Eternamente Yolanda – por otaciel de oliveira melo / fortaleza.ce


Os dois se encontraram num desses lugares barulhentos, uma mistura de bar, restaurante e lanchonete com comidas e bebidas para todos os gostos e bolsos. Num desses lugares com vários televisores ligados em canais diferentes e música ao vivo ao mesmo tempo. Não era possível ouvir o que o outro dizia, ainda que os dois estivessem sentados numa pequena mesa encostada a uma parede e seus rostos se encontrassem a menos de 30 cm de distância. O barulho era ensurdecedor, mas eles não precisavam falar absolutamente nada para descreverem o que estavam sentindo um pelo outro naquele pedaçinho de inferno: seus olhares os traiam.

Num ”palco” mal iluminado, dois jovens imitavam uma dessas duplas sertanejas que tanto irritam nossos ouvidos com letras de músicas que rimam amor com dor, tristeza com frieza, transar com amar, saudade com felicidade e paixão com solidão. Era preciso apurar bastante os sentidos para perceber que naquele momento eles estavam tentando cantar algo que no burburinho de tantas vozes podia ser percebido como “é o horror, que mexe com minha cabeça e me deixa doidinho, que faz eu pensar que você é um grande monstrinho, que faz eu esquecer
que a vida é feita pra morrer”.  Em suma, aquele era um ótimo lugar para alguém pensar em suicídio pela primeira vez na vida.

Mas foi amor à primeira vista e logo Carlos e Do Carmo estavam apaixonadíssimos um pelo outro e continuaram a curtir intensamente as noites recifenses. Mas depois de algumas semanas de namoro, Do Carmo observou que o Carlos tinha sempre preferência por barzinhos vagabundos, semelhantes ao primeiro onde se encontraram, embora tivesse um poder aquisitivo de um funcionário concursado de um grande banco estatal, o que lhe permitia frequentar ambientes mais sofisticados e tomar de vez em quando um bom uísque ou uma cerveja importada. Do Carmo era dentista e, como colaborava com as despesas, inclusive com as dos encontros eventuais em motéis, passou a conduzir o namorado a barzinhos mais limpos e saudáveis. O Carlos gostou da orientação da namorada, mas impôs uma condição: “nós nunca iremos a barzinhos e restaurantes com música ao vivo; eles são muito barulhentos, cobram couverts artísticos muito caros e as músicas são quase sempre as mesmas.

Do Carmo, que também se chamava Yolanda, estranhou a exigência do namorado, mas logo esqueceu o local barulhento e com música ao vivo do primeiro encontro. E o namoro prosseguiu às mil maravilhas.

No contato com os amigos, o casal era pródigo em frases e lugares comuns para descrever o que sentia um pelo outro, tais como “eu e a Do Carmo somos a corda e a caneca; sem ela eu não sei como estaria minha vida; estou arriado os quatro pneus.” Já Do Carmo se inspirava nas novelas da Globo para expressar seus sentimentos:   “Carlos é minha alma gêmea; o amor é lindo; nascemos um para o outro; nosso amor é para sempre”.

O relacionamento foi se intensificando até que um dia Carlos aceitou o convite para conhecer os pais da Do Carmo. E no domingo escolhido, sogro, sogra, irmã caçula e amigos da família  da Yolanda estavam  reunidos e receberam o casal com um churrasco à beira de uma piscina de um condomínio de luxo situado em Boa Viagem, zona sul do Recife. Durante o churrasco, a sogra do Carlos, a Ivone, que era psicóloga, estranhou o fato do namorado da filha nunca tratá-la por Yolanda Maria do Carmo Rebouças (seu nome completo), ou pelo menos por Yolanda, mas sempre por Do Carmo.  Observou também o desespero do Carlos ao tentar, mas sem sucesso, lembrar o primeiro nome da filha. E concluiu como uma profissional experiente: “tem alguma coisa errada com a cabeça desse meu futuro genro”.

Durante a semana Ivone ligou para a filha e comentou o fato. Perguntou a Yolanda sobre o comportamento do namorado e ela disse que o Carlos era bacana, sempre muito educado, nunca tinha brochado (se era isso que a mãe queria saber), e que os dois estavam pensando em casamento. Mas reconheceu que ele nunca a havia tratada pelo seu primeiro nome.

Então Ivone sugeriu à filha que levasse Carlos a um psicólogo para descobrir o porquê desse lapso recorrente de memória.

Ato contínuo, Yolanda ligou para Carlos e perguntou:

– Alô, Carlos?

– Sim, é ele.

– Meu amor, você já decorou o meu nome por inteiro?

Do outro lado da linha, silêncio absoluto.

– Carlos, você está me ouvindo?

-Sim, estou Do Carmo.

– Então diga como é o meu primeiro nome.

– Do Carmo, por quê?

– Não, meu querido. Meu primeiro nome não é Do Carmo, mas sim Yolanda. Repita: Yolanda.

Silêncio absoluto. E a dentista complementou:

– Precisamos conversar urgentemente.

À noite daquela quarta-feira os dois se encontraram num barzinho em Piedade onde uma dose de uísque Red Lable custava R$ 20,00 (este era o preço a pagar pelo som do silêncio) e a Yolanda, ou melhor, Do Carmo, abriu o jogo: “meu tesão, você tem um parafuso frouxo na cabeça e precisamos arrochá-lo antes de nos  casarmos. Que diabo acontece com você que não consegue pronunciar o meu primeiro nome? Eu já marquei com uma amiga da minha mãe, que é também psicóloga, uma consulta para a próxima segunda-feira. Vamos juntos e não me decepcione: responda tudo que a Doutora Irene lhe perguntar”.

O consultório da Dra. Irene era um luxo. O ar condicionado propiciava uma temperatura tão agradável que fazia lembrar os motéis que o casal frequentava na capital pernambucana, e os dois tiveram vontade de fazer amor ali mesmo, no sofá divã da Psicóloga, e na frente da mesma. Foi com muito sacrifício que se contiveram.

Deitado sozinho naquele sofá cama, longo, estreito e reclinável, Carlos começou a falar de sua vida pregressa. Não tinha sido fácil a sua caminhada rumo ao banco estatal. Já havia trabalhado de garçom, de vendedor de rosas em casas noturnas, de leão de chácara, de gerente de inferninhos e foi com muito sacrifício que havia terminado um Curso de Direito da FGV Online e milagrosamente tinha passado no teste da OAB. Mas agora a vida era outra e ele procurava esquecer as coisas ruins do passado.

A Doutora Irene notou que faltava alguma referência a algum tipo de atividade que o Carlos havia detestado.

– Pense em mais alguma coisa – solicitou gentilmente ao paciente.

Mas a primeira consulta acabou sem muito progresso.

Conversando com a namorada durante a semana, Carlos Antônio Figueira de Mello começou a ficar mais leve, mais receptivo a ideia de uma segunda visita a Dra. Irene, porque, como dizia Yolanda, “nos tempos em que nós vivemos todas as pessoas são loucas e de vez em quando elas precisam de um profissional da alma humana para se reequilibrar”. Na realidade o que a Yolanda estava querendo dizer é que ninguém quer ser louco sozinho. Já o Carlos pensava de maneira diferente: para ele loucos eram sempre os outros.

E foi na segunda consulta que Carlos tocou num assunto que, segundo a psicóloga, seu inconsciente reprimia e o fazia esquecer o primeiro nome de sua querida namorada: Carlos já havia tocado violão e cantado em barzinhos.

Então a Dra. Irene perguntou:

– Qual foi a música que você, Carlos, mais tocou e cantou em toda sua vida na qualidade de músico de barzinhos?

Diante desta pergunta o Carlos começou a transpirar como um urso polar em clima tropical e começou a passar mal. Suas mãos tremiam como as de um diabético numa crise de hipoglicemia, sua voz ficou embargada, seus olhos arregalados e sua boca seca. Seu corpo por inteiro tremia como que arrebatado por um espírito maligno. E a Dra. Irene percebeu que estava no caminho certo e insistiu na pergunta.

– Qual foi a música que você, Carlos, mais tocou e cantou em toda sua vida na qualidade de músico de barzinhos?

E Carlos, num esforço sobre-humano e tropeçando nas sílabas, respondeu:  “gigo-lân-dia”.

– Carlos, ninguém conhece essa tal de “gigo-lân-dia”. Vou reformular a pergunta: por que você deixou de se apresentar em barzinhos?

– Porque as pessoas pediam para eu tocar 10 a 15 vezes uma determinada música numa mesma noite. Quando foi um dia eu estava no palco e quando alguém me pediu para cantá-la eu comecei a me tremer feito uma vara verde. Meus dedos não obedeciam ao meu comando e eu não conseguia tirar mais nenhum acorde do violão. Comecei a gritar bem alto e fui levado às pressas para um hospital psiquiátrico onde me aplicaram uma injeção cavalar de gardenal. Para completar, eu perdi o meu emprego e a partir daquele momento eu passei a sofrer um bloqueio sistemático de memória todas às vezes que tento me lembrar do nome da referida música. Como a senhora explica esta situação?

–  Bem, não é difícil compreender o ocorrido. Você adquiriu uma profunda ojeriza a esta música por que a executou centenas, talvez milhares de vezes. O nome da música é Yolanda, por acaso o nome da sua namorada. A música é bonita, é de Chico Buarque de Holanda, mas quando executada ou ouvida por muitas vezes pode levar o executor ou o ouvinte à loucura.  Como músico de barzinho, talvez você tenha tocado mais ‘Yolanda’ do que ‘parabéns pra você’. Portanto, está explicado o seu trauma e esta sua profunda rejeição a esta música. Agora, você precisa voltar a pronunciá-la corretamente de maneira a tratar sua futura mulher pelo seu primeiro nome. Vamos tentar mais uma vez. Diga Yolanda.

– Irgovânia.

– Está melhorando. Mas talvez você precise de mais umas vinte consultas para voltar a pronunciar de alto e bom som YOLANDA.

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2 Respostas

  1. Otaciel de Oliveira Melo | Responder

    Obrigado pela correção. Otaciel

  2. Otaciel de Oliveira Melo | Responder

    Uma observação: a palaaavara sobre-humano saiu separada. Se vocês puderem corrigir, eu agradeço.

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