo totalitarismo nazista e o conhecimento científico manchado pela explosão atômica.

A contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental, são os novos cavaleiros do mundo apocalíptico que recebemos. Dessas quatro patéticas “figuras”, as três primeiras causaram efeitos desastrosos sobre a cultura – e lá na região andina, minha nova escola naqueles anos, a globalização insinuaria o esquecimento da história e da cultura deparando-se com a luta dos peruanos ante a herança quéchua e a resistência inquebrantável dos bolivianos pela manutenção da cultura aymara  –  e as duas últimas sobre os rumos futuros da humanidade.

Não herdamos somente a decepção, mas uma crônica indignação a despeito de qualquer otimismo. Hoje somos, tão somente, seres comprados nesse grande shopping de negócios e aparências em que se transformou o mundo, herdeiros impotentes de um sonho, vivendo num mundo alienante, distópico e devorado pelas fauces da globalização.

Anos 60 — que ventura ter sido jovem naquele tempo! Lá a realidade estava a poucos passos dos ideais.

Século XXI  — que estranha transição! Para onde vamos? Sem norte, sem porto, sem um amanhecer! Quanta perplexidade, quantos pressentimentos!  Haverá outro mundo, melhor e possível? Sem crueldade, estupidez e promessas mentirosas? São perguntas plurais que pedem respostas plurais. Essa é uma transição sombria balizada pela desventura e o desencanto. É um tempo de antíteses. Esperamos que o próprio Tempo, com sua misteriosa dialética, traga-nos uma regenerada síntese. Nesse impasse restam-nos, contudo, os territórios invioláveis da imaginação e da esperança e para mim um pouco mais: a transcendência, e a grata introspecção nessas memórias.

(*) Este texto é parte de livro que o autor está escrevendo sobre seus anos de auto-exílio, na América Latina.

revista Hispanista.

PAUL McCARTNEY: “Olá, manezinhos. Oi, oi, oi, Floripa”, diz, durante show

foto de guto kuerten.

foto de alvarélio kurossu.

foto de julio cavalheiro.

DIÁRIO DA PROVYNCIA I – por olsen jr / rio negrinho.sc

DIÁRIO DA PROVYNCIA I

 

A IDEOLOGIA (NOSSA) DE CADA UM

 

Nunca escondi de ninguém as influências que tive no meu fazer jornalístico. Acredito que no livro “Confissões De Um Cínico”, elas estão escancaradas.

O editor, e também poeta, Joel Gehlen se deu ao trabalho de computar, diz a propósito da obra: “…Este é um livro radical, implacável, provocativo e vigilante, retrato inequívoco do cronista. Aliás, para um autor que confessa ter recebido todas as influências possíveis, de Gregório de Matos a Bocage; de Swift, Twain, Rabelais, Voltaire, passando por H.L. Mencken, Jorge Jean Nathan, William C. Fields, Ogden Nash, Bernard Shaw, Woody Allen e Art Buchwald até Paulo Francis, bem, não era de se esperar que oferecesse refresco”.

Mas não esqueço o Groucho Marx, Ambrose Bierce, Noël Coward, Aparício Torelly (o Barão de Itararé) de onde todo o humor brasileiro descende, Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) e Millôr Fernandes, onde este termina e o outro começa.

Houve um tempo em que pensei que iria fazer humor.

O casamento entre o humor e a filosofia era algo a ser perseguido. Como disse o Bertrand Russel “O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda”.

Ou, para simplificar, vox populi, perde-se o amigo, mas não a piada.

Estou repassando isso mentalmente enquanto me lembro da reunião de ontem. Foi na casa de um professor universitário de nossa gloriosa UFSC (pronuncia-se em bom manezês, Uféiiisqui – Universidade Federal de Santa Catarina) e foi um convescote interessante. Uma tertúlia de indivíduos – ditos de esquerda – o que se depreendia pelo jargão nas conversas. Não fosse pelo fato de conhecê-los daqui e dali, diria estar em um museu. A palavra que mais ouvi foi “burguesia”, dita no sentido pejorativo de uma classe a ser extirpada do planeta. Curioso é que estávamos fazendo um churrasco onde se observava além do trivial, uma ovelhinha uruguaia, picanha, maminha, costela… E a uma profusão de bebidas, incluindo espumante argentino uma deferência minha, tequila mexicana, bondade do anfitrião, e uísque Jack Daniels e cervejinhas tantas, de outra classe, dita média (ou mérdea, como lembrava sempre o amigo escritor João Antônio) que de indigente não tinha nada.

Questão de nomenclatura. Filhos remediados da classe média fazendo pouco de suas próprias origens. Berço é destino.

Digo que está para nascer ainda um “comunista” que recuse um bom salário mensal, férias, décimo terceiro e décimo quarto, possibilidade de uma casa, carro na garagem e viagens por aí, ainda que pseudo-culturais porque no fundo (ou só na superfície mesmo) é o que todo mundo ambiciona… Mas para isso é necessário financiá-lo e dinheiro como se sabe é coisa de capitalista… Ninguém me contestou. O duro para alguns indivíduos é que “eles” sabem quando alguém lhes adivinha as segundas intenções antes que nos revelem as primeiras… É sempre alguém tentando derrubar alguém pela mesma razão e fins… A peça do Sartre “A Engrenagem” nunca esteve tão atual.

O cineasta Vittorio de Sica costumava dizer “Toda a indignação moral, na maioria dos casos, é 2% moral, 48% indignação e 50% inveja”.

Está aí o Paulo Francis me cutucando, diga a eles que “não há país democrata que não seja capitalista”… Mas era incrível o grau de intolerância no grupo com relação as diferenças, começando por preferências clubísticas, a mais popular delas e nem precisava chegar as “convicções” ideológicas, as mais pernósticas dentre elas…

Falando nisso, acredito que o papo só engrenou quando alguém me instigou em declinar como me “definia” ideologicamente… Well, afirmo, na década de 1970 tive de confessar em um interrogatório no 23º BI que era “marxista” e mesmo acrescentando que era da “tendência Groucho” (fazendo alusão a um dos irmãos Marx da conhecida família de humoristas norte-americanos) ainda assim “penei” um bocado…

Hoje, sinceramente, gosto muito do Woody Allen…Risos.

 

OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

ANTES do JOGO – por amilcar neves / ilha de santa catarina.sc

Antes do jogo

Fazia tempo, já, que não chovia. Depois, começou a chover uma vez por semana apenas. Chovia por hora e meia, se tanto tempo, enchia tudo, alagava o cruzamento das avenidas e as esquinas da cidade, encharcava as pessoas na rua e os bichos encolhidos nas calçadas, e logo o sol voltava – o calor nem se tinha ido – e secava tudo. Mais meia hora e era como se não chovesse havia tempos.

Então, inesperadamente, no domingo de Páscoa, apenas três ou quatro dias da última chuva, a tarde começa a escurecer, aos poucos ainda, por enquanto, iluminada pelo clarão súbito e fugaz de relâmpagos aqui e ali que se despedaçam sob uma camada espessa de trovões ameaçadores e sinistros, que no entanto latem mais do que mordem. Haverá de chover em breve e, provavelmente, será muita chuva. Com toda a certeza, haverá de ser um pequeno dilúvio a despencar bem na hora do jogo, exatamente quando estiver prestes a iniciar a partida de futebol.

Como aconteceu ainda outro dia, sob um furioso vendaval de Oeste que levou a chuva, de frente, até o último degrau das arquibancadas do setor D, levantando, arrancando e arremessando a longa distância partes metálicas retorcidas da cobertura das cadeiras. Mais quinze minutos e o estrago seria memorável. Por sorte, o que se soltou da estrutura, devido à ferocidade insana do vendaval, correu rolando por sobre o telhado – uma só peça daquelas que voasse por baixo do telhado, uma só lasca daquele ferro, e aço, e alumínio, e zinco, que se soltasse e se projetasse sob a coberta, seria lâmina afiada e sedenta para uma cortante destruição em massa. O que se soltou, rolou sobre a cobertura e caiu atrás do estádio, nos locais onde passam as pessoas e estacionam-se os carros: por sorte, o time vinha mal no campeonato e não havia, por isso, gente caminhando antes do jogo nem carro parado naquele terreno baldio em que se cravaram, no solo, pesados restos de metal arrancados pela tempestade.

Está agora quase começando a partida desta tarde pascoal e o vento sopra furioso, o céu não cessa de espocar luzes coruscantes que buscam ávidas o chão de terra ou de água, o ronco da trovoada é então quase um rugido constante e incansável – e a chuva chega, desvairada e forte, açoitando todo mundo com rajadas cambiantes até fixar sua direção, seu Norte: ela vem precisamente de Nordeste e lava os degraus das arquibancadas encurralando o pessoal, os torcedores, nos derradeiros níveis de cadeiras, em busca inútil de uma cobertura, um abrigo que os proteja da borrasca. A chuva vem fria e consigo despeja o granizo.

O efeito mais imediato da água que nos metralha quase na horizontal é a suspensão forçada da redação deste texto: homem de arquibancada de estádio, não disponho dos vidros e paredes de um camarote para observar o espetáculo e seus atores, exatamente, de camarote. Sou parte da trupe, mero figurante, é verdade, no meio de outros nove mil torcedores anônimos.

Na hora do jogo, porém, o temporal já se tinha ido sabe-se lá para onde, o gramado perfeito escoara toda a água que se acumulara, o sol já iniciava seu retorno de detrás das nuvens e a partida começou sem atraso.

Chuvas de Norte vêm sempre de Joinville, cidade em que chove sempre, mesmo em tempos de seca geral. E foi justamente o Joinville que entrou em campo, mas de nada lhe valeu a chuva trazida consigo, derrotado que se viu por 1 a 0 pelo Avaí, completando 11 anos sem conseguir vencer o Leão da Ilha na Ressacada, faça chuva ou faça sol, faça frio ou calor.

 

AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 obras publicadas.

GENERAL da reserva: corrupção e desmandos em ALAGOAS

23/04/2012 – 12h33

General é suspeito de desvio de recursos dos presídios de AL

A Justiça de Alagoas decretou nesta segunda-feira a prisão do general da reserva do Exército Edson Sá Rocha, ex-comandante da PM alagoana, suspeito de participação em um esquema de desvio de cerca de R$ 300 milhões dos presídios de Alagoas.

Foram presos também o ex-intendente-geral do Sistema Penitenciário, coronel Luiz Bugarin, e mais dois oficiais da PM alagoana, além de quatro empresário, um policial civil e um ex-funcionário do sistema prisional.

As prisões foram efetuadas por uma força tarefa das policiais Civil e Militar, com apoio da Guarda Nacional. Os mandados de prisões foram expedidos pelos juízes da 17ã Vara Criminal da capital, a pedido do Gecoc (Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas) do Ministério Público Estadual.

Os presos estariam envolvidos num esquema de fraude a licitação e superfaturamento de produtos comprados para o sistema prisional, principalmente para a alimentação dos internos. O esquema vinha sendo investigado desde 2007, no primeiro mandato do governo Teotônio Vilela Filho (PSDB), quando foi descoberto pelo ex-secretário de Segurança Pública, delegado federal Paulo Rubim.

De acordo com coordenador do Gecoc, o promotor Alfredo Gaspar, as prisões desta segunda-feira têm ligação com a operação Espectro, deflagrada pela Polícia Civil de Alagoas no início de março deste ano.

Naquela oportunidade, foram presas pessoas envolvidas com operações fiscais: empresários e contadoras das empresas suspeitas de participação do esquema.

“Desta vez, pedimos a prisão dos gestores que teriam contribuindo para a fraude registrada entre os anos de 2007 e 2009”, afirmou Gaspar. Ele disse ainda que já teriam sido executadas seis prisões e entre os presos estariam os três oficiais da PM.

PROVAS

Durante a Operação Espectro, deflagrada no dia 3 de março, além das prisões de empresários e contadores, foram apreendidos cerca de R$ 4 milhões em dinheiro e cheques. Mas no início da semana passada, a polícia constatou que parte dos cheques e do dinheiro havia sumido da delegacia, só teriam restado R$ 960 mil entre as provas do inquérito. Uma sindicância foi aberta para apurar o sumiço do material.

De acordo com as investigações, as empresas vendiam para o sistema prisional, mas não entregavam os produtos e triplicavam o valor nas notas fiscais.

Doze empresas teriam participação direta na fraude e 70 estariam envolvidas no esquema. Os suspeitos respondem por crimes de peculato, corrupção passiva, corrupção ativa, falsificação de documento público, falsificação de documento particular, fraude em licitação, formação de quadrilha e sonegação fiscal.

 

RICARDO RODRIGUES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MACEIÓ

A linguagem secreta que há nos gestos dos maestros – new york.ny

DANIEL J. WAKIN
DO “NEW YORK TIMES”

 

Braços esculpem o ar. Uma mão se fecha. Um dedo indicador se projeta. O torso oscila para frente e para trás. E, não se sabe como, música jorra em resposta a essa dança misteriosa no pódio, música coordenada com precisão e emocionalmente expressiva.

O público dos concertos sintoniza os ouvidos na orquestra e invariavelmente fixa os olhos no regente. Mas mesmo o ouvinte mais experiente pode não ter consciência da conexão sutil e profunda entre a sinfonia de movimentos do maestro e a música que emana dos instrumentistas.

Assim, num esforço para compreender o que acontece, entrevistamos sete regentes que passaram por Nova York em temporadas recentes, procurando decompor os movimentos em partes do corpo mão esquerda, mão direita, rosto, olhos, pulmões e, o mais indefinível, cérebro.

The New York Times
Representação gráfica feita na Universidade de Nova York registra movimentos do maestro Alan Gilbert

O objetivo fundamental do regente é infundir vida a uma partitura escrita, através do estudo, de sua personalidade e sua formação musical. Mas ele demonstra o sentido da música por meio de seus movimentos corporais.

Imagine-se tentando falar com alguém em uma língua totalmente desconhecida por você. Se quisesse expressar algo a essa pessoa sem recorrer à linguagem, como você faria?, disse o regente britânico Harry Bicket. É isso o que fazemos, na realidade.

Cada regente usa um estilo singular, mas todos querem arrancar dos músicos a performance mais grandiosa possível. Portanto, nossa decomposição do gestual traz algumas generalizações inerentes.

É preciso lembrar que a arte de reger não se limita a gestos semafóricos. É uma dança em compasso de dois tempos, envolvendo corpo e alma, gestos físicos e personalidade musical. Um regente com o maior domínio técnico do mundo pode produzir performances insossas. Outro, que faça gestos aparentemente incompreensíveis, é capaz de gerar transcendência.

Você pode fazer tudo certinho e não criar absolutamente nada interessante, comentou James Conlon, diretor musical da Los Angeles Opera. E pode ser enigmático, mas produzir resultados.

MÃO DIREITA

Tradicionalmente (pelo menos para os destros), a mão direita segura a batuta e marca o pulso. Ela controla o tempo e indica quantas batidas ocorrem em um compasso. A batuta geralmente assinala o início de um compasso com um movimento para baixo (o downbeat). Um movimento para cima (upbeat) é a preparação para o downbeat.

Os manuais de regência dizem que o upbeat e o downbeat devem levar o mesmo tempo e que o intervalo deve ser igual ao comprimento da batida. O upbeat é a preparação para qualquer evento, disse Alan Gilbert, diretor musical da Filarmônica de Nova York.

É crucial definir o tempo certo para uma frase musical. Ninguém menos que o compositor Richard Wagner (1813-83), que também foi um dos primeiros maestros modernos, disse que o dever do regente está contido em sua capacidade de sempre indicar o tempo correto.

Mas um regente não é um metrônomo de casaca. Um dos grandes equívocos em relação ao que os regentes fazem é a ideia de que eles ficam lá, marcando o tempo, disse Bicket. A maioria das orquestras não precisa de ninguém marcando o tempo.

A batuta também pode moldar o som. A natureza do downbeat abrupta, delicada transmite à orquestra que tipo de caráter deve conferir ao som que vai produzir. A batuta pode suavizar fraseados agitados, realizando o movimento de modo mais abrangente.

Um gesto mais horizontal pode pedir uma qualidade mais lírica, disse James DePreist, ex-diretor de estudos orquestrais e de regência da Juilliard School. Um gesto para baixo que imite um movimento de arco de violino, disse Bicket, pode colorir o ataque. De acordo com Gilbert, mesmo quando marca o tempo em notas longas, o regente deve procurar comunicar a qualidade sonora que busca, por meio do movimento da batuta.

Predecessor de DePreist em Juilliard, o professor de regência Jean Morel, ensinava que a mão e o pulso direito devem ser totalmente autossuficientes, segundo James Conlon, um de seus alunos; devem marcar o tempo, a expressão, a articulação e o caráter para que você possa então aplicar a mão esquerda e reter conforme deseja.

Xian Zhang, que é mestre em esculpir uma linha musical com sua batuta, demonstrou isso quando ensaiava a Sinfonia Concertante para Violino e Viola de Mozart com uma orquestra de estudantes na Juilliard School.

O movimento de sua batuta correspondia estreitamente ao caráter da música, delicado nas passagens suaves, pequeno para acompanhar as cordas, maior para uma melodia de trompa e oboé. Os gestos de seus braços ficavam amplos nas frases vigorosas. Em alguns momentos, os gestos de elevação da batuta pareciam literalmente arrancar os sons.

Alguns regentes preferem não usar a batuta em alguns momentos ou o tempo todo. Yannick Nézet-Séguin, que a partir de setembro será o diretor musical da Orquestra da Filadélfia, é um deles. Sua formação se deu principalmente em corais, nos quais raramente se emprega a batuta.

As mãos estão ali para descrever um certo espaço do som e moldar aquele material imaginário, disse Nézet-Séguin. Aquele corpo imaginário de som está em frente ao maestro, entre o peito e as mãos, ele explicou. É mais fácil quando não há nada em uma mão. Ele começou a usar batuta quando começou a atuar como regente convidado de grandes orquestras, que estavam acostumadas com isso.

Valery Gergiev é outro maestro que frequentemente não usa batuta. Sua técnica foi evidenciada num ensaio da London Symphony Orchestra, no Avery Fisher Hall, preparando uma apresentação da Sinfonia nº 3 de Mahler.

Gergiev ficou sentado numa cadeira, de modo geral imóvel. Quase toda a ação vinha de sua mão direita, que em muitos momentos estava plana, com o polegar paralelo, como as mandíbulas de um jacaré. Sua mão esquerda fazia pouco, mas era usada ocasionalmente para apontar e encerrar acordes.

Gergiev não marca o tempo com sua mão direita, exatamente, mas mexe os dedos no ritmo da música. Seus dedos geralmente estavam esticados, com as palmas para baixo, o pulso voltado para cima na altura de seu rosto. Às vezes ele formava um círculo de ok com o polegar e o indicador e mexia os outros três dedos. À medida que o tempo acelerava, seu pulso ficava mais mole.

Em entrevista, Gergiev sugeriu que o balançar de sua mão, que descreveu como sendo um hábito, pode ter derivado do fato de ele tocar piano. Sou pianista, e às vezes eu toco a textura, explicou.

Ele disse ainda que uma batuta pode se contrapor a um som de canto. O mais difícil na regência é fazer a orquestra cantar, e é aqui que as duas mãos precisam basicamente ajudar os instrumentistas de sopros ou cordas a cantar. Gergiev disse que movimentar uma batuta no ar é como praticar esgrima: Não acho que isso ajude o som.

MÃO ESQUERDA

Tendo entregado as incumbências rítmicas à mão direita, a mão esquerda tem finalidade bem mais maleável. Para explicar em termos grosseiros, se a mão direita esboça os contornos gerais da pintura, a esquerda preenche as cores e texturas.

A mão direita cria a casca de chocolate do bombom, e a mão esquerda molda o recheio. Sua principal utilidade prática é dar deixas aos naipes ou músicos individuais sobre quando entrar e quando cortar, o que faz muitas vezes com dedo indicador apontado.

Se a mão esquerda se fecha ou o polegar e os dedos se fecham, isso pode fazer a frase musical encerrar-se suavemente. Um movimento rápido para baixo indica um corte abrupto no som.

James DePreist descreveu os gestos de mão esquerda às vezes inexplicáveis de outros regentes: William Steinberg costumava esfregar os dedos, como no gesto usado universalmente como símbolo de dinheiro. Antal Dorati fazia movimentos de empurrar abruptamente, como se estivesse fazendo uma bola de som subir e ficar boiando no ar. Eugene Ormandy muitas vezes mantinha a mão esquerda segurando a lapela da casaca, enquanto a Philadelphia Orchestra produzia cascatas de sons, observou DePreist.

Nézet-Séguin é um dos regentes mais expressivos fisicamente, em razão de sua baixa estatura, disse ele. Sua mão esquerda se movimenta constantemente. Ele contou que procura mantê-la em posição lateral em relação à orquestra, para que sua região palmar anterior não seja vista pelos músicos como uma barreira simbólica.

Em outro ensaio na Juilliard, Nézet-Séguin indicou entradas fazendo um círculo de ok ou abrindo seu dedo indicador, para assinalar um ataque mais leve. Um dedo indicador que se eleva com cada batida indicava mais volume.

Nos acordes de alto volume, ele colocava a mão em forma de concha voltada para cima. Uma mão em forma de concha voltada para baixo pedia uma linha sonora sustentada. Acordes marciais retumbantes eram assinalados por uma mão em punho.

A mão plana, com a palma para baixo, pedia um som sustentado e suave. Entradas repetidas eram assinaladas por movimentos como tiros de revólver.

Gilbert observa que não é preciso dizer a músicos profissionais em que momento de um compasso eles devem entrar. Ele frequentemente se prepara para dar a deixa a um músico, olhando para ele antes da hora, para criar uma conexão com ele e intensificar a energia. O objetivo de uma deixa é fazer com que as pessoas entrem na hora certa e do modo certo, dentro do fluxo, disse Gilbert.

ROSTO

Depois dos braços, a parte mais importante do arsenal do maestro é seu rosto. Sinto como se meu rosto cantasse com a música, disse Nézet-Séguin. Comunicar-se com os músicos por um olhar pode tranquilizá-los e encorajá-los. Por outro lado, alguns regentes, como Fritz Reiner, não mudam de expressão, mas suas gravações são completamente eletrizantes, afirmou Bicket. Manter-se inexpressivo também pode beneficiar a moral dos músicos.

Demonstrar sua frustração ou seu desagrado na expressão facial é algo que não ajuda ninguém, disse Bicket. Mas sobrancelhas erguidas podem ser maneiras sutis de transmitir insatisfação. O rosto se torna ainda mais importante quando as mãos estão ocupadas com outra coisa, como, por exemplo, quando um regente toca um teclado simultaneamente, prática comum de especialistas em música antiga, como Bicket.

Os próprios olhos são o mais importante de tudo quando se rege, disse Zhang. Eles devem ser o que mais revela a intenção musical. Os olhos são as janelas do coração. Eles mostram o que você sente em relação à música.

Um semicerrar dos olhos, por exemplo, pode conferir à música uma qualidade distante, disse DePreist. Um truque para criar um bom som orquestral é olhar para os músicos nos fundos da seção de cordas. Com isso, você faz com que eles sejam incluídos no jogo, disse Nézet-Séguin.

Gergiev utiliza a mesma técnica com os músicos sentados ao fundo. O fato de olhar para ele significa que estou interessado nele. Se estou interessado nele, ele está interessado em mim. Certo? Procuro fazer tudo a partir da expressão e do contato visual.

Às vezes é igualmente importante não olhar para os músicos, especialmente durante solos importantes. Essa é uma parte grande dos segredos de regência que não costumam ser verbalizados, disse Zhang. Isso pode evitar que o músico ceda ao nervosismo.

E existe um ou outro caso raro do maestro que rege com os olhos fechados e produz grandes performances, como muitas vezes fez Herbert von Karajan.

