A LIBERDADE ENFIM (a morte de Francisco José Pereira) – por olsen jr / rio negrinho.sc

Morreu no dia 02 de julho o camarada Francisco José Pereira. Dois dias antes da celebração de independência dos EUA. Só uma alusão uma vez que não podemos escolher a hora, nem local e muitíssimo menos o dia para partir. O “Chico” como era conhecido entre os amigos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro, advogado de profissão, defensor dos trabalhadores em causas inerentes durante a década de 1960, empenhado dentro dos sindicatos e fora deles. Em algum tempo dos “anos de chumbo” esteve exilado e trabalhou como adido cultural na Unesco.

Um Homem (assim mesmo com “H” maiúsculo) de fibra, para dizer pouco, com um código de ética irrepreensível… Quando foi assessor do prefeito Sérgio Grando em Florianópolis, por conta de sua eficiência, ganhou certo dia um presente de algum contribuinte… Francisco, antes mesmo que o gesto pudesse ser tomado como um “agradecimento” ou mesmo uma “preparação para futura demanda”, na condição de quem conhece a “psique” envolvente de tal ação, não teve dúvidas e mandou devolver a oferenda sob a alegação básica de que “já era remunerado pelo trabalho que fazia” dispensando outros emolientes capazes de questionar o seu fulcro.

O Francisco não tergiversava. Como era um Ser íntegro cobrava esta integridade de todo o mundo que compartilhasse de sua amizade. Não estou autorizado e sequer tenho procuração para “ressuscitar” fatos e pessoas que participaram (ou deixaram de) de circunstâncias de cujo comportamento poderia redundar em benefícios sociais para outras pessoas dentro da legalidade… O que não impede de citar o fato omitindo o “santo”…  Houve um momento na história que o Francisco precisava de um depoimento/declaração de certo escritor catarinense para que um conhecido militante do Partido pudesse ser beneficiado com a Lei da Anistia… O “tal” escritor (ele próprio um beneficiado com a Lei) se recusou em fazê-lo… Mostrando toda a sua contrariedade, Francisco Pereira – a partir daquele momento – jamais voltou a dirigir a palavra ao dito escriba… E quando indagado sobre tal comportamento, sempre explicava as razões para manter tal comportamento… A verdade com ele jamais era escamoteada.

Fomos apresentados pelo poeta C. Ronald em uma cerimônia de entrega de prêmios na Casa do Jornalista no antigo endereço (na Deodoro…) o lugar havia sido escolhido para a cerimônia, o Senador Jayson Barreto havia doado o seu “hipotético jetom” (calma que já explico) para que se organizasse um Concurso Literário (alô Remy Fontana) dando uma destinação social a uma excrescência (porque aquele seria um pagamento para os Senadores irem pela última vez ao Colégio Eleitoral, a forma que a estratocracia tinha arranjado para se escolher o futuro presidente do País)… Por pressões populares o tal jetom acabou não saindo, mas o Senador Jayson Barreto manteve a palavra e bancou o Concurso do seu próprio bolso… A cerimônia foi  prestigiada, naquele tempo o (P)MDB era muito respeitado e lembro da manchete do jornal “O Estado” (o mais antigo) “Na falta de eventos culturais se prestigia até entrega de prêmios’… Matéria assinada pelo jornalista Paulo Clóvis… O vencedor do Concurso foi o escritor Olsen Jr. com o conto “Marcas da Solidão”…   Lembro que o poeta C. Ronald me pegou pelo  braço e disse, venha cá que vou te apresentar um “verdadeiro comunista”… Um homem honesto, íntegro…

Desde então, formamos uma amizade que nunca se dissipou nos maus “entendimentos da vida”… Isso decorre também porque nunca permiti que os fatos e as coisas da história em que faço parte não sejam todos bem esclarecidos… Sou alguém que sempre toma posição, faço a escolha (à maneira sartriana, porque a vida é sempre o resultado de “escolha” e “consequência”) e assumo a ação daí decorrente… Em minha casa nem o detergente da cozinha é neutro…  “Almas gêmeas”, penso, foi isso… Uma convivência íntegra muitas vezes com opiniões divergentes, sim, mas com respeito às convicções de cada um…

Na Academia Catarinense de Letras, Francisco ocupava a Cadeira 05, cujo Patrono foi o jornalista Crispim Mira (que morreu assassinado por suas convicções)… Nasceu na rua que leva o nome do Patrono da sua cadeira e também publicou um livro biográfico sobre ele… Na Instituição não existe outra combinação astral que reúna tantas coincidências…

Agora preciso confessar: quando pretendi a Cadeira 05, fui o primeiro a fazer a inscrição e nunca me detive em analisar as tais “coincidências” que por si só, tornariam o Francisco imbatível na disputa… Quando alguém sugeriu que eu deveria “retirar a candidatura”, me pareceu um convite para um ato de covardia… Tudo menos isso… Tomada a decisão, feita a escolha vou até o fim… Cinco candidatos inscritos disputando os 20 votos necessários para o ingresso na Academia… Os dois mais votados foram para o segundo turno e o Francisco foi eleito com alguns votos (dos oito que fiz) naquele escrutínio…  O Francisco ficou reconhecido com isso e, à exceção desta tive o seu apoio sempre até ser eleito por minha vez à Cadeira 11… Hoje, à luz da maturidade que a convivência possibilitou, o gesto de “renúncia” naquela época poderia ser considerado como um ato de elegância e reverência…

Mas, considero “quando alguém está se afogando não diz “gostaria que um gentil cavalheiro me observando nesta situação delicada e acreditando ser justo o seu envolvimento me auxiliasse a sair desta”… O cara grita apenas por “socorro”… A necessidade imediata da ação prescinde das boas maneiras que em outras circunstâncias o ato talvez requeresse… Meu caro Francisco José Pereira já conversamos sobre isso, homens de ação, você entendeu o gesto, e elegantemente me perdoou… A  reverência lhe presto agora!

NOTAS:

Segue o Momento III da homenagem ao colega Francisco José Pereira…

Foi escrito agora a pouco…

Outra lacuna aberta…

A música poderia ser esta, do “America”, outro grupo que admiro…

A solidão não tem monopólio…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=IRDnEqW1vAc&feature=related

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