EM TORNO DAS 1001 NOITES – por jorge lescano / são paulo.sp

Em torno das 1001 Noites

© Jorge Lescano

 

 

 

Dahlmann había conseguido, esa tarde,

un ejemplar descabalado de las Mil y Una

Noches de Weil […] algo en la oscuridad

le rozó la frente, ¿un murciélago, un pájaro?

[…] la mano que se pasó por la frente salió

roja de sangre.

Jorge Luís Borges: El Sur

Em aula sobre as 1001 Noites transmitida pela televisão, o professor de língua e literatura árabe Mamede Mustafá Jarouche, recontou um episódio narrado por Jorge Luís Borges em vários dos seus textos. Trata-se de um acidente pessoal que ele relacionará com aquele livro. O episódio teria acontecido na infância de Borges. Nesta versão Georgie, como era chamado em família, havia corrido dentro de casa para receber uma nova edição das 1001 Noites que acabava de chegar pelo correio; na sua afobação não teria visto o batente de uma janela recém pintada, chocando a testa contra ela. O acidente teria acelerado o processo de cegueira que, nas palavras do próprio Borges, foi um lento crepúsculo que durou mais de meio século.

O fato é verídico, porém ocorreu de modo diverso.

 

Foi na véspera do Natal de 1938 – o mesmo ano em que meu pai morreu – que tive um grave acidente. Subia correndo uma escada e de repente senti alguma coisa roçar meu couro cabeludo. Eu me esfolara no batente de uma janela aberta, recém pintada. Apesar do tratamento de urgência a ferida ficou infeccionada e por um período de mais ou menos uma semana passei as noites desperto e tive alucinações e febre alta. Uma noite perdi a capacidade de falar e fui levado às pressas ao hospital para uma operação imediata, declarara-se uma septicemia e por um mês eu vacilei, completamente sem o saber, entre a vida e a morte. (Muito depois iria escrever sobre isso no meu conto O Sul.) –  (Jorge Luís Borges: Perfis, Um ensaio autobiográfico; Porto Alegre, Globo, 1971; p. 106.)

Naquela data, Borges contava 39 anos e já havia sofrido várias cirurgias nos olhos; em algum lugar fala de oito operações. Se o fato não acelerou a cegueira, propiciou a Borges o início definitivo de sua carreira de ficcionista. O acidente fez com que ele temesse pela sua capacidade mental. Pierre Menard, Autor do Quixote, foi o desafio que se propôs para testar esta capacidade. Não devemos confiar demais no seu depoimento, que não inclui Aproximação a Almotásim, nem o as 1001 Noites; o livro é acréscimo posterior, um modo de aproximar a experiência à sua poética do fantástico. Sintomaticamente, no entanto, aqueles dois textos serão publicados no mesmo volume, Jardín de senderos que se bifurcan, em 1941. Já conhecemos os resultados do Pierre Menard: una técnica nueva (d)el arte detenido y rudimentario de la lectura.

Jorge Luís Borges, em hoje célebre citação, afirmou que há uma noite em que o rei Shahriar ouve da boca da rainha sua própria história, dessa forma chegará a vez em que outra Shahrazad narrará a história de uma Shahrazad que narra a história do rei Shahriar, e assim indefinidamente, à maneira das bonecas russas. O original diz assim:

 

¿No es portentoso que en la noche 602 el rey Shahriar oiga de boca de la reina su propia historia? A imitación del marco general, un cuento suele contener otros cuentos, de extensión no menor: escenas dentro de la escena como en la tragedia de Hamlet, elevaciones a potencia del sueño. (Jorge Luís Borges: Prosa Completa; vol. 1; Barcelona, Bruguera, 1980; p. 390)

 

Eu, como todos os leitores, fui buscar a tal noite, que, naturalmente, não encontrei. Repito as palavras do Professor Jarouche porque já antes havia realizado seu gesto. Durante algum tempo atribui minha frustração à qualidade das traduções consultadas, soube depois que a tal noite seria uma “invenção” de Borges. Interpretei o fato como sua contribuição ao livro, à maneira de Galland, Burton e outros tradutores, segundo ele mesmo aponta no artigo Os Tradutores das 1001 Noites. A respeito desta investigação sou menos otimista que o Prof. Jarouche: não acredito que todos os leitores fossem tão minuciosos. No conto El Jardín de senderos que se bifurcan, o sinólogo Albert  diz:

 

Recordé también esa noche que está en el centro de las 1001 Noches, cuando la reina Shahrazad (por una mágica distracción del copista) se pone a referir textualmente la historia de las 1001 Noches, con riesgo de llegar otra vez a la noche en que la refiere, y así hasta lo infinito. (op. cit. p.470)

Sendo um personagem de ficção, Albert tem o direito de lembrar um fato que não se encontra na obra real. Ou como Tzvetan Todorov, segundo Mariza Werneck, citada por Júlio P. Pinto (Uma Memória do Mundo, S.P. Estação Liberdade, 1998), estaria legitimando a criação borgiana sem desconfiar da armadilha?