Leonard Bernstein foi um dos regentes mais expressivos fisicamente dos tempos modernos, fato que, às vezes, atraía o desprezo dos críticos. Mas também era capaz de reger com as mais sutis expressões faciais, conforme foi evidenciado por um vídeo clássico no YouTube em que suas sobrancelhas dançam, seus lábios se comprimem e seus olhos se arregalam.

COSTAS

Nézet-Séguin disse que tomou consciência da postura das costas ao assistir a videoteipes de Karajan. Na época, Nézet-Séguin trabalhava com Carlo Maria Giulini. A diferença principal entre o som de um e outro se devia às atitudes humanas deles, que eram expressas por suas costas, disse ele. A postura básica de Karajan era muito orgulhosa, com os ombros para trás e atitude de estar no comando.

É a atitude de alguém que espera que as coisas venham a ele. Para Nézet-Seguin, essa qualidade podia ser fria, majestosa, distante.

Mas o magrelo Giulini se debruçava para frente assim que a música começava, num gesto de aproximar-se das pessoas, de lhes dar alguma coisa, de servir.

É uma linguagem corporal muito reveladora, disse o regente, e estava relacionada às interpretações calorosas de Giulini.

Zhang costuma debruçar-se para frente para arrancar mais intensidade da orquestra. Às vezes, inclina-se para trás para fazer com que os músicos toquem mais suavemente. Ou então se inclina para frente para cobrir o som, disse ela, como quem apaga um incêndio.

PULMÕES

Os regentes muitas vezes falam da importância da respiração: de inalar junto com o upbeat, para preparar para uma entrada, mais ou menos como um cantor inala antes de começar a cantar. As cordas precisam ser incentivadas a respirar, disse Nézet-Séguin, tanto quanto os instrumentos de sopros. Isso torna a coisa toda mais natural.

Para Bicket, respirar junto quando ele rege é uma necessidade. Se suas mãos estão ocupadas de outro modo, tocando cravo ou órgão, sua deixa para as entradas muitas vezes é uma respiração audível. A natureza dessa respiração pode afetar a música. Uma inalação forte e aguda gera um som mais nítido e destacado.

CÉREBRO

Nas entrevistas, os regentes deixaram claro que, para eles, os movimentos corporais são menos importantes que a preparação mental e as ideias musicais que residem em outra parte do corpo: o cérebro. Os regentes precisam até certo ponto não ter consciência do que estão fazendo com seu corpo, disse Nézet-Séguin.

Ele disse ainda que Giulini ensinava que a clareza de um gesto vem da clareza de sua mente. A confusão decorre daquela fração de segundo de hesitação, em que a mente está decidindo qual gesto usar.

Zhang utiliza uma técnica adotada de seu mentor, Lorin Maazel: Uma projeção mental. Uma imagem mental clara do som que você quer ouvir permite uma entrada clara. Projetar mentalmente o pulso e o som, ela acrescentou, comanda nossas próprias mãos.

Como disse Conlon: Poderíamos discutir gestos e posturas físicas interminavelmente, mas, em última análise, há um elemento impalpável e carismático que pesa mais que tudo isso. Até hoje ninguém conseguiu enquadrar esse elemento. Graças a Deus.

Tradução de CLARA ALLAIN.

ADEUS EUROPA – por frei betto / são paulo.sp


 Lembram-se da Europa  resplandecente dos  últimos 20 anos, do luxo das avenidas do  Champs-Élysées, em Paris, ou da  Knightsbridge, em Londres? Lembram-se  do consumismo exagerado, dos eventos da  moda em Milão, das feiras de  Barcelona e da sofisticação dos carros  alemães?

Tudo isso  continua lá, mas já não é a mesma coisa. As  cidades europeias são,  hoje, caldeirões de etnias. A miséria empurrou milhões  de africanos  para o velho continente em busca de sobrevivência; o Muro de  Berlim,  ao cair, abriu caminho para os jovens do Leste europeu buscarem, no   Oeste, melhores oportunidades de trabalho; as crises no Oriente Médio   favorecem hordas de novos imigrantes.

A crise do  capitalismo,  iniciada em 2008, atinge fundo a Europa Ocidental.  Irlanda, Portugal e Grécia,  países desenvolvidos em plena fase de  subdesenvolvimento, estendem seus pires  aos bancos estrangeiros e se  abrigam sob o implacável guarda-chuva do  FMI.

O trem  descarrilou. A locomotiva – os EUA – emperrou, não  consegue retomar  sua produtividade e atola-se no crescimento do desemprego. Os  vagões  europeus, como a Itália, tombam sob o peso de dívidas astronômicas. A   festa acabou.

Previa-se que a economia global cresceria,  nos  próximos dois anos, de 4,3% a 4,5%. Agora o FMI adverte:  preparem-se, apertem  os cintos, pois não passará de 4%. Saudades de  2010, quando cresceu  5,1%.

O mundo virou de cabeça pra  baixo. Europa e EUA, juntos,  não haverão de crescer, em 2012, mais de  1,9%. Já os países emergentes deverão  avançar de 6,1% a 6,4%. Mas não  será um crescimento homogêneo. A China, para  inveja do resto do mundo,  deverá avançar 9,5%. O Brasil,  3,8%.

Embora o FMI evite  falar em recessão, já não teme admitir  estagnação. O que significa  proliferação do desemprego e de todos os efeitos  nefastos que ele  gera. Há hoje, nos 27 países da União Europeia, 22,7 milhões  de  desempregados. Os EUA deverão crescer apenas 1% e, em 2012, 0,9%. Muitos   brasileiros, que foram para lá em busca de vida melhor, estão de   volta.

Frente à crise de um sistema econômico que  aprendeu a  acumular dinheiro mas não a produzir justiça, o FMI, que  padece de crônica  falta de imaginação, tira da cartola a receita de  sempre: ajuste fiscal, o que  significa cortar gastos do governo,  aumentar impostos, reduzir o crédito etc.  Nada de subsídios, de  aumentos de salários, de investimentos que não sejam  estritamente  necessários.

Resultado: o capital volátil, a  montanha de  dinheiro que circula pelo planeta em busca de multiplicação   especulativa, deverá vir de armas e bagagens para os países  emergentes.  Portanto, estes que se cuidem para evitar o  superaquecimento de suas  economias. E, por favor, clama o FMI, não  reduzam muito os juros, para não  prejudicar o sistema financeiro e os  rendimentos do cassino da  especulação.

O fato é que a  zona do euro entrou em pânico. A  ponto de os governos, sem risco de  serem acusados de comunismo, se prepararem  para taxar as grandes  fortunas. Muitos países se perguntam se não cometeram  uma monumental  burrada ao abrir mão de suas moedas nacionais para aderir ao  euro.  Olham com inveja para o Reino Unido e a Suíça, que preservam suas   moedas.

A Grécia, endividada até o pescoço, o que fará?  Tudo  indica que a sua melhor saída será decretar moratória (afetando  diretamente  bancos alemães e franceses) e pular fora do  euro.

Quem cair fora  do euro terá de abandonar a União  Europeia. E, portanto, ficar à margem do  atual mercado unificado. Ora,  quando os primeiros sintomas dessa deserção  aparecerem, vai ser um  deus nos acuda: corrida aos saques bancários, quebra de  empresas,  desemprego crônico, turbas de emigrantes em busca de, sabe Deus  onde,  um lugar ao sol.

Nos anos 80, a Europa decretou a morte do   Estado de bem-estar social. Cada um por si e Deus por ninguém. O  consumismo  desenfreado criou a ilusão de prosperidade perene. Agora a  bancarrota obriga  governos e bancos a pôr as barbas de molho e  repensar o atual modelo econômico  mundial, baseado na ingênua e  perversa crença da acumulação  infinita.

Frei  Betto é escritor, autor do romance “Minas  do ouro” (Rocco), entre  outros livros.

DILMA: Aprovação ao seu governo bate recorde e vai a 64%, diz Datafolha / sãopaulo.sp

22/04/2012 08h52 – Atualizado em 22/04/2012 08h53

Pesquisa mostrou que maioria prefere ver Lula candidato do PT em 2014.
Comparação mostrou que para 57% dos eleitores Dilma é igual a Lula.

Do G1, em Brasília

Após um ano e três meses de duração, o governo da presidente Dilma Rousseff obteve aprovação recorde de 64% dos eleitores, que o consideram bom ou ótimo, mostra pesquisa Datafolha publicada na edição deste domingo pelo jornal “Folha de S.Paulo”. Outros 29% consideraram a gestão regular e apenas 5% acharam o governo ruim ou péssimo.

A série histórica das pesquisas do instituto revela que a avaliação do governo Dilma melhorou. No levantamento anterior, de janeiro, a gestão era aprovada por 59%, considerada regular por 33% e ruim ou péssima por 6% do universo pesquisado.

Os índices revelam a melhor avaliação obtida por um presidente no período considerado. Com um ano e três meses de mandato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tinha o governo aprovado por 30% e Luiz Inácio Lula da Silva por 38%.

Apesar da aprovação recorde de Dilma, um novo dado da pesquisa revela que a maioria dos eleitores consultados prefere que em 2014 o candidato do PT seja Lula. Para 57%, o ex-presidente deve voltar a concorrer nas próximas eleições presidenciais pelo partido, contra 32% que preferem que sua sucessora concorra à reeleição. Para 6%, o candidato petista não deveria ser nenhum dos dois e 5% não souberam responder.

A comparação entre os dois governos mostrou que para 57% dos eleitores, Dilma é igual a Lula. Para 21%, Dilma é pior que Lula; 20% acham Dilma melhor que Lula; e 2% não sabem.

A pesquisa foi realizada nos dias 18 e 19 de abril e ouviu 2.558 pessoas em 161 municípios de todos os estados e Distrito Federal. A margem de erro é dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Juiz muda atestado de óbito de perseguido político / são paulo

enfim a história vai entrando nos trilhos da verdade

O  juiz Guilherme Madeira Dezem, da 2.ª Vara de Registros Públicos, em São Paulo, determinou a retificação, no atestado de óbito, do local e da causa da morte de um militante de esquerda assassinado durante a ditadura militar. Trata-se de uma decisão inédita, segundo organizações de direitos humanos.

No documento retificado, onde se lê que o economista João Batista Franco Drumond morreu no dia 16 de dezembro de 1976 na esquina da Avenida Nove de Julho com a a Rua Paim, passará a constar: “Falecido no dia 16 de dezembro nas dependências do DOI-Codi do 2.º Exército, em São Paulo”. Em seguida, onde se anotou que a causa da morte foi “traumatismo craniano encefálico”, ficará escrito que decorreu de “torturas físicas”.

A sentença, segundo o texto do juiz, segue orientação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Ele cita particularmente a determinação – de 2010 – para que o Brasil adote medidas destinadas a cumprir o direito que as famílias de mortos e desaparecidos têm à memória e à verdade.

Trata-se de uma decisão de primeira instância, que ainda pode ser modificada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. O pedido de mudança foi feito pela viúva de Drumond, a senhora Maria Ester, de 65 anos. Segundo seu advogado, Egmar José de Oliveira, ela espera por isso desde a morte do marido, 35 anos atrás. “Faz parte de um longo esforço para restituir-lhea dignidade”, conta ele.

Tortura e morte

Drumond tinha 34 anos e era militante do PC do B. Foi preso no dia 15 de dezembro de 1976, no episódio que ficou conhecido como massacre da Lapa – uma operação que, sob o patrocínio do 2.º Exército, resultou no desmantelamento da cúpula do partido. Conduzido para as dependências do DOI-Codi, ele enfrentou seguidas sessões de tortura, segundo depoimentos de outros presos políticos, até a sua morte, no dia seguinte.

Quando o pai de Drumond chegou para identificar o corpo e providenciar o funeral, as autoridades lhe informaram que o filho morrera atropelado, durante uma tentativa de fuga. “Ele recebeu ordem, por escrito, para que isso constasse no atestado de óbito”, conta o advogado.

Sentindo-se ameaçadas, a mulher e as duas filhas de Drumond mudaram para a França – onde moram até hoje. Elas já tinham conseguido, junto à Comissão de Mortos e Desaparecidos, o reconhecimento de que o marido morrera quando se encontrava sob a custódia das autoridades militares.

Mas a senhora Maria Ester queria ir além, queria o reconhecimento final, na certidão de óbito do marido. Quando soube da decisão do juiz, assinada no final da semana passada e divulgada na segunda-feira, ela comemorou e chamou-o de corajoso.

Jurisprudência

“Mesmo sendo uma decisão de primeira instância, é altamente significativa. Trata-se de uma reação inédita do Judiciário, que sempre foi omisso no trato das questões da ditadura militar”, diz o advogado, que também é vice-presidente da Comissão de Mortos e Desaparecidos. “É uma a peça a mais no esforço que se faz no País para se restabelecer a memória e a verdade. Tomara que seja o início de uma jurisprudência que ajude as famílias a restabelecerem plenamente os fatos ocorridos durante a ditadura.”

O ex-preso político Ivan Seixas, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, também elogiou a sentença.  “Ela confirma as denúncias de morte sob tortura. É mais um passo para que o Brasil possa conhecer a verdade daquele período”, afirma.

O ESTADÃO.

Dilma estabelece ‘padrão mundial contra a corrupção’, afirma Hillary Clinton

Secretária de Estado dos EUA fez comentário na conferência da Parceria para o Governo Aberto

17 de abril de 2012 | 12h 12
 Tânia Monteiro e Rafael Moraes Moura, da Agência Estado

BRASÍLIA – A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse nesta terça-feira que a presidente Dilma Rousseff está estabelecendo um “padrão mundial” na questão de transparência e luta contra a corrupção. O comentário foi durante a abertura da Primeira Conferência Anual de Alto Nível da Parceria Para Governo Aberto, que está sendo realizado em Brasília.


'Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil', disse Hillary  - Roberto Stuckert Filho/Agência Brasil
Roberto Stuckert Filho/Agência Brasil
‘Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil’, disse Hillary

 

 

A Open Government Partnership (OGP), ou Parceria do Governo Aberto, foi lançada em setembro passado nos Estados Unidos como um esforço conjunto na luta contra a corrupção e na promoção de transparência na gestão pública. O Brasil e os Estados Unidos lideram a iniciativa.

 

“Não há um parceiro melhor para iniciar esse esforço do que o Brasil e, particularmente, a presidente (Dilma) Rousseff. O compromisso dela com abertura, transparência, sua luta contra a corrupção está estabelecendo um padrão mundial”, disse Hillary.

 

De acordo com a secretária de Estado norte-americana, os Estados Unidos estão orgulhosos com a parceria e querem mantê-la para garantir que o século XXI seja uma era de “transparência, democracia e resultados para pessoas de todos os lugares”.

 

Para Hillary, a corrupção “mata o potencial de um país, drena recursos, protege pessoas desonestas”. “Uma das mais significantes divisões não são entre norte, sul, leste, oeste, religiosas ou de outras categorias. Estamos falando de sociedades abertas e fechadas. Aqueles governos que se escondem da opinião pública vão encontrar dificuldades crescentes”, afirmou.

 

Para o ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, “todos se deram conta de que, quanto maior a abertura de informações ao escrutínio público, maior será a eficiência dos serviços públicos”. “Não há melhor desinfetante que a luz do sol”, disse Hage, que também discursou no evento.

MEU ENCONTRO COM MILLÔR FERNANDES (*) – por olsen jr / rio negrinho.sc


   Estava passando por um corredor no Centro de Cultura e Eventos da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, quando ouvi o amigo Dilvo Ristoff contando uma história hilariante envolvendo o Millôr Fernandes (**) em que “eu” aparecia como o homem certo no lugar errado. Ouvi atentamente e exclamei “espera aí, não foi bem assim”. Só intervi porque na plateia estavam os escritores Silveira de Souza, Flávio José Cardozo e Jair Francisco Hamms (***).

Não ia deixar “barato” aquele relato. Já havia passado quase dez anos e o cara não “esquecera”, ou pelo que constatei, atinha-se a “sua” versão do ocorrido.

O Millôr havia aberto a Primeira Semana de Comunicação e Expressão, início de 1996, e havia ganhado algumas “notas extras” nos jornais por conta de duas perguntas de uma jornalista. A primeira, “como você vê o quadro político-econômico do País?” Respondeu: “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”; a segunda, “Como você avalia a comunicação brasileira hoje?” Disse (simulando meditar): a Rede Globo deve valer um bilhão de dólares… A entrevista terminou aí…

Depois do evento, Dilvo (um dos idealizadores daquele Encontro) convidou o Millôr para almoçar na Lagoa da Conceição. Era uma segunda-feira, a maioria dos restaurantes fecha para o descanso semanal. Estou ao lado da minha casa, num dos poucos lugares abertos quando vejo um táxi parar em frente. O Dilvo se aproxima para ver se o local serve almoço e me vê. Após os cumprimentos, afirma que está com o Millôr Fernandes e pergunta se poderiam sentar à mesma mesa. Afirmo que seria uma honra. Logo após, estamos reunidos, o Millôr com a mulher, Cora (filha do grande crítico literário, Paulo Ronai), a escritora rio-grandense Ieda Inda, a Michelle (minha filha) e este poetinha que vos fala. O Millôr consegue manter aquele humor o tempo todo, coisa rara, de maneira que dois cínicos se dão bem, e logo parecia que nos conhecíamos há mais de 20 anos. Acredito que a “mágoa” do Dilvo (se houve alguma) deva ser atribuída a esse fato, embora “ele” próprio consiga manter um apurado senso de humor.

Terminado o almoço, perguntei se o Millôr poderia autografar alguns livros. Cora, a mulher, disse que não haveria problema. Em menos de cinco minutos, trouxe 23 obras da minha biblioteca. Motivo de gozação. O Millôr brincou “Pô! Não pensei que tivesse escrito tanto”… No livro “O Homem do Princípio ao Fim”, ele escreveu “Para o escritor Olsen Jr. que é do meio”… Cada dedicatória era uma peça, todas lidas depois em voz alta e “curtidas” pela mesa…

O tempo passou, e agora estou ali, ouvindo a “versão” do Dilvo. Tenha paciência, brinquei você foi muito gentil, aquele encontro foi memorável, ao contrário de alguns “coleguinhas” que quando trazem alguém de fora, nestas paragens, procuram isolar-se, não compartilhando de “suas” presenças. Coisa de gente pequena. Lembro que já te agradeci por isso, no que o Dilvo concordou. Depois o Jair Hamms afirmou que iria escrever sobre o fato, disse que também o faria, afinal, tenho “a minha reputação a zelar”. Aliás, aquela “nota” sobre as “respostas” do Millôr Fernandes para a jornalista, confesso, fui eu quem enviou para o Cacau Menezes (19/03/1996), o Millôr disse apenas “o quadro tem uma moldura boa, mas o conteúdo é precário”… Botei a minha colher e acrescentei “ignora-se se o conteúdo é precário porque o esboço é ruim, ou o esboço é ruim porque o conteúdo é precário”… “Fi-lo” como diria o Jânio Quadros,  porque a bolinha estava quicando na área e tinha de marcar o gol, afinal, agora o que ficou foi a minha versão, lembro a expressão clássica do Leonel Brizola “não é verdade!”.

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(*) – Esta crônica inicialmente com o título de “O que importa é a versão” foi publicada originalmente no Jornal “A Notícia”, de Joinville (SC) no dia 08 de abril de 2005.                

(**) – O humorista, escritor, tradutor, cartunista, crítico e filósofo Millôr Fernandes morreu no dia 27 de março de 2012.

(***) – O escritor Jair Francisco Hamms faleceu no dia 11 de janeiro de 2011.    

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NOTAS:

A música poderia ser esta: “Beatles in Pepperland”…

A inspiração veio do Álbum “Revolver” e da música  “Yellow Submarine” , uma das faixas,  ambos de 1966…

Em 1967, Lee Minoff escreveu uma história baseada em algumas letras dos Beatles.

Essa história foi transformada em filme.

Um desenho animado onde o produtor dos Beatles, George Martin participa com algumas músicas instrumentais.

Estas músicas foram adicionadas a trilha sonora do filme…

O Álbum com a trilha sonora foi lançado seis meses após o filme, contendo apenas algumas músicas do filme e mais as composições de George Martin…

Em 1999, o desenho animado foi reeditado digitalmente e foi lançado o Álbum Yellow Submarine Soundtrack, desta vez com todas as músicas dos Beatles que fazem parte do filme,

mas sem as compostas pelo George Martin.

A história do desenho animado era sobre PEPPERLAND, um paraíso situado a oitenta mil léguas submarinas cercado por cor e música (qualquer alusão aos livros “Vinte Mil Léguas Submarinas” e a “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, de Júlio Verne não será mera coincidência)…

Os vilões denominados BLUE MEANIES atacam Pepperland para acabar com as músicas…

Os Beatles vão salvar Pepperland dentro de um Submarino Amarelo…

A música “Beatles in Pepperland” é instrumental, de George Martin que anima esta parte do filme…

Não conto o final do filme…

Aí está parte da trilha sonora, com o carinho do poeta, sempre…

http://www.youtube.com/watch?v=gbsVySv5UAU

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OLSEN JR é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS com 8 livros editados.

AMILCAR NEVES, discurso de posse na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

(Discurso à moda de ficção)

Discurso de posse da Cadeira nº 32 da Academia Catarinense de Letras, proferido em 12.04.2012


Senhoras e Senhores,

Preciso pedir-vos desculpas antes mesmo de proferir as primeiras e pobres palavras que tenho para vos dirigir. Desculpai-me pela data escolhida para esta solenidade, especialmente se ela vos comprometeu outros melhores afazeres: não tenho tanta culpa assim que este evento ocorra no dia de hoje. O presidente Péricles Prade
reuniu a diretoria desta Casa de José Boiteux e o escritor e acadêmico Mário Pereira ficou encarregado de me telefonar, dizendo que a Academia sugeria o dia 12 de abril de 2012 para que novo inquilino tomasse posse da Cadeira de Santos Lostada, a Cadeira de número 32. A mim me cabia apenas concordar com a sugestão feita ou propor outra ocasião, e eu aceitei este 12 de abril.

Ninguém sabe disto, mas exultei com a data escolhida. Conto-vos agora, contista que me considero ser, em primeiríssima mão, o motivo dessa minha estranha satisfação.

Houve outro 12 de abril em minha vida, há precisos 25 anos. Há exatamente um quarto de século eu me encontrava na cidade de Acapulco, estado de Guerrero, na costa do México, às margens do Pacífico. Participava da convenção latino-americana da empresa para a qual então trabalhava, uma grande multinacional da área de informática; na verdade, a maior empresa do mundo nesse segmento da tecnologia que tanto crescia e tão mais cresceu de lá para cá. Naquele dia, em 1987, faltavam 12 dias para que eu completasse meus 40 anos de vida. Era um domingo, a tarde iniciara-se belíssima, ensolarada, com um ar temperado e muito agradável para sair meio ao acaso. Pela manhã, houvera a última sessão de trabalho da convenção e, à noite, teríamos a cena de clausura, que é como os espanhóis confinantes e os espanhóis distantes chamam o nosso jantar de encerramento. No dia seguinte, bem cedo, um pequeno grupo daqueles que ali se encontravam, mais precisamente 12 analistas de sistemas, entre os quais contava este que vos fala, partiria para um périplo de 10 dias por fábricas e laboratórios da empresa ao longo da costa Oeste dos Estados Unidos, em Vancouver, no Canadá, terminando o circuito tecnológico no estado de Nova York, com ponto final da viagem programado para Manhattan.

A tarde dominical ficou reservada para o lazer. Muitos preferiram, como sempre preferiam nessas ocasiões, beber à beira da piscina do hotel 6 estrelas – tratava-se do Acapulco Princess – em que nos puseram hospedados, um conjunto que efetivamente se proclamava, à época, detentor daquela avaliação raríssima, a máxima possível. Eu, porém, não sairia do meu cultivado canto ilhéu para deixar-me quedar por horas a tomar aperitivos hexa-estrelados à beira de uma enorme piscina, protegido por toda a segurança possível e inimaginável contra o mexicano suspeito. Pois mexicano pobre é mexicano suspeito. E o mexicano asteca, para complicar mais ainda sua situação, nem branco é. Portanto, a segurança se fazia imprescindível para resguardar centenas de cabeças privilegiadas e premiadas, posto que alcançar o direito de ir a uma convenção era, antes de tudo, um prêmio cobiçadíssimo e muito valorizado por toda a linha gerencial da empresa de origem estadunidense. Não, recusei-me a ficar na piscina, mesmo porque não foi necessária nenhuma atitude heroica, de supremas coragem e ousadia, para exercer tal recusa: bastou-me escolher outra opção de programa das muitas oferecidas pela organização.

Outros colegas das Américas preferiram passar a tarde na praia, programa que nada sensibilizava alguém que mora o ano todo em uma ilha atlântica. Terceiros resolveram ir para o apartamento, ligar a televisão – vício indomável para muita gente – a esperar o sono e dormir, ocupando assim o enorme tempo ocioso que lhes destinaram. Houve também naquele domingo, como de hábito, um bocado de conversa ao pé do ouvido que definiu, ou alterou, transferências, promoções, chefias e cotas de venda, essas coisas capitalistas.

Transbordantes de civismo, grupos de quatro ou cinco convencionais se deslocavam já em direção à área de esportes do hotel a fim de, em defesa das cores pátrias, ainda mais sagradas e saudosas quando se está no exterior, incentivar os atletas ou participar da indefectível partida de futebol entre Brasil e Argentina, com camisas oficiais e tudo o mais. Tampouco me seduziria essa pequena guerra contra los hermanos. Ou deles contra los macaquitos brasileños. Não; o cardápio de opções oficiais de lazer oferecia mais.

Oferecia uma frota de ônibus saindo a intervalos regulares do hotel e parando em pontos predeterminados ao longo das franjas da belíssima Baía de Acapulco, pelas quais se espalha a região mais charmosa e turísticada cidade, até o lado oposto, em frente ao porto, onde se situa o Fuerte de San Diego. Em tais pontos, os convencionais, identificados, podiam descer do ônibus e visitar as atrações das redondezas, geralmente com guias à disposição, enquanto o ônibus continuaria circulando. Ou abordar o veículo, embarcar e seguir até a parada adiante que lhes interessasse conhecer. Pensando nos fortes portugueses da Ilha de Santa Catarina, obviamente optei pelo forte espanhol, que espreita o mar sobre a Avenida Costera Miguel Alemán.

Perdoai-me, distintas Senhoras, desculpai-me, nobres Senhores, já chego lá: é que sempre gostei muito de viajar. Por isso me apanho quase viajando de novo ao falar de viagens.

Eu já estivera em Acapulco no ano anterior. Nunca planejei ir àquela cidade criada a propósito para atrair estadunidenses ricos – e, no entanto, voltava ali um ano depois. Em 1986 foi a Literatura que me levou até ela. Era o ano da segunda Copa do Mundo de Futebol a se realizar no México e o selecionado brasileiro, sem dúvida alguma, seria outra vez campeão mundial. Num concurso literário promovido pela finada Rede Manchete de Televisão e patrocinado por uma grande multinacional do tabaco, entre doze mil concorrentes de todo o Brasil, um texto meu, um pequeno conto de 20 linhas ou menos (essa era a condição imposta pelos organizadores: somente seriam aceitos contos com o mínimo de dez e o máximo de 20 linhas), um conto de título Galera oito foi o quinto colocado, o que me valeu um aparelho de televisão.

Entretanto, o meu Galera sete ficou em primeiro lugar nesse mesmo concurso, dando-me como prêmio a viagem ao México para assistir, à minha escolha, fosse em Guadalajara ou na Ciudad de México, jogos das semifinais e finais da Copa do Mundo: um carro me apanhava no mesmo Acapulco Princess do ano seguinte, me levava ao aeroporto, eu voava até o destino escolhido, onde outro carro já me aguardava com o ingresso na mão, deixava-me no estádio e, terminada a partida, repetia-se o trajeto, agora invertido, para me deixar em casa, digamos assim. Para as despesas fora do hotel, a multinacional do cigarro deu-me, livre de prestação de contas, isenta de recibo e em dinheiro vivo, a quantia de 500 dólares dos Estados Unidos. Preciso fazer as contas para descobrir quanto me rendeu cada linha daquele conto.

Esses meus dois contos, aos quais juntei as demais Galeras de um até onze (um time de futebol) e oCamisa doze (a torcida), estão publicados no livro Relatos de Sonhos e de Lutas.

Permiti-me, suplico-vos, duas anotações mais, rápidas, sobre a primeira viagem a Acapulco. Uma façanha que logrei foi ter encontrado – e comprado – na Sanborns, uma pequena loja da Avenida Costera que também vendia alguns livros, uma bela edición íntegra, encadernada em vermelho e baratinha, de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, ilustrada con grabados de Gustavo Doré. Aposto que não existe muita gente que tenha algum livro comprado em Acapulco. Ninguém compra livros em Acapulco. Aliás, até me parece que ninguém lê livros em Acapulco. Talvez em outros lugares esse fastio também aconteça, não sei.

A segunda anotação: à época eu fumava. Fui um bom fumante, ocupação que me dava enorme prazer, especialmente quando me punha a escrever e mantinha uma dose de uísque à mão. Hoje continuo com o uísque no gelo e a escritura, muitas vezes manuscrita, o que igualmente me dá profunda satisfação. Pois então eu fumava, à época, e faz-se escusado dizer que não gastei, em toda a viagem, um centavo sequer de cruzado, um cent que fosse de dólar, com a compra de cigarros. Comecei a fumar Camel brasileiro já em São Paulo, antes da partida, depois Camel americano na escala em Miami, Camel mexicano no país da Copa e até Camelda Alemanha, pois havia em paralelo, no Princess, uma convenção da filial alemã do fabricante – e, subitamente, esses dias agora, me dei conta de que aquela marca de cigarros pagou a minha viagem de 1986 por causa de um texto literário e, hoje, vejo-me, aqui, prestes a sentar-me à Cadeira 32 deste elevado sodalício, desta ilustre sociedade de homens e mulheres de letras – e o 32, no jogo do bicho, é precisamente um dos quatro números do camelo…

Avancemos um ano, ou pouco menos do que isso, para retornarmos ao 12 de abril de 1987.

Era domingo, fazia sol, o clima punha-se ameno e eu estava a ponto de desembarcar em frente ao Fuerte de San Diego. Aquela viagem começava com a convenção no México, passaria pelos Estados Unidos e Canadá e, de Nova York, concluída a fase profissional da turnê, precisamente chamada pela empresa de Tour Tecnológico, já tudo planejado, eu viajaria até Miami, onde encontraria Maria Vitória, que chegava da Ilha de Santa Catarina. Naquele momento, eu entraria em férias por um mês, gastando-o todo em um circuito a dois que seguia direto para os meus 40 anos na cidade do México e prosseguia depois pela costa Oeste dos Estados Unidos (Los Angeles e San Francisco), cruzando para Leste até a província de Québec, no Canadá (Montréal e dali, por carro, até a Ville de Québec, ida e volta), para terminar outra vez em Nova York. Ainda em casa, nesta Ilha que tantas ideias interessantes nos sugere a todo instante, decidi que 40 dias de viagem, 5 semanas fora do País, mereciam que eu finalmente fizesse o que sempre pensara fazer e nunca tinha efetivamente realizado: escrever toda santa noite, onde quer que estivesse e à hora que fosse, ao menos dez linhas sobre os acontecimentos, sensações e observações do dia – o que me rendeu, eu vos confesso, mais de 170 laudas de texto bruto que guardo comigo, escondido dos olhos do mundo (assim como outros trabalhos literários mais), com zelo e orgulho – orgulho por ter cumprido à risca o compromisso solene que assumira comigo mesmo, inclusive naquele dia 12 de abril, quando cheguei ao meu quarto de hotel, devido às circunstâncias, apenas às 4 horas da madrugada (para viajar às 8 com um braço imobilizado).

Subi os degraus da escadaria de granito que leva da avenida até o pórtico de entrada do forte e, mais tarde, na delegacia do Distrito Judicial de Tabares, afirmei, com toda a segurança e convicção, que os fatos se deram precisamente às 4 horas e 12 minutos, conforme mostrava o meu relógio digital que travara com aqueles números estáticos no visor de cristal líquido. Em verdade, por virtude de uma pancada recebida, o relógio passara do modo relógio para o modo calendário, este no formato inglês, e aí “congelara”, ao mesmo tempo em que todos os seus botõezinhos de controle ficaram presos e inoperantes: as 4 horas e 12 eram, de fato, abril, dia 12.

O pórtico de entrada do San Diego é como se fosse um pequeno túnel de pedra medindo cerca de oito a dez metros de comprimento e largo bastante para grupos de pessoas entrarem e saírem com folga. Ao chegar à metade da travessia, ouvi às minhas costas passos de gente correndo; instintiva, porém despreocupadamente, olhei e vi dois garotos, de 15 e 18 anos presumíveis, aproximando-se de mim, ambos com longos e grossos porretes de madeira erguidos nas mãos. O mais velho trazia um segundo cacete em cuja ponta encrustava-se, de alguma maneira, uma baioneta. E chegaram batendo para valer, sem ameaças nem intimações.

Bailamos um longo tempo, ou durante o que me pareceu ser, na hora, quase uma eternidade. Eles batiam e eu me protegia com o antebraço esquerdo dobrado em frente ao rosto, preocupado em não ser golpeado na cabeça; a baioneta estocava insistente e cruzava-me à frente, procurando a macieza do abdômen para mais facilmente me abater. Eu me esquivava e dançávamos, os três, uma dança de morte. Uma estocada melhor aplicada varou minhas defesas, chegou-me à camisa, pressionou-me a pele da barriga – mas não conseguiu perfurá-la, deixando-me de lembrança apenas uma pequena equimose arredondada. Antes ou depois desta investida (cuja impressão epidérmica só fui perceber mais tarde), a baioneta zuniu de novo à minha frente, eu pulei para trás – havia também a preocupação máxima de não me deixar cair; no chão, eu seria vítima por demais fácil para os adolescentes –, pulei para trás mas não o suficiente: a ponta de metal da arma branca alcançou a camisa, cortou o tecido na horizontal e atingiu a pele na altura do estômago; atingiu a pele, produziu nela um pequeno risco que fez aflorar alguma gordura superficial ou um soro transparente – e foi embora. Certamente que, por uma questão de frações de milímetro, não cheguei a sangrar.

Os dois adolescentes me deixaram, talvez um pouco assustados pela demora da ação, assim que um deles conseguiu arrancar-me do ombro a máquina fotográfica com um filme inteiro quase completamente batido, a partir de uma escuna, na véspera, dos saltos para mergulho em La Quebrada, por parte de garotos pobres mexicanos ou de rapazes exibicionistas, entre as rochas íngremes e sobre o pedregal do fundo assim que o mar preenche a falésia.

Tive as mãos muito inchadas, especialmente a esquerda, e o antebraço engessado num hospital depois de limpas do sangue coagulado todas as áreas atingidas pelos golpes. Nem um só dos meus ossos se partiu. Às 4 horas, não direi morto de cansado, mas vivo e cansado, eu cumpria responsavelmente a minha obrigação das dez linhas. Depois dos 40 dias, já no Brasil, em casa, recuperei em detalhes os acontecimentos daquele 12 de abril, colocando-o em palavras escritas. É incrível como, muito perto da morte, sai-se de um episódio assim com lembranças tão persistentemente vivas e minuciosamente detalhadas. Mais tarde, arrisquei muito ao pegar esse acontecimento real, vivido por mim, para tentar, com ele, fazer ficção – expediente que, no geral, não funciona bem: um excelente, ou interessante, ou engraçado, ou dramático, ou assustador fato real de hábito dá péssima literatura. Ainda assim, mesmo receoso, fui em frente e escrevi um conto. Mais tarde ainda, mandei esse conto, inédito, para um concurso literário. Algumas semanas depois, recebo, junto com um cheque de 350 dólares, a notícia de que o conto foi premiado em primeiro lugar e, traduzido, saiu em edição bilíngue português e espanhol na revista Plural – uma maravilhosa publicação cultural mensal do Excelsior, o maior jornal exatamente do… México.

Fascínio, o conto em questão, também está em Relatos de Sonhos e de Lutas, possivelmente o mais mexicano dos livros que escrevi até agora…

Senhoras e Senhores,

Devo dizer-vos que os riscos que assumi na vida não pararam por aí. O mais recente deles aconteceu há umas poucas semanas, quando solicitei ao escritor e presidente Péricles Prade, dirigente maior desta mui respeitável Academia Catarinense de Letras, que designasse o escritor e acadêmico João Nicolau Carvalho para me receber nesta Casa. Vós vistes o resultado da minha imprudência…

O risco, a exposição a que me submeti agora, decorre do fato de que o João Nicolau é meu amigo de uma época na vida em que não se esconde nada de ninguém, menos ainda dos amigos do peito. E assim fomos nós na Tubarão da década de 60 do século passado – o que explica, também, os exageros engrandecedores que ele me atribuiu. De tudo o que ele disse de mim, para o bem e para o mal, tiremos 90% antes de tirarmos conclusões.

Algumas das melhores experimentações a que frequentemente nos dedicávamos lá, naquela época, foram discutir literatura, escrever literatura (o João bem mais do que eu, já com um romance na gaveta só para me causar inveja) e escrever sobre literatura. Onze anos depois desses dias na terra que Virgílio Várzea batizou de Cidade Azul, e após passar dez anos sem escrever uma só linha de texto literário, após fazer um curso de Engenharia Mecânica, após concluir uma pós-graduação em Fabricação, após iniciar-me profissionalmente nos mistérios e entranhas da informática, após morar um ano em Curitiba e quatro em Londrina, e após retornar a Santa Catarina em meados de 1975, indo morar em São José porque a Ilha não tinha espaço disponível para abrigar uma família de casal e dois filhos, decidi investir algum tempo, esforço e dedicação no velho sonho de escrever contos e, com eles escritos, tentar a publicação de um livro, um apenas, para atender a uma aspiração secreta de juventude. Publicar um livro me deixaria realizado como escritor – eu assim pensava, de verdade.

Autodidata, comecei a escrever do jeito que eu achava que deveria ser um conto, da maneira como eu gostaria de ler um texto de ficção. Guiei-me pelas leituras que, essas, não cheguei jamais a interromper. Lembro-me muito bem, por exemplo, da profunda impressão que me causaram no espírito os contos de Rubem Fonseca: O Homem de Fevereiro ou MarçoO Cobrador e, especialmente, Feliz Ano Novo. Eram horizontes que se rasgavam, possibilidades infindas que se abriam, ideias audaciosas postas a borbulhar.

Assim, de 1975 a 1978 produzi um punhado de contos, desses meus contos autodidatas, mas não tinha ideia do que fazer com eles – mais ainda, não sabia que valor teriam aqueles textos, se é que eles tinham algum valor. Precisava desesperadamente de um escritor (de um crítico, na verdade, de um Lauro Junkes) que me avaliasse o material, que me indicasse como proceder, que me apontasse quais caminhos trilhar, mas eu não conhecia nenhum espécime dessa gente. Só o João. Mas, para mim, o João, antes de ser escritor, era amigo. Mas era o único escritor que eu conhecia pessoalmente, com livro publicado e tudo. E era reitor da UDESC e havia criado a UDESC Editora, mas isso não significava objetivamente nada. Pedi-lhe o obséquio de ler aquelas páginas e dar-me uma opinião, tão dura e sincera quanto precisasse ser. Ele leu e deu sua opinião.

– Manda para a editora da Universidade, ele falou, acho que o teu trabalho tem algum mérito e, quem sabe, até pode ser publicado. Lá temos um conselho editorial que dará um parecer. Vamos ver o que eles acham.

Eles acharam horrível e mandaram jogar tudo fora.

Na realidade, foi, coincidentemente, um acadêmico desta Confraria, já falecido, que não gostou do tom ideológico do conjunto e dos aspectos eróticos de uns tantos contos: “Despropósitos que a editora de uma universidade oficial jamais poderá publicar!”, ele decretou. Estávamos ainda sob a ditadura, lembremo-nos disto. Mas havia também um fado padrinho, a versão masculina da fada madrinha. Ele também atendia pelo nome de batismo de João, João Paulo Silveira de Souza, o grande escritor brasileiro, um dos maiores dos nossos ficcionistas de todos os tempos, e, por acaso, igualmente acadêmico desta Casa. O Silveira, de quem (suponho eu) mais tarde virei amigo, pediu vistas do projeto de livro e deu um parecer que, em votação, acabou prevalecendo, frontalmente contrário ao anterior. Por culpa exclusiva dele, pois, acabou saindo, em 1979 (33 anos passados, já!), o meu primeiro livro, com o inspirado título de O Insidioso Fato – algumas historinhas cínicas e moralistas.

De acordo com minhas mais caras ambições juvenis, esse era para ser o único e bastante, mas até o momento são oito os livros de ficção que publiquei, supondo que o meu amigo, escritor e acadêmico Francisco José Pereira me empreste, apenas para efeitos estatísticos, sua coautoria no livro O Tempo de Eduardo Dias – Tragédia em 4 tempos, uma peça de teatro que escrevemos sobre a vida do grande pintor catarinense. Este livro nos rende três processos judiciais, com pedidos de sua virtual retirada de circulação e de indenização por danos morais, nenhum deles da parte de familiares do artista, que eventualmente poderiam julgar-se ofendidos pela aparente realidade retratada – escrever biografias hoje, no Brasil, mesmo que ficcionais, é garantia de aborrecimentos profundos. A menos, naturalmente, que se tratem dessas obras laudatórias tão em voga, em regra encomendadas, as quais versam sobre personagens impolutos, nobres e desprendidos, mesmo quando o biografado é um político, ou um empresário, ou um ser humano. Dos processos a que eu, o Francisco e sua Editora Garapuvu respondemos, dois já foram arquivados com decisões a nosso favor. Pelo terceiro deles, entretanto, penamos as possibilidades da condenação ao pagamento de pesada indenização por conta de um fatos marginais relatados na obra, plenamente verídicos e totalmente documentados, narrados em forma de conversa de bar entre personagens secundários da peça. No entanto – pasmai, Senhores!, enrubescei, Senhoras! –, fatos tais ocorridos nesta cidade no ano da graça de 1919! Um ano antes, pois, da fundação desta excelsa Casa de Cultura! Estamos a pique de sermos penalizados porque um juiz decretou que, “ainda que verdadeiros os fatos, ainda que documentados os acontecimentos, a família do ofendido sofre demais ao ver assim tratado um seu antepassado”.

Senhoras e Senhores,

Caso o Francisco me conceda esse favor estatístico, serão oito os livros que terei publicado até aqui, até o momento da minha surpreendente aceitação por esta magna Sociedade – e oito, não nos esqueçamos, dizem, posto que nada conheço do assunto nem o utilizo, é o grupo do camelo no jogo do bicho, bicho que simboliza a Cadeira de Manoel dos Santos Lostada, a qual teve o fecundo jornalista Gustavo Neves como fundador e o admirável professor e incomparável ser humano Lauro Junkes como antecessor deste que vos fala (já há tanto tempo, há tempo demais, é verdade). Não é nada fácil desmembrar didaticamente a Cadeira de número 32, tamanho o entrelaçamento existente, e muito forte, entre seus vários ocupantes. Gustavo Neves, por exemplo, era genro adotivo de Santos Lostada, posto que casou com Benta dos Santos, filha adotiva do patrono. Como fruto das suas minuciosas pesquisas, Lauro nos ensina que Gustavo viveu na casa de Santos Lostada desde 1914, ou seja, a partir dos 15 anos de idade – quase um irmão, pois, de Benta, com quem veio a casar e ter filhos. Por outro lado, Lauro não nos informa os nomes dos pais de Gustavo Neves, situação similar à que ocorre com os pais de Ataliba Gonçalves das Neves, que vem a ser o avô paterno deste Amilcar, também Neves, que ora vos fala: ninguém me disse até agora quem são os meus bisavós Neves, nem de onde eles teriam vindo.

E há ainda os números e as datas que envolvem toda essa gente.

Algumas curiosas constatações: o patrono Manoel dos Santos Lostada nasceu em 8 de março (de 1860), enquanto Lauro Junkes, o terceiro na linha de sucessão, digamos assim, nasceu a 9 de março (de 1942). Ambos, porém, morreram em um 20 de outubro: Lostada em 1923, Lauro em 2010 – aliás, Lauro teve o capricho de escolher uma data de morte absolutamente redonda: 20 de 10 de 20-10, ou de 2010. Já os dois Neves da 32 nasceram em meses de abril: Gustavo em 10 de abril de 1899 (há 113 anos, pois, anteontem completados) e Amilcar a 24 de abril de 1947. Como os outros dois morreram no mesmo 20 de outubro e Gustavo se foi desta para melhor em 1º de abril de 1980, existe uma substancial possibilidade de que Amilcar venha a morrer também num primeiro de abril; estatisticamente, tal probabilidade é de 0,3%, só que o problema não é, claramente, de fundo estatístico, mas factual. Assim, caso isto se confirme, sinto-me aliviado pelo fato de acabar de superar mais um 1º de abril – o que, aqui entre nós, considerando o calendário gregoriano, me dá um bom fôlego, pelo menos até o finalzinho de março próximo.

Santos Lostada foi um nome que, do interior da minha ignorância, sempre me soou agradável e instigante pelo seu timbre espanholado, mas fazia-se difícil, para mim, à distância no tempo, conhecer algo da sua produção literária, a qual nem foi tão extensa. No seu discurso de posse nesta Academia, em 23 de junho de 1983, Lauro assumiu o compromisso: “Como está dispersa e quase inacessível para o leitor, proponho-me ao compromisso de, como homenagem a meu patrono, reunir futuramente o que for possível de sua obra e dar-lhe publicação em alguma forma de livro.” Homem de palavra e homem de pesquisa minuciosa, nosso notável Lauro, a quem muito deve a cultura literária deste Estado, resgatou em 2008 o solene compromisso publicamente assumido um quarto de século antes. E o fez através do volume 35 da Coleção ACL (coleção que, de forma magistral, ele tanto impulsionou, especialmente através do seu laborioso trabalho de resgate das raízes da nossa Literatura, compilando e nos trazendo obras quase esquecidas dos fundadores das letras catarinenses). Ao livro de Manoel dos Santos Lostada, Lauro Junkes deu o título de Minutos de Mar, uma referência direta à coluna de mesmo nome que nosso Patrono comum assinou no jornal Folha do Commerciopelo menos entre 1909 e 1910. E, desse livro, ressaltam as qualidades embrionárias do contista, com três obras promissoras de um gênero que lamentavelmente ele não desenvolveu mais, e, em especial, destacam-se as virtudes do cronista – no caso, obviamente, crônicas publicadas às quartas-feiras, como hoje o imita este também cronista semanal no Diário Catarinense.

Agrada-me sobremaneira a abertura da crônica Os crótons, publicada há 112 anos completados quatro dias atrás (A Página, Florianópolis, 08.04.1900): “Madalena, a esfíngica Magdá dos íntimos, profunda, austera, de ironias lacônicas e olhos em cismas, teve o extraordinário capricho de estar alegre. Recebeu-me em risos, de coração aberto. […] Jamais a vira assim, tão palavrosa e gárrula. Toda de branco, no festival do jardim, suavizava-lhe o rosto o cabelo abundante e negro, solto pelas espáduas.”

Erotismo, parece-me.

