O poeta MANOEL de ANDRADE escreve sobre sua resistente viagem pela América Latina no livro: “O BARDO ERRANTE” / curitiba.pr

Na década de 60 tudo estava no ar e bastava o compromisso de sonhar para que os caminhos se abrissem magicamente. Contudo nem todas as portas da realidade se abriram aos ideais e nem todos os visionários que lutaram por uma nova sociedade conseguiram sobreviver às suas trincheiras. O poeta Manoel de Andrade trilhou esse venturoso tempo pelos caminhos da América Latina, identificado com a história e as bandeiras revolucionárias desfraldadas pelo continente. Neste artigo ele faz uma reflexão sobre os sentimentos e as emoções que marcaram a agenda daqueles anos, dizendo da ventura de ter sido jovem nesse tempo e do desencanto de ver, atualmente,  as utopias desterradas. Fala-nos da trágica herança dos nossos dias, de um mundo sem norte, sem porto e de um tempo marcado pela perplexidade e os pressentimentos. Contudo, nesse impasse,  sua alma de poeta não abdica de sonhar, imaginando que a misteriosa dialética do  tempo nos reconduza a um amanhecer , aos territórios  da esperança e a um mundo possível e melhor.

 

 

 

NOS RASTROS DA UTOPIA (*)… (capitulo)

 

                                                              Manoel de Andrade

 

                                                                                                            Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

                                                                                                                   Mário Quintana

 

Eram os últimos dias de 1969 e, nas conversas em Lima, discutíamos a herança que recebéramos dos “anos rebeldes”. A década de 60 se iniciara com um exército murando a liberdade de Berlím, mas terminara com três astronautas abrindo os caminhos do universo. Naqueles anos o mundo comovera-se com a mensagem de paz e de amor, na imagem sacrificada de Martin Luther King, e conhecera o real significado da resistência, na figura irretocável de Ho Chi Minh. A revolta de Nanterre mobilizara os estudantes do mundo inteiro e, ao longo do
continente, aportávamos em 1970 na crista de uma poderosa onda libertária, cujas espumas espraiavam o exemplo de Che Guevara. Vivíamos num tempo sem liberalismo e sem globalização e Cuba surgia como uma alternativa socialista e referência da luta revolucionária. O mundo era uma alquimia de ideias e a América Latina seu melhor laboratório. A nova história, no contexto continental, era a de uma só nação, de um só povo, latino e “indo-americano”  — na expressão de Mariátegui. A esperança era uma bandeira hasteada no coração de todos os que ousavam sonhar com uma sociedade justa e fraterna, fossem eles um guerrilheiro, um intelectual engajado ou integrasse uma vanguarda estudantil. Nossa ancestralidade cultural – manchada pela violência colonial e por tantos mártires na memória sangrenta de cinco séculos – era redescoberta como uma fonte trazendo novas águas para interpretar a história. Nossos sonhos navegavam no misterioso veleiro do tempo, enfunado pelos ventos da fé revolucionária, carregado de hinos e canções libertárias, levando a mãe-terra e as sementes para os deserdados, carregado com as emoções e o encanto da solidariedade e rumando à sociedade que sonhávamos.

Nós, os poetas, expressávamo-nos pelos líricos rastros dessa ansiada utopia, cantando as primícias de um novo mundo e pressentindo as luzes daquele imenso amanhecer. Transitávamos na rota das estrelas, em busca de um porto no horizonte, em busca de um homem novo, de uma terra prometida a ser entrevista nos primeiros clarões da madrugada. Havia uma perseverante certeza no amanhã e muitos caíram lutando com essa crença tatuada na alma, embora os sobreviventes nunca tenham chegado a contemplar essa alvorada.

Nos anos 60, ser jovem significava estar comprometido com uma fé, com uma causa social e, naqueles passos da história, era um desconforto, perante o grupo, não ter um engajamento político e, pior ainda, ser de “direita”. Na juventude daqueles anos, ser um “reacionário” era um estigma. Essa era a palavra com que nós, da “esquerda”, desfazíamos ideologicamente os adversários da “direita” e até os dogmáticos do Partidão, por quem éramos chamados de revisionistas. Por outro lado, falava-se de um “Poder Jovem”. Mas que “poder jovem” era aquele, maquiado com a credibilidade das filosofias orientais se esse poder não estivesse comprometido com o significado social da liberdade e da justiça? A ideologia marxista não nos permitia confundir os ideais inconsequentes da contracultura com o ideário daqueles que estavam dispostos a dar a vida pela construção de uma nova sociedade. Era como se houvesse, na América Latina, duas Mecas para a juventude: uma em Berkeley e outra em Cuba.

