O MUNDO COMO ESTUPRO – por zuleika dos reis / são paulo.sp

O MUNDO COMO ESTUPRO 

 

 

Somos, eu e tu, seres de sonho. Pelo sonho nossos átomos se agruparam, em moléculas de sonho, em tecidos de sonho, em órgãos de sonho. O sonho nos compõe o sangue, os ossos, a pele. O sonho compõe nossa alma.

Na Índia, tradições antigas dizem que o mundo é Maya, isto é: Ilusão. Calderón De La Barca escreve “A Vida é Sonho”. Shakespeare o afirma, categórico. O Budismo assim o diz, como também do compromisso que nos cabe para com este sonho-vida. Os místicos do Oriente e do Ocidente viveram e vivem, desde o sangue, tal certeza.

A se crer nesta afirmação como verdade universal, por que afirmar, como o fiz na primeira linha do texto que ”somos, eu e tu, seres de sonho?” Se todos o somos, eu e tu, eles, nós e vós, todos compostos por átomos e moléculas de sonho, não há como particularizar tal condição, torná-la privilégio de poucos.

Entanto, reafirmo: “Somos, eu e tu, seres de sonho.” Pertencemos a uma estirpe que sente o viver dentro da realidade como uma violentação, uma espécie de estupro a sofrer todos os dias. Nós nos sentimos como eternos estranhos, estrangeiros, aportados nesta Terra por algum engano.

Ora, muitos dirão: “Do jeito em que está a realidade, que privilégio há nisso? Todos nós nos sentimos, tanto quanto vocês, violentados pelo real.”  Outros dirão: “Vocês se encontram em pleno processo dissociativo. Urge a procura de um ajuste, de um reajuste entre a psique e o real. “Ainda, terceiros: “Poetas são assim mesmo; não importa a realidade em que vivam, precisam a ela se contrapor.”  Outras tantas falas se multiplicam, pode-se ouvi-las na imaginação.

Sem discordar de ninguém que, como diz um amigo querido “Tudo é Vida.” e reiterando, novamente, o “somos, eu e tu, seres de sonho” quero acrescentar que nos sabemos assim não por filiação a algum Princípio religioso, ou não religioso, ou por alguma vivência mística no seu sentido específico, mas, porque vivemos isso, respiramos isso, nos alimentamos do pão de ser sonho desde a medula dos ossos, desde a raiz do sangue, desde a raiz da alma. Eu, no recesso deste lar ao avesso do mundo; tu a te digladiares no circo de horrores cotidianos. Para nós ambos, para os tantos e tantos da mesma estirpe, o mundo vivido como estupro.

Tu és como um médico-cirurgião que tenha horror à visão do sangue dos doentes e que, apesar desta condição, é capaz de domar o horror em seu âmago, no durante das cirurgias, o horror que, embora sofreado, em momento algum deixa de pulsar, de gritar no seu próprio sangue, no sangue dele, médico-cirurgião. És assim, exatamente assim. Por isso, incomensurável a tua dor de ser. Também eu, a meu modo, por outras vertentes, veredas, caminhos, sou assim, como também assim outros tantos e tantos, infinitos.

O mundo como estupro, o mundo ao avesso do sonho, ao avesso de todos os sonhos. Neste contexto, se mantivermos como verdadeiro que a vida é sonho, urge dizê-lo de outro modo: “A vida, sonho dantesco, o pior de todos os pesadelos.”

E, no entanto, no entanto, presentes desde sempre no mundo, de todos os modos e em múltiplos lugares (muitos ocultos ao mundo) permanecem e agem os seres que guardam a Esperança, os seus guardiães, aqueles entre os quais se alinham os que guardam, por enquanto no interior da Arca, outro “sonho do real”.

 

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4 Respostas

  1. É, tens toda razão, Omar, toda razão.
    Abraço da amiga Zu.

  2. E mesmo assim continuamos de sonho em sonho para sobreviver… ( ao sonho ).
    bjk

  3. Muito obrigada, abduzido ( também creio que eu o seja, abduzida). Muito obrigada.
    Zuleika.

  4. muito bom Zuleika… o ser (estranho), etério, de dor e gozo,
    na face rugosa da Terra. um belo texto. parabéns.

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