Magdá, Lostada… Ele foi grande amigo, íntimo, de João da Cruz e Sousa e de Virgílio dos Reis Várzea. Juntos, os então três jovens poetas publicaram, em 1883, o livreto dedicado “à Julieta dos Santos”, uma atrizinha de nove anos que passou pela Ilha derrubando corações. Cruz é o nome maior do simbolismo brasileiro, nosso negro sublime, o marco da poesia barriga-verde. Várzea, na prática, deu formas ao conto catarinense, além de ser considerado um marinhista de escol, votado ao culto das coisas do mar, mar ao qual nossa Capital sempre foi, estranhamente, por estar numa ilha, tão avessa. E o Manoel, Manoel dos Santos Lostada? Será que não seria o caso de pensarmos nele como o patrono, não só daquela Cadeira 32, que daqui vislumbro, como da crônica catarinense?

Senhoras e Senhores,

Entrego a palavra àqueles que detiverem a necessária autoridade para dirimir a questão – deixando claro que a melhor pessoa a fazê-lo teria sido o nosso inesquecível Lauro Junkes.

Este Lauro, que sempre foi tão gentil comigo – mas que o era com todos os que o procurassem; este Lauro, que está aqui muito perto de todos nós que o conhecemos tão bem e que dele tanto admiramos a sagaz inteligência; este Lauro, que nos deixou esparsa em jornais, revistas e livros alheios uma obra com o registro fundamental da produção literária catarinense; este Lauro, que tantas pessoas, tantos intelectuais, tantos escritores melhor do que eu teriam a necessária competência para sucedê-lo na Cadeira 32; este Lauro, de quem não fui aluno formal, nem colega de magistério, nem comandado na Academia, mas que mesmo assim vez ou outra me chamou cá para dentro desta augusta Casa para ouvir e, até, suprema audácia!, para falar; este Lauro que tanto respeitamos e que tanto valorizou a Literatura feita em Santa Catarina, por insignificante que ela fosse – por insignificante que ela seja – , porque acreditava que não seria na Universidade do Acre que as nossas letras seriam estudadas academicamente, mas apenas aqui, no seu espaço nativo, nas faculdades e universidades locais é que ela encontraria espaço, um espaço que ele tão soberanamente valorizou e pelo qual tanto brigou, nem sempre com o merecido êxito; este Lauro Junkes olhou para mim um dia e disse, em palavras candentes que me marcam até hoje e que me marcarão até um primeiro de abril desses aí:

– Tudo bem que escrever crônicas e publicá-las em jornal é interessante, divulga o teu nome, torna-te conhecido onde o jornal for lido. Entretanto, isso, a crônica, é passageiro, tão passageiro como o jornal que a veicula. Se queres algo das Letras, se desejas a tua obra inserida na Literatura, concentra-te no conto, na novela e no romance. Isto é o que permanece um pouco mais, isto é o que poderá trazer algum respeito pelo teu trabalho literário.

Ele me falava de imortalidade, a pequena imortalidade que buscamos todos os que escrevemos com seriedade, sem concessões, fieis a nós mesmos, aos nossos princípios, às nossas ideologias. Preciso ouvir o Mestre – ouvir no sentido de seguir suas palavras.

Senhoras e Senhores,

Acreditai em mim, rogo-vos: eliminei mais de 80, talvez 90% do que, ingenuamente, planejara dizer-vos. Talvez um livro dê conta da tarefa – um livro que, como costumeiro, poucos lerão (mas, ainda assim, teimamos em escrever livros).

Quero aqui, agora, agradecer, e agradecer de coração: agradecer aos acadêmicos que, sei lá por quais motivos, escolheram votar no meu nome para ocupar esta prestigiosa Cadeira 32; agradecer, com igual ênfase e reconhecimento, a todos aqueles que preferiram outros nomes para sufragar: uma unanimidade, se ocorresse, deixar-me-ia muito mal: só é unânime quem nada diz, quem nunca se posiciona, quem espera o vento soprar para escolher o lado para o qual pular; agradecer aos eventuais leitores que me prestigiam no jornal, no livro e na sala de aula: o que eles verdadeiramente prestigiam é a obra, não o autor, que pouco importa frente ao trabalho que este possa ou consiga desenvolver; agradecer a vós todos aqui presentes, e a muitos outros daqui ausentes pelos mais sérios e justos motivos, que poderiam destinar este tempo todo a tarefas bem mais gratificantes e prazerosas; agradecer aos amigos, parentes, conhecidos e seres humanos que a gente encontra e desencontra pelas esquinas da vida, pelos cantos do mundo; agradecer à Maria Vitória, um enigma: começamos a namorar no mesmo ano em que comecei a escrever, e agora já não sei mais se escrevo porque a amo ou se a amo porque escrevo, e assim não posso, sob pena de grave risco, prescindir, bígamo, nem dela nem da Literatura; agradecer a paciência e compreensão, ainda que forçadas, dos filhos Amilcar, Maria Alice e Lúcia Helena, dos netos Caio e Gabriel, do genro Nathan e da nora Mônica: esse povo todo sofre, sofreu, uns mais e outros menos, por causa dessa circunstância que faz os escritores necessariamente alhearem-se um tanto do mundo para criarem um outro mundo, fictício e mais real, de que outras pessoas, absolutamente estranhas e desconhecidas, é que eventualmente irão desfrutar; agradecer, por fim, a todos aqueles que aqui não citei por absoluta desmemória, inaceitável, da minha parte.

Senhoras e Senhores,

Assumo todas as responsabilidades desta honrosa investidura e coloco-me desde agora ao serviço das Letras, da Cultura e desta Academia de Santa Catarina.

Obrigado.


(Amilcar Neves)

MERCADORIA – de gilda kluppel / curitiba.pr

Segue o seu caminho

apresenta as armas

em linhas verticais prepara o escudo

manipula a espada

e aglutina seguidores
dentre os que não conhecem seus fetiches

permeia relações e forja emoções

inúmeros painéis indicam

os sentidos captam sem demora

matéria à mostra

preço a prazo e longe da vista

num instante a aspiração

de uma vida cumulativa

objetos, coisas, troços…

rapidamente se tornam obsoletos

outra necessidade inventada

um novo ciclo inicia

na contramão do poema

segue a sua marcha mercadoria

seduz mais adeptos

para juntar o metal precioso

e acumular tempo perdido

em tantas dores recolhidas

empilhar-se de bens

e tentar saciar as infinitas cobiças

na ilusão de ser pelo que tens.

Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff – por silvana toazza / ZH / porto alegre.rs

José Antônio Fernandes Martins ajudou a moldar o pacote de estímulo à indústria

Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff Maicon Damasceno/Agencia RBS

Martins tem longa amizade com a presidente do paísFoto: Maicon Damasceno / Agencia RBS

Um articulador, um interlocutor e um conciliador. Mais do que palavras parecidas, elas definem José Antonio Fernandes Martins, executivo da Marcopolo escalado pela presidente Dilma Rousseff para ajudar a moldar o pacote de estímulo à indústria lançado na última terça-feira.

Não foi, portanto, uma coincidência que setores importantes da Serra, como o de fabricantes de ônibus, tenham sido contemplados com as medidas de desoneração da folha de pagamento e de redução de juros para aporte em inovação.

Grande mérito de Martins, a quem Caxias vê como seu porta-voz junto ao Planalto, num momento em que a palavra desindustrialização assombra a economia. O prestígio e a responsabilidade estão à altura dos cargos que Martins ocupa.

É presidente de três entidades: da Associação do Aço do Estado, da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) e do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre).

Também é vice-presidente de Relações Institucionais da Marcopolo, da Federação das Indústrias do RS (Fiergs) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Isso só para citar os cargos mais representativos, sendo que a última função demonstra um grande reconhecimento nacional, uma vez que a Marcopolo não possui planta fabril em São Paulo.

Martins, junto com Jorge Gerdau e Paulo Tigre, é um dos três industriais gaúchos a ter credencial para sentar na mesa da presidente e expor suas reivindicações. Esteve em Brasília na terça-feira passada durante o anúncio do pacote. Tem um canal aberto com Dilma. E não é de hoje: conhece-a há cerca de 20 anos e começou a estreitar os laços desde quando ela era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul.

Como ministra-chefe da Casa Civil, Dilma ligou diretamente para o celular de Martins em pelo menos duas oportunidades: para consultá-lo sobre o programa de ônibus escolar e para convidá-lo a integrar o conselho curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

— É um patrimônio essa relação de amizade. Mas eu nunca me aproveitei dessa situação, muito menos agora que ela é presidente. Só quando era candidata a presidente é que a pressionei, no bom sentido, a vir a Caxias e visitar a Marcopolo, conhecer nossa empresa — recorda, acrescentando que é convocado para os encontros em Brasília por meio de e-mails assinados pela presidente.

Com perfil afável, sorriso fácil e um discurso sereno, o vice-presidente para assuntos institucionais da Marcopolo conseguiu convencer a presidente, mostrando por “a mais b” que o ramo de ônibus tem uma importância estratégica brutal para o país. Engatou, com isso, avanços significativos para o setor, refletidos na redução de juros e na ampliação do prazo de pagamento do crédito, a  ponto de Dilma perguntar na terça:

— Está satisfeito, Martins?
— Muito! — apressou-se.

O Pioneiro fez a mesma pergunta, e ouviu de resposta:
— Esse pacote busca a continuidade de um crescimento sustentável das empresas nacionais contra os ataques que sofremos da economia mundial. Mas, claro, não vai resolver tudo. É o início. É uma demonstração que o governo federal está dando no sentido de recompor e melhorar a competitividade das nossas empresas.

Com seu jeito conciliador, Martins transita com desenvoltura tanto no ambiente de sindicalistas quanto por gabinetes de ministros, deputados, senadores, secretários, governador e presidente (muitos, amigos pessoais dele), carregando os pedidos de melhoria ao setor de transporte. Resultado: foi escolhido para o time de “conselheiros” de Dilma como um dos 28 jogadores que mais entendem do campo econômico e empresarial do país.

— Eu era até certo ponto um grão de areia perto da montanha rochosa do PIB brasileiro — sintetiza, modestamente, lembrando que nos encontros no Palácio do Planalto ficou lado a lado de grandes nomes do setor de empreiteiras, de bancos, da aviação.

Na última semana, sentou ao lado de Eike Batista, empresáriomais rico da América do Sul. Para Caxias, no entanto, Martins representa o oceano de oportunidadese perspectivas de uma região que soube se projetar no mundo e hoje é o segundo maior polo metalmecânico do país.

Com 79 anos a serem completados no dia 21 de abril, José Antonio Fernandes Martins não aparenta nem de longe a idade que tem. Exibe com orgulho as medalhas como corredor de longa distância. Participou de maratonas em São Paulo, Porto Alegre e Blumenau, fato que lhe trouxe no passado problemas na coluna e a necessidade de uma cirurgia.

De 1982 até 1995, chegava a correr 16 quilômetros por dia. Em uma única prova, atingiu 43 quilômetros, em quatro horas e vinte minutos. Afastado da maratona de corridas (embora continue maratonista de aeroporto e na defesa de setores econômicos), o engenheiro montou uma academia em casa. Sempre que pode, exercita-se duas horas por dia para não perder o pique.

Também é adepto da medicina ortomolecular. Conheceu praticamente o mundo quando trabalhava com afinco no processo de internacionalização da Marcopolo.

Hoje, em compensação, faz questão de não viajar ao Exterior para compromissos de trabalho. Os xodós da casa são o trio de cadelas: a Âmbar (poodle), a Chanel (poodle gigante que parece uma ovelha) e a Lica (boxer). Tem dois filhos, Bebeto (empresário) e Zeca (jornalista, com atuação junto ao governo), três netas e um neto.
Seu Martins tenta reunir a família em almoços e jantares, mas admite que a agenda às vezes não ajuda.

Mas, como conciliador, consegue administrar as múltiplas tarefas, sempre com tranquilidade, fala pausada e bom humor. Assim, com seu  jeito cortês, ganhou a simpatia da presidente, a ponto de lhe perguntar na visita que fez ao estande da Marcopolo, durante a abertura da Festa da Uva 2012, em fevereiro:

— Seu Martins, se recuperou da cirurgia do coração? — numa preocupação que vai além de números.

Ele diz que passou um mês em ritmo lento, mas agora já retomou sua antiga boa forma. Engana-se quem pensa que José Antonio Fernandes Martins tem um bom trânsito apenas com alas oficiais.

Assim como é amigo de grandes nomes ocupantes de cargos dos governos federal e estadual e tem boa relação com entidades de classe e órgãos institucionais, também demonstra habilidade para se comunicar com sindicalistas. Consegue dialogar com lideranças da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), resolvendo impasses e buscando formas de empresas e funcionários crescerem juntos. Como se dá esse trânsito por alas com interesses conflituosos?

— Eu aprendi uma coisa muito cedo na minha vida: eu não brigo com ninguém, porque você nunca sabe de quem vai precisar e quem estará sentado na cadeira amanhã.
Eu me dou bem com o PT, o (José) Serra de São Paulo é meu amigo, assim como o Geraldo Alckmin (governador de São Paulo). Já fui a Dubai com os dois. A vida não tem partido político bom ou ruim. Você tem de buscar as melhores condições para o seu setor — aconselha, dando uma pista do temperamento amistoso.

Porto-alegrense de nascimento, Seu Martins tem como hobby colecionar obras de arte. Sabe contemplar o que é belo. E não apenas por intuição ou por vaidade. Dedica-se com desenvoltura a ler (ou melhor, estudar, como define) livros sobre arte, vinhos e economia, áreas com as quais trava bastante afinidade.

Seu escritório em casa é recheado de publicações sobre os três temas. Mandou catalogar, em formato de livro, todos os quadros que, junto com a mulher Hieldis Severo Martins, garimpa em antiquários, galerias e por meio de contatos com colecionadores.
Orgulha-se das peças raras que possui e prestigia pintores brasileiros (inclusive de Caxias e região), como Iberê Camargo, Sergio Lopes, Heitor dos Prazeres, Victor Hugo
Porto, Beatriz Balen Susin, Di Cavalcanti, Celestino Machado e Britto Velho.
Em sua casa, para onde quer que se olhe, há um detalhe a espreitar a curiosidade e enlevar o espírito.

O bom gosto é expresso em obras de arte como quadros, esculturas, móveis, prataria e pequenos objetos raros de decoração garimpados em antiquários, galerias e pelas viagens ao redor do mundo. A impressão é de se estar circulando por uma galeria. Uma casa inteira ornamentada com uma primorosa coleção de arte, inclusive o elevador.

— Eu prefiro investir em arte do que em imóveis e terrenos. Arte é uma coisa que você aproveita, curte, embeleza, alegra. Mas para curtir, você tem de conhecer, ler, estudar — ensina, admitindo que poucos empresários investem nessa área.

Martins e Hieldis também gostam de frequentar amigos e serem frequentados. Nesses momentos, “aos que apreciam e conhecem”, o casal não hesita em brindá-los com vinhos distintos, de lotes raros. Já recebeu em sua casa, para “jantares de cortesia”, o governador Tarso Genro, secretários, políticos e empresários.
Homem de confiança de Dilma, já houve especulação de que Martins teria sido convidado pela presidente para assumir algum cargo no governo, como o de ministro. O empresário, no entanto, nega. Garante que isso não ocorreu, até por ele sempre ter demonstrado que não assumiria um desafio assim:

—Eu nunca tive intenção, vontade e nem disposição para assumir um cargo político. Eu sou homem Marcopolo e acabou. Eu sou mais útil para a empresa (Marcopolo), para a comunidade e para o setor de transporte na posição em que estou, pois tenho liberdade para falar e criticar — argumenta Martins.

O executivo diz que está confiante na sinalização de Dilma de que pretende dar continuidade a esses encontros com o empresariado e que mais medidas de impulso à economia devem estar a caminho, abrangendo outros setores. E já aponta, com conhecimento de causa, lacunas que o setor industrial apresenta:

— Carga tributária próxima aos 40%, uma logística altamente inadequada e cara, um câmbio desfavorável, talvez os maiores juros do mundo, uma energia cara, uma carga de leis sociais absurdamente alta. Isso faz com que o custo Brasil torne-se elevado, deteriorando nosso poder de competição. Tudo isso fez com que o país sofresse um ataque forte das economias internacionais, sobretudo da China, provocando o que chamamos de desindustrialização.

POEMAS DE V. KHLÉBNIKOV (1885-1922) – por mario francisco ramos / são paulo.sp

1)Из мешка
На пол рассыпались вещи.
И я думаю,
Что мир –
Только усмешка,
Что теплится
На устах повешенного.
(1908)De um saco roto
Vazou quase tudo.
E eu penso
Que o mundo
É só um riso maroto
Luz fraca nos lábios
De algum enforcado.

2)

Девушки, те, что шагают
Сапогами черных глаз
По цветам моего сердца.
Девушки, опустившие копья
На озера своих ресниц.
Девушки, моющие ноги
В озере моих слов.
(1921)

Moças, estas que marcham
Nos coturnos de seus olhos negros
Pelas flores do meu coração.
Moças que baixam as lanças
De seus cílios sobre os lagos.
Moças que lavam seus pés
Nas águas das minhas palavras.
(1921)

3)
* Fragmento do longo poema épico Zanguézi, escrito entre 1920 e 1922, última obra de Velimir Khlébnikov:

А вы, сапогоокие девы,
Шагающие смазными сапогами ночей
По небу моей песни,
Бросьте и сейте деньги ваших глаз
По большим дорогам!
Вырвите жало гадюк
Из ваших шипящих кос!
Смотрите щелками ненависти.
Глупостварь, я пою и безумствую!

E vocês, mocinhas botinolhas?
Com suas botas ensebrilhadas da noite
Pelo céu das minhas canções,
Colham e semeiem a grana dos seus olhos
Pelas estradas!
Arranquem o ferrão de serpente
De suas sibilantes tranças!
Olhem pelas frestas do ódio.
Ferestúpida, eu canto e enlouqueço!

4)
Я И РОССИЯ

Россия тысячам тысяч свободу дала.
Милое дело! Долго будут помнить про это.
А я снял рубаху,
И каждый зеркальный небоскреб моего волоса,
Каждая скважина
Города тела
Вывесила ковры и кумачовые ткани.
Гражданки и граждане
Меня – государства
Тысячеоконных кудрей толпились у окон.
Ольги и Игори,
Не по заказу
Радуясь солнцу, смотрели сквозь кожу.
Пала темница рубашки!

А я просто снял рубашку –
Дал солнце народам Меня!
Голый стоял около моря.
Так я дарил народам свободу,
Толпам загара.
(1921)

Eu e a Rússia

A Rússia deu a liberdade a milhares de milhares.
Que bonito! Por muito tempo lembrarão disto.
E eu tirei a camisa,
E cada arranha-céu espelhado dos meus cabelos,
Cada fresta
Da cidade do corpo
Estendeu tapetes e rendas.
Cidadãs e cidadãos
De Mim, eu-Estado
De mil janelas de madeixas apinhadas nelas.
Olgas e Ígores
Alegrando-se ao sol,
E não por ordem de alguém, espiavam pela pele.
Caiu a prisão da camisa!

Tão só a camisa tirada,
Dei o sol aos povos de Mim!
Nu, junto ao mar, foi assim
A liberdade aos povos dada,
O bronzeado às multidões.
(1921)

5)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi (1921):

Иди, могатырь! [1]
Шагай, могатырь! Можарь, можар!
Могун, я могею!
Моглец, я могу! Могей, я могею!
Могей, мое я. Мело! Умело! Могей, могач!
Моганствуйте, очи! Мело! Умело!
Шествуйте, моги!
Шагай, могач! Руки! Руки!
Могунный, можественный лик, полный могебнов!
Могровые очи, могатые мысли, могебные брови!
Лицо могды. Рука могды! Могна!
Руки, руки!
Могарные, можеские, могунные,
Могесные, мошные, могивые!
Могесничай, лик!
Многомогейные, могистые моги,
Это вы рассыпались, волосы, могиканами,
Могеичи — моговичи, можественным могом, могенятами,
Среди моженят — могушищ, могеичей можных,
Вьется один могушонок,
Можбой можеству могес могатеев могатых.
В толпе моженят и моговичей.

Вода в клюве! Крылья шумят ворона.
Тороплюсь, не опоздать бы!

Лицо, могатырь! Могай, моган!
Могей, могун!
Могачь, могай!
Иду можарищем, можарю можарство можелью!
Могачь, могай! Могей, могуй!
Иди, могатырь!
Мог моготы! Можар можавы!
Могесник, мощник!
Можарь, мой ум! Могай, рука! Могуй, рука!
Моган, могун и могатырь!

Vai, poderói!
Marcha, poderói! Possarda, possardor!
Possaz, eu podo!
Poderudo, eu posso! Podei, eu podo!
Podei, meu eu. Prumado! Aprumado! Podei, posseidor!
Poderandai, olhos! Prumados! Aprumados!
Desfilai, podeidades!
Marcha, posseidor! Mãos! Mãos!
Possálico, podivinoso semblante, cheio de pondorações!
Poderardentes olhos, posselhonários pensares, pondereiros sobrolhos!
O rosto dos podentreiros. A mão dos podentreiros! Possenvasores!
Mãos, mãos!
Possublimes, possálicas, podivinas,
Portenteiras, potenciosas, poderousadas!
Posserga-se, semblante!
Onipodentes, posserosas podeidades,
Vocês espalharam-se, cabelos, possindígenos,
Poderanos: poderdeiros, pelo possenhor podivinoso, por podescendentes,
No meio dos possinfantes: o potentaço, dos poderozes proverossímeis,
Enrosca-se um sapoderoso,
Possencantado por podivineiros podencantos de possentes posselhardários.
Na multidão de possinfantes e poderdeiros.

Água no bico! As asas da gralha fazem ruído.
Tenho pressa, não posso atrasar!

O rosto, poderói! Possai, poderoz!
Podei, possaz!
Possereiro, possai!
Em poderardor, possincendeio com potentochas o podereino!
Possereiro, possai! Podei, Possaz!
Vai, poderói!
Poderarde a podreria! O poderardor do possincêndio!
O possencanto, potentante!
Possarda, minha mente! Possai, mãos! Possejam, mãos!
Possaz, poderoz e poderói!

6)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Они голубой тихославль,
Они голубой окопад.
Они в никогда улетавль,
Их крылья шумят невпопад.
Летуры летят в собеса
Толпою ночей исчезаев.
Потоком крылатой этоты,
Потопом небесной нетоты.
Летели незурные стоны,
Свое позабывшие имя,
Лелеять его нехотяи.
Умчались в пустыни зовели,
В всегдаве небес иногдава,
Нетава, земного нетава!
Летоты, летоты инес!
Вечернего воздуха дайны,
Этавель задумчивой тайны,
По синему небу бегуричи,
Нетуричей стая, незуричей,
Потопом летят в инеса,
Летуры летят в собеса!
Летавель могучей виданой,
Этотой безвестной и странной,
Крылом белоснежные махари,
Полета усталого знахари,
Сияны веянами дахари.
Река голубого летога,
Усталые крылья мечтога,
Широкие песни ничтога.
В созвездиях босы,
Там умерло “ты”.
У них небесурные косы,
У них небесурные рты!
В потоке востока всегдава,
Они улетят в никогдавель.
Очами земного нетеж,
Закона земного нетуры,
Они в голубое летеж,
Они в голубое летуры.
Окутаны вещею грустью,
Летят к доразумному устью,
Нетурные крылья, грезурные рты!
Незурные крылья, нетурные рты!
У них небесурные лица,
Они голубого столица.
По синему небу бегуричи!
Огнестром лелестра небес.
Их дико грезурные очи,
Их дико незурные рты.

Eles são a azul silencidade,
Eles são a azul quedad’olhos.
Eles voam pra nunquidade,
Suas asas rugem como foles.
Voaderos voam pros céuguros
Com os noturnos desapareseres.
Na corrente de aladas estasas,
Na torrente celeste de outralas
Voavam lamúrias liberaladas,
Esquecidos do próprio nome
A acarinhar malquereres.
Chisparam por ermos chamantes,
No semprante dos céus de asvezentes,
Da negante, terrestre negante!
Voasentes dos celementos!
A brisa, à noite, em secreditos,
Estérea triste em misterínios.
Passam no céu os correndicos,
Desaseiros bandos, liberalindos,
Na torrente voam pros celementos,
Vão pros céuguros em voamento!
O voaral das vistas potentes,
Com o estranho estaquele indigente,
De asas de neve, os marretadeiros,
Cansados do voo, os curandeiros,
De aureolantes soprenúncios dadeiros.
O rio azul do vôlo,
As asas cansadas do sônholo,
As grandes canções do nádalo.
Nas constelações descalças
A morte do “tu” se alça.
Têm firmamenteiras tranças,
E firmamenteiras bocarras!
Na corrente do leste semprante,
Voaram pro nuncamente.
Com os olhos terrestres da neguez,
Das terrestres leis negandeiras,
Eles vão pro azul em voarez,
Eles vão pro azul em voadeiras.
Envoltos em prefecias em vão,
Voam à foz da pré-razão,
Desaleirasas e roandeiras bocas!
Liberalasas, desaleiras bocas!
Têm firmamenteiras caras,
São a capital azulada.
Correndicos no azul altaneiro!
Afagosos faisqueiros do céu.
Seus olhos bem roandeiros,
Seus lábios liberaleiros.

7)
* Fragmento do poema épico (supernarrativa) Zanguézi:

Иверни выверни,
Умный игрень!
Кучери тучери,
Мучери ночери,
Точери тучери, вечери очери.
Четками чуткими
Пали зари.
Иверни выверни,
Умный игрень!
Это на око
Ночная гроза,
Это наука
Легла на глаза!
В дол свободы
Без погонь!
Ходы, ходы!
Добрый конь.

Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Côcheda núveda,
Mórtida nôitida,
Pôntida núveda, tárdida vístada.
Contas num cântaro
Caem as manhãs.
Solta a sapátada,
Sábio pocó!
Bate na cara
Noturno toró,
Ciência tão clara,
Nos olhos, sem dó!
Livre é o vale
Rédeas na mão!
Marche, marche!
Bom alazão.

8)
* Fragmento de Zanguézi:

Верхарня серых гор.
Бегава вод в долину,
И бьюга водопада об утесы
Седыми бивнями волны.
И сивни облаков,
Нетоты туч
Над хивнями травы.
И бихорь седого потока
Великой седыни воды.
Я божестварь на божествинах!

A altinaria dos montes cinzentos.
A corrandeira das águas nos vales,
A nevarrasca caindo do abismo
Em grisalhos marfins de ondas.
E o agrisalhado das nuvens,
Outrasas nubladas
Sobre circundulantes matas.
E o pancar da corrente grisalha,
O grande grisalhar d’água.
Eu sou um divinomem em divinestâncias!

9)

Мне мало надо!
Краюшку хлеба
И каплю молока.
Да это небо,
Да эти облака!
(1912, 1922?)

A mim basta pouco!
Um naco de pão
E um tanto de mel.
E as nuvens que vão
No azul deste céu.
(1912, 1922?)

Mario Francisco Ramos. Docente de Literatura Russa na USP. Tradutor, publicou artigos sobre literatura russa e tradução de poema de Khlébnikov (revista Cadernos de Literatura em Tradução, no 2), traduziu a peça teatral “À Saída do Teatro…”, de Nikolai Gógol (Paz e Terra, 2002) e participou com a tradução de seis contos na recente Nova Antologia do Conto Russo (editora 34, 2011), com contos de Arkádi Aviértchenko, Velimir Khlébnikov, Boris Pasternak, Evguénii Zamiátin, Serguei Dovlatov e Vladimir Sorokin.

———————————————
Notas

[1] No poema será criada uma série de neologismos e associações de sentido com base em três formas radicais: motch (“мочь”) e mog (“мог”), além de moj (“мож”) e mochtch (“мощь”).
De motch (o verbo “poder”, em sua forma infinitiva), nasce a raiz de sua conjugação interna em primeira pessoa, mogú (“могу”, ou “posso”, em português), e da terceira pessoa do plural, mógut(“могут”, ou “podem”). Esta mesma raiz se expandirá, no texto, para sua função nos adjetivosmogútchii (“могучий”, que significa “potente”, “vigoroso”, “forte”) e também mogúchtchestvennyi(“могущественный”: “poderoso”, “potente”), além do substantivo moguchtchéstvo (“могущество”: “poderio”, “força”).
Moj , além de participar nas formas da conjugação do verbo “poder”, da segunda pessoa do singular à segunda do plural do presente do indicativo (por exemplo, em “tu podes”/ ty mójech/ “ту можешь” ou “nós podemos”/ my mójem/ “мы можем”), também está presente nas palavrasmójno (“можно”: “pode-se”, “é possível”) e vozmójnost (“возможность”: “possibilidade”).
Mog e moj estarão fortemente associadas, na formação de neologismos no poema do Plano X, entre outros casos, à raiz da palavra bog (“бог”: “deus”) e suas variantes, como, por exemplo,bojéstviennyi (“божественный”: “divino”) e bojestvó (“божество”: “divindade”). Etimologicamente, esta palavra está ligada, na língua russa, à formação do substantivo bogátstvo(“богатство”: “riqueza”), do adjetivo bogátyi (“богатый”: “rico”) e de bogátch (“богач”: “muito rico”, “ricaço”, “milionário”). Esta união gerou neologismos como mogátch (mog + bogátch) emojéstviennyi (moj + bojéstvienny).
O neologismo que abre o poema é de grande importância não só para o fragmento, mas paraZanguézi como um todo. Trata-se do neologismo mogatýr (“могатырь”), resultado da aglutinação de mog e bogatýr . Bogatýres eram os heróis das canções épicas antigas russas. Para o neologismo, utilizamos a construção “poderói”.
No caso de palavras nas quais ocorre a união das raízes associadas à idéia de “poder” (verbo ou substantivo) com outras palavras ligadas a “deus”, “divindade”, “divino”, como mojéstviennyi(“можественный”), mojestvó (“можество”), mog (“мог”), foram utilizadas as formas “podeidade(s)”, “podivino(so)”, “possenhor” e outras.
As uniões constantes formadas por “poder” associadas a “riqueza”, “rico”, “ricaço” e outras, comomogátch (“могач”), mogátyi (“могатый”), mogátstvo (“могатство”), a opção foi pelas variantes, entre outras, “posselhonário(s)”/ “posselhardário(s)”, “posseidor(es)”, “podereza”.
Também foi necessária a criação de formas verbais. Khlébnikov trabalha com ao menos três tipos distintos de neologismos que formam imperativos, a partir do verbo “poder”: moguéi (“могей”),mogái (“могай”), mogúi (“могуй”). As variantes possíveis de neologismos em português que mantivessem o mesmo sentido, na segunda ou terceira pessoa do singular (Khlébnikov utiliza a segunda pessoa do singular), não resultaram adequadas, seja por se assemelharem a formas já existentes em outros modos do verbo (como em “possa”), seja por simplesmente fazer recordar outros verbos (como na possibilidade de “poda”, que lembraria o verbo “podar”; esta possibilidade foi considerada inicialmente devido à relação com a criação do neologismo “eu podo”, em primeira pessoa). A opção adotada foi a criação de imperativos na segunda pessoa do plural, com as formas, por exemplo, “possai”, “podei”.

JORGE VIDELA, ex ditador militar da Argentina diz, orgulhoso, ter ordenado até 8 mil mortes

 

13/04/2012 16h21 – Atualizado em 13/04/2012 16h47

Jorge Videla deu entrevista a jornalista argentino que lança livro sobre o regime militar do país.

 BBC
O ex-ditador argentino Jorge Videla (Foto: AFP)
O ex-ditador argentino Jorge Rafael
Videla (Foto: AFP)

O ex-presidente militar argentino Jorge Rafael Videla (1976-1981) admitiu, pela primeira vez, que foi o responsável direto pelas ‘mortes e desaparecimentos de entre 7 mil e 8 mil pessoas’ durante seu governo.

A declaração foi dada ao jornalista argentino Ceferino Reato, que lança no próximo fim de semana na Argentina o livro ‘Disposición Final’ (‘Disposição Final’, em tradução livre), sobre os anos em que Videla comandou o regime argentino.

O general afirmou que a repressão violenta a opositores foi necessária para que não ocorressem protestos dentro e fora do país.

‘Não havia outra solução. Na cúpula militar estávamos de acordo que era o preço a se pagar para ganhar a guerra contra a subversão e precisávamos [de um método] que não fosse evidente, para que a sociedade não o percebesse’, disse Videla ao jornalista.

Em entrevista à BBC Brasil, Reato disse que ‘não foi difícil conseguir a entrevista’.

‘Videla não é procurado pelos jornalistas e estava disposto a falar’, disse.

Ordens
O ex-homem forte da Argentina afirmou ter dado as ordens sobre cada prisão e assassinato de seus opositores. Disse porém ser incapaz de apontar a localização dos corpos pois os assassinatos e eliminação dos cadáveres teriam sido praticados pelas diversas unidades militares sob seu comando.

Videla tem hoje 86 anos e cumpre pena de prisão perpetua na cadeia militar Campo de Mayo, na Província de Buenos Aires.

‘Tenho peso na alma, mas não estou arrependido de nada. Gostaria de fazer esta contribuição para que a sociedade saiba o que aconteceu e para aliviar a situação de muitos oficiais que atenderam às minhas ordens’, afirmou Videla ao jornalista.

As cerca de 20 horas de entrevistas foram gravadas pelo jornalista entre outubro de 2011 e abril de 2012. ‘Ele está bem fisicamente, apesar de curvado por problemas na coluna vertebral’.

‘Videla disse que [os militares] chegaram ao poder depois do golpe decididos a ‘aniquilar’ as ações dos subversivos’, contou.

Desaparecimentos
Videla contou que antes da decisão pelas mortes e desaparecimentos, outras formulas para ‘eliminar’ a guerrilha foram tentadas, como tiroteios disfarçados nas ruas.

‘Eu sabia tudo o que estava acontecendo e autorizei tudo’, disse Videla.

O livro foi chamado de ‘Disposición Final’ porque era como os militares definiam a última etapa a ser cumprida – primeiro prisão, depois morte, e no fim o desaparecimento do corpo.

‘Disposição final são palavras bem militares. Significam tirar algo de circulação quando já é irreversível’, disse.

Videla foi sentenciado à prisão perpétua em 1985, mas cinco anos depois recebeu o perdão do presidente Carlos Menem. Em 1998 foi condenado à prisão domiciliar, sob acusação de sequestro de bebês durante seu governo. Em 2007, o perdão de 1990 foi revogado e um ano depois ele foi enviado a uma prisão militar.

AMILCAR NEVES, teve uma das posses mais concorridas a uma cadeira na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS dos ultimos anos.

auditório da ACADEMIA completamente lotado.

o acadêmico AMILCAR NEVES, diploma na mão, recem empossado, em foto histórica entre seus pares presentes.

o poeta J B  VIDAL foi cumprimentar o amigo  AMILCAR quando da cerimonia. uma pequena mão, de um futuro acadêmico, “tenta surrupiar” o medalhão do titular.

Salman Rushdie: pseudônimo batizará suas memórias / ag. f

O nome falso que Salman Rushdie usou enquanto durou a sentença de morte contra ele vai batizar o livro de memórias do escritor britânico nascido na Índia.

“Joseph Anton” terá lançamento mundial em 18 de setembro. No Brasil, o livro sairá pela Companhia das Letras.

Em 1989, após a publicação do romance “Versos Satânicos”, o aiatolá Khomeini, do Irã, anunciou uma “fatwa”, um decreto religioso que naquele caso estipulava uma sentença de morte, contra o escritor, alegando que o livro blasfemava o islã e o profeta Maomé.

Rushdie viveu por nove anos escondido e sob proteção policial, até que em 1998 o governo do Irã anunciou que não mais incentivaria o cumprimento do decreto religioso.

Segundo a editora Random House, que publicará “Joseph Anton” no Reino Unido, quando passou a viver escondido o romancista escolheu o pseudônimo –exigido pela polícia para dar-lhe proteção– em homenagem a dois de seus escritores prediletos: Joseph Conrad e Anton Tchékhov.

Zsolt Szigetvary/Efe
Escritor Salman Rushdie durante entrevista coletina em Budapeste em novembro de 2007
Escritor Salman Rushdie durante entrevista coletina em Budapeste em novembro de 2007

REPÚBLICA DOS JUÍZES, STF legisla e CONGRESSO se interessa por cargos! – rogério galindo / curitiba

foto de Gevársio Baptista/SCO/STF
Gevársio Baptista/SCO/STF / STF: são eles que mandam.
STF: são eles que mandam.

 

Numa democracia saudável, o Legislativo faz as leis e o Judiciário exige que elas sejam cumpridas. No Brasil, há muito, vem acontecendo uma mudança problemática. O Judiciário decidiu legislar.

A decisão sobre os fetos anencéfalos é apenas o caso mais recente. Por esses tempos, o Supremo Tribunal Federal também decidiu sobre a união civil de homossexuais, o uso de células tronco e uma infinidade de assuntos polêmicos.

O ideal seria que houvesse uma lei sobre cada desses assuntos. E os juízes apenas mostrariam quem infringiu a legislação.

Mas nossos deputados e senadores se omitem. Estão mais ocupados disputando cargos, chantageando a presidente ou fazendo pose de moralistas, até que sejam pegos na próxima esquina.

Quando votam, votam ou assuntos superficiais ou seguem a pauta do Executivo. Quem recebeu benesses é a favor, quem espera chegar ao poder na próxima eleição vota contra.

E o Judiciário, como não existe vácuo de poder, vai criando leis a esmo. Com princípios, claro. Mas com que legitimidade?

O Congresso é que elegemos para nos representar. A função do juiz deveria ser meramente técnica. Mas vira política e logo teremos uma aristocracia togada decidindo sobre os rumos de nosso país.

Uma pena.

O ESCRITOR AMILCAR NEVES, colunista do site ‘PALAVRAS,TODAS PALAVRAS’ toma posse na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS hoje as 19:00

Amilcar Neves toma posse da cadeira 32 da Academia Catarinense de Letras

Prestes a completar 50 anos de carreira literária, ele tem sete livros e meio publicados


o escritor AMILCAR NEVES.

Uma coincidência marca a posse do escritor Amilcar Neves hoje, na condição de membro da Academia Catarinense de Letras. Não é coincidência que precisaria, obrigatoriamente, constar no discurso que preparava ontem para a ocasião. Mas é significativa: no próximo dia 24, ele completa 65 anos de vida. Como começou a escrever aos 15, será empossado no ano em que completa 50 anos de produção literária.Sua atividade não vai ser arrefecida pela condição de imortal das Letras do Estado. Uma conta é curiosa: ele tem sete livros e meio publicados.

— Sem querer copiar o 8 1/2 de Federico Fellini, mas o livro sobre Eduardo Dias (O Tempo de Eduardo Dias —Tragédia em Quatro Tempos), pelo qual tenho carinho especial, é metade do Francisco Pereira — argumenta Amilcar.

Quem sabe até a frequência de lançamentos se intensifique. Já há um novo trabalho bem encaminhado. A filha morou no Bronx, famoso bairro de Nova York, enquanto fazia seus estudos de doutorado. Hospedados na casa dela, o escritor e a mulher passaram três períodos por lá, vivendo um dia a dia normal, se deslocando por metrô e fazendo as compras de casa.

O período serviu para escrever muito. Várias crônicas escritas nos EUA foram publicadas no Diário Catarinense, onde é colunista (assina a crônica da página 3 do Variedades, logo ao virar a página). Da época, há material não publicado.

— Quero juntar tudo em um livro, são textos com uma visão crítica do país. De longe, a gente consegue perceber coisas que aqui não percebemos. Essa é a ideia, ver o Brasil a partir do Bronx. Não vai ser um guia turístico, vai ter um pouco de ficção e de realidade — conta.

Amilcar também quer reeditar uma de suas mais curiosas obras. Trata-se de Pai Sem Computador, uma novela infanto-juvenil de 1993, que teve seis edições e, para o autor, pode ter mais. É uma história que se passa na Ilha, e introduz algo que era mais ou menos novo à época, o computador pessoal. Por conta de nomes técnicos ainda desconhecidos pela maioria dos leitores, tinha muitas notas de rodapé.

— As pessoas têm me pedido para reeditar o livro, que tem um tema sempre interessante. Mas agora, não há mais razão de ter as notas de rodapé. Hoje em dia, nem se usa mais disquete — diz.

Nova posse na semana que vem

Quanto ao assunto Academia, vale destacar que ele assume a cadeira número 32, que pertencia ao escritor e professor Lauro Junkes. A solenidade será amanhã, às 19h, na sede da instituição. Na semana que vem, outro novo membro será empossado na ACL: Gilberto Gerlach, que assume a vaga deixada pela morte do historiador Carlos Humberto Corrêa.

— Não tenho tido contato com a Academia, nem oficialmente. Só começo a receber as informações quando for oficialmente empossado. Mas acho que há muita coisa para ser feita. A tendência entre um grande grupo de membros é trabalhar para abrir mais a estrutura física — opina o novo imortal.

.
RENÊ MÜLLER – DC

SERGIO CAMARGO: ‘PERCURSO ESCULTÓRICO’ no MON / curitiba.pr

Demóstenes aposta no STF para esfriar caso e evitar cassação / leandro colon e gabriela guerreiro – brasilia.df

O senador Demóstenes Torres (sem partido) planeja esperar que o STF (Supremo Tribunal Federal) analise o pedido de anulação dos indícios contra ele nas investigações da Polícia Federal para só então discutir uma eventual renúncia, informa  Leandro Colon e Gabriela Guerreiro.

Senado exonera enteada de Gilmar Mendes de gabinete de Demóstenes
Entenda as suspeitas envolvendo o senador Demóstenes Torres
Ministro da Justiça defende atuação da PF no caso Demóstenes
Chefe de gabinete de Marconi Perillo deixa cargo após revelações
Duro oposicionista, Demóstenes criticou corrupção; relembre

A defesa de Demóstenes afirma que vai entrar hoje com um pedido para que seja anulado o poder de prova das gravações telefônicas que o ligam ao empresário Carlinhos Cachoeira, acusado de explorar jogo ilegal. O senador alega que, por ter foro privilegiado no STF, não poderia ter sido monitorado sem o aval da corte.

Carlos Cecconello – 6.dez.10/Folhapress
Por ter foro privilegiado, o senador (à dir.) só pode ser julgado por ministros do STF, entre eles, Mendes
Por ter foro privilegiado, o senador (à dir.) só pode ser julgado por ministros do STF, entre eles, Gilmar Mendes….

Juridicamente, avalia o senador, uma renúncia a esta altura levaria o seu caso para o Tribunal de Justiça de Goiás, onde tem foro como procurador de Justiça. Lá, corre o risco de ter sua prisão pedida, o que hoje ele descarta no âmbito da Procuradoria-Geral da República.

A.FOLHA.

Imprensa permanece blindada no caso “Cachoeira” — por vinícius mansur / brasilia.df

Dezenas de agentes ligados ao esquema do contraventor Carlinhos Cachoeira já estão sob a mira da Justiça, do Congresso, da imprensa e da opinião pública após serem citados nas investigações que deflagraram a operação Monte Carlo. Envolvimento de jornalistas, porém, não recebe os mesmos holofotes. Questionada, Veja indicou telefone de consultoria jurídica que nega trabalhar em algo relativo à revista.

Brasília – A Operação Monte Carlo resultou na prisão de 35 pessoas acusadas de envolvimento com a quadrilha da jogatina de Carlinhos Cachoeira, em Goiás. Entre os acusados, dois delegados da Polícia Federal, seis delegados da Polícia Civil goiana, um agente da Polícia Rodoviária Federal e 29 soldados, cabos e oficiais da Polícia Militar de Goiás.

A classe política também sangra com a operação. Após terem seus nomes mencionados nas investigações do Ministério Público e da Polícia Federal, os deputados Carlos Leréia (PSDB-GO), João Sandes Júnior (PP-GO) e Rubens Otoni (PT-GO) e, especialmente, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) já são alvos de diversas reportagens e de um inquérito encaminhado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Caminho parecido deve seguir o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), dadas as denúncias crescentes na mídia que expõe seus vínculos com Cachoeira.

Mais complicado, entretanto, é vir a público quais são os setores da imprensa envolvidos com a organização criminosa.

Conforme noticiou Carta Maior, partes do inquérito que deram origem a Operação Monte Carlo – publicadas na internet – citam relações promíscuas de jornalistas com a quadrilha de Cachoeira. Porém, apenas o nome de Wagner Relâmpago, repórter do programa DF Alerta, da TV Brasília/Rede TV, é explicitado.

Os três procuradores federais do Ministério Público responsáveis pelo caso – Daniel de Resende Salgado, Léa Batista de Oliveira e Marcelo Ribeiro de Oliveira – não deram maiores informações sobre o envolvimento de jornalistas. “Vamos ter que estudar isso”, limitou-se a dizer o procurador Marcelo Ribeiro.

Por meio de sua assessoria, o juiz da 11ª Vara da Justiça Federal em Goiás, Paulo Augusto Moreira Lima, que expediu os mandados da operação Monte Carlo, disse que não vai se pronunciar porque o processo corre em segredo de Justiça e só quem tem acesso a ele são as partes envolvidas e seus procuradores.

Porém, diversas outras informações, além daquelas que já são públicas devido ao vazamento de trechos do inquérito citado acima, seguem sendo meticulosamente reveladas por veículos de comunicação. Mas, praticamente nada diz respeito aos jornalistas envolvidos.

Rara exceção foi o jornalista Luis Nassif, que obteve a informação de que as investigações registraram mais de 200 telefonemas entre Cachoeira e o diretor da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior.

No intuito de se defender, no último sábado (31), a revista tornou pública a gravação de uma conversa, que teria sido feita em 8 de julho de 2011, entre Cachoeira e o ex-agente da Abin, Jairo Martins, acusado pela Justiça de pertencer à quadrilha. Na conversa, Cachoeira cita Policarpo como “alguém que nunca vai ser nosso” e ainda afirma que foi seu grupo quem deu “os grande furos do Policarpo”,“limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho pro Brasil, essa corrupção aí”.

Para Nassif, esta gravação não é suficiente para desfazer a associação da quadrilha com a revista, entre outras razões, porque foi registrada em uma época em que a antiga relação entre elas já estava esgarçada. “Há um vazamento seletivo. Por que não divulgam os demais grampos?”, indaga.

Procurada pela reportagem, a revista Veja alegou que o assunto deveria ser tratado com seu departamento jurídico. Entretanto, no telefone informado, a Novoa Prado Consultoria Jurídica afirmou que, apesar de já ter prestado serviços para a Editora Abril, nunca trabalhou em nada relativo à revista Veja

O assunto parece mesmo proibido nos veículos da mídia tradicional, ainda que em mínimas proporções. O blog “Rádio do Moreno”, que faz parte da edição digital do jornal O Globo, teve que retirar do ar, na última sexta-feira (30), um texto do colaborador Théofilo Silva. O artigo mencionava que “o poderoso editor da revista Veja” estaria envolvido com Cachoeira e indagava “se você compra a imprensa e as autoridades públicas, o que mais falta para ser o dono do Estado?”

Na nota em que comunicou a retirada do texto, Jorge Moreno disse ter recebido “uma grave e merecida advertência do diretor de redação, Ascânio Seleme”, alegou falta de apuração e concluiu “não considero correto que um blog de jornalista agrida outro jornalista”.