Se a palavra “esquerda”, perante as benesses do poder, foi perdendo sua transparência ideológica, é imprescindível não se perder o significado histórico dessa dicotomia, já que na sua origem, durante a Revolução Francesa, o clero e a nobreza ficavam à direita do rei e os representantes do povo a sua esquerda. Passados duzentos e vinte anos, todos sabemos qual o lado que continua defendendo as causas sociais. Os princípios são intocáveis mas não as ideias. É razoável, portanto, que possamos resignificá-las redefinindo as cores de nossa antiga bandeira, assim como reconhecer os equívocos e os defeitos congênitos da propria  “esquerda”.

          Os anos 60, ricos pela geração de novas teses sociais, por filosofias que apontavam para o progresso das relações humanas, não mostrariam, no gosto amargo dos frutos, o doce sabor semeado pela esperança. Os grandes sonhos políticos foram desmobilizados por interesses ideológicos equivocados, pelo oportunismo eleitoral e pela sedução do poder. Os sonhos alimentados pela contracultura, inicialmente legitimados pelas postulações contra os males do capitalismo, perderam-se nas perigosas síndromes da ilusão propiciada pelas drogas, pelos desencantos da sexualidade e pela posterior dependência de tecnologias alienantes. Sonhos e esperanças  acabaram desaguando neste inquietante “mar de sargaços” em que se transformou o mundo, onde navegam os corsários da ambição e da crueldade.

          Mas também havia jovens que não vivenciaram essa sublime  emoção de indignar-se com as injustiças. Naqueles anos, numa outra linha de reações,  uma elitizada coluna de jovens marchava contra  tudo pelo que lutávamos. Conheci essas sinistras figuras nas ruas de Curitiba. Porta-vozes da alta hierarquia da Igreja, desfilavam altaneiras, com seus paramentos medievais, nos primeiros anos da ditadura no Brasil, defendendo o regime militar e os interesses conservadores da oligarquia que representavam com os estandartes da “Tradição, Família e Propriedade”. Vi também seus parceiros, no Chile, liderados por Maximiano Griffin Ríos, em 1969, durante o governo de Eduardo Frei, portando, nos panos ao vento com o emblema da “Fiducia”, o ódio social, o ressentimento contra um cristianismo que abraçava as causas populares e, sobretudo, plantando as sementes da conspiração que derrubaria, com outros aliados sanguinários, o governo legítimo de Salvador Allende.

          A partir da década de70 aascensão do capitalismo financeiro, sob o disfarce de globalização, começou a estender as suas redes e a ganhar, com armas invencíveis, essa nova e imensa guerra mundial, avançando com sua voracidade, desterrando os valores humanos, gerando multidões de excluídos,  triturando nossas utopias, transformando o planeta num supermercado e descaracterizando a própria  cultura com atraentes modelos de um consumismo supérfluo e descartável.

Ainda que haja, no Brasil, muitos jovens “conectados”, preocupados com a ética, com as fronteiras alarmantes da corrupção, com a redenção ambiental e com belos projetos comunitários, toda aquela geração foi vítima da nova ordem social imposta ao longo dos vinte e um anos de ditadura militar, sendo induzida a “educar-se” pela cartilha da Educação Moral e Cívica, focada na obediência, passividade, no anti-comunismo e num patrioterismo doentio. Vítimas de todo um processo subliminar de moldagem comportamental, os jovens que abdicaram da consciência crítica foram transformados em meros consumidores.  Formam parte da juventude apressada dos nossos dias, descomprometida com os problemas sociais, imediatista, avessos à leitura,  ou derrotada pelo vício. Essa é a face trágica de um segmento da juventude contemporânea: jovens como meras marionetes de um mercado global de ilusões, aculturados pelas novas midias, homogeneizados desde os primeiros anos para consumir, abdicando quase sempre da análise dos fatos e do estágio promissor da cidadania.

          Os precursores involuntários da pós-modernidade – leia-se Nietzsche e Heidegger – e os seus mais ilustres ideólogos, na filosofia e na arte, aliaram-se ao trabalho posterior de demolição comandado pela globalização. Reagindo aos paradigmas orgulhosos e dogmáticos da ciência mecanicista do século XIX, os intelectuais niilistas apostaram na reação generalizada da descrença nos valores humanos, desconstruindo o significado da verdade, da beleza e da transcendência do humanismo na tradição ocidental; anunciando uma liberdade sem a noção do dever; desrespeitando os arquétipos da religiosidade; desqualificando a história; invertendo a estética da arte ao despojá-la da estesia e do encanto  – (e se há algum mérito nos exageros da arte moderna é o de retratar o perfil catastrófico do mundo contemporâneo); retirando a melodia da música,  proclamando a irreverência  e ironizando os ideais e o significado da utopia. Sobre esse termo, tão desfigurado em nossos dias, certa vez estudantes colombianos fizeram ao celebrado cineasta argentino Fernando Birri, a seguinte pergunta: Para que serve a utopia? Ele respondeu que a utopia é como a linha do horizonte, está sempre a nossa frente e por isso nunca podemos alcançá-la. Se andamos dez, vinte, cem passos, ela sempre estará adiante de nós. Se a buscamos, ela se afasta. Para que serve a utopia? perguntou ele, respondendo: Para fazer-nos caminhar…

 

Embora  quase tudo tenha sido desconstruído, nossos ideais desterrados e a globalização já não nos deixe sonhar e nos insinue a esquecer, é imprescindível acreditar que há uma Fênix entre as cinzas que restaram do mundo pelo qual lutamos. Não abdicamos da esperança, mas reconhecemos que nosso veleiro soçobrou e que seus restos foram bater nas praias melancólicas desses anos. Sobrevivemos quais náufragos num mar de ultrajes e decepções, junto com os destroços das grandes ideologias e com as cruéis aberrações que envergonharam os nossos sonhos ao vermos  o marxismo dogmatizado pelo stalinismo e ao compreendermos porque murchava a “Primavera de Praga”. Sobrevivemos nas lágrimas derramadas sobre as páginas d’O Arquipélago Gulag,  no desencanto de saber a beleza da utopia hegeliana invertida pelo totalitarismo nazista e o conhecimento científico manchado pela explosão atômica.

A contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental, são os novos cavaleiros do mundo apocalíptico que recebemos. Dessas quatro patéticas “figuras”, as três primeiras causaram efeitos desastrosos sobre a cultura – e lá na região andina, minha nova escola naqueles anos, a globalização insinuaria o esquecimento da história e da cultura deparando-se com a luta dos peruanos ante a herança quéchua e a resistência inquebrantável dos bolivianos pela manutenção da cultura aymara  –  e as duas últimas sobre os rumos futuros da humanidade.

Não herdamos somente a decepção, mas uma crônica indignação a despeito de qualquer otimismo. Hoje somos, tão somente, seres comprados nesse grande shopping de negócios e aparências em que se transformou o mundo, herdeiros impotentes de um sonho, vivendo num mundo alienante, distópico e devorado pelas fauces da globalização.

Anos 60 — que ventura ter sido jovem naquele tempo! Lá a realidade estava a poucos passos dos ideais.

Século XXI  — que estranha transição! Para onde vamos? Sem norte, sem porto, sem um amanhecer! Quanta perplexidade, quantos pressentimentos!  Haverá outro mundo, melhor e possível? Sem crueldade, estupidez e promessas mentirosas? São perguntas plurais que pedem respostas plurais. Essa é uma transição sombria balizada pela desventura e o desencanto. É um tempo de antíteses. Esperamos que o próprio Tempo, com sua misteriosa dialética, traga-nos uma regenerada síntese. Nesse impasse restam-nos, contudo, os territórios invioláveis da imaginação e da esperança e para mim um pouco mais: a transcendência, e a grata introspecção nessas memórias.

(*) Este texto é parte de livro que o autor está escrevendo sobre seus anos de auto-exílio, na América Latina.

revista Hispanista.

6 Respostas

  1. Meu amigo Manoel,

    Belo trabalho!

    É aquele grito encravado e guardado na alma e no coração e que agora explode na eloquência de um poeta.

    Pelo valor historico ficará eternizado pela grande demonstração de um idealismo que não mais existe.

    Você é um grande vencedor.

    Minha admiração e meus parabéns.

    Abraço fraterno.

    Laercio

  2. Já repeti, aqui, ali e acolá, que minha amizade com Manoel de Andrade ultrapassa as fronteiras do trivial e localiza-se no que há de melhor em uma relação fraterna. Para repetir um clichê, afirmo que, mais que um irmão consanguíneo, Maneco é o mano escolhido, selecionado durante a jornada vital.
    Mas isso não nos torna irmãos corsos: temos as nossas diferenças de pensamento, adotamos crenças distintas em matéria política e religiosa. O que não nos transforma em inimigos ou adversários, como requer o saudável convívio democrático, que admite positivamente a multiplicidade de opiniões e a boa convivência entre os contrários. E não é bom assim? Chatice seria o consenso absoluto, que não nos permitiria sequer perseguir objetivos vitais e construir utopias.
    Na narrativa de Manoel de Andrade, sempre com máximo respeito às ideias que o levaram a formular sua utopia, venero mais o entusiasmo do cavaleiro andante a percorrer as pátrias latino-americanas, em um tempo coberto por sombras e indefinições políticas, como tem sido, desde tempos imemoriais, a história deste continente. Sempre reunido a grupos que se acercavam mais à sua alma de artista sonhador, naquela idade vintaneira: jovens estudantes e expressões culturais de cada local visitado. Muitas dessas expressões eram nascentes, ainda jovens como ele. Cresceram e firmaram conceitos de credibilidade intelectual e não deixaram de lembrar-se do brasileiro que os visitou e, quase sempre, recebia toque de retirada das cornetas governamentais dos países pelos quais passava. Na bolsa da memória do viajante foram acumulados, passo a passo, tesouros de bom relacionamento (com o povo que o recebia, não com os donos eventuais do poder) e de comunhão de utopias, que agora migram para o papel do escritor e poeta.
    Passados tantos anos – mais de 40 – Manoel de Andrade fez um natural upgrade em suas utopias (para usar um termo atual, sem qualquer intenção irônica), mas continua em busca de sonhos, para poder continuar o caminho, como define Fernando Bini, citado em seu artigo. Novas buscas na espiritualidade, novos sonhos no campo da justiça social. As velhas utopias — algumas desmanteladas por quedas de muros e pelo desânimo de descobrir que a ambição humana, o apego pelo poder e o extremismo da corrupção e da deslealdade não têm cor política, mas estão sempre de tocaia no cérebro límbico do homem, prontas a aflorar à superfície, se as circunstâncias facilitarem – foram remodeladas, mas o escritor de agora permanece leal à alma condutora do jovem errante de ontem
    Já declarei, também, que seu livro, do qual “Nos Rastros da Utopia” é apenas um excerto, será, quando publicado, um marco para a história dos anos 60 em nosso continente. Depois de quatro décadas, confessando perplexidade com esse início de século, Manoel de Andrade pode dizer-se dono de uma certeza: somente os bons carregam à sua frente, continuadamente, as incertezas das utopias. Os maus têm projetos ambiciosos, preferencialmente para o presente ou futuro bem próximo, sem se importar com o que acontecerá para a sociedade que nos é comum. E é nos rumos dessas incertezas que se vão colhendo resultados positivos e se estabelecendo as conexões corretas para ampliarmos a justiça e a harmonia sociais. Como seu leitor, tenho plena certeza que sua melhor utopia se chama Fraternidade.

  3. Olá Manoel,

    Quanto tempo vc vai nos fazer esperar?
    Esses textos tão ricos que trazem de volta nossa juventude e relembram nossa história recente, nos tornam impacientes, esperando a obra completa,

