Livros pra se ficar rico, muito rico – por amilcar neves / ilha de santa catarina


Maria Vitória me chama:

– Rápido, olha só isto aqui. Acho que vais gostar do que está passando.

A rapidez se justificava pelo fato de que o homem falava na televisão (o “isto aqui” a que ela se referia) e podia, portanto, mudar de assunto de um instante para outro, como sempre acontece quando queremos compartilhar uma notícia com alguém da sala ao lado (por isso que, em oposição à televisão, a internet tanto cresce como fonte de informações, pois ela é sabiamente paciente, sempre se submetendo aos caprichos do cliente e sempre lhe entregando o que ele busca). Mas não foi o caso, o homem me aguardou com incrível espírito de perseverança, sem cessar jamais de comunicar-se com sua ênfase esmagadora, dessas de tirar o fôlego, o raciocínio e o juízo de quem se deixe apanhar por palavras retumbantes e tons de voz autoritários e urgentes. Ele prosseguiu contando suas maravilhas por um longo tempo: o tempo afinal era dele, pago para que falasse quanto lhe conviesse. E, como sabemos todos nós, quanto mais se repisa uma ideia estonteante ou se ressaltam as magníficas virtudes de um produto, mais o interlocutor, ouvinte ou telespectador se convence da veracidade das palavras proferidas com tanta e tamanha solenidade.

Assim era o homem: tanto e solene, tamanha a sua certeza das verdades da vida.

Falava de livros – melhor, de um livro específico (depois deitou a falar de uma profusão de outros títulos publicados por uma editora que até parecia ser de sua propriedade, e talvez o fosse mesmo). O homem discorria sobre a obra de um certo Rev. Louis P. Sheldon (seria este um parente do notório Sidney, autor de tantos livros que vendem milhões mundo afora?), supostamente intitulada, em inglês, The Agenda e traduzida no Brasil como A Estratégia, com o subtítulo sintomático e assaz importante para a correta difusão do trabalho, e afim de não deixar qualquer dúvida sobre suas inclinações e intenções, de O plano dos homossexuais para transformar a sociedade.

Sobre o livro, o sítio da editora alerta que está em curso uma “estratégia gay, que visa erradicar a estrutura moral da sociedade e promover relações promíscuas”, as quais identifica como “abominação”, e incita os cristãos a “denunciar o pecado e combater esse plano diabólico para destruir o ser humano”.

Daquela mesma Editora Central Gospel fica-se sabendo da existência de outra obra pouco sutil já no título:Nascido Gay? – Existem evidências científicas para a homossexualidade?, assinada por um tal Tay (nãoGay), um Dr. John S. H. Tay. A tese é clara: esse negócio de alguém dizer que nasceu gay masculino (que, livrando por ora as mulheres, parece ser um alentado foco de preocupações para a igreja do homem que falava dos livros na televisão, o qual vem a ser um conhecido pastor evangélico) é pura sacanagem só para minar a família e, com certeza, obrigar a todos nós, em breve, a termos exclusivamente relações homossexuais.

Isso assusta um bocado de gente temente a Deus (temente a ponto de se borrar nas calças), uma turma que está chegando à classe média brasileira e descobre uma graninha sobrando para comprar alguma coisa mais, como uma cadeira cativa no céu e um livro do agrado divino – seja através da igreja ou dos títulos do pastor, um escriba prolífico que promete na TV solenes descontos de 5% e pede dinheiro, dinheiro, dinheiro para ajudar suas obras de caridade.

E que escreve livros de autoajuda no sentido reflexivo do ponto de vista do autor…

Amilcar Neves é escritor com oito livros de ficção publicados, e membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

4 Respostas

  1. Amilcar, a ” ressalva” é apenas uma brincadeira retórica, por assim dizer. Está clara a intenção do texto. Eu não fui claro: deveria ter colocado as aspas no primeiro comentário. Abraço!

    1. Deixei a última frase propositadamente mais prolixa, Jorge, para provocar o leitor de jornal que, suponho, em geral está sempre meio apressado. O que, evidentemente, como escritor que és, não é o teu caso.

  2. Uma ressalva: os livros de autoajuda de fato funcionam, PARA O AUTOR!

    1. Claro que sim, Jorge, e é exatamente o que quis dizer com a derradeira frase da crônica. Agradeço a leitura do texto e a disposição de comentá-lo.

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