C. MAIOR

Demóstenes quebra silêncio e critica proposta de Dilma no blog. Demóstenes não faz nenhuma menção às suas ligações com o marginal Carlinhos Cachoeira nem sobre o seu incerto futuro. Não se defender das acusações e atacar a Presidenta é como ele quer dar “atenuante” para o STF. Se o relator for o GILMAR MENDES…

não sabe o que é CRIME ORGANIZADO?

É ISTO:

o marginal CARLINHOS CACHOEIRA que comanda o governador PERILLO, de Goiás, e o senador moralista, (de cueca), DEMÓSTENES TORRES, também de Goiás.

CONSIDERAÇÕES SOBRE ALGUMA POESIA CONTEMPORÂNEA – por paulo franchetti / são paulo.sp

Witold Gombrowicz (1904-1969) escreveu, na década de 1950, um artigo intitu-lado “Contra os poetas”. A tese central do texto é assim resumida pelo autor:

[…] quase ninguém gosta de poemas e […] o mundo da poesia versificada é um mundo de mentirinha, uma falsificação […] tão ousada quanto leviana.[2]

Gombrowicz distingue poemas e poesia. Diz que aprecia a poesia quando ela lhe surge em Shakespeare ou na prosa de Dostoiévski. É contra os poetas, isto é, os que escrevem poesia, e contra o produto dessa atividade, que a sua tese se ergue:

Não posso aguentar essa cantilena monótona, o tempo todo sublime, […] me dão sono o ritmo e a rima, […] a linguagem dos poetas me parece a menos interessante de todas as linguagens possíveis, […] essa Beleza é para mim tão pouco sedutora, […] não conheço, em termos de estilo, nada de pior, nada de mais ridículo que o jeito como os poetas falam de si mesmos e da sua poesia.

Os principais argumentos de Gombrowicz caminham na direção de que a poesia – isto é, a poesia em poemas – é um empobrecimento e não um enriquecimento da lin-guagem. Algumas das razões que aponta para o desinteresse da poesia são a circularida-de da produção e do consumo (são poetas os que escrevem e são poetas os que leem), o autocentramento do tema (poemas que falam do poema e da palavra poética ou da voca-ção do poeta) e a homogeneidade do estilo (“uma dúzia de ‘experiências’ sacralizadas transmitidas nas combinações impertinentes de um dicionário mesquinho”). E, final-mente, esta razão capital: “o que tinha de ser um voo momentâneo da prosa virou pro-grama, sistema, profissão”. Ou seja, o que era para ser um modo de linguagem entre outros, um momento cujo valor vinha da situação e do contraste, passou a ser buscado em abstrato, desvinculado de um fundo, de um contexto ou situação narrativa. Daí a circularidade e a falta de comunicabilidade da poesia dos poetas:

Os Poetas tornaram-se escravos – e poderíamos definir o poeta como o ser que já não pode expressar a si mesmo, porque precisa expressar o Poema. / E contudo talvez não possa haver na arte uma tarefa mais importante do que esta: expressar a si mesmo. Não deveríamos nunca perder de vista a verdade de que todo estilo, toda postura definida se forma por eliminação e no fundo é um empobrecimento.

Não vou aqui discutir as ideias de Gombrowicz, nem criticá-las da forma mais fácil, acusando-o de essencialista. Prefiro tomá-las como testemunho de um homem evidentemente culto e, mais que isso, um notável escritor, e quero acrescentar, de minha parte, outro testemunho: que muitas pessoas cultas que conheço (incluindo alunos de Letras – e colegas professores universitários) partilham, ostensiva ou secretamente, essa aversão do romancista. Mesmo que a métrica e a rima já não sejam dominantes e que o sublime não seja um objetivo ou dê o tom da poesia contemporânea. Ou seja, não creio que essa provocação tenha perdido interesse ao longo dos últimos 60 anos, nem que seja destituída de valor. Pelo contrário, creio que vale a pena desenvolver algumas de suas proposições, no quadro da lírica contemporânea de língua portuguesa.

A questão, porém, não é simples. Porque embora possamos dizer que a poesia tem público minúsculo, quando confrontada com o romance e mesmo com o conto, é fácil constatar que continua havendo hoje leitores interessados em poesia (ainda que a maioria deles possa ser, de fato, constituída pelos próprios poetas), mas, principalmente, pessoas interessadas em falar de poesia contemporânea.

Seria interessante tentar definir qual o interesse da poesia para a contemporanei-dade, qual o seu lugar no imaginário de nossa época. Mas, antes dessa questão, há uma outra, mais básica, que precisaria ser encarada a sério: o que é poesia hoje? Isto é: como se reconhece um texto como poesia? Em que consiste o mínimo denominador comum que permite que afirmemos ou leiamos um texto como poesia? Ou: o que faz de um texto um poema?

Há várias respostas, porque há vários tipos de poemas – já diria La Palisse. Mas creio que vale a pena tentar discutir algumas proposições gerais, para que possamos pensar com mais clareza o que significa para nós, hoje, no Brasil (e em Portugal), “poe-sia”.

A resposta mais elementar é a que busca radicar a diferença na apresentação formal. É o que faz, num ensaio recentemente publicado no Brasil, Agamben, quando escreve, a propósito de Caproni:

A medida tradicional do verso passa a ser drasticamente contraída e as reticências (…) marcam a impossibilidade de levar a cabo o tema prosódico. Dessa forma o verso é reduzido a seus elementos-limite: oenjambement – se é verdade que este é o único critério que permite diferenciar prosa e poesia – e a cesura (Hölderlin define-a “antirrítmica” e aqui ela é patologicamente dilatada até devorar completamente o ritmo).[3]

Entretanto, apesar do simplismo da formulação, não creio que seja exagero dizer que, para boa parte da poesia contemporânea – ao menos em português –, o enjambement – ou talvez fosse melhor dizer a quebra da frase, ordenada de modo diferente da convenção da prosa – é de fato o elemento distintivo.

De fato, basta abrir ao acaso revistas e páginas de poesia para verificar que a maior parte dos poemas perde pouco se disposta no papel ou na tela como prosa. Não sendo a linha definida pelo metro, nem pelo ritmo usual da enunciação, nem pela conveniência da rima, sobram, para justificar o rejet, os pequenos suspenses entre uma linha e outra, as oscilações de classe gramatical ou de sentido. E é esse pouco que se perde ao dispor o texto em linhas contínuas.

Sendo assim, o leitor contemporâneo pode, muitas vezes, perguntar simplesmente: “por que ele está escrevendo assim?”. Os efeitos do rejet justificam o desinteresse do resto? Ou a quebra da linha instaura outra forma de leitura, diferente da leitura que a prosa demanda? Ou seja: a pergunta sobre a forma da disposição é a pergunta pela situação de um texto num determinado gênero, pela forma de ler e de avaliar o que se lê.

No melhor dos casos, a quebra da linha é também a quebra da velocidade da leitura. E a quebra da velocidade da leitura permite não apenas a consideração da materialidade das palavras, mas também a valorização semântica de cada uma delas.

Por isso, outra variante da pergunta que um poema suscita é: “quem escreve des-sa forma escreve algo diferente do que quem escreve da forma usual?”. Ou ainda: “quem escreve dessa forma quer ser lido de modo diferente de quem escreve em linhas contínuas até o limite da mancha do papel?”.

A quebra é sempre intencional, é claro, porque o poeta se ocupou de interrompê-la em determinado ponto, não deixando essa tarefa ao programa de computador ou ao acaso da largura do papel; mas a quebra também se faz de modo intencionalmente arbitrário – se podemos dizer assim – naquele tipo de poesia cuja forma ostensiva não é o verso – isto é, não é a linha quebrada em pontos diferentes ao longo da descida da leitura –, mas uma forma geométrica que se impõe ao ritmo dos segmentos frasais ou mesmo à construção sintática ou à articulação dos conceitos. São os poemas em formas de blocos, retangulares ou quadrados ou de outra geometria. Neles, não há a rigor verso. Nem há distribuição das palavras em forma de prosa. A iconicidade da não-prosa é le-vada ao máximo – o que é tanto uma reivindicação de poema quanto a linha do verso.

Ou seja, nesse primeiro nível de aproximação, a quebra não arbitrária da linha – que Agamben considera o único critério diferenciador – é um ícone, uma sinalização visual, antes de ser uma maneira de produzir sentido. É a indicação mais evidente do registro genérico em que o autor procura que seu texto seja lido – para confirmar as expectativas associadas àquele gênero, ou para contrariá-las. Ela diz “isto é poesia” na medida em que afirma “isto não é prosa”.

Entretanto, a questão da diferença da poesia e da prosa é evidentemente mais complexa. Não se reduz à questão da quebra da linha.

Há textos que ocupam o lugar de poesia, que demandam leitura como poesia por conta do local de publicação (num livro de poemas, por exemplo, ou numa revista de poesia), ou da referência explícita à tradição poética. Como este, em que não é possível dizer que haja verso, embora haja repetição de células métricas tradicionais de 7 e 5 sílabas:

Madrigal
gosto quando pões a quinta porque me tocas na perna com o nós dos dedos [4]

Sem o lugar de publicação (no caso, um livro de poemas) e sem a denominação, não se constitui o gesto irônico que incita a ler a frase contra o pano de fundo da lírica. Ou a buscar desentranhar da frase comum a métrica tradicional. Na verdade, sem a denominação e o lugar, um texto como este, que é apenas gesto – uma espécie de ready made –, não se constitui como poema.

A reivindicação do lugar da poesia para os mais variados objetos é uma tônica da modernidade, aguçada no tempo corrente.

De fato, nem o mais radical dos movimentos de vanguarda, nem o mais destruidor ataque à tradição abdicam dos nomes poesia/poeta/poema. O nome, assim, é não só o que mobiliza uma forma de leitura, mas também uma qualidade. Conquistar o direito ao nome é conquistar o reconhecimento da qualidade, do pertencimento, da inclusão. O que se diz ou o que se comunica ou ainda o que se faz num poema aparece frequentemente como algo secundário em relação à conquista do direito ao nome.

O prestígio tradicional do nome, porém, está comprometido. Vivemos em tempos não modernos. Para o Modernismo, a tradição fraturada existia como antagonista ou como objeto de desejo: os futuristas, buscando liquidar os últimos alicerces do velho museu, e o esforço do período entreguerras para recuperar, inventar ou construir uma tradição são as duas faces da mesma moeda, ou seja, do diálogo com o passado, que dava o tom da literatura e a definia como continuidade.

Ezra Pound com o seu “paideuma” exemplifica a angústia da época, na sua segunda vertente: selecionar o passado, organizar o legado do que parece bom. A auto-consciência e a postulação do lugar de charneira em que se colocava o poeta constituem a explicação para a tarefa: a não ser que aquela geração fosse decisiva, não faria sentido selecionar o passado para que o próximo homem ou geração encontrasse logo o que contava. Porque para o próximo homem ou geração, se fiel ao legado, o que importará será outra coisa. A ser uma tarefa contínua a de construir o paideuma, cada um é produzido com prazo de validade curto. Aos inventores de paideumas logo se sucederão os mestres e os diluidores de paideumas – para usar termos do próprio Pound. E junto com os mestres, se a coisa funcionasse bem, já outros inventores estariam explodindo o paideuma anterior. Eliot, por sua vez, propunha outro tipo de seleção e integração do passado no presente, por meio da ordem ideal das grandes obras, continuamente alterada pela chegada de mais uma ao panteão. Para ambos, para além das diferenças, a tradição era um objetivo e uma conquista; não só um patrimônio, mas uma construção contínua. E, sobretudo, referência central para o que se produzia no presente.

Agora, a tradição é um simulacro. O conhecimento dos topoi está morto ou não é compartilhado pelo leitor disponível. Ao mesmo tempo, a internet promove uma nova erudição, que altera a forma da produção e da leitura, multiplicando as referências intertextuais colhidas no Google, ao sabor da bolsa de valores da cultura. No que diz respeito à técnica da composição, as questões centrais para a tradição já não fazem sentido como aplicação, nem como referência viva – a eficácia comunicativa, a exemplaridade do uso da língua, a arte do metro e da rima. Por isso, não só o horizonte cultural de um poeta contemporâneo pode ser bastante limitado a umas poucas referências em moda, mas ainda o seu domínio do idioma pode ser deficiente e suas insuficiências reais facilmente absorvidas como “procedimento”.

A consciência da perda e da anomia do presente aparece em vários registros. O mais simples é o resquício modernista: o enfrentamento da tradição pela ironia ou pela agressão. É a arte de chutar cachorro morto. O soneto, por exemplo, que foi a forma lírica por excelência ao longo de séculos, ainda é praticado de modo pouco interessante pelos neoparnasianos (e também, no Brasil, por Glauco Mattoso, cuja mistura de forma “alta” e conteúdo “baixo” rapidamente atingiu o nível da exaustão). Mas, em outros domínios do contemporâneo, continua sendo um índice daquilo que falta, e é curioso observar quantos poetas produzem hoje sonetos que de sonetos, no sentido completo da palavra, têm apenas o nome ou o número de versos ou ainda apenas o simples diagrama.

É o caso de Miguel-Manso (1979-…), que, no volume referido, tem, além do “Madrigal”, um “Soneto”, composto de 18 estrofes que variam de 1 a 3 versos de tamanho irregular. É também o caso de um poeta moçambicano, Luís Carlos Patraquim (1953-…), que, em O osso côncavo (2008), publica um “Des-soneto” composto de 14 versos rimados, mas de medida variável. Por fim, é o caso mais radical do livro Z a zero, publicado por Wilmar Silva (1965-…) em 2010.[5]  Este último é interessante porque o livro consiste de 26 “textos” distribuídos em 14 linhas. As linhas consistem de 26 repetições de uma única letra por página, a que se seguem dois números em algarismos (que fazem o papel da rima), e da transcrição das consoantes que formam o nome dos números. Assim:

pppppppppppppppppppppppppppp150 159 cnt cnqnt cnt cnqnt nv

O “soneto” a que pertence essa linha se chama K, porque os títulos se distribuem na ordem inversa da letra que progride ao longo do livro: o primeiro soneto se chama Z e o último A. No posfácio ao livro, Fernando Aguiar comenta as características formais e escreve:

Wilmar Silva pega numa das estruturas mais tradicionais e rígidas da poesia ocidental – o soneto – e trabalha-a com base numa linguagem contemporânea, fazendo com que não reste uma réstia de dúvida quanto à carga poética de “Z a Zero”. […] Mas a leitura também se poderá efectivar no sentido inverso, isto é, começando pelo poema “a” e terminando no soneto “z”, constituindo um ciclo interminável de leituras. Nesse sentido poder-se-á considerar que “Z a Zero” não tem princípio nem fim, podendo ser (re)lido infinitamente, numa abordagem cíclica crescente-decrescente tanto em termos alfabéticos como numerais. [6]

Aqui todos os elementos estão presentes: a tradição da poesia ocidental, seu aproveitamento numa linguagem contemporânea e a carga poética que deveria derivar da apropriação da primeira pelo segundo. O raciocínio é que não se explicita: não resta dúvida quanto à carga poética porque se trata de uma atualização contemporânea de uma estrutura tradicional? A dúvida se elimina por conta do incorporado ou do que incorpora? Aparentemente, é a incorporação da tradição pelo contemporâneo que garante a carga poética. Mas podia ser o contrário: a destruição da tradição, assim reduzida a um mero esqueleto numérico, e sua completa dissolução na linguagem contemporânea.

De qualquer forma, tanto o livro quanto o seu posfácio exemplificam bem a consciência da perda, pois o que sobra, aqui como nos exemplos referidos, é o mínimo: o nome ou o número de linhas e o esquema das rimas. Do ritmo dos versos medidos e da estrutura lógica do soneto não há sinal.

A passagem do prefácio também nos permite abordar um ponto interessante e central. Diz o autor que o livro pode ser relido infinitamente. Mas por quem? E por quê? Uma vez apreendido o esquema, que leitor iria “ler” infinitamente esse conjunto de linhas e números, invertendo a ordem ao chegar ao fim, ou começando em qualquer parte, como sugere o posfaciador?

Pelo absurdo, esse exemplo nos conduz ao ponto que de fato interessa para dis-cutir a poesia contemporânea, mas que fica ausente das reflexões centradas no texto ou no autor, mas que ocupava, de modo a produzir escândalo, o lugar principal no texto de Gombrowicz: o leitor – isto é, o interesse e o sentido da leitura.

Já vimos como ao leitor é dirigido um apelo, por meio da forma ou da alusão à tradição: “leia-me como poesia!”. Percebe-se também que essa questão logo se desdobra em outra, que é: “como você avalia o meu desempenho no que faço?”. Faz parte da nos-sa modernidade que o leitor ideal fosse o que atendesse à primeira demanda e, algumas vezes, respondesse ao último convite. Ou seja, o bom leitor é o que aceita como tal o texto que se quer poesia – é a anomia produtiva da pós-modernidade – e que, buscando o seu “projeto”, isto é, a sua forma de se articular na anomia que é a poesia contempo-rânea, avalie como ele se cumpre. Ou seja, o estético se esgota na verificação da coerên-cia e da adequação de projeto, procedimento e produto.

Mas há uma outra pergunta que raramente o texto contemporâneo lança ao seu leitor. Uma pergunta tão elementar para este, quanto incômoda para aquele: “o que você acha do que tenho para dizer e estou dizendo?”.

A simples apresentação da possibilidade de essa questão ser importante, quando enunciada neste texto, já deve provocar estranhamento. O que é compreensível, pois ela foi seguidamente desclassificada e empurrada para o domínio não literário, da crença ou do comércio. É certo que o leitor pode recusar ou aceitar o que um poeta tem para dizer, mas essa é uma operação que o consenso contemporâneo tenta empurrar para o foro íntimo, que fica entre o domínio da pura simpatia ou da escolha de consumo. Não é um parâmetro avaliativo em vigor, e o leitor que confessasse que se aproxima de um livro de poesia tendo, entre outras, essa pergunta em mente provavelmente seria tratado com sarcasmo, condescendência ou desaprovação. Tudo se passa como se ao livro que tem o direito de se apresentar como poesia, ela não se aplicasse – ou se aplicasse de modo subalterno, sem alcance público, sem espaço de exposição.

Foi-se o tempo em que fazia sentido para Pound perguntar ao seu leitor se ele se interessaria “pela obra de homens cujas percepções gerais estão abaixo do nível comum”. Mas ainda não chegou o momento em que a avaliação literária se restrinja à con-templação do desempenho do poeta dentro das balizas por ele mesmo traçadas, nem à verificação de como um dado texto se posiciona em relação à tradição ou ao seu espec-tro.

A reivindicação do lugar da poesia carrega consigo uma questão incômoda: qual a importância de dizer isso em poesia? Porque é evidente que há vários lugares para deixar algo dito. Por exemplo, afirmar uma preferência sexual ou dos direitos de uma etnia ou minoria. Contar uma piada, fazer um trocadilho, etc.

Fazê-lo em uma forma que se postule ou possa ser reconhecida como poesia tem um sentido, busca no final das contas um valor – ao menos o valor de um lugar tradicionalmente valorizado – que não pode ser tratado como se não existisse. Justamente, a reivindicação de ser lido como poesia reafirma – para o tema ou atitude – o seu direito a existir nesse domínio específico, do qual não se dissocia o prestígio do nome e do gênero.

Nesse ponto, vale a pena referir uma passagem de Michel Deguy:

O texto de um poema, a unidade de contenção mínima da escrita que se declara poética, pretende (e tende a) fazer a composição de dois impulsos:
I. O da homofonia (de modo muito geral), ou paronomásia, ou ainda iteração de semelhanças na sonoridade de determinada língua. […] A questão do outro “Mas por que ele diz as coisas assim?”, a resposta é: as coisas vieram assim; é a sua maneira de prestar atenção […].
II. O-que-é-dito […] e endereçado a, ou conteúdo, é o segundo ingrediente mate-rial. Alguma coisa aspira a ser dita, dita a outros: é a “mensagem”, dizemos às vezes; verdade na garrafa que se joga ao mar… porque quer dizer.  A definição da verdade não é que qualquer uma merece ser dita? […]
Com esses dois impulsos, reconhecemos o poema.[7]

Interessa sobretudo o segundo impulso: o que diz respeito a “o-que-é-dito” – a “mensagem”. Não só se diz algo, mas se diz para alguém e se diz o que merece ser dito. Dentro dos termos em que viemos equacionando a questão: a aspiração ao lugar da poe-sia é também, no final das contas, uma aspiração ao lugar do fazer sentido, de dizer o que merece ser dito. Talvez mesmo, nesse sentido específico, o lugar da verdade.

Este me parece o ponto mais escuro do contemporâneo. Porque a pergunta crucial que tanto a crítica quanto a poesia contemporânea brasileira de hoje parecem querer evitar é justamente esta: o que merece ser dito? O que, está claro, não é o mesmo que perguntar: o que precisa ser dito? Esta pergunta pode ter uma resposta exclusivamente pessoal. Precisa ser dito o que eu acho do mundo, ou o que me incomoda e que, se eu não disser, continuará me incomodando – a poesia como remédio. Não há mal nisso. Mas é preciso reconhecer que é diferente perguntar “o que merece ser dito?”, pois a base desta pergunta não é apenas estética, mas sobretudo ética – no sentido de que só a ética permite sustentar a afirmação de que qualquer verdade merece ser dita.

Ter uma verdade que mereça ser dita. O julgamento sobre o que é verdade é sempre subjetivo, mas o princípio é claro e dá direção à prática. E é a forma mais elabo-rada da questão do leitor: “o que ele tem para me dizer, que quer dizer em poesia?”. Ou “por que ele está me dizendo isso em poesia?”. Essas duras questões, que não só o leitor, como o crítico ou o estudioso que não queira ser apenas um catalogador servil têm direito (e mais que direito, eu diria: a obrigação) de fazer definem o que pode ficar além dos limites da vaidade e da diversão.  [8]

Nos domínios da herança construtivista, a resposta mais simplória é a insistência na exaustão do indivíduo, banalizada pela literatura pós-moderna: identificando ou te-mendo identificar a verdade com a aposta subjetiva, reduz-se a sua formulação ao do-mínio do confessional – como se o confessional fosse simples expressão e não constru-ção. É o que se lê num poema de António Cícero, intitulado Merde de poète: “Quem gosta de poesia ‘visceral’, / ou seja, porca, preguiçosa, lerda, / que vá ao fundo e seja literal, pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda”. [9] Esse poema é exemplar da vulgata cabralina. A associação do visceral – ou seja, daquilo que poderia ser descrito também como dionisíaco, lírico, confessional – à porquice e, sobretudo, à preguiça é mais uma glosa dessorada da vulgarização da defesa do papel heroico do poeta consciente. O quadro e a estratégia de choque não poderiam ser mais simplistas e reativos: a demanda do leitor por uma verdade individual é associada ao gosto do dejeto.

Paulo Henriques Brito, por sua vez, escreveu, na mesma linha, um poema intitulado “Um pouco de Strauss”, contra “versos íntimos, sinceros”. [10] Aqui também tudo o que temos é o gesto serôdio de negar o interesse da sinceridade, do intimismo, da poesia do “eu” – recorrendo para tal à palavra grossa e à associação da intimidade ao dejeto corporal. Mas esse poema dá um passo a mais: não há verdade na poesia de expressão porque o eu é uma “coisa falsa que se disfarça”, nem graça nas “poesias melodiosas”, que se reduzem a lenga-lenga estúpida e sentimental.

Como esses dois, há dezenas, atestando os ecos do construtivismo no Brasil. Juntos fazem um coro que condena as duas pontas de um processo de escrita e leitura que aparece como desprovido de qualidade, mas não de interesse e capacidade de pres-são, como mostram as formulações agressivas. E é curiosa a coincidência do tom, das imagens baixas nesses versos declaratórios, profissões de fé – ou melhor, autos de fé em que se trucidam tanto a heresia de um leitor que demande conteúdo individual ou verda-de pessoal quanto o poeta que busque ou não evite oferecê-lo.

