Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff – por silvana toazza / ZH / porto alegre.rs

José Antônio Fernandes Martins ajudou a moldar o pacote de estímulo à indústria

Executivo da Marcopolo é um dos conselheiros da presidente Dilma Rousseff Maicon Damasceno/Agencia RBS

Martins tem longa amizade com a presidente do paísFoto: Maicon Damasceno / Agencia RBS

Um articulador, um interlocutor e um conciliador. Mais do que palavras parecidas, elas definem José Antonio Fernandes Martins, executivo da Marcopolo escalado pela presidente Dilma Rousseff para ajudar a moldar o pacote de estímulo à indústria lançado na última terça-feira.

Não foi, portanto, uma coincidência que setores importantes da Serra, como o de fabricantes de ônibus, tenham sido contemplados com as medidas de desoneração da folha de pagamento e de redução de juros para aporte em inovação.

Grande mérito de Martins, a quem Caxias vê como seu porta-voz junto ao Planalto, num momento em que a palavra desindustrialização assombra a economia. O prestígio e a responsabilidade estão à altura dos cargos que Martins ocupa.

É presidente de três entidades: da Associação do Aço do Estado, da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus (Fabus) e do Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários (Simefre).

Também é vice-presidente de Relações Institucionais da Marcopolo, da Federação das Indústrias do RS (Fiergs) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Isso só para citar os cargos mais representativos, sendo que a última função demonstra um grande reconhecimento nacional, uma vez que a Marcopolo não possui planta fabril em São Paulo.

Martins, junto com Jorge Gerdau e Paulo Tigre, é um dos três industriais gaúchos a ter credencial para sentar na mesa da presidente e expor suas reivindicações. Esteve em Brasília na terça-feira passada durante o anúncio do pacote. Tem um canal aberto com Dilma. E não é de hoje: conhece-a há cerca de 20 anos e começou a estreitar os laços desde quando ela era secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul.

Como ministra-chefe da Casa Civil, Dilma ligou diretamente para o celular de Martins em pelo menos duas oportunidades: para consultá-lo sobre o programa de ônibus escolar e para convidá-lo a integrar o conselho curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

— É um patrimônio essa relação de amizade. Mas eu nunca me aproveitei dessa situação, muito menos agora que ela é presidente. Só quando era candidata a presidente é que a pressionei, no bom sentido, a vir a Caxias e visitar a Marcopolo, conhecer nossa empresa — recorda, acrescentando que é convocado para os encontros em Brasília por meio de e-mails assinados pela presidente.

Com perfil afável, sorriso fácil e um discurso sereno, o vice-presidente para assuntos institucionais da Marcopolo conseguiu convencer a presidente, mostrando por “a mais b” que o ramo de ônibus tem uma importância estratégica brutal para o país. Engatou, com isso, avanços significativos para o setor, refletidos na redução de juros e na ampliação do prazo de pagamento do crédito, a  ponto de Dilma perguntar na terça:

— Está satisfeito, Martins?
— Muito! — apressou-se.

O Pioneiro fez a mesma pergunta, e ouviu de resposta:
— Esse pacote busca a continuidade de um crescimento sustentável das empresas nacionais contra os ataques que sofremos da economia mundial. Mas, claro, não vai resolver tudo. É o início. É uma demonstração que o governo federal está dando no sentido de recompor e melhorar a competitividade das nossas empresas.

Com seu jeito conciliador, Martins transita com desenvoltura tanto no ambiente de sindicalistas quanto por gabinetes de ministros, deputados, senadores, secretários, governador e presidente (muitos, amigos pessoais dele), carregando os pedidos de melhoria ao setor de transporte. Resultado: foi escolhido para o time de “conselheiros” de Dilma como um dos 28 jogadores que mais entendem do campo econômico e empresarial do país.

— Eu era até certo ponto um grão de areia perto da montanha rochosa do PIB brasileiro — sintetiza, modestamente, lembrando que nos encontros no Palácio do Planalto ficou lado a lado de grandes nomes do setor de empreiteiras, de bancos, da aviação.

Na última semana, sentou ao lado de Eike Batista, empresáriomais rico da América do Sul. Para Caxias, no entanto, Martins representa o oceano de oportunidadese perspectivas de uma região que soube se projetar no mundo e hoje é o segundo maior polo metalmecânico do país.

Com 79 anos a serem completados no dia 21 de abril, José Antonio Fernandes Martins não aparenta nem de longe a idade que tem. Exibe com orgulho as medalhas como corredor de longa distância. Participou de maratonas em São Paulo, Porto Alegre e Blumenau, fato que lhe trouxe no passado problemas na coluna e a necessidade de uma cirurgia.

De 1982 até 1995, chegava a correr 16 quilômetros por dia. Em uma única prova, atingiu 43 quilômetros, em quatro horas e vinte minutos. Afastado da maratona de corridas (embora continue maratonista de aeroporto e na defesa de setores econômicos), o engenheiro montou uma academia em casa. Sempre que pode, exercita-se duas horas por dia para não perder o pique.

Também é adepto da medicina ortomolecular. Conheceu praticamente o mundo quando trabalhava com afinco no processo de internacionalização da Marcopolo.

