VINHOS: “Deixa o ar entrar nos velhos châteaux” – por luiz horta / são paulo.sp

Um dia eles se perguntaram: se eram jovens, produziam e bebiam Bordeaux, por que a região tinha imagem de vinhos caros e difíceis, feitos para magnatas britânicos? Aí resolveram inovar, fazendo vinhos bons, mas pagáveis

É falar em Bordeaux e já consulto meu saldo bancário. Também olho no espelho para ver se estou vestido direito, endireito o nó da gravata e mando engraxar os sapatos, porque a região é imediatamente relacionada, na nossa cabeça, a preços altos e solenidade. Foi essa imagem negativa, de coisa inacessível, para banquetes e comemorações esporádicas e garrafas muito caras, que fez surgir o grupo Bordeaux Oxygène (BO2).

O vinho, como parte do mundo da cultura, é afetado pela moda. E a moda atual é gastar menos e beber mais largadamente, sem muito salamaleque. No caso do BO2, grupo surgido cerca de dez anos atrás, composto de jovens produtores, a moda é ser informal. Eles têm mansões, mas preferem morar despojadamente. O château ficou para turismo e visitas.

Fazem vinhos com notas altas da crítica, mas os preços são pagáveis e os vinhos são para serem bebidos e não só comprados e guardados. Não usam ternos ingleses nem parecem banqueiros – estão mais ligados ao street wear e podem aparecer em qualquer evento parisiense sem ares de camponês rústico, nem de financista esnobe.

Estão muito longe da imagem do aristocrático dono de château bordelês. São “oxygenados”, engraçados, animados e bebem vinho porque é bom. Fui visitá-los e voltei aliviado: Bordeaux pode ser para todo mundo e a qualquer hora.

A ideia de modernizar a cara de Bordeaux tem autoria. Todos os produtores do BO2 com quem conversei apontaram Alice Cathiard (agora Tourbier, depois de casada), do Smith Haut-Lafitte, e Benoit Trocard, do Clos Dubreuil, como criadores do conceito. Os pioneiros foram colegas no curso de enologia da Universidade de Bordeaux, alunos de Dennis Dubordieu. Foi ali que nasceu o movimento. Se todos os membros eram jovens, produziam e bebiam Bordeaux, por que a região tinha uma imagem de vinhos caros, difíceis e para magnatas britânicos? Trocard voltava de um estágio na Austrália; Alice chegava com a família vinda de outros negócios.

Fui visitá-los e provei seus vinhos. Estive com 14 dos 18 atuais membros do grupo. A constatação primeira é visível no mapa: eles não são vizinhos nem pertencem à mesma região. No seu meio há Grands Crus de Saint Estephe, de Graves, negotiants e amantes dos vinhos que aprenderam na unha a fazê-los. São, de certa maneira, ou, melhor dizendo, eram outsiders. Nenhum tinha três séculos de produção na região. Os mais enturmados com Bordeaux vendiam vinhos havia gerações, caso das famílias Audy e Mau. Mas a maioria chegou depois, apaixonada pelo vinho e sem tradição na sua produção. Como viam o vinho como prazer e não como obrigação ancestral, foi mais fácil dar uma chacoalhada na imagem da região.

Seus vinhos mantêm o estilo de cada região. Não há um estilo Oxygène de vinho, nem a turma trabalha em conjunto na produção de um vinho identificável como Oxygène. Se há um resumo para sua atividade, eles levaram para os châteaux austeros um estilo de vida, uma maneira de abordar a bebida mais próxima do mundo real.

O grupo original cresceu – Bordeaux atrai novos investidores, várias propriedades vão mudando de mãos e Oxygène só cresce. Ninguém tem a perder se Bordeaux sair dos preços estratosféricos, abandonar o aspecto superior e distante e pousar em todas as mesas.

Olhe bem para essa turma, suas roupas, seus modos e sua simpatia. Eis a nova Bordeaux. O estilo Oxygène vai dar o tom no futuro da bebida.

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