INCONFIDÊNCIAS, INCONVENIÊNCIAS – por amailcar nevesw / ilha de santa catarina.sc

 

– Não deviam permitir que envelhecesse! – Ela disparou, os olhos injetados.

– Fazer o que? – Ele contrapôs. – Se as pessoas não morrem, elas envelhecem.

– Nem tolerar que chegassem jamais perto de qualquer igreja! As religiões, todas, não fazem mais do que amolecer o caráter e curvar a espinha! Tarefa ainda mais fácil se o elemento se tornou um velho: por idade, por escassez de saúde ou por opção de vida – Ela ignora o comentário que Ele fez.

– Como se fosse fácil tratar todo mundo com o suprassumo da gerontologia. Como se fosse só lhes dar pílulas da eterna juventude – Ele resmunga.

– Não se trata disso, não te faças de desentendido – agora Ela o escutou. – Como é que sempre se fez? Como é que sempre se evitaram os conflitos potencialmente comprometedores?

– Aposentando compulsoriamente com vencimentos integrais? – Ele arrisca. – Dando férias perpétuas como adido cultural da Embaixada na Letônia? Internando num manicômio judicial?

– Eu é que ainda vou acabar um dia te internando num manicômio! – Ela explode. E suavizando em seguida o tom da voz e a rudeza do rosto: – Parece que hoje nasceste só pra me contrariar, só pra me irritar. Qual foi o bicho que te mordeu?

– Acho que andas meio nervosa – Ele apalpa cuidadosamente o caminho, as palavras, o sorriso desenxabido.

– E não hei de andar?! Não viste isso, por acaso? Então não precisavas nem perguntar – Ela mal se contém. – Não podiam permitir que gente assim envelhecesse!

– E fazer o que com elas? – Ele decide ser direto.

– O que sempre fizeram, o que sempre fizemos: matá-las antes de entrarem na imbecilidade, antes de saírem por aí dizendo asneiras, antes de apanharem um microfone para pregar a palavra de Deus. Neopastores neoevangélicos de almas arrependidas, bah! Fizeram o que fizeram de livre e espontânea vontade, porque acreditavam no que faziam e ganhavam muito dinheiro para fazer tudo direitinho e, depois de velhos, saem-se com essa de consciência, reconciliação e busca pela paz. – Furiosa, Ela: – Deveriam é ter buscado a paz eterna no momento em que ainda estavam lúcidos, isto é que sim!

– O General teu pai, com todo o respeito, deve estar agora se revirando no túmulo – Ele enfim concorda com Ela.

– O General – que Deus o tenha! – teria resolvido isso há muito. Assim que esse delegadinho de Guerra abrisse o caderno para escrever a primeira palavra, a primeira letra do título do livro, ele teria deixado de ser gente, de ser deste mundo – Ela continua exaltada. – Não fizeram o que Papai teria feito de imediato para preservar a pele e a memória de todos, e o que acontece? O que acontece, hem?

– O General é citado no livro com todas as letras do nome, na patente de Coronel, como torturador, assassino e incinerador de cadáveres numa usina de açúcar em Campos dos Goitacazes – Ele fala como se tivesse decorado o texto.

– Isso mesmo! – Ela aplaude, entusiasmada. – Isso mesmo! E, no entanto, ele apenas honrava seu juramento de defender a Pátria contra o inimigo, contra esses solertes lacaios pagos com o ouro de Moscou! Se o Alto Comando fraquejava, o General impunha sua linha, dura porém eficaz, e o Brasil tornou-se um oásis de paz e prosperidade num mundo mergulhado em sabotagens, greves, atentados, conflitos internos e guerras fratricidas.

– É verdade – Ele parece perplexo. – Como é que falharam assim, deixando vivo um delegado do DOPS que sabia de coisas para abrir o bico? Será que foi só porque ele vivia meio escondido lá no Espírito Santo?

 AMILCAR NEVES  é membro da ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: