Arquivos Diários: 9 julho, 2012

MOMENTO II – por olsen jr / rio negrinho.sc

NEM SEMPRE FOI ASSIM

 

Coincidências à parte, aliás, como já disse em outro lugar, coincidência é o acaso premeditado. Foi em novembro de 2004, quando ocupava o cargo de gerente de projetos da Fundação Catarinense de Cultura, em conversa com o escritor e editor, Francisco José Pereira, justamente no ano em que se lembravam os 40 anos do golpe militar no Brasil, ato que baniu o regime democrático que havia e se instalou o obscurantismo que vivenciamos durante 21 anos, que sugeri para ele a idéia de que deveríamos publicar uma antologia de contos “temática” tendo como leitmotiv os anos de chumbo. Não apenas para marcar a data, mas também e principalmente, para não descuidarmos de nossa própria participação nesta história.

O Francisco Pereira ouviu atentamente afirmando “(…) Foi uma pena que não tenhamos lembrado em tempo para fazer ainda este ano (…)”… Como o bate-papo continuou, comecei dizendo que o importante naquela situação era marcar a presença, contar a história, que mais não sirva, disse: para que esta juventude que está aí submetida à internet, vai e volta para qualquer lugar quando bem entende, diz o que quer a hora que quer, enfim, que tudo está pára ser feito, não há restrições nenhuma e pouco se está fazendo, mas principalmente, para que saibam que tudo isso nem sempre foi assim…

Quando ouviu a última expressão, Francisco teve um brilho no olhar, repetiu “nem sempre foi assim”, está aí um bom título e já pegou uma folha de papel com uma caneta e começamos a fazer uma lista de escritores. Antes de responder a pergunta “quem vamos convidar?”, deveríamos definir os critérios para estas escolhas. Na verdade tudo foi muito claro, deveriam ser escritores que tivessem “uma questão com a ditadura”, seja de prisão arbitrária, de constrangimento, de cerceamento de liberdade, de perseguição política, de algo que houvesse estigmatizado o “protagonista/autor” dentro do regime estratocratico imposto pelo arbítrio. Começamos pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A primeira lista pareceu alentadora, pelos nomes e pelas qualidades dos escritores mencionados. O tempo passou e realizamos mais duas reuniões com os mesmos propósitos, uma no Café Matisse e mais outra na FCC… Novamente o tempo correndo célere, e tudo aquilo me pareceu mais o sonho romântico de dois idealistas que primeiro precisam se encharcar de idéias, reviverem casos, amargar desilusões novamente, repassar o que poderia ter sido e não foi, e finalmente, cair na realidade dos novos tempos e tratar tudo com o mesmo desvê-lo, mas com a razão possibilitada pelo distanciamento histórico dos fatos e claro, ter a consciência de que se trata do testemunho de (sobre)viventes de um tempo mal.

Mantivemos mais dois contatos, desta vez por telefone, já tratando dos prazos das entregas dos contos. Agora, três anos (e daí a coincidência referida na primeira linha deste texto) depois daquela conversa inicial, será dada ao público a antologia “Nem Sempre Foi Assim” – contos dos anos de chumbo, com lançamento no dia 04 de dezembro, a partir das 19h30min, na Saraiva Mega Store do Shopping Iguatemiem Florianópolis. Osautores convidados (por ordem alfabética): Amilcar Neves, Cristovam Buarque, Emanuel Medeiros Vieira, Francisco José Pereira, Mario Prata, Olsen Jr., Sérgio da Costa Ramos, Sérgio Faraco, Silveira de Souza e Urda Alice Klueger.

A propósito, lembrei agora, quando perguntaram ao Abade de Siéyès o que tinha feito durante a Revolução Francesa, simplesmente respondeu: “Eu sobrevivi!”.

Bem, camaradas, este livro trata de alguns “sobreviventes” e de suas histórias.

 

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NOTAS:

 

Segue o Momento II da homenagem ao camarada Francisco José Pereira…

Morto no dia 02 de julho…

Um  pouco da história…

A música pode ser esta…

Pouca gente sabe, mas o Hino do Estudante Brasileiro foi composta por Vi nícius de Moraes…

Porém (e sempre tem um “porém”, diria o amigo dramaturgo Plínio Marcos) o que ficou consagrado como Hino foi “Caminhando” (ou para não dizer que não falei das flores) de Geraldo Vandré…

Vai…

http://www.youtube.com/watch?v=gVmmgvgB8Ms

 

CALE-SE, XUXA! – por heloisa lima / rio de janeiro.rj

   XUXA encenando sexo com menino de 12 anos no filme AMOR, ESTRANHO AMOR.                          

 

      Não vi a comentada entrevista da tal xuxa no Fantástico no domingo, dia 20/05. Mas não pude ignorá-la por muito tempo, pois a primeira notícia que recebi nesta manhã, logo cedo, foi: “- Cê viu que a xuxa foi abusada na infância?”
    Fora o surrealismo da revelação, ocorreu-me que aquela, certamente, não era a notícia que desejava ouvir logo no início da semana. Afinal, como uma mulher de 50 anos, aparentemente esclarecida, só agora, passado todo esse tempo, resolve falar sobre algo tão grave? E por que me irritou tanto esta informação? Parei para refletir sobre o motivo deste sentimento e, confesso, não foi difícil descobrir.
    Esta senhora, lá pelos seus primórdios, vivia no mesmo condomínio do meu irmão, no Grajaú, Rio de Janeiro. Lembro-me das minhas sobrinhas, ensandecidas, indo buscar as grotescas sandalinhas cheias de brilhos no apartamento dela, na esperança de encontrar o Pelé que, vira e mexe, dava as caras por lá.
    Desde os seus 20 e poucos anos de idade, ela comanda programas infantis cuja tônica é erotizar precocemente as crianças, transformando meninas em arremedos de mulheres sem se preocupar com sua vulgarização.
    Os programas que comandou sempre tiveram como mote atropelar o desenvolvimento infantil em sua exuberância repleta de etapas simbólicas. Pasteurizou os encantos desta fase empenhando-se em exaltar a diferença entre possuir e não possuir os produtos que anunciava ou que levavam sua grife tais como sandálias, roupas, maiôs, lingeries, xampus, bonecas, chicletes, cosméticos, álbum de figurinhas, cadernos, agendas, computadores, sopas, iogurtes, etc., num universo insano onde ela, eternamente fantasiada de insinuante ninfeta, faz biquinho e comanda a miúda plebe ignara.
    Cientes estamos todos de que esta senhora, durante muitos e muitos anos, defendeu zelosamente seu polpudo patrimônio utilizando-se da fachada de menina meio abobada que sequer sabia quantos milhões possuía. Costumava dizer que era a sua empresária que administrava suas posses cujo montante alegava, candidamente, desconhecer. Pobre menina rica. E burra, com certeza. Como se fosse possível alguém tão tapada tornar-se tão rica.
    Talvez para esconder a consciência que tinha acerca do quanto ajudou a devastar a inocência de tantas gerações de meninas que lhe devotavam a mais pura idolatria, posou de inocente útil usando a mesma máscara que agora reedita para falar, emocionada, do seu mais novo pretenso drama/marketing.
    Esqueceu-se que sua audiência, formada, na sua massacrante maioria, por meninas, passou a ser considerada como alvo da desumana propaganda colocando-as como mero veículo de consumo.
    Esqueceu-se, convenientemente, de comentar que milhares de garotas pelo Brasil afora foram abusadas sexualmente ao mesmo tempo em que eram, por ela, adestradas a vestirem-se e comportarem-se como verdadeiras lolitas.
    Esqueceu-se de que ensinou atitudes claramente ambivalentes para crianças que não faziam a mais pálida ideia do que podiam mobilizar em mentes doentias.
    Esqueceu-se de que a erotização tem sido ligada a três dos maiores problemas de saúde mental de adolescentes e mulheres adultas: desordens alimentares, baixa autoestima e depressão.
    Esqueceu-se também que as crianças, diariamente bombardeadas com imagens de paquitas como modelos de uma beleza simplesmente inalcançável enquanto corpos reais, torturavam-se perseguindo um modo de serem belas, perfeitas, saudáveis e eternas.
    Estimulando a sexualidade de forma tão precoce, essas meninas perderam grande e preciosa fase do seu desenvolvimento natural. E reduzir o período da inocência, certamente, acarretou-lhes desdobramentos nefastos.
    Daí para ideia, cada vez mais presente, da infância como objeto a ser apreciado, desejado, exaltado, numa espécie de pedofilização generalizada na sociedade foi, apenas, um pequeno passo.
    Num país onde as mães deixam suas crias, por absoluta falta de opção, frente à tevê sem qualquer tipo de controle e sem condições para discutir o conteúdo apresentado, encontrou esta senhora terreno mais que propício para disseminar sua perversa e desmedida ganância por audiência e dinheiro.
    Fosse ela uma pessoa minimamente preocupada com a direção que a sexualidade exacerbada e fora de contexto toma, neste país onde mulheres são cotidianamente massacradas, teria falado sobre este suposto drama muito tempo atrás. Teria tido muito mais cuidado com os exemplos de exposição que passava. Teria norteado seu trabalho dentro de parâmetros muito mais educativos e, desta forma, contribuído para que milhares de meninas fossem verdadeiramente cuidadas e respeitadas.
    Ou teria simplesmente virado as costas e ido embora.
    Logo, frente ao seu histórico, não tem mesmo nenhuma autoridade para sustentar qualquer atitude fundamentada em belos e necessários méritos.
    Porque são de grandes valores, bons princípios e atitude exemplares que nossa sociedade necessita de maneira URGENTE.
    Portanto, CALE-SE, XUXA!
    Heloisa Lima
    Psicóloga Clínica – Maio de 2012.