  4. O selvagem sem motocicleta
    Tenho acompanhado em seu nascedouro as memórias do poeta-caminhante Manoel de Andrade: no Brasil, um personagem que foge à regra, no Paraná e em Curitiba, um unicum. Refiro-me, em primeiro lugar, à alma que subjaz ao seu projeto literário, o da grande crônica de viagem e de costumes, estilo virtualmente extinto em nosso jornalismo e até mesmo na literatura brasileira contemporânea. A alma manoelina que narra, questiona, celebra e canta, é a do abraço cultural e afetivo com a América de raízes indo-latinas.
    Quem no Brasil conhece sua história, sua gente, suas riquíssimas culturas, sua literatura, seus cantos, e não por último – como comem, bebem e amam esses hermanos? Tomemos como exemplo o convívio entre os vizinhos. Houve épocas, e duraram muito, em que o ignaro baronato do café, aquela república autoritária instalada no Catete, mas que pensava no Vale do Paraíba apenas, tratava os vizinhos argentinos como “cucarachas”, e é bem verdade que, muitas décadas além, a recíproca era verdadeira, isto é, para os portenhos os brasileiros não passavam de “los negritos”. Trocado em miúdos: as velhas oligarquias, das quais apenas a argentina merecia ter atributo de elite, minimamente erudita – deste velho senhorio nada a esperar para o desvelo das diferenças; quem dirá das complementaridades. E fazê-lo, com o esforço da lembrança (lá se vão quarenta anos dessa odisséia) e a fúria investigativa – este é o primeiro mérito da obra, ao mesmo tempo hercúlea e apurada, de Manoel de Andrade, que percorre trilhas jamais sonhadas pelo jovem Guevara em sua romantizada viagem de motocicleta, realizada quinze anos antes.
    A segunda virtude dessa “crônica do selvagem a pé”, que Manoel intitulou de “O bardo errante”, é sua indignação. Estupor e ira justificadas contra a decadência, que Manoel atribui a quatro novos “cavaleiros do apocalipse”, a saber a “contracultura, a pós-modernidade, a globalização e a destruição ambiental”. Manoel não faz denúncias vazias, sua dor transcende os cenários e os protagonistas da rapina e do pensamento único da mais-valia, pois deplora também a incapacidade dos “sujeitos históricos”, os da década de 1960, de trazerem para mais perto a Utopia – seja porque foram violentamente reprimidos e obliterados da face da Terra (o caso argentino), ou porque décadas depois os sobreviventes confundiram as regras do jogo, transformando-se eles mesmos nos senhores da banca.
    Mas há reparos a fazer ao olhar do Bardo Errante, porque uma dos grandes equívocos responsaveís pela derrota da Utopia sessentista na América Latina foi – noves fora minha admiração por sua coragem – o imperdoável “foquismo” (“Criar, um dois, muitos Vietnãs!”) plantado por Che Guevara, que privilegiou a “propaganda armada” em detrimento da “lição do formigueiro”: o paciente e pouco visível trabalho de massas. O admirável Che e seu ghost writer e turista acidental da guerrilla, Régis Debray, escreveram a crônica da derrota anunciada. E foram seus coveiros; o Che de maneira emblemática.
    O que dizer da “herança”, para evitar essa palavra áspera – “lição” – de tudo isso?
    Pessoalmente – embora certo dia, ao tentar comprar um livro de autora feminista sobre sexualidade feminina, para dar de presente a uma namorada, fosse expulso de uma livraria feminista, apenas porque era homem (“Não tem essa de apenas, homem é opressor por natureza!”, berrou a livreira descabeçada) – aprendi muito com a “contracultura” de gênero, tornei-me mais amigo, fraterno e sensível ao modo de estar e sentir femininos no mundo, que é tecido por opressões e jogos de poder assaz sutis em nosso meio.
    Da chamada contracultura das drogas nunca participei, por considerar risíveis e insensatos os rituais e a necessidade de seu consumo. Experimentei a maconha, que além do cheiro insuportável de sovaco sem banho me dava bode, e nunca entendi a obsessão dos amigos pela “branquinha” (coisa triste ver neguinho babando em cima de uma carreira!). Eid meus alucinógenos de ocasião: escaladas do Marumby, as caminhadas dodidivanas (de Curitiba a Caiobá, pela BR, em 16 horas), o ar fresco mordendo as narinas. Mas vivi minha fase “hippie”, com uma grande cruz preta, esculpida em madeira, pendurada em uma corrente de prender cachorro, e esta balançando no peito. Mas apenas em festas da turma, nas quais, isto sim, nos esbaldávamos ao som dos Beatles, dos Stones e das novas vozes paridas em Woodstock – Janis Joplin, Joan Baez, Arlo Guthrie, Joe Cocker, Santana – nossa, Joe Cocker (“With a little help from my friends”) ainda é um delírio!
    E Santana? Carlos Santana é um deus! Revolucionou a música em todos os sentidos e direções: casou os bailados nacionais, latinos, com o rock, inversamente, o rock foi latinizado, irrompeu nas searas do Blues e do Jazz, contaminou a dança de salão, temperou o cenário musical internacional com doses generosas e cavalares de bom humor e alegria – e devolveu a auto-estima aos “latinos” de um jeito que só um John Steinbeck soubera fazer; e Santana o fez pelo viés da música. Homem honrado, obviamente fez concessões ao mercado, sem jamais trair seus princípios e sua gente.
    Não consigo enxergar, como insinua Manoel, na pós-modernidade um sistema conceitual e estético capaz de desestabilizar e demolir cânones. O que intuo há vários anos é a perda generalizada de referências, quem sabe como resultado da saturação e do déja-vu, e que, feito Roda da Fortuna ou mandala Yang-Yin, no sobe e desce das conjunturas, atiça a agressividade, a pulsão desconstrutora, o mau gosto em tudo e em tudo querer encontrar defeitos, o que lançado ao grande caldeirão do vale-tudo se transformou na “cultura” do cinismo – descaramento como manifestação de poder, indiferença como atitude social, consumismo como suplantação do vazio. Tudo menos as virtudes caninas, espécime, pasme-se, da qual equivocadamente deriva o desprezo, porque continuam sendo nossos mestres no aprendizado da amizade e lealdade.
    Talvez os quatro cavaleiros citados por Manoel resumam-se em um só – o mercado, como nunca incensado, defendido a troco de guerras sujas com pretexto mentiroso, que no Iraque e Afeganistão tem sabor a sangue e morte de 1 milhão de civis, mas que no shopping da esquina, a catedral da pós-modernidade, se insinua com fragrância de Acqua di Gio.
    Sim, somos seres comprados, desvalorizados e desprezados segundos nossos índices de consumo e “visibilidade” social, mas apenas na medida em que aceitamos a expulsão do palco. Que nosso veleiro tenha soçobrado não é bem verdade, como dizia Pablo Neruda em um de seus poemas, “algunos minutos de oscuridad no nos volverán ciegos”. Talvez a figura da corrida de estafetas ajude a entender os (des)caminhos da História: às vezes de pai para filho (nunca imaginei que o meu, Jan, se tornasse um obstinado indignado), mas ei-los mundo afora, ocupando espaços ainda simbólicos e sem um “programa consistente”, como era do nosso feitio. Mas dentro dos piores, melhores dias virão; eis a dialética do tempo.
    E destemperos de Correas, Hugos e Evos à parte, esteja certo, Manoel: no Altiplano o mundo nunca mais voltará a ser o mesmo; aquele do patrón. Não é uma boa notícia?
    Não, não há que ceder às ilusões: o capitalismo, essa hidra, esse alien predador, não agoniza, ele apenas estrebucha e se transsubstanciará, ora queimando trilhões em moeda circulante nas bolsas, ora quebrando Estados e Povos, ora preparando novas guerras. É recomendável não delirar com as teorias da conspiração – pero que las hay, las hay! (as conspirações).
    Como artistas, mulheres e homens do que chamamos de “cultura”, não nos resta a desesperança: cabe-nos não esperar a revoada do sonhado Fênix no horizonte da Utopia, mas enxergarmo-nos nele já, renascendo da letargia, pois é insuportável o cheiro de cinzas frias.

    Diante do cinismo, da desesperança, do assassinato premeditado e irreversível da Natureza, sob a égide dos “mercados”, cabe-nos ser criativos, reinventar o coletivo, o prazer do convívio e da rebeldia, berrando e reafirmando aos quatro cantos a dignidade o ser humano quando dono de si mesmo e de sua cultura.
    E o Manoel com tudo isso?
    O Manoel é o culpado – o culpado por abrir esse debate que caía da gabirobeira, de tão maduro. Obrigado, Manoel!

  5. Manoel, um texto pra ser relido muitas vezes (o capítulo). Acho q a u-topia
    (o não lugar) ou lugar de ser feliz, vai ter q vir, vem, já veio, retorna, mas sempre com a nathureza, já imensamente prejudicada pela ação dos adoradores do supercapital. Gerações phuturas serão felizes em pequenos bosques, ilhas de acrílico, rodeadas de lixo, icebergs de entulhos… no mar da esperança, e sentidos condicionados. A imaginação pelo andar das coisas, terá q dar lucro, ou ser útil, de imediato, pra alguma coisa relacionada a informatização da fala, do agir, trabalhar… (Deus q nos perdoe!)

  6. Bela reflexão Manoel. Mas não acredito que as novas gerações sejam destituídas de desejos de mudança. Creio que os jovens esclarecidos (pois os ignorantes se agarram em consumo ou igrejas pentecostais) são apenas mais realistas, não se encantam com “lideranças” e nem acreditam em ideologias infalíveis. Creio que o que eles querem é ver as mudanças na prática, aplicáveis no dia-a-dia, estabelecidas na velocidade da educação cidadã e não pela força das armas ou das leis. Não são seduzidos, como as gerações passadas, pela promessa de “revoluções” que, de um dia para outro, resolveriam as coisas, de repente, num súbito passe de mágica histórica. Eles desconfiam (e com razão) que estes regimes autoritários produzem poucas mudanças reais além daquelas exercidas pela força e que são abandonadas tão logo o Estado vire as costas. Talvez. Ah, sim, mudando de assunto: não entendi direito a pobre e pacífica contracultura ser colocada como um dos “cavaleiros do apocalipse”.

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