O lirismo contemporâneo brasileiro, no quadro herdado da tradição cabralina, é um lirismo culpado e regrado por tabus. Em poucos poetas e poucos poemas o eu se oferece, frágil, como algo que se julga no direito de existir e buscar a palavra. De poucos poetas nos perguntamos: quem é a pessoa que escreveu isto, que vê o mundo assim? Por que ele prefere falar desta maneira? E em quantos poetas encontramos algo frente a que pensamos: isso precisava ser dito – e precisava ser dito assim, em poesia?

Travado pela vergonha, pelo medo de se dirigir ao leitor comum e pela necessi-dade de trazer à vista os andaimes da construção – isto é, as marcas do “trabalho duro” e da especialidade – o exercício da lírica tende a desaparecer ou a ser combatido como inimigo do contemporâneo. Embora pertença a um texto referido aqui e ali, não parece ter calado muito fundo esta formulação de Adorno: “o autoesquecimento do sujeito, que se abandona à linguagem como algo objetivo, e a imediatez e involuntariedade da sua expressão são o mesmo”.

No entanto, mesmo entre nós, como atestam autores como Ruy Belo, Herberto Helder, Sophia Andresen, Hilda Hilst, Daniel Faria, há formas consequentes de lidar com a tradição lírica no contemporâneo, com recurso ao ritmo da fala, ao ritmo do corpo e ao metro – no qual se consubstanciam as leituras desses ritmos, ao longo do tempo – e a outras formas de construir que não passam pelo programático e pela exibição dos princípios da racionalidade construtiva.

Do meu ponto de vista como leitor e crítico, esta é a tarefa premente da contem-poraneidade brasileira: enfrentar o consenso, que se torna mais forte na medida mesma em que a tradição deixa de ser a alteridade que nos pressiona desde o passado e não funciona mais como substrato comum de referências e expectativas entre o leitor e o autor. Consenso esse que faz hoje da tradição algo inócuo, que apenas fornece material para glosa e piada, ou algo sagrado (e perdido), só recuperável pela celebração ritual – e que promove a negatividade facilitadora, que recusa no final das contas o confronto com as contradições do presente e a pujança de outras formas de produzir emoção e ideias (como a música, o cinema, o romance, entre outras), refugiando-se numa afirmação da distância que não consegue disfarçar a impotência.

A contenção, o rigor, o controle do processo de produção do poema, a insistência no caráter estrutural do livro são apenas alguns aspectos dessa guerra ao diferente. O desprezo pelo “fácil”, pelo “informe”, pelo “visceral” ou pelo “inspirado” decorre da necessidade não só de valorizar o poema como fruto de um trabalho, mas de afirmar a natureza objetiva, controlada e controladora desse trabalho. Não se trata do trabalho que se processa no poeta, mas do trabalho do poeta. Não se trata da forma que a linguagem assume no poeta, a partir da sua formação e experiências, mas da linguagem controlada pelo poeta como o metal é controlado pelo fabricante de adereços. Ou seja, trata-se da afirmação do produto. No limite, da valorização mercadoria – invendável, mas sempre mercadoria.

Já vai longe o momento em que Bandeira podia sonhar com um poema inteiro e confessar que o fizera em sonho. Mesmo que os poemas possam continuar a nascer de maneira “inspirada” para muitos, sua apresentação hegemônica pressupõe que se valori-zem o planejamento, o trabalho, o controle. Mas, embora o vocabulário seja aproxima-damente o mesmo utilizado nos anos de 50 por Cabral, não é a mesma a questão para a qual hoje ele é mobilizado. Para Cabral, estava em pauta a função moderna da poesia – que, no seu entender, implicava a necessidade urgente de promover a comunicação do poeta com o público. Isto é, de reconhecer o leitor contemporâneo e falar para esse leitor. O trabalho do poeta era um antídoto ao que ele julgava ser o solipsismo dos integrantes da sua geração, que não enfrentariam a complexidade do mundo contemporâneo, no qual a poesia (tal como então praticada) não tinha lugar. Ou seja, era uma proposta de dissonância do que era a regra, com o objetivo de aproximar o poeta do público por meio da produção de um objeto inteligível e adequado à vida moderna.

Na mesma época das conferências de Cabral, Gombrowicz, como vimos, apon-tava como causa do desinteresse da poesia contemporânea a circularidade da produção e da recepção e a celebração da palavra poética e do estatuto poético como assuntos prefe-renciais do poema. Em ambos, a questão do interesse público pela poesia era central.

Do texto de Gombrowicz não se deduz facilmente nenhum caminho para elimi-nar o desinteresse da poesia moderna. Já da fala de Cabral, sim.

Para Cabral, a contemporaneidade estava dividida entre dois modelos de poesia, dois tipos de poeta: o “inspirado” e o “construtivo”.  A radicalização de qualquer desses tipos, embora Cabral tomasse o partido dos construtivos, conduzia ao isolamento e à exclusão do público. O solipsismo e o artesanato furioso, que conduziriam ao “suicídio da intimidade absoluta”, não são respostas à altura do desafio de encontrar uma função para a poesia no mundo moderno. Pelo contrário, são limites, obstáculos. O ideal do poeta está claro na utopia de uma “época de equilíbrio”, já passada, que julga não recu-perável, a não ser por aproximação. (Aproximação essa que, no momento, pareceu-lhe ser menos agredida pela objetividade construtiva do que pelo subjetivismo inspirado.) Nessa postulada idade de ouro da poesia, “o trabalho de arte inclui a inspiração”, as regras da composição são explícitas e universalmente aceitas, “a exigência da sociedade em relação aos autores é grande” e, por isso tudo, a comunicação é objetivo central da prática literária.

A questão da comunicação – tão importante para Cabral – parece ter afundado no esquecimento. Aceito como condição definitiva o que era diagnosticado como etapa a ser superada, parece ter havido no Brasil não apenas uma resignação à falta de público, mas inclusive uma identificação entre o desinteresse público e a qualidade, ou entre a recusa do público (suposto) e o caráter atual de uma prática. Ou seja, não é por a poesia não buscar a comunicação que o seu público contemporâneo se vê constantemente reduzido aos próprios poetas. Pelo contrário, a redução do público, neste momento, é quase um componente da própria definição de poesia contemporânea. Não é um efeito, é antes um objetivo. Ante a profusão de poetas, o pequeno público seleto define o pro-dutor seleto, assim como o amplo público define o produtor “vendido” ou banalizado ou concessivo. Que essa forma de pensar não valha para a prosa, mesmo se escrita pelo mesmo autor, é um ponto que mereceria mais comentários.

O curioso é que nessa recusa a dar voz ao leitor comum – a responder pela rele-vância do que se diz – se irmanam tanto o tardo-vanguardismo persistente, quanto a angustiada reivindicação de direito à poesia a qualquer custo – para não falar dos rema-nescentes parnasianos.

Nesse quadro, a desconfiança em relação a alguém que se proponha a dizer algo que julgue merecer ser dito, alguém que se proponha a dizer algo para alguém localizado fora do círculo fechado dos poetas-leitores-de-poetas, é esmagadora. Recusado um horizonte mais amplo de reflexão sobre o que merece e o que precisa ser dito em poesia, ter algo a dizer é flertar com a autoajuda ou o proselitismo, segundo o senso comum dominante. Não ter nada a dizer, ou nada querer dizer de modo convincente não é peri-goso – pode mesmo ser uma segurança, num ambiente em que o repertório é baixo e a tradição é apenas uma ideia vaga, um catálogo de temas e procedimentos ou um trampo-lim.

A esta breve provocação, porém, não interessa alongar os exemplos e questões, mas apenas, com base nesse quadro sumário, afirmar uma crença. E é esta: descobrir os caminhos para não se comprazer no problema como se ele fosse a solução e, pelo con-trário, enfrentá-lo com armas mais eficazes do que a celebração da singularidade do poeta e do seu isolamento orgulhoso (que pode facilmente descambar para o virtuosismo técnico ou para o exibicionismo vulgar de cultura): essa é a difícil tarefa que se apresenta aos poetas brasileiros neste começo de milênio. Agora como há 60 anos, e talvez com até mais urgência nestes tempos de web e de publicações virtuais, urge pensar novamente a função da poesia.

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Notas

[1] Este texto, com poucas modificações, foi lido em 01 de setembro de 2011, no encontro “Brasil e Portugal: questões poéticas contemporâneas”, organizado na UFF por Célia Pedrosa e Ida Alves.
[2] Referências pela publicação na revista Poesia sempre, no 30. Rio de Janeiro: FBN, 2008. Tra-dução de Marcelo Paiva de Souza.
[3] Giorgio Agamben. “Desapropriada maneira”. Prefácio ao volume Res Amissa, de Giorgio Ca-proni. O volume e seu prefácio foram publicados no Brasil com o título algo estranho A coisa perdida – Agamben comenta Caproni. Florianópolis: Editora da UFSC, 2011. A parte referida está na p. 39. O grifo é meu.
[4] Miguel-Manso. Contra a manhã burra. Lisboa: s/e, 2008, p. 55.
[5] L. C. Patraquim. O osso côncavo. São Paulo: Escrituras, 2008.
[6] W. Silva Z a zero. Belo Horizonte: Anome Livros, 2010. Não há numero de página.
[7] M. Deguy. Reabertura após obras. Campinas: Editora da Unicamp, 2010, pp. 14-5.
[8] Ou ainda da pura facilitação e oportunismo, como se vê em certa poesia de sucesso, de que não tratarei aqui e que conquista algum público por meio do rebaixamento do poema ao nível da tagarelice ou exibicionismo estilo Big Brother – o que nada tem a ver, está claro, com expressão ou construção de verdadeira subjetividade.
[9] A. Miguel (org.). Traçados diversos – uma antologia da poesia contemporânea. São Paulo Scipione, 2008, p. 28.
[10] Paulo Henriques Britto. Trovar claro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Apud.

por email.

Demóstenes, Marconi e Policarpo – por mino carta / são paulo.sp


O caso do senador Demóstenes Torres é representativo de uma crise moral que, a bem da sacrossanta verdade, transcende a política, envolve tendências, hábitos, tradições até, da sociedade nativa. No quadro, cabe à mídia um papel de
extrema relevância. Qual é no momento seu transparente objetivo? Fazer com que o escândalo goiano fique circunscrito à figura do senador, o qual, aliás, prestimoso se imola ao se despedir do DEM. DEM, é de pasmar, de democratas.

Ora, ora. Por que a mídia silencia a respeito de um ponto importante das passagens conhecidas do relatório da Polícia Federal? Aludo ao relacionamento entre o bicheiro Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior. E por que com tanto atraso se refere ao envolvimento do governador Marconi Perillo? E por que se fecha em copas diante do sequestro sofrido por CartaCapitalem Goiânia no dia da chegada às bancas da sua última edição? Lembrei-me dos tempos da ditadura em que a Veja dirigida por mim era apreendida pela PM.

A omissão da mídia nativa é um clássico, precipitado pela peculiar convicção de que fato não noticiado simplesmente não se deu. Não há somente algo de podre nas redações, mas também de tresloucado. Este aspecto patológico da atuação do jornalismo pátrio acentua-se na perspectiva de novas e candentes revelações contidas no relatório da PF. Para nos esclarecer, mais e mais, a respeito da influência de Cachoeira junto ao governo tucano de Goiás e da parceria entre o bicheiro e o jornalista Policarpo. E em geral a dilatar o alcance da investigação policial.

Quanto à jornalística, vale uma súbita, desagradável suspeita. Como se deu que os trechos do documento relativos às conversas entre Cachoeira e Policarpo tenham chegado à redação de Veja? Sim, a revista os publica, quem sabe apenas em parte, para demonstrar que o chefe da sucursal cumpria dignamente sua tarefa profissional. Ou seria missão? No entanto, à luz de um princípio ético elementar, o crédito conferido pelo jornalista às informações do criminoso configura, por si, a traição aos valores da profissão. Quanto à suspeita formulada no início deste parágrafo, ela se justifica plenamente: é simples supor vazamento originado nos próprios gabinetes da PF. E vamos assim de traição em traição.

A receita não a dispensa, a traição, antes a exige nas mais diversas tonalidades e sabores. A ser misturada, para a perfeição do guisado, com hipocrisia, prepotência, desfaçatez, demagogia, arrogância etc. etc. E a contribuição inestimável da mídia, empenhada em liquidar rapidamente o caso Demóstenes, para voltar, de mãos livres, à inesgotável tentativa de criar problemas para o governo. Os resultados são decepcionantes, permito-me observar. A popularidade da presidenta Dilma acaba de crescer de 72% para 77%.

E aqui constato haver quem tenha CartaCapital como praticante de um certo, ou incerto, “jornalismo ideológico”. Confesso, contristado, minha ignorância quanto ao exato significado da expressão. Se ideológico significa fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico, fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste, então a definição é correta. E é se significa que, no nosso entendimento, a liberdade é apanágio de poucos, pouquíssimos, se não houver igualdade. A qual, como sabemos, no Brasil por ora não passa de miragem.

E é se a prova for buscada na nossa convicção de que Adam Smith não imaginava, como fim último do capitalismo, fabricantes de dinheiro em lugar de produtores de bens e serviços. Ou buscada em outra convicção, a da irresponsabilidade secular da elite nativa, pródiga no desperdício sistemático do patrimônio Brasil e hoje admiravelmente representada por uma minoria privilegiada exibicionista, pretensiosa, ignorante, instalada no derradeiro degrau do provincianismo. Ou buscada no nosso apreço por toda iniciativa governista propícia à distribuição da renda e à realização de uma política exterior independente.

Sim, enxergamos no tucanato a última flor do udenismo velho de guerra e em Fernando Henrique Cardoso um mestre em hipocrisia. Quid demonstrandum est pela leitura do seu mais recente artigo domingueiro na página 2 do Estadão. O presidente da privataria tucana, comprador dos votos parlamentares para conseguir a reeleição e autor do maior engodo eleitoral da história do Brasil, afirma, com expressão de Catão, o censor, que se não houver reação, a corrupção ainda será “condição de governabilidade”.

Achamos demagógica e apressada a decisão de realizar a Copa no Brasil e tememos o fracasso da organização do evento, com efeitos negativos sobre o prestígio conquistado pelo País mundo afora nos últimos dez anos. Ah, sim, estivéssemos de volta ao passado, a 2002, 2006 e 2010, confirmaríamos nosso apoio às candidaturas de Lula e Dilma Rousseff. Se isso nos torna ideológicos, também o são os jornais que nos Estados Unidos apoiaram e apoiarão Obama, ou que na Itália se colocaram contra Silvio Berlusconi. Ou o Estadão, quando em 2006 deu seu voto a Geraldo Alckmin e em 2010 a José Serra.

Não acreditamos, positivamente, que de 1964 a 1985 o Brasil tenha sido entregue a uma “ditabranda”, muito pelo contrário, embora os ditadores, e seus verdugos e torturadores, tenham se excedido sem necessidade em violência, por terem de enfrentar uma resistência pífia e contarem com o apoio maciço da minoria privilegiada, ou seja, a dos marchadores da família, com Deus e pela liberdade. Hoje estamos impavidamente decepcionados com o comportamento de muitos que se apresentavam como esquerdistas e despencaram do lado oposto, enquanto gostaríamos que a chamada Comissão da Verdade atingisse suas últimas consequências.

Agora me pergunto como haveria de ser definido o jornalismo dos demais órgãos da mídia nativa, patrões, jagunços, sabujos e fâmulos, com algumas exceções, tanto mais notáveis porque raras. Ideologias são construídas pelas ideias. De verdade, alimentamos ideias opostas. Nós acreditamos que algum dia o Brasil será justo e feliz. Eles querem que nada mude, se possível que regrida.


HÁ RACISMO NESTA FOTO?

COMENTÁRIO…?;/}~=!!#$%&*?

Novo comentário sobre seu post “CIDINHA CAMPOS, deputada estadual no RIO DE JANEIRO, faz depoimento GRAVÍSSIMO e seus pares seguem rindo. é o regime da CANALHOCRACIA. / rio de janeiro”
Autor: Ana Araújo (IP: 201.17.99.28 , c911631c.virtua.com.br)
Email: teles.araujo50@uol.com.br
URL    :
Whois  : http://whois.arin.net/rest/ip/201.17.99.28

Comentário:
Escolhi escrever de modo que, não seja fácil o desvio, ou alteração dessa mensagem, por poder ter uma rende de computador, ou um uso, do meu ponto para o uso da internet.
O filho quer me deixar com erros, com o tratamento dele, dado a mim, como então posso depor para algo, me defenser, ou me divorciar, com os direitos, que podem não existir, também com a ajuda dos meus filhos na minha moradia? Qual o direito do qual posso fazer uso agora dessa forma? Como faço a minha prima me defender disso, por querer ter atuação dela e, não posso pagar mais por isso?

Por enquanto eu estou vivendo uma realidade mas quero responder , sendo de acordo, com o que me dizia, as clolegas da Universidade de Serviço Social existia o helicóptero do governo sobrevoando e sabendo de tudo e, depiois eu soube, eu entendo não sendo pelo mesmo motivo, passdao um bom tempo e, em outro local, a existência de empregadores, que estariam em qualquer lugar e, saberiam o que quisessem.

Eu fiquei muinto tempo sem falar muinto, agora existem muintas coincidências, então eu respondo.
Os filhos ficam comigo, para a ajudá-los, mas se acabam, se ficarem com a outro, muinto mais e, têm que me aturar de maneira, em começo igual, ou semelhante e, nem o pai fica com eles, só querem essa ajuda desses filhos, dessa maneira, embora um tenha 23 anos e, o outro 19 anos. Está vago, por enquanto esse direito, sendo o mais rápida possível, necessária uma meio para se estabelecer uma saúde para esses, sabendo que esse meu cônjugue, já matou psicológicamente a minha mãe, assim o querendo e, dando mortes a outros, estando com um problema, que geram mortes, e, agora quer-me maluca e, os filhos de qualquer jeito, sendo o pior para esses, assim como para mim, por querem esses piores, que os filhos da outra pessoa e, como não conversaram tanto assim comigo, de mim tenho certeza. Ter que ficar igual ao outro quando se é a segunda, não é justo e, nem certo, por a outra pessoa, seja a que for, não ter como  certa uma vida, que seja de dever, assim como eu teria, sendo igual à minha.

Sexta-feira Santa – por olsen jr / rio negrinho.sc


 

SEXTA-FEIRA SANTA

 

O “dia não é de alegria!”…

Foi a primeira frase que ouvi, logo seguida de um complemento:  “as pessoas costumam meditar, fazer uma auto-análise daquilo que pretendem com a vida que levam, também se impõe uma espécie de penitência em que se inclui o jejum”…

Meu pai disse aquilo ao mesmo tempo em que me entregava uma obra “O Mais Belo Rabi”, com a recomendação “leia este livro”. A indicação vinha como uma ordem, e lá em casa se respeitava uma determinação paterna, pelo menos na infância. Era a primeira vez que ele me impunha uma leitura. Normalmente apenas comunicava os livros que havia comprado e estavam disponíveis na biblioteca. Sempre fui um rebelde e não gosto de imposições. Mas, acredito, naquele dia devia estar com um semblante indefinido, naquela incerteza que acompanha um “não saber qualquer”, a dúvida que antecede uma nova escolha, no caso, de recomeçar a leitura ou de descobrir uma obra interessante para se ler, mas voluntariamente, sem indicação externa. Tinha entre 9 e 12 anos e sabia, por experiência própria, que quando se tem uma tarefa para cumprir, o melhor era acabar logo com a incumbência e se livrar do peso de um remorso, a posteriori, e a maldita consciência do dever não cumprido. E já estava encarando a leitura como um compromisso e não um prazer pessoal dela decorrente. É Sexta-Feira Santa e existe uma aura no ar, como convém a um dia especial. Dia de consternação, de ficar só…

Tudo passa num instantâneo enquanto observo um pai levando um filho pelas mãos em frente do banco onde estou em uma praça no centro da cidade, a criança vem sorrindo alheia ao que se celebra hoje, está contente – como disse Bertolt Brecht, porque ainda não havia recebido a má notícia… Mais além, outro garoto caminha sozinho, não tem a quem recorrer, por isso recorre a todos.  Aquela mãozinha estendida era de cortar o coração. Que espécie de sociedade permite tal desempenho? De repente me descubro nela, dentro dela, sou ela, logo a lembrança de Sartre, a respeito da obra “A Náusea”, afirmava que enquanto uma criança passasse fome no mundo, aquele livro não tinha o menor sentido. Era retórico para chamar a atenção sobre outra realidade, o que conseguiu…

Descubro-me, igualmente, sem ter a quem recorrer, estou tão só como aquele garoto, e por isso me lembro do meu pai e daquele livro, “O Mais Belo Rabi”, que tratava da vida de Jesus Cristo. Uma leitura gratificante, edênica, menos dolorida que o filme “A Paixão de Cristo”, dirigido por Mel Gibson. Depois, no ano seguinte voltei a relê-lo, e hoje apenas folheio as páginas detendo-me em parágrafos aleatórios alimentando a consciência de que a liberdade que permite essas elucubrações só faz sentido porque ainda não perdi a capacidade de me indignar!

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OLSEN JR  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Livros pra se ficar rico, muito rico – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Maria Vitória me chama:

– Rápido, olha só isto aqui. Acho que vais gostar do que está passando.

A rapidez se justificava pelo fato de que o homem falava na televisão (o “isto aqui” a que ela se referia) e podia, portanto, mudar de assunto de um instante para outro, como sempre acontece quando queremos compartilhar uma notícia com alguém da sala ao lado (por isso que, em oposição à televisão, a internet tanto cresce como fonte de informações, pois ela é sabiamente paciente, sempre se submetendo aos caprichos do cliente e sempre lhe entregando o que ele busca). Mas não foi o caso, o homem me aguardou com incrível espírito de perseverança, sem cessar jamais de comunicar-se com sua ênfase esmagadora, dessas de tirar o fôlego, o raciocínio e o juízo de quem se deixe apanhar por palavras retumbantes e tons de voz autoritários e urgentes. Ele prosseguiu contando suas maravilhas por um longo tempo: o tempo afinal era dele, pago para que falasse quanto lhe conviesse. E, como sabemos todos nós, quanto mais se repisa uma ideia estonteante ou se ressaltam as magníficas virtudes de um produto, mais o interlocutor, ouvinte ou telespectador se convence da veracidade das palavras proferidas com tanta e tamanha solenidade.

Assim era o homem: tanto e solene, tamanha a sua certeza das verdades da vida.

Falava de livros – melhor, de um livro específico (depois deitou a falar de uma profusão de outros títulos publicados por uma editora que até parecia ser de sua propriedade, e talvez o fosse mesmo). O homem discorria sobre a obra de um certo Rev. Louis P. Sheldon (seria este um parente do notório Sidney, autor de tantos livros que vendem milhões mundo afora?), supostamente intitulada, em inglês, The Agenda e traduzida no Brasil como A Estratégia, com o subtítulo sintomático e assaz importante para a correta difusão do trabalho, e afim de não deixar qualquer dúvida sobre suas inclinações e intenções, de O plano dos homossexuais para transformar a sociedade.

Sobre o livro, o sítio da editora alerta que está em curso uma “estratégia gay, que visa erradicar a estrutura moral da sociedade e promover relações promíscuas”, as quais identifica como “abominação”, e incita os cristãos a “denunciar o pecado e combater esse plano diabólico para destruir o ser humano”.

Daquela mesma Editora Central Gospel fica-se sabendo da existência de outra obra pouco sutil já no título:Nascido Gay? – Existem evidências científicas para a homossexualidade?, assinada por um tal Tay (nãoGay), um Dr. John S. H. Tay. A tese é clara: esse negócio de alguém dizer que nasceu gay masculino (que, livrando por ora as mulheres, parece ser um alentado foco de preocupações para a igreja do homem que falava dos livros na televisão, o qual vem a ser um conhecido pastor evangélico) é pura sacanagem só para minar a família e, com certeza, obrigar a todos nós, em breve, a termos exclusivamente relações homossexuais.

Isso assusta um bocado de gente temente a Deus (temente a ponto de se borrar nas calças), uma turma que está chegando à classe média brasileira e descobre uma graninha sobrando para comprar alguma coisa mais, como uma cadeira cativa no céu e um livro do agrado divino – seja através da igreja ou dos títulos do pastor, um escriba prolífico que promete na TV solenes descontos de 5% e pede dinheiro, dinheiro, dinheiro para ajudar suas obras de caridade.

E que escreve livros de autoajuda no sentido reflexivo do ponto de vista do autor…

Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados, e membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

CARTA ABERTA À REDE GLOBO DE TELEVISÃO – por Movimento Organizado pela Moralidade Pública e Cidadania – Moral

CARTA ABERTA À REDE GLOBO DE TELEVISÃO


O Movimento Organizado pela Moralidade Pública e Cidadania – Moral vem manifestar seu apoio à campanha da Rede Globo com denúncias sobre corrupção apresentadas no programa Fantástico.

 

A importância desse tipo de denúncia vem compensar a falta de atividade legislativa no país, onde em todos os níveis não existe fiscalização dos atos do executivo. Assim, as propinas azeitam as milionárias campanhas políticas e as trocas de favores por cargos são tão comuns que o povo vive desesperançado.

No estado de Mato Grosso a grande mídia faz um silêncio pavoroso quando o assunto são as denúncias de quem ordena despesas para campanhas publicitárias que são um escândalo. Só a Assembleia legislativa em 2010 usou de 18 milhões do erário para comprar o silêncio da maioria dos veículos.

 

Por isso vimos pedir que a Rede Globo esclareça ao povo de Mato Grosso e do Brasil, porque em dezembro de 2010 deixou de levar ao ar uma reportagem feita pelo “repórter sem rosto” Eduardo Faustini sobre os processos que envolvem o presidente da Assembleia Legislativa, deputado José Riva, acusado pelo Ministério Público de desviar, em valores atualizados, cerca de meio bilhão de reais dos cofres públicos.

 

O repórter da Globo, acompanhado de um militante da Ong Moral, com veículo locado pela entidade, foi a Campo Verde onde entrevistou os contadores que montaram as empresas fantasmas. No cemitério em Várzea Grande filmou o túmulo do homem que depois de morto assinou cheques da recebidos da Assembleia. O repórter conversou com promotores que promoveram as ações e reuniu-se também com um grupo de dirigentes do Moral, quando as informações foram complementadas.

Porém, na noite do domingo quando todos sentaram à frente da televisão para assistir a reportagem do Fantástico, o que se viu foram quatro inserções de propaganda da Assembleia Legislativa e nada sobre as acusações ao deputado. A reportagem nunca foi ao ar.

 

O repórter Faustini passou a não atender as ligações em seus telefones, não dando nenhuma explicação para o silêncio da Rede Globo ante as graves denúncias. Enquanto os boatos nos meios jornalísticos e políticos davam conta que a negociação do silêncio envolveu a soma de 10 milhões de reais.

 

Não acreditando nos boatos, a direção da Ong Moral enviou uma carta ao Diretor de Jornalismo da emissora no Rio de Janeiro, Carlos Henrique Schroder, sem obter resposta. A falta de esclarecimento é um  desrespeito inclusive aos profissionais sérios do jornalismo desta emissora que atuam  em todo o país.

 

Como é sabido, o deputado José Riva responde a mais de cem processos, entre ações civis públicas e ações penais, que patinam nos meandros do nosso Poder Judiciário. Para se manter no comando do legislativo local por 17 anos, gasta em média 1,5 milhão de reais por mês com propaganda, emprega fantasmas e loteia favores para acomodar a maioria do seus pares calados e acovardados.

 

A Rede Globo de Televisão e o repórter Eduardo Faustini devem uma explicação à sociedade matogrossense. O melhor seria a apresentação a reportagem guardada, cujo assunto continua atual. Se aqui em nosso estado uma reportagem sobre corrupção, carregada de provas robustas foi engavetada, quantas mais pelo Brasil terão o mesmo destino?

 

Cuiabá, 30 de março de 2012.

Assinam os diretores da Ong Moral:

Ademar Adams

Cláudio César Fim

Roberto Vaz da Costa

Gilmar Brunetto

 

Bolsonaro e o despertar do neonazismo

Preconceito na web

Jair Bolsonaro foi responsável por acordar os nazistas na rede. Foto: Renato Araújo/ABr

Em 11 de maio de 2011, o Ceará eliminou o Flamengo na Copa do Brasil. No dia seguinte, a Safernet, organização que monitora crimes de ódio na rede, recebeu mais de cinco mil denúncias sobre perfis do Twitter que incitavam o ódio contra nordestinos na internet. Fenômeno similar foi observado pouco antes, em novembro de 2010, na eleição de Dilma Rousseff – que teve maior votação no Nordeste. Foram quase três mil denúncias de manifestações preconceituosas na rede social logo no dia seguinte.

Outras datas tiveram picos de denúncias: o dia seguinte ao lançamento da campanha #HomofobiaNão, no Twitter, seguida da #HomofobiaSim, em 19 de novembro de 2010.

Até então, alguns perfis detonadores, como a da estudante de direito Mayara Petruso, eram responsáveis tanto pela onda de ódio como pela indignação dos usuários ao preconceito veiculado, como reação, na rede. Em 2011, no entanto, quando algumas figuras públicas começaram a fazer declarações de ódio, racismo e homofobia explícitas, veiculadas pela mídia, os picos, ainda que menores, começaram a ser cada vez mais frequentes.

Entre todos os episódios, ninguém encarnou tão perfeitamente o fenômeno como o ex-militar Jair Bolsonaro. Deputado federal pelo PP do Rio, Bolsonaro tornou-se fenômeno midiático quando, em abril de 2011, fez declarações racistas/homofóbicas no programa CQC – Custe o que Custar, do rede Bandeirantes. Questionado pela cantora Petra Gil o que faria se seu fiho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro respondeu: “Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados. E não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”. A repercussão deixou o parlamentar por algumas semanas em exposição intensa na mídia. Com isso, os neonazistas acordaram.

Leia mais:
Nazismo à brasileira
Deputados protocolam representação contra Bolsonaro

 

Thiago Tavares, presidente da Safernet, explica que, ao expor as opiniões publicamente – e não sofrer retaliações – Bolsonaro despertou a atividade das células neonazistas que atuam no Brasil. Até então, a internet servia apenas como canal de comunicação intergrupos. Encorajados, no entanto, os neonazistas começaram a usar o Twitter como campo de batalha, um lugar para expor suas ideias, praticar o ódio e angariar simpatizantes. “Acabam se sentindo legitimados e encorajados”, afirma ele.

Outro personagem público que contribuiu para o despertar dos nazistas nas redes foi Danilo Gentili, do mesmo programa em que Bolsonaro tornou-se astro. “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”, afirmou o “humorista” em sua conta do Twitter.

Diversas manifestações antissemitas, ainda que em menor quantidade do que os outros tipos de manifestação, inundaram a rede.

Hoje, o Brasil tem cerca de 300 células neonazistas. Segundo a antropológa Adriana Dias, mestre pela Unicamp e que estuda o tema há dez anos, cerca de 150 mil brasileiros baixam mensalmente mais de cem páginas com conteúdos nazistas. Desse total, 15 mil são líderes e coordenam as incitações de ódio na internet.

 

Na esteira desse despertar, a atuação cada vez mais intensa de quadrilhas neonazistas foi alvo do maior pico de denúncias do relatório da Safernet. Em 11 de dezembro de 2011, a organização recebu mais de 21 mil denúncias de 11 perfis do Twitter que incitavam ódio a imigrantes, negros, judeus, mulheres e homossexuais. A mesma quadrilha alimentava um site próprio com o nome falso de Silvio Koerich.

Em 22 de março, a Polícia Federal prendeu dois homens acusados de serem os cabeças do grupo:  Emerson Eduardo Rodrigues, 32 anos, e Marcello Valle Silveira Mello, 29.

Além das inúmeras incitações à violência, a PF identificou plano para um ataque em massa a estudantes de Ciências Sociais na Universidade de Brasília, com data marcada e estratégias de ação.

Com 70 mil denúncias e 500 mil arrecadados em conta por doações de parceiros, o site mobiliza muita gente. Com senhas compartilhadas, mesmo depois da prisão, novos textos continuam a ser postados e as contas no Twitter permanecem ativas. Ao todo, Tavares calcula que mais de uma centena de perfis falsos foram feitos pela quadrilha.

Segundo ele, a Operação Intolerância, que procura agora os outros integrantes do grupo, foi um marco ao priorizar crimes cibernéticos e fazer uma investigação profunda para identificar os culpados.

“O Brasil ainda está engatinhando na repressão a crimes de ódio”, conta ele, que vê uma resistência do Judiciário a condenar pessoas acusadas de racismo, crime tipificado na lei.

Nos últimos dez anos, o movimento neonazista cresceu assustadoramente, segundo a antropóloga Adriana Dias. O número de sites passou de oito mil a 32 mil. Já o crescimento da atividade em fóruns de discussão online cresceu 400%, impulsionados pelo aumento da comunicação possibilitado pela internet.

Quando pessoas no Brasil são presas, células internacionais auxiliam financeiramente para bancar advogados. “A participação brasileira em fóruns internacionais nazistas é muito intensa”, afirma Dias. “Uma pessoa se comunica com qualquer outra com tradutor a dois toques”.

 O perfil do neonazista: 

A pesquisa de Adriana Dias identificou o perfil do neonazista brasileiro. Confira:

– Desses 300 grupos, 90% se concentram em São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.

-São brancos, homens, jovens, a maioria com ensino superior (completo e incompleto)

– Para se inserir nas células, é necessário ritual de iniciação. Geralmente, espancar gratuitamente um negro ou judeu na rua, e que pode levar à morte.

– Depois de aceito, o nazista recebe senha para acessar manual, que lhe dirá, entre outras coisas, como reconhecer um útero branco – a mulher perfeita para procriação de um neonazista.

– Todos eles enfrentam dificuldades de socialização

– Muitos apresentam frustrações sexuais: o próprio Emerson Rodrigues afirmou em seus vários sites e perfis, que sua ex-namorado havia o deixado por um “negão”(sic).

– Muito se sentem ressentidos por supostamente terem perdido poder, com a entrada do PT, associado à esquerda, no governo – esse aspecto está ligado, sobretudo, ao preconceito contra nordestinos e à ascensão de uma nova classe média.

– São fundamentalistas religiosos – o que pode ajudar a confundir liberdade religiosa com crimes de ódio.

CLARA ROMAN.

“Jornalismo econômico”: o país merece desculpas – por saul leblon / são paulo.sp

 

Durante décadas, o discernimento histórico da sociedade brasileira foi entorpecido por um barbitúrico de alta toxicidade chamado ‘jornalismo econômico’. Entre outras, sua especialidade era convencer o país de que o assim chamado ‘custo Brasil’ interpunha-se como um Everest no acesso dos nativos aos bens da civilização. Somente a entrega dos destinos nacionais à eficiência emanada dos livres mercados destravaria a catraca de acesso ao futuro virtuoso.

Desregulação era a palavra-chave. Dois obstáculos se superpunham: os direitos trabalhistas resumidos no pejorativo bordão da ‘herança getulista’ e os direitos cidadãos, consagrados na Constituição de 1988, que universalizou ‘coisas’ como licença maternidade, direito à saúde, aposentadoria rural, entre outras temeridades e precipitações. Os especialistas em suas colunas diárias e emissões intermitentes não poupavam os incrédulos e/ou jurássicos: o país não cresceria, os capitais não ingressariam, o mel não jorraria nos rios tropicais enquanto a arquitetura de proteção do trabalhador e a cidadania precoce não fossem erradicadas do leito pátrio.

Em 2002, nas eleições presidenciais, a sociedade arriscou um palpite diferente. O resto é história. Mesmo sem uma ruptura linear com o receituário ortodoxo, o governo deslocou a ênfase das ‘reformas’ para o resgate do excluídos e a retomada da agenda do desenvolvimento, banida das prioridades nacionais.

Nesta 3ª feira, a Presidenta Dilma reduziu o custo das folhas salariais das empresas sem remover direitos constitucionais, nem afanar trabalhadores. Como? A retomada do crescimento criou mais de 15 milhões de novos empregos nos dois governos de Lula. Um mercado de consumo popular formado por 103 milhões de brasileiros redefiniu as bases do crescimento. A economia em ritmo de pleno emprego (hoje a taxa de desemprego oscila em torno de 5,5%, contra 9,5% em 2002) promoveu saudável formalização do trabalho precário.

Entre 2003 e 2010 o número de contribuintes da Previdência aumentou 16,8%. A arrecadação previdenciária e o aumento das contribuições sobre o lucro líquido das empresas elevaram a receita fiscal sem aumentar imposto. Foi isso que permitiu ao governo trocar a contribuição previdenciária das empresas dos atuais 20% da folha para um alíquota de 1% do faturamento – que implica redução de 0,5 ponto no custo previdenciário efetivo.

Inverteu-se assim a prescrição martelada durante 30 anos pelos canarinhos dos livres mercados na imprensa: em vez de sucatear a sociedade extraiu-se do crescimento e da disseminação de direitos as energias para cortar os custos e ampliar a competitividade. Há um leque de desafios ainda a vencer na construção de um novo ciclo de desenvolvimento. Mas nada afasta a percepção de que os dogmas embutidos na narrativa ‘jornalística’ dos anos 80/90 – entre eles o credo anti-estatal, o câmbio livre, a furiosa defesa da livre circulação de capitais e a panacéia dos juros altos associados às metas de inflação – incluem em sua composição doses variáveis de fraude ideológica, interesses endinheirados e genuflexão obsequiosa de profissionais da imprensa, repartidos entre a má fé, a soberba e a ignorância.

Trata-se de um antepasto incompatível com a renovação do cardápio de desenvolvimento brasileiro. É hora de uma autocrítica de profissionais e associações de classe. Pouca dúvida pode haver , cedo ou tarde, um escândalo vai desvelar a rede de ‘Cachoeiras e Desmóstenes’ nesse braço da desfaçatez midiática.

FLORESTA DE GENTE SER – de zuleika dos reis / são paulo.sp


 

Ai, que saudade

da Ternura

que era floresta

que era Amazônia

a perder de vista

a atravessar

a preencher

os múltiplos Estados

de gente ser.

 

Saudade da floresta

que era Ternura

floresta devastada

que em terra de predadores

floresta que era verde

toda funda de raízes

até o centro de gente ser.

 

Ai, que se enlouquece

sobre a terra que agoniza

ai, que se enlouquece

nestes animais que agonizam

nestes rios que sangram

nestes peixes, ai, assim cegos,

nestas sereias, ai, que não cantam mais.

 

Ai, que saudade

de gente ser.

Ternura verde

há-que reflorestar-te

há-que reflorestar

o ser.

DEMÓSTENES, sem escrupulos, imoral e cínico: ‘Em 2010, Demóstenes redigiu prefácio de livro da OAB sobre Lei Ficha Limpa”

Na época, ‘ninguém tinha idéia do que estava acontecendo’, afirmou o presidente da entidade

02 de abril de 2012 | 20h 36

BRASÍLIA – O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, pediu no final de semana a renúncia do senador Demóstenes Torres. Mas em 2010 coube ao hoje parlamentar investigado a tarefa de redigir o prefácio de um livro editado pela OAB em comemoração à aprovação da Lei da Ficha Limpa.

Veja também:
link DEM abre processo de expulsão de Demóstenes
link Senadores querem antecipar o caso em Conselho
link Tudo sobre o caso Demóstenes

No texto, após elogiar a atuação da entidade no processo de aprovação da lei, Demóstenes Torres afirmou: “Por causa da nova lei, a nação vai conquistar muito, pois o volume de recursos para beneficiar a população é inversamente proporcional ao número de bandidos abrigados na vida pública.”

Demóstenes Torres foi o relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado do projeto que resultou na Lei da Ficha Limpa. A norma que impede a candidatura de políticos condenados e daqueles que renunciam a mandatos para escapar do risco de cassação foi considerada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

No prefácio, o senador citou uma frase dos autores do livro, Ophir Cavalcante e Marcus Vinícius Furtado Coelho, segundo a qual a sociedade brasileira não aceita mais políticos com comportamento inadequado: “A norma se fez realidade por intermédio da atenta participação da sociedade brasileira, que não mais admite que os destinos da nação possam ser geridos por representantes que não possuem conduta adequada à dignidade das relevantes funções públicas.”

A assessoria de imprensa da OAB informou que o livro “Ficha Limpa: A vitória da sociedade” foi lançado em comemoração à aprovação da lei. Segundo Ophir Cavalcante, “ninguém pode apagar a história”. “Aquilo foi feito dentro de um momento em que ele foi o relator da Ficha Limpa no Senado. Ninguém tinha idéia do que estava acontecendo. O que foi feito, foi feito. Não há o que mexer. Nas novas edições, certamente essa questão vai ser observada”, disse.

 

O Estado de S. Paulo

Lula ganha prêmio na Espanha por luta contra a pobreza. Oposição se desespera. Serra chora em reunião de familia. DEMos em debandada para o ninho dos tucanos.

02/04/2012 – 12h46

DA FRANCE PRESSE

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi escolhido nesta segunda-feira para receber o 24ª Prêmio Internacional Catalunha por suas políticas “a serviço de um crescimento econômico justo” e sua luta contra a pobreza, segundo anunciou o presidente regional catalão, Artur Mas.

O júri da premiação reconheceu na gestão do ex-presidente brasileiro uma “política de crescimento econômico justo, que colocou o país à frente de globalização, criando uma classe média e favorecendo a partilha mais justa da riqueza e das oportunidades”.

O prêmio é oferecido às pessoas que contribuem com a promoção dos valores culturais, científicos e humanos em todo o mundo. Segundo o júri, Lula também foi agraciado por “sua trajetória pessoal e sua luta contra a pobreza e a desigualdade”.

“Lula construiu as bases para o crescimento econômico do Brasil e entendeu, graças ao seu passado sindicalista e de esquerda, que sem crescimento econômico não há divisão de riqueza”, disse Mas sobre o ex-presidente brasileiro, que aceitou e agradeceu a premiação em uma carta.

Este prêmio “reforça a minha convicção da importância de lutar por uma sociedade mais justa e democrática, sem fome nem miséria”, declarou Lula.

O presidente catalão assegurou que o ex-presidente brasileiro demonstrou a intenção de viajar à Catalunha para receber o prêmio em junho, caso a sua saúde permita, após superar um câncer na laringe.

O Prêmio Internacional Catalunha, que oferece 80 mil euros a seu vencedor e uma escultura de Antoni Tàpies, foi concedido no ano passado ao escritor japonês Haruki Murakami.

Presidente do Governo Autônomo da Catalunha, Artur Mas, anuncia Lula como vencedor do prêmio
Presidente do Governo Autônomo da Catalunha, Artur Mas, anuncia Lula como vencedor do prêmio.

NÓS, OS SOLITÁRIOS – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Você me pergunta: “como a vida está te tratando?”. Well! Exclamo (como alguém do interior de New Orleans, habituado com a boa música, the good old jazz, mas descrente de que tal prática possa sepultar a discriminação racial mesmo entre aqueles que admiram a grande arte) sem muita convicção, continuo esgrimindo contra mil fantasmas, a maioria deles, existentes só na minha imaginação. Não me importo, afinal de contas, é dela somente que preciso para fazer o que acredito, ainda posso fazer. Se fosse o Sartre, diria: “para emprestar uma justificativa para a existência injustificável dos meus semelhantes”… No fundo, nós os poetas, escritores, queremos ser aceitos… Sofisticando um pouco, ou pedindo muito, pretendemos ser amados, é isso. Lembrei agora da atriz Ava Gardner, num momento de introspecção, disse: “no fundo, sou bastante superficial”, não consigo deixar de rir, embora nada conspire para a existência deste riso, mas é o que restou, quando perdemos o senso de humor não temos mais nada para perder.

Um homem sozinho não tem chance, profetizou o velho Hemingway no livro “To Have and Have Not” e que originou aquele belo filme, segundo a lenda, produto de um desafio de um diretor que teria instigado “Papa” a lhe dar o que considerava o “seu pior livro” e “ele” faria um bom filme. Acertou, com Humphrey Bogart e Lauren Bacall e que foi traduzido como “Uma Aventura na Martinica”… Pois é, hoje estou pensando naqueles ensinamentos, frases soltas ditas aqui e ali, minha avó era pródiga nisso, afirmava que as pessoas estão neste mundo para alguma coisa, uma espécie de “missão” a cumprir, depois disso, partem… O que significava não poder questionar o destino de ninguém, quando partiam era porque a hora tinha chegado. Agora, sem ninguém para me ouvir, penso, se todas as pessoas estão aqui para alguma coisa, no meu caso deve ter havido um engano. Não me sinto imbuído de “missão” nenhuma. Claro, se estou aqui, então preciso fazer alguma coisa. Digo que sou escritor, me atocho de heroísmo, me dou  ao luxo de ser um solitário, uma atitude tipicamente burguesa, sou independente dos outros, se não fosse pelo fato de vê-los como personagens, não teriam importância nenhuma. É duro, mas é o que penso. Isso tem um preço, e é alto. Pago a minha cota, e é muito para compartilharmos a “nossa” indiferença mútua. Estou identificado no poema de Sidônio Muralha, em seus últimos versos “… E que ninguém me dê amparo nem pergunte se padeço. Não sou nem serei avaro – se caráter custa caro, pago o preço!”…

Tudo isso para tentar responder a tua pergunta, amigo Fausto Wolff, porque ser “durão” significa sacrificar aqueles a quem amamos para realizar a nossa arte, afinal, de quem iríamos escrever?  Ser amado, constatou Paulo Francis, falando de T.S. Elliot, é um sentimento que supera qualquer depressão, desespero ou impotência, concordo. Não foi a indiferença quem me prostrou, foi o temor em ser aceito naquela sociedade, só!

1 de abril de 1964.SILÊNCIO!

o clube militar é frenquentado pelos velhos generais e alguns coronéis que comandaram a NOITE DE TERROR (ditadura) e que hoje estão de pijama mas com saudades da corrupção de outrora. a imagem do jornalista HERZOG irá acompanha-los, até 0s últimos dias. hoje estão em extinção, a tropa das armas brasileiras agradece.

Metrô de Nova York promove a poesia /new york.ny

DA FRANCE PRESSE

 

A autoridade que administra o metrô de Nova York anunciou o relançamento da iniciativa ‘Poesia em Movimento’ depois de um parêntesis de quatro anos.

Os poemas e frases serão acompanhados de detalhes de obras de arte e também aparecerão na forma de animação nos telões eletrônicos de algumas estações. Os telões serão colocados em caráter experimental nas estações Grand Central Terminal, Pennsylvania Station, Bowling Green, Atlantic Avenue-Pacific Street e Jackson Heights-Roosevelt Avenue.

“Nossos clientes vivem nos dizendo que até mesmo o menor investimento em arte e música no metrô faz uma enorme diferença para eles”, disse Joseph J. Lhota, diretor da Metropolitan Transportation Authority, empresa que administra o metrô.

Os primeiros versos, que já podem ser vistos nos vagões, são do poema “Graduación”, de Dorothea Tanning, uma poetisa americana que morreu este ano, aos 101 anos de idade, em Nova York.

Novos poemas serão exibidos a cada três meses em cartazes espalhados pelas composições. Os versos, além de serem acompanhados de uma foto de obra de arte, também aparecerão na parte superior dos bilhetes MetroCard.

Álvaro Fagundes
Vagão de metrô na cidade de Nova York
Vagão de metrô na cidade de Nova York