A este respeito, o Professor Jarouche revela que essa noite, aceita, como vimos, por alguns críticos como real e não criação ou acréscimo do autor argentino – e simultaneamente  questionada por outros críticos -, existe. Afirmou que na edição Breslau, que ninguém lê e provavelmente nem Borges conhecia, essa noite tem o número 999. Borges adivinhou essa noite? Não. No artigo já citado, tratando de uma versão alemã de 1895-1897, fornecida por Max Henning, arabista de Leipzig e tradutor do Curán (sic), à Universalbibliothek de Philipp Reclam, ele escreve:

Las ediciones de Bulak  y Breslau están representadas, amén de los manuscritos de Zotenberg y de las Noches Suplementarias de Burton. (op. cit., p. 388)

Portanto, Borges conhecia a edição de Breslau. Sua contribuição estaria então no deslocamento do episódio, situando-o no entremeio do livro, alterando, assim, a arte estática da leitura.

A história pessoal de Jean Antoine Galland, leitor de línguas orientais de Luis XIV, a vida venturosa do capitão Sir Richard Burton, e especialmente a participação criativa do famigerado Hanna (pois ele foi atingido pela fama através de sua colaboração com Galland), deveriam ser acrescidas ao corpo da narrativa de Shahrazad. De algum modo quer me parecer que isto já aconteceu, de forma não oficial. De fato, com cada tradução estas histórias vêm à tona.

O sírio Hanna “inventa” contos que não constavam no livro “original” (o manuscrito árabe que Galland havia adquirido em Istambul). Isto não invalida sua versão, antes, deveria legitimá-la. Hanna é uma espécie de rawi (rapsodo) que, pela sua função, tem o dever de interessar seus ouvintes, e para tal utiliza repertório próprio.

A controvérsia faz sentido no contexto do século XIX. A imprensa diária (a letra impressa) começa a impor sua autoridade sobre a expressão oral, a verdade tem que passar pela gráfica. O jornalismo inicia seu pontificado. A partir de então esta nova força, “independente”, será um divisor de águas. O jornalista passa a ser o árbitro do que seja verdade histórica, descartando os fatos que não se enquadrem no seu programa pré-estabelecido. É verdade que se as discussões transcorrem entre especialistas, a publicidade dos confrontos fica por conta da imprensa, que cada vez mais se arroga o direito de julgar os fatos, quando deveria limitar-se a noticiá-los.

Galland-Hanna serão acusados de falsificar um original desconhecido até aquele momento, e mais tarde questionado por diversos leitores. Este enredo secular não mereceria fazer parte da leitura das 1001 Noites?

A respeito do título, alguém sugeriu outra leitura. Livro das mil noites e uma noite: as mil noites em que Shahrazad narra suas histórias (os árabes preferem contar histórias à noite) mais a noite 999, que corresponderia à noite do leitor (com cada leitor o livro recomeça). Admitindo tal hipótese, o título poderia ser interpretado assim: Livro das mil noites e esta noite.

Para finalizar, o Professor Jarouche confessou que há vários anos vinha postergando a tradução do livro. A superstição rege sua atitude, solidária com a tradição da obra. Narrou os casos de editores e tradutores que não chegaram a completar a tarefa, interrompida pela morte ou por algum acidente, como o de Borges. Haveria uma espécie de fatalidade relacionando estreitamente a vida do livro à daqueles que se ocupam de sua divulgação. O Professor Jarouche, então, compreende que o livro é um talismã. Isto eu deduzo do seu comportamento: como Shahrazad, o tradutor não evita o trabalho para esquivar a morte, antes o assume, postergando-o, porém. A equação é digna do livro: adiar a tradução é adiar a morte.

Nota carnavalesca do Professor Mamede Mustafá Jarouche:

Caro Jorge:

Somente hoje, com muitíssimo atraso, pude ler o seu texto, do qual gostei muito. As aulas na Cultura são de 2002 — e, na época, eu citava de oitiva a história do acidente com Borges. Foi somente depois que li o texto de Perfis. Quanto à “troca” que Borges operou na localização da noite, não tinha me ocorrido que ele tivesse consultado a tradução de Burton, da qual só tenho o primeiro volume. Não sei se nos volumes suplementares de sua tradução ele inclui a versão final da edição de Breslau. É possível.

Enfim, é isso. Agradeço-lhe o envio de seu excelente e arguto texto, e mais uma vez me desculpo por somente ter podido ler hoje, nesta terça de carnaval.

Grande abraço,

Mamede.

(28/02/2006)

P.S.: A nota inclui um mal-entendido que poderia ser acrescentado à história paralela à narrativa de Shahrazad. Deixo ao meu leitor, mezcla rara de Museta y de  Schaunard (cf. José González Castillo: Griseta, tango, 1924) a tarefa de corrigi-lo.

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