LIVROS – por omar de la roca / são paulo.sp

Livros

Sim.Foi no dia que não acordei encostado.Mas fui revirado e sacudido e conto tudo tim tim por tim tim.Depois que saí do Consulado,passei de raspão de Cultura.E o peso de todos aqueles livros caiu como uma avalanche por cima de mim.Quantos e quantos,incontáveis.E fui colhendo os títulos.Cada um mais estranho que o outro.Destaco apenas um “ A sociedade literária e a torta de casca de batatas.”E me pergunto,como alguém pode dar um nome destes? Bom,ao menos me fez curioso.Mas não o peguei,já que estava na entrada e eu queria ver mais.E aos poucos fui tomado pela imensidão de livros,pela musica de Vivaldi que tentava suavizar a presença atordoante dos livros.Nem que tivesse dez vidas e vivesse cem anos cada, não conseguiria le-los todos.E pensar que um dia eu acreditei que poderia encontrar tudo que eu quisesse nos livros.Os livros,para quem se escreve?Comercialmente ? Sim,é o que desconfio quando vejo aqueles títulos esdrúxulos.Para exorcizar antigos demônios?Sim,aprendi isso com meus contos.Contos ou seja qual for o nome.Que me mostram suas caras de repente e logo se escondem me instigando a descobri-los inteiros dentro de mim e expo-los ao sol.Pobres contos.Quem os lerá?Que eu saiba apenas o espelho,que mantenho suspenso por um fio num quarto espaçoso e arejado e o visito todos os dias.Para aprender alguma coisa aqui,outra ali quando observo meus cabelos que insistem em branquear.Voltando a livraria,percorro meio assustado a galeria repleta.Estranho,não é a primeiras vez que venho aqui e não me senti assim da outra vez.Acho que começo a ver tudo com novos olhos.Acho os livros que queria ler.Ulisses de James Joyce e A Montanha Mágica de Thomas Mann.Mas são tão grossos que compra-los é uma impossibilidade absoluta.Pelo menos agora.E muitos outros desfilam suas capas coloridas,e eu que tenho um fraco por cores,me aproximo para aprecia-las.Vi Jane Austeen e pensei em falar com ela.Mas não quis interromper,que ela estava escrevendo com uma longa pena de pavão.Quase pedi um autografo,mas resolvi não pagar o mico.E a capa do livro dela,um livro chique,bilíngüe me mostrou um lírio que ela trazia escondido. Andei mais um pouco na direção da saída e um livro de lombada azul perdido entre outros me chamou a atenção.Era uma compilação de contos de amor de Gibran.E eu o folheei saboreando os poemas com avidez e me envergonhei com o que escrevera e tentei  guardar alguns de memória para anota-los aqui,mas falhei.O que ficou foi,” se o inverno dissesse que tinha a primavera no coração,alguém acreditaria nele?” De outro só me lembro da essência,falava de falcões presos em gaiolas enquanto viam os passarinhos voando livres pelos céus da campina. Me lembrei então dos meus ventos que  percorriam céleres os campos descampados,as clareiras mágicas onde um beija flor pousou num céu de maio ,ventos que iam colhendo folhas e se desculpando com as arvores,quando em sua pressa quebravam alguns pequenos galhos secos e elas não gostavam.Ventos que circulavam as pedras e as pessoas que se abrigavam em suas roupas,mas não eu que os acolhia com prazer e abria meus braços alegre para que eles me possuíssem por inteiro.E tudo isso abrindo um pequeno livro.Coloquei-o no lugar.Não sei mais se era o lugar que ele estava acostumado.Senão espero que tenha encontrado boa companhia,que ele merece.Fui caminhando devagar pela geleira que eu temia desabasse sobre mim como uma avalanche de papel picado e folhas soltas,perdidas, reviradas e esquecidas.E depois do que li, entre revirado e sacudido me encontrei encantado e encontado e apesar de tudo,cantos e desencontos  achei que valia a pena continuar escrevendo.

Nem que fosse apenas para o espelho que pendurei por um fio,numa parede nua de um quarto amplo arejado.Meus contos serão condenados a serem como uma fonte de água limpa porém escondida entre as pedras,que a poucos,muito poucos mata a sede e mesmo assim tem medo de falhar,de secar e busca incessantemente no seio da terra a água com a qual ira ao menos mitigar a sede de alguns viajores que se arriscarem pelo caminhos pedregosos que levam a ela. E que vê a água secar logo depois que cai,sem ninguém para aproveita-la.Ou devo  aprender a manter a água presa,sem desperdício,nem que faça barreiras com areia,folhas secas, ventos e livros?Que agora,longe da livraria, posso falar deles sem medo de temporais e ventanias.

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2 Respostas

  1. Ainda que tardio
    agradeço o seu comentário
    seguro por fino fio
    qual o espelho no conto,me encontro.
    no aguardo,no aguardo,
    do sol ou da chuva. Ao inesperado “guardo” .

  2. Caro amigo Omar,venho para te saudar e para saudar tua escrita sempre cheia de sabor.
    Abraço da
    Zuleika/Zu.

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