Hoje, em compensação, faz questão de não viajar ao Exterior para compromissos de trabalho. Os xodós da casa são o trio de cadelas: a Âmbar (poodle), a Chanel (poodle gigante que parece uma ovelha) e a Lica (boxer). Tem dois filhos, Bebeto (empresário) e Zeca (jornalista, com atuação junto ao governo), três netas e um neto.
Seu Martins tenta reunir a família em almoços e jantares, mas admite que a agenda às vezes não ajuda.

Mas, como conciliador, consegue administrar as múltiplas tarefas, sempre com tranquilidade, fala pausada e bom humor. Assim, com seu  jeito cortês, ganhou a simpatia da presidente, a ponto de lhe perguntar na visita que fez ao estande da Marcopolo, durante a abertura da Festa da Uva 2012, em fevereiro:

— Seu Martins, se recuperou da cirurgia do coração? — numa preocupação que vai além de números.

Ele diz que passou um mês em ritmo lento, mas agora já retomou sua antiga boa forma. Engana-se quem pensa que José Antonio Fernandes Martins tem um bom trânsito apenas com alas oficiais.

Assim como é amigo de grandes nomes ocupantes de cargos dos governos federal e estadual e tem boa relação com entidades de classe e órgãos institucionais, também demonstra habilidade para se comunicar com sindicalistas. Consegue dialogar com lideranças da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da União Geral dos Trabalhadores (UGT), resolvendo impasses e buscando formas de empresas e funcionários crescerem juntos. Como se dá esse trânsito por alas com interesses conflituosos?

— Eu aprendi uma coisa muito cedo na minha vida: eu não brigo com ninguém, porque você nunca sabe de quem vai precisar e quem estará sentado na cadeira amanhã.
Eu me dou bem com o PT, o (José) Serra de São Paulo é meu amigo, assim como o Geraldo Alckmin (governador de São Paulo). Já fui a Dubai com os dois. A vida não tem partido político bom ou ruim. Você tem de buscar as melhores condições para o seu setor — aconselha, dando uma pista do temperamento amistoso.

Porto-alegrense de nascimento, Seu Martins tem como hobby colecionar obras de arte. Sabe contemplar o que é belo. E não apenas por intuição ou por vaidade. Dedica-se com desenvoltura a ler (ou melhor, estudar, como define) livros sobre arte, vinhos e economia, áreas com as quais trava bastante afinidade.

Seu escritório em casa é recheado de publicações sobre os três temas. Mandou catalogar, em formato de livro, todos os quadros que, junto com a mulher Hieldis Severo Martins, garimpa em antiquários, galerias e por meio de contatos com colecionadores.
Orgulha-se das peças raras que possui e prestigia pintores brasileiros (inclusive de Caxias e região), como Iberê Camargo, Sergio Lopes, Heitor dos Prazeres, Victor Hugo
Porto, Beatriz Balen Susin, Di Cavalcanti, Celestino Machado e Britto Velho.
Em sua casa, para onde quer que se olhe, há um detalhe a espreitar a curiosidade e enlevar o espírito.

O bom gosto é expresso em obras de arte como quadros, esculturas, móveis, prataria e pequenos objetos raros de decoração garimpados em antiquários, galerias e pelas viagens ao redor do mundo. A impressão é de se estar circulando por uma galeria. Uma casa inteira ornamentada com uma primorosa coleção de arte, inclusive o elevador.

— Eu prefiro investir em arte do que em imóveis e terrenos. Arte é uma coisa que você aproveita, curte, embeleza, alegra. Mas para curtir, você tem de conhecer, ler, estudar — ensina, admitindo que poucos empresários investem nessa área.

Martins e Hieldis também gostam de frequentar amigos e serem frequentados. Nesses momentos, “aos que apreciam e conhecem”, o casal não hesita em brindá-los com vinhos distintos, de lotes raros. Já recebeu em sua casa, para “jantares de cortesia”, o governador Tarso Genro, secretários, políticos e empresários.
Homem de confiança de Dilma, já houve especulação de que Martins teria sido convidado pela presidente para assumir algum cargo no governo, como o de ministro. O empresário, no entanto, nega. Garante que isso não ocorreu, até por ele sempre ter demonstrado que não assumiria um desafio assim:

—Eu nunca tive intenção, vontade e nem disposição para assumir um cargo político. Eu sou homem Marcopolo e acabou. Eu sou mais útil para a empresa (Marcopolo), para a comunidade e para o setor de transporte na posição em que estou, pois tenho liberdade para falar e criticar — argumenta Martins.

O executivo diz que está confiante na sinalização de Dilma de que pretende dar continuidade a esses encontros com o empresariado e que mais medidas de impulso à economia devem estar a caminho, abrangendo outros setores. E já aponta, com conhecimento de causa, lacunas que o setor industrial apresenta:

— Carga tributária próxima aos 40%, uma logística altamente inadequada e cara, um câmbio desfavorável, talvez os maiores juros do mundo, uma energia cara, uma carga de leis sociais absurdamente alta. Isso faz com que o custo Brasil torne-se elevado, deteriorando nosso poder de competição. Tudo isso fez com que o país sofresse um ataque forte das economias internacionais, sobretudo da China, provocando o que chamamos de desindustrialização.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: