Arquivos Mensais: agosto \29\UTC 2012

O MAPA – de mario quintana / porto alegre.rs

 

 

Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E ha uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu

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VARGAS E A PRESENÇA DO ESTADO NA ECONOMIA – por mauro santayana

 

Este site se associa à homenagem que Santayana presta a Getúlio Vargas, o  Maior Estadista que este País já teve,  Mártir da nacionalidade, do Povo Brasileiro, e reproduz seu artigo.

 

 

(JB)- Em 24 de agosto de 1954, os homens de minha geração chegavam à maioridade. Naquele dia, pela manhã, cheguei ao Rio, enviado pelo Diário de Minas, de Belo Horizonte, a fim de cobrir o velório de Vargas e a reação do povo carioca ao suicídio do Presidente. A Presidente Dilma Rousseff era uma menina de seis anos. Não poderia saber o que significava aquele gesto de um homem que mal passara dos 70, e ocupara o centro da vida brasileira naqueles últimos 24 anos.

As jornadas anteriores haviam sido enganosas, o que costuma ocorrer na História, desde o episódio famoso da frustrada queda de Richelieu. Os meios de comunicação haviam ampliado o suposto atentado contra Carlos Lacerda – obscuro até hoje – e atribuído à responsabilidade ao Presidente, tentando fazer crer que o Palácio do Governo se transformara em valhacouto de ladrões e assassinos. Houve quase unanimidade contra Getúlio. Quando passei pela Praça 7, em Belo Horizonte, a caminho do aeroporto da Pampulha, entre manifestantes de esquerda, um jovem sindicalista, meu amigo, pedia aos gritos, pelo megafone, a prisão do Presidente. Desci do táxi e lhe dei a notícia, com os avisos de meu pressentimento: dissolvesse o grupo, antes que os trabalhadores, ao saber da morte do Presidente, reagissem na defesa do líder desaparecido.

Durante a viagem ao Rio, que durava hora e meia, organizei minhas idéias. Entendi, em um instante, que a ação coordenada contra Vargas nada tinha a ver com o assassinato de um oficial da Força Aérea, transformado em guarda-costas do jornalista Carlos Lacerda – isso, sim, ato irregular e punível pelos regulamentos militares. Lacerda, ferido no peito do pé, não permitiu que o revólver que portava fosse periciado pela polícia. Açulada e acuada pela grande imprensa, a polícia nunca investigou o que realmente houve na Rua Tonelero.

Vargas fora acossado pelos interesses dos banqueiros e grandes empresários associados ao capital norte-americano. Ao ouvir, pelo rádio, a leitura de sua carta, não tive qualquer dúvida: Getúlio se matara como ato de denúncia, não de renúncia. Morrera em defesa do desenvolvimento soberano de nosso povo.

Sei que não basta a vontade política do governante para administrar bem o Estado. Mas uma coisa parece óbvia a quem estuda as relações históricas entre o Estado e a Nação: o Estado existe para buscar a justiça, defender os mais frágeis, uma vez que não há igualdade entre todos. Por isso, algumas medidas anunciadas pelo governo inquietam grande parcela dos brasileiros bem informados. É sempre suspeito que os grandes empresários aplaudam, com alegria, uma decisão do governo. Posso imaginar a euforia dos lobos junto a uma ninhada de cordeiros. Quando os ricos aplaudem, os pobres devem acautelar-se.

O regime de concessões vem desde o Império. As vantagens oferecidas aos investidores ingleses, no alvorecer da Independência, levaram à Revolução de 1842, chefiada pelo mineiro Teófilo Ottoni e pelos paulistas Feijó e Rafael Tobias de Aguiar, e conhecida como a Revolução do Serro, em Minas, e de Sorocaba, em São Paulo. O Manifesto Revolucionário, divulgado em São João del Rei por Teófilo Ottoni, e assinado por José Feliciano Pinto Coelho, presidente da província rebelde, é claro em seu nacionalismo, ao denunciar que os estrangeiros ditavam o que devíamos fazer “em nossa própria casa”.

A presidente deve conhecer bem, como estudiosa do tema, o que foi a política econômica de Campos Salles e seu ministro Joaquim Murtinho, em resposta à especulação financeira alucinante do encilhamento. O excessivo liberalismo do governo de Prudente de Moraes e de seu ministro Ruy Barbosa, afundou o Brasil, fazendo crescer absurdamente o serviço da dívida – já histórica –, obrigando Campos Salles (que morreria anos depois, em relativa pobreza) a negociar, com notório constrangimento, o funding loan com a praça de Londres. O resultado foi desastroso para o Brasil. Os bancos brasileiros quebraram, um banco inglês em sua sucursal brasileira superou o Banco do Brasil em recursos e operações e, ainda em 1899, a Light iniciava, no Brasil, o sistema de concessões como o conhecemos. O Brasil perdeu, nos dez anos que se seguiram, o caminho de desenvolvimento que vinha seguindo desde 1870.

Durante mais de 50 anos, a energia elétrica, a produção e distribuição de gás e o sistema de comunicações telefônicas no eixo Rio-SP-BH foram controlados pelos estrangeiros. Ao mesmo tempo, os combustíveis se encontravam sob o controle da Standard Oil. A iluminação dos pobres se fazia com o Kerosene Jacaré, vendido em litros, nas pequenas mercearias dos subúrbios, cujos moradores não podiam pagar pela energia elétrica, escassa e muito cara. O caso das concessões da Light é exemplar: antes do fim do prazo, a empresa, sucateada, foi reestatizada, para, em seguida, ser recuperada pelo governo e “privatizada”. Como se sabe foi adquirida pela EDF, uma estatal francesa, durante o governo de Fernando Henrique. Novamente sucateada, foi preciso que uma estatal brasileira, a Cemig, associada a capitais privados nacionais, a assumisse, para as inversões necessárias à sua recuperação.

Vargas não tinha como se livrar, da noite para a manhã, dessa desgraça, mas iniciou o processo político necessário, ainda no Estado Novo, para conferir ao Estado o controle dos setores estratégicos da economia. Só conseguiu, antes de ser deposto em 1945, criar a CSN e a Vale do Rio Doce. Eleito, retomou o projeto, em 1951 e o confronto com Washington se tornou aberto. O capital americano desembarcara com apetite durante o governo Dutra, na primeira onda de desnacionalização da jovem indústria brasileira. Getúlio, na defesa de nossos interesses, decidiu limitar a remessa de lucros. Embora os banqueiros e as corporações estrangeiras soubessem muito bem como esquivar-se da lei, a decisão foi um pretexto para a articulação do golpe que o levaria à morte.

O Estado pode, e deve, manter sob seu controle estrito os setores estratégicos da economia, como os dos transportes, da energia, do sistema financeiro. Concessões, principalmente abertas aos estrangeiros, em quase todas as situações, são um risco dispensável. O Brasil dispõe hoje de técnicos e de recursos, tanto é assim que o BNDES vai financiar, a juros de mãe, os empreendimentos previstos. Se há escassez de engenheiros especializados, podemos contratá-los no Exterior, assim como podemos comprar os processos tecnológicos fora do país. Uma solução seria a das empresas de economia mista, com controle e maioria de capitais do Estado e a minoria dos investidores nacionais, mediante ações preferenciais.

Por mais caro nos custem, é melhor do que entregar as obras e a operação dos aeroportos, ferrovias e rodovias ao controle estrangeiro. O que nos tem faltado é cuidado e zelo na escolha dos administradores de algumas empresas públicas. Não há diferença entre uma empresa pública e uma empresa privada, a não ser a competência e a lisura de seus administradores. Entre os quadros de que dispomos, há engenheiros militares competentes e nacionalistas, como os que colaboraram com o projeto nacional de Vargas e com as realizações de Juscelino, na chefia e composição dos grupos de trabalho executivo, como o GEIA e o Geipot.

E por falar nisso, são numerosas e fortes as reações à anunciada nomeação do Sr. Bernardo Figueiredo, para dirigir a nova estatal ferroviária. Seu nome já foi vetado pelo Senado para a direção da Agência Nacional dos Transportes Terrestres. E o bom senso é contrário à construção do Trem Bala, que custará bilhões de reais. O senso comum recomenda usar esses recursos na melhoria das linhas existentes e na abertura de novos trechos convencionais. Não podemos entrar em uma corrida desse tipo com os países mais ricos. Eles podem se dar a esse luxo, porque já dispõem de armas atômicas enquanto nós não temos nem mesmo como garantir as nossas fronteiras históricas.

MARIANO MELGAR: o primeiro peruano na literatura indigenista – por manoel de andrade / curitiba.pr

RESUMO

 

Morrer aos 24 anos trazendo na alma o sonho da liberdade e o encanto da poesia… Como Castro Alves, no Brasil, assim também viveu e morreu Mariano Melgar, no Peru. Contudo, Melgar é a primeira referência latino-americana da palavra armada e desfraldada pelas convicções  libertárias. Com ele se inaugura a expressão poética contra a opressão colonial. É poeta por predestinação, é rebelde por natureza. Procér e mártir na luta pela Independência, foi executado em 1815.

Em janeiro de 1970, quando Manoel de Andrade chega em Arequipa, um dos locais onde é convidado a dizer seus
versos foi o Centro Cultural Mariano Melgar. A partir desse encontro passa a  estudar a obra do poeta dos yaravíes. Deslumbra-se com sua precocidade intelectual, com sua coragem libertária e por saber que Mariano Melgar é também o primeiro poeta peruano a expressar, na poesia,  todo o imaginário panteísta do sentimento indígena. Neste artigo o poeta brasileiro conta como a poesia de Melgar foi vista com desprezo em seu próprio país e do tardio reconhecimento de sua genialidade.

 

Mariano Melgar: o primeiro peruano na literatura indigenista[1]

 

                                                                                              

 

 

Conta-se que Arequipa nasceu sobre as ruínas de uma antiga cidade inca e que foi fundada em 1540 pelo próprio conquistador do Peru, Francisco Pizarro. Berço de notáveis nomes da política e da literatura peruana, nela nasceu Mario Vargas Llosa, no ano de 1936. Contudo sua celebridade literária, coroada com o Nobel em 2010, dispensa aqui qualquer comentário. Devo, entretanto dizer que quando por lá passei, na virada da década de sessenta, o nome de Vargas Llosa,  apesar de seus quatro livros já publicados, ainda não era tão comentado como o do poeta Mariano Melgar, um dos filhos mais queridos da cidade. Falo de um poeta libertário, combatente pela independência do Peru, com o qual se inicia o Romantismo e o Indigenismo na literatura peruana e, tal como o nosso Castro Alves, também libertário pelo abolicionismo, morre igualmente aos vinte e quatro anos.

Mariano Lorenzo Melgar Valdivieso, nasceu em Arequipa em 10 de agosto de 1790 e por sua precocidade foi um verdadeiro prodígio intelectual. Aos três anos já lia e escrevia, aos oito falava latim e aos nove anos dominava o inglês e o francês. Profundamente identificado com o povo na sua expressão indígena, encontrou no singelo lirismo das canções quechuas a motivação poética para grande parte de seus versos compostos em forma de yaravís, gênero musical de origem incaica, de composição breve e com um caráter elegíaco, amoroso e melancólico. É o que o poeta expressa neste seu poema chamado Yaraví:
¡Ay, amor!, dulce veneno,
ay, tema de mi  delírio,
solicitado martirio
y de todos males lleno.

 

¡Ay, amor! lleno de insultos,
centro de angustias mortales,
donde los bienes son males
y los placeres tumultos.

 

¡Ay, amor! ladrón casero
de la quietud más estable.
¡Ay, amor, falso y mudable!
¡Ay, que por causa muero!

 

¡Ay, amor! glorioso infierno
y de infernales injurias,
león de celosas furias,
disfrazado de cordero.

 

¡Ay, amor!, pero ¿qué digo,
que conociendo quién eres,
abandonando placeres.
soy yo quien a ti te sigo?
[2]

 

José Carlos Mariátegui, em seus Sete ensaios de interpretação da realidade peruana, ao analisar a poesia de Melgar ressalta inicialmente o “extremo centralismo” com que Lima dominou a literatura colonial, tida como um “produto urbano”, e acrescenta:

  (…)Por culpa dessa  hegemonia absoluta de Lima, nossa literatura não pode se  nutrir da seiva indígena. Lima foi primeiro a capital espanhola. Só foi a capital criolla depois. E sua literatura teve essa  marca.

      O sentimento indígena não careceu totalmente de expressão nesse período de nossa história literária. Quem primeiro o expressou com  categoria foi Mariano Melgar. (…)[3]

 

É esclarecedor colocar aqui o exemplo da poesia de Melgar, para avaliar, em dado momento histórico, os dois lados com que a crítica peruana encara a sua própria literatura: uma do ponto de vista colonialista e culturalmente preconceituosa e outra do ponto de vista legitimamente peruano, ou seja, indigenista, explicitados por duas figuras tão emblemáticas na história da intelectualidade peruana, como Mariátegui e o historiador José de la Riva Agüero (1885-1944), com opiniões tão diversas sobre a                                                           imagem literária de Melgar:

“Para Riva Agüero, o poeta dos yaravíes não passa de “um momento curioso da literatura peruana”. Retifiquemos esse julgamento, dizendo que é o  primeiro peruano dessa literatura.”.[4]

Comenta Mariáteguio desdém com que a crítica limenha tratou a poesia popular e indigenista de Melgar, num arraigado preconceito colonial que, um século depois, atingiria ainda, com o punhal da indiferença, o coração poético e indígena de Cesar Vallejo, a ponto de fazê-lo abandonar o Peru para nunca mais voltar. Vallejo é hoje reconhecido como o maior poeta do Peru e, como poeta universal, divide com Pablo Neruda a grandeza da poesia hispano-americana. Mariano Melgar teve sua imagem poética e libertária reconhecida oficialmente pelo governo peruano somente em junho de 1964. Apenas nos dois casos aqui citados essa é uma justa, necessária e tardia penitência, mas perguntamos se a cultura limenha já limpou a alma desse antigo pecado, porque continua, até os dias de hoje, ditando suas sentenças culturais no exercício de sua explícita hegemonia intelectual, em detrimento dos valores literários das províncias.

Mariátegui é o que melhor dá a dimensão do poeta de Arequipa, seja como mártir da independência, seja pela potencialidade de sua poesia, caso não houvesse morrido tão cedo. Abordando o lado romântico de Melgar, ressalta o grande despojamento do jovem poeta pela causa libertária, comparando-o ao cacique cusquenho Mateo Pumacahua, que em 1815 tornou-se um dos líderes da revolta contra os espanhóis, sendo preso e fuzilado pelas tropas coloniais.

      “Melgar é um romântico. Não apenas em sua arte, mas também em toda sua vida. O romantismo ainda não tinha oficialmente chegado a nossas letras. Em Melgar, portanto, não é, como será mais tarde em outros, um gesto de imitação, é um impulso espontâneo. E esse é o dado de sua sensibilidade artística. Já se disse que se deve à sua morte heróica uma parte de seu renome literário. Mas essa valorização dissimula mal a desdenhosa antipatia que a inspira. A morte criou o herói, frustrou o artista. Melgar morreu muito jovem. E mesmo que seja sempre um pouco aventureira qualquer hipótese sobre a trajetória provável de um artista prematuramente surpreendido pela morte, não é demais supor que Melgar, maduro, teria produzido uma parte mais purgada da retórica e do maneirismo clássicos e, por conseguinte, mais nativo, mais puro.(…)

        Os que se queixam da vulgaridade de seu léxico e de suas imagens partem de um preconceito aristocrático e academicista. O artista que escreve um poema de emoção perdurável na linguagem do povo vale, em todas as literaturas, mil vezes mais que aquele que, em linguagem acadêmica, escreve uma depurada peça de antologia. Por outro lado, como observa Carlos Octavio Bunge em um estudo sobre a literatura argentina, a poesia popular sempre precedeu a poesia artística. Alguns dos yaravíes de Melgar só vivem como fragmentos de poesia popular. Mas, com esse título,  adquiriram substância imortal”.[5]

Não é diferente a opinião do crítico italiano Giuseppe Bellini, tido como o mais qualificado estudioso europeu da literatura hispano-americana. Comentando a poesia gauchesca do poeta da independência uruguaia Bartolomé José Hidalgo (1788-1822), Bellini anota que:

          “Junto con Hidalgo cabe recordar a Mariano Melgar (1791-1815), cultivador también de la poesía popular  en los “yaravíes” y “palomitas”. El poeta peruano, sin duda más culto que Hidalgo, traductor e imitador de Horacio y de Virgilio, manifestó, tal vez por su carácter de mestizo, un profundo apego al elemento popular  quechua y a la naturaleza, antecipando un indigenismo que dará resultados consistentes durante el Romanticismo y en el siglo XX. [6]

Mariano Melgar une-se às tropas do cacique Mateo Pumacahua, que no passado fora aliado dos espanhóis, mas que a partir de 1814 empunhou a bandeira da independência em Cusco. Vencidos na batalha de Umachiri, o poeta é aprisionado e mantido em cativeito até o amanhecer do dia 12 de março de 1815, quando é executado. Ante o pelotão de fuzilamento Melgar escreveu num bilhete aos oficiais espanhóis, com as seguintes palavras:

          “Cubram seus olhos, já que vocês são os que necessitarão misericórdia porque a América será livre em menos de dez anos!”

 

          E assim aconteceu.

          Em 9 de dezembro de 1824, um exército de 6.879 patriotas de vários países hispanoamericanos, sob o comando do general venezuelano Antonio José Sucre, vence o exército espanhol de 10.000 soldados, selando em Ayacucho a independência do Peru e da América do Sul.


[1] Esse artigo integra o texto de um livro que o autor está escrevendo sobre os anos que passou na América Latina , nas décadas de 60/70. As notas e traduções são do autor.

[2] http://www.vivir-poesia.com/yaravi/ (acesso em 08/11/2011)

[3] MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Trad. Felipe José Lindoso. São Paulo: Clacso, 2008, p. 252.

[4] MARIÁTEGUI. Op. cit. p.253.

[5] MARIÁTEGUI. Idem  pp. 252-253.

[6] BELLINI, Giuseppe. Nueva historia de la literatura hispanoamericana. Madrid: Editorial Castalia, 1997, p. 209.

Portugal e Brasil: apáticos ou tolerantes? Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa. – por graciano coutinho

Às indignidades de que são alvo diariamente, portugueses e brasileiros reagem com uma indolência irritante. Será isso necessariamente mau?

 

 

 A decisão do regulador das telecomunicações no Brasil, a Anatel, de proibir as operadoras Claro, TIM e Oi de vender novos chips de telemóveis deixou o país de boca aberta. Afinal, um órgão estatal enfrentar, em nome do bom serviço à população, o poder dos gigantes mexicano, italiano e brasileiro (com forte participação portuguesa) não acontece todos os dias. Na manhã seguinte à decisão já três delegações dos operadores, que, até há uma semana, dizia-se, faziam o que queriam do regulador, estavam à porta da Anatel para tentar minorar estragos.

Enquanto as três empresas (a Vivo escapou com advertência) não apresentarem um plano de investimento em antenas que melhore as condições de rede dos consumidores, a Anatel não permitirá a venda de mais uma linha sequer.

A propósito desta medida, um correspondente britânico no Brasil comentou que é uma medida histórica e necessária “porque o consumidor brasileiro é o mais maltratado do mundo”. “O brasileiro é de uma apatia incrível na defesa dos seus direitos”, acrescentou um jornalista americano. “E essa apatia alastra a tudo, incluindo, à política”, rematou uma correspondente francófona.

O correspondente português presente na conversa não disse nada. Mas pensou. Lembrou-se de duas fotos colocadas propositadamente lado a lado nesse mesmo dia nas redes sociais. Numa, via-se uma praça de Madrid invadida por manifestantes a protestar contra as medidas de Rajoy; noutra, uma praia da Costa de Caparica invadida por manifestantes a protestar contra a onda de calor. Os comentários às fotos eram de portugueses indignados com a “apatia” (a mesma palavra do americano e da francesa) dos compatriotas que não reagem à forma como são “maltratados” (a mesma palavra do britânico) pelos seus governantes.

Conclusão simplista: a apatia brasileira é filha da apatia portuguesa.

E segundo o Mahabharata, a Bíblia do hinduísmo e maior livro da história (200 mil versos, o equivalente a 20 Odisseias), a apatia é um dos piores defeitos do ser humano. Uma das conclusões do tratado filosófico indiano é que “os equilibrados elevam-se, os ativos ficam na região intermediária e os apáticos descem, envolvidos nas piores qualidades porque a preguiça, a ilusão e a ignorância nascem da apatia”.

Mas a fronteira entre uma qualidade e um defeito (persistência-teimosia, autoridade-violência) é muito mais ténue do que se supõe. Talvez a apatia seja apenas a face negativa da tolerância (e o protesto a face positiva da intolerância).

Os correspondentes em causa e os madrilenos em manifestação convivem ou conviveram com siglas e nomes como IRA, Ku Klux Klan, Le Pen ou ETA; Brasil e Portugal são dois países praticamente imunes a separatismos e em que os grupos radicais intolerantes são absolutamente residuais.

No Brasil, convivem nas mesmas cidades pretos e brancos, árabes e judeus, católicos e protestantes, sem sinais de violência por esse motivo – a violência é motivada quase exclusivamente pela desigualdade económica. Em Portugal,  demorou mas fez-se uma revolução após 50 anos de ditadura – uma revolução simbolizada por uma flor num cano de espingarda.

Os brasileiros e o portugueses são apáticos com as injustiças diárias mas talvez saibam reagir com firmeza no momento certo. Como a Anatel, que até à semana passada era considerada uma agência apática.

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Crónicas de um português emigrado no Brasil

DR. ZEQUINHA – resistiu a ditadura com um estilingue – 40 anos depois. – curitiba.pr

Dr. Zequinha, líder estudantil em 68, se emociona ao falar da tortura na prisão e do apoio familiar durante os ‘anos de chumbo’
A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue - e só

A famosa foto: Dr. Zequinha enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue – e só
LUCIANA GALASTRI

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

Dr. Zequinha em evento realizado no dia 14 de maio para relembrar os 40 anos de ocupação da Reitoria da UFPR

No ano de 1968, o então reitor da UFPR, Flávio Suplicy de Lacerda, tomou uma decisão: a Universidade Federal do Paraná, uma instituição pública, passaria a cobrar por seu ensino. Cursos noturnos, em teoria voltados para estudantes que trabalhavam durante o dia para se sustentar, passariam a ser pagos. Esse novo sistema começaria a vigorar quando os calouros daquele ano fossem aprovados.

No dia do vestibular de 68, os estudantes da Universidade, sob liderança do DCE (Diretório Central dos Estudantes), da UPE (União Paranaense de Estudantes) e da UPES (União Paranaense de Estudantes Secundaristas) impediram a realização da prova no Centro Politécnico com sucesso, adiando o concurso. Suplicy insistiu em manter sua decisão e realizar uma segunda prova. Novamente, os movimentos estudantis se mobilizaram para impedir o vestibular, mas a presença da polícia montada fez com que a operação falhasse.

Então, no dia 14 de maio daquele ano, há quarenta anos, os estudantes tomaram a Reitoria da UFPR, derrubaram o busto do reitor Suplicy e arrastaram a imagem pelas ruas em uma marcha contra a Universidade paga. A polícia recebeu ordens de não interferir e os estudantes foram poupados de mais violência. Esta última manifestação foi marcada pelo sucesso absoluto. “Dizíamos que a polícia também era gente! E os policiais choravam, comovidos pelo nosso movimento” declara Stênio Jacob, presidente da UPE na época.

A tomada da Reitoria tem uma enorme significância, pois foi realizada em um período de ditadura e opressão militar no Brasil. Em termos mundiais, o ano de 68 é emblemático: vários países testemunharam movimentos estudantis que pediam a reforma do ensino, a liberdade de expressão e davam visibilidade a uma nova espécie de jovem – questionador e rebelde.

Um dos líderes desses jovens que em 1968 tomaram a Reitoria da universidade mais antiga do país era o jovem José Ferreira Lopes, mais conhecido por Zequinha – pelos amigos e pelos algozes. Membro do DCE e da UPE naqueles anos, foi testemunha de sentimentos e atitudes antagônicas, a coragem dos estudantes e a covardia das autoridades, chegou a ser preso e torturado, viu colegas sucumbirem à violência do Estado e, anos depois, voltou a cursar a profissão que fora forçado a abandonar, a Medicina, tornando-se o Dr. Zequinha.

Dr. Zequinha, protagonista de uma fotografia que rendeu ao seu autor, Edson Jansen, o Prêmio Esso de Fotojornalismo – em que enfrenta a cavalaria da polícia com um estilingue –, voltou ao cenário de sua militância, o pátio da Reitoria da UFPR, 40 anos depois, para revisitar a memória e a mentalidade daqueles dias.

Pouco antes do evento, quando se sentou ao lado do reitor da instituição, Carlos Moreira Junior, e de amigos ‘de luta’ como Stênio Jacob, Luís Felipe Haji Mussi e Vitório Seratiuk, ele falou ao Comunicação sobre os tempos de militante, a clandestinidade, a tortura e as experiências de um jovem idealista em plena ditadura militar.

Comunicação – Como se deu o seu contato com o movimento estudantil?

Dr.Zequinha – Eu sou nascido em Marília, uma cidade de São Paulo, e lá, como estudante secundarista, tive meu primeiro contato com o movimento estudantil. Isso foi na década de 60, lembro muito bem da eleição de Jânio Quadros e da história da vassoura, que varria a corrupção. De lá, vim para Curitiba cursar medicina na UFPR. Iniciei o curso e, ao mesmo tempo, tive contato com a política universitária, em 65. A partir daí, entrei para o Diretório Acadêmico Nilo Cairo, para o DCE e para a UPE. O contato com todos esses órgãos me influenciou a ter uma militância mais ativa.

Comunicação – Houve alguma outra influência que o levou para a militância? Um professor, um livro?

Dr.Zequinha? – Tive influência de duas pessoas, no curso de medicina, e tenho um respeito muito grande por eles. Eles possuíam opiniões muito boas a respeito do próprio curso, da universidade, da reforma do ensino e também foram pessoas muito queridas para mim. O Dante Romanó Júnior, que acabou sendo reitor da UFPR, e o professor Paulo Barbosa, que tinha uma cadeira em medicina, na época. Ambos foram pessoas muito queridas e que tiveram muita influência em meus tempos de universitário.

Comunicação – Antes de entrar nos movimentos estudantis, você era um jovem muito politizado?

Dr.Zequinha – Acredito que havia uma vivência política já bem anterior na cidade de Marília. Meu pai não era militante, mas era um ser muito amplo no ponto de vista da aceitação das coisas. Eu lembro de ter um vizinho que pertencia ao Partido Comunista do Brasil. Também havia uma família, os Silva, que militavam pelo partido. Eram pessoas ‘de casa’, pessoas com quem convivi na minha juventude, era amigo de seus filhos. Existia também um alfaiate nordestino, uma pessoa muito legal, que possuía, no fundo de sua alfaiataria, uma biblioteca. Tive esse contato, meu pai sempre ajudou muito esse pessoal que era perseguido e acabei me envolvendo.

Comunicação – Como sua família e seus amigos viam essa atuação política militante? Eles o apoiavam?

Dr.Zequinha – Meu pai era semi-analfabeto, mas tinha uma preocupação básica: seus filhos deveriam estudar, portanto, deviam ter uma biblioteca em casa. Então ele comprava livros do Jorge Amado, Graciliano Ramos, entre outros. Acabamos tendo contato com essa literatura. Minha própria turma de adolescentes tinha esse hábito da leitura, ouvia muita música, além das estripulias que fazíamos como todo jovem (risos). Ao final do ano de 68 houve o Ato Constitucional nº5. Eu estava na iminência de ser preso – já havia sido preso algumas outras vezes em Curitiba, e também pertencia ao Ação Popular, o AP. E eu decidi que continuaria minha militância política, mas em caráter clandestino. Conversei com amigos da república em que morava, alguns me desencorajaram, outros disseram “você que decide, você sabe da sua vida”. Então saí de Curitiba e fui à cidade de meu pai, conversar com ele e com minha mãe. Lembro até hoje. Estávamos na varanda da casa deles e comentei o que eu iria fazer. A reposta deles foi assim: “é isso que você quer? Então seja feliz.” Quando fui preso, minha mãe percorreu céus e infernos à minha procura. Devo muito a ela o fato de não ter sido… não diria assassinado, mas eu estava em uma situação muito complicada na repressão da ditadura. E ela moveu céus e mares até me achar. Essa era a relação que eu tinha com minha família, e me deixa muito emocionado.

Comunicação – Você pode descrever o tempo em que ficou preso? Comentar alguma experiência que tenha passado?

Dr.Zequinha – Posso sim. Acho até importante comentar isso, para que não caiam no esquecimento as barbaridades feitas pela ditadura militar.

Fui preso pela primeira vez em 68, quando eu fazia a pichação de um muro no Batel, e eu pichava ‘abaixo a ditadura’. Fiquei detido na Carlos de Carvalho, que era a sede da Polícia Federal na época, e lá sofri uma amostra do que seria uma tortura. Deixaram-me nu, em cima de uma lata de cera, sem a tampa, e eu pisando com os dois pés na lata e me apoiando com as minhas mãos em uma parede. Às vezes me batiam no rim, que não deixa marca certo? Queriam que eu fizesse uma confissão, queriam que eu dissesse por que estava pichando ‘abaixo a ditadura’.

As outras duas vezes em que fui preso em Curitiba, foi nas passeatas. A polícia batia, prendia e soltava. Quando fui pra clandestinidade, foi, com certeza, o momento mais difícil. Saber o que era uma ditadura militar e sua repressão… Estava em Minas Gerais, trabalhava como operário metalúrgico e fui preso dentro da fábrica. No primeiro momento, não falei nada. Levaram-me para o DOPS, o Departamento de Ordem e Política Social. Aí sim, choque elétrico em todas as partes do corpo, afogamento, sempre querendo informações. Houve um período de sete ou dez dias, não posso dizer com clareza, em que eles não sabiam quem eu era, não sabiam que eu era o Zequinha do Paraná. Eles acharam que eu era um operário mesmo, Isaías José de Souza. Acharam que eu poderia estar envolvido com uma ‘subversão’ e com questões do partido. Mas eu sempre negava, até que um dia, depois de sessões de tortura me levaram aonde estava um coronel do exército brasileiro, um torturador, e ele me mostrou uma foto, minha foto. Disse que estavam procurando por mim, que eu era o Zequinha. Eu neguei. Precisava de tempo para organizar meus pensamentos, saber o que estava acontecendo, se alguém sob tortura falou que era eu na foto. Eu precisava de um momento. Até que, depois de muita insistência e muita tortura, eu decidi me identificar. Disse que era José Ferreira Lopes, o Zequinha, líder da UPE, estou preso por vocês e pronto! Não tinha mais nada o que falar, era isso. Fui transportado para o Rio de Janeiro, submetido a mais torturas. Até que apareceu uma especial, chamada ‘cabine de som’. Eles torturavam, torturavam… Deixavam você bem mal por uma noite, e de manhã cedo te jogavam em uma cabine pequena. Lá tinha um som muito alto, ondas supersônicas e temperatura altíssima. Depois variavam a temperatura até abaixo de zero e tudo ficava em absoluto silêncio. Abriam a porta e diziam “fala, fala, fala”! Fiquei muito tempo assim. Eles viram, depois, que eu não queria falar nada, que eu estava tranqüilo, ou melhor, consciente de que não ia entregar ninguém, não ia comprometer a vida de mais pessoas.

Depois fui levado novamente a Belo Horizonte. Continuaram as torturas e começaram a simular fuzilamentos. Levavam-nos para uma área, pegavam a metralhadora e diziam “apontar… fogo”! Não saía a bala, mas você já ficava assustado. E continuava a passar por afogamentos… Todas essas barbaridades. Algum tempo depois me entregaram um papel e uma caneta. Era uma declaração política em que eu assumia que eu era contra a ditadura militar, que eu era a favor da democracia e da liberdade. Mas nunca assumi que era de um partido político – que era o exatamente o que queriam saber, para me comprometer. Nessa trajetória vi assassinatos de companheiros meus, como José Carlos da Mata Machado, que foi vice-presidente da UNE, assassinado no Recife além de outros estudantes, barbaramente assassinados e torturados.

Comunicação – Você mantinha contato com outros grandes líderes estudantis, como o Vladimir Palmeira, o José Dirceu, o José Arantes entre outros?

Dr.Zequinha – Tínhamos contato, mas não éramos tão próximos. Participávamos de alas diferentes. O contato mais estreito que eu possuía, no caso, era com o Luís Travassos, presidente da UNE em 67 ou 68. O José Carlos da Mata Machado, que eu já citei. Principalmente porque vivemos juntos em uma república durante oito meses, morando clandestinamente.

Comunicação – Qual era o cenário político do Paraná no início da ditadura?

Dr.Zequinha – Depois do golpe, em 65, já havia uma repressão muito grande aos movimentos mais organizados, como os camponeses, os operários. Muitos foram submetidos a torturas e exilados na Argentina, no Paraguai, sofreram muitas dificuldades. Quando cheguei ao Paraná, existia a ditadura militar, mas não havia chegado ao extremo. Tínhamos aqui o Ney Braga que era governador, mas era indicado. Em 68 havia o Paulo Pimentel, que também foi indicado, não havia eleições. Ainda que não houvesse democracia, liberdade maior e que a censura estivesse presente, era possível se manifestar. Havia os diretórios, as reuniões, que foram extintos com o Ato Institucional nº5. Foi então que a coisa complicou, não havia liberdade nenhuma. As organizações políticas foram todas extintas, mesmo assim, eu fiz parte da AP, a Ação Popular, no início de minha carreira política mas ninguém sabia.

Comunicação – Sobre a famosa ‘foto do estilingue’, você sabia que estava sendo fotografado? Era uma combinação?

Dr.Zequinha – Não sabia. O fotógrafo, o Edson Jansen, acabou ganhando o Prêmio Esso de Fotojornalismo com ela. Ele estava estrategicamente posicionado acima da estradinha em que ocorreu o fato e registrou toda a cena.

Comunicação – Você já conhecia o Edson?

Dr.Zequinha – Não. Fui conhecer o Edson depois que eu saí da clandestinidade, quando voltei para Curitiba em 1980 e reiniciei o curso de medicina.

Comunicação – A foto o tornou mais visado pela polícia?

Dr.Zequinha – Com certeza. Eles passaram a me considerar perigosíssimo’. Tudo isso foi registrado nos arquivos. No arquivo do DOPS estavam coisas que nem eu me lembrava que havia feito. Que eu fui em uma reunião em tal hora,que eu estive em Apucarana em tal lugar. Eu era acompanhado.

Comunicação – Qual era sua posição em relação à luta armada?

Dr.Zequinha – Na época eu não concordava. Mas você tem que estar junto ao povo para organizar as reações. Mas as reações são construídas pela vida. Não podíamos prever. Por exemplo, no momento mais crítico da ditadura, o governo Médici, com as torturas. Não podemos nem comparar com a Argentina, dizendo que a ditadura lá foi pior. Acho que as ditaduras brasileira e argentina têm suas pequenas diferenças, mas são muito semelhantes. Não tínhamos como fazer política, quando começávamos algum movimento íamos presos. Foi então, quando o PCdoB, que havia se unido à AP, começou a organizar uma luta do campo – a guerrilha do Araguaia. Mas era um momento extremo, não havia mais o que fazer. Não tivemos tempo de preparar o povo, conversar, ganhar a sua confiança. Foram fatores externos. É o próprio momento que define se uma luta vai ser armada ou não.

Comunicação – E qual era a relação entre a mídia e o movimento dos estudantes? A imprensa realmente apresentava sua posição contra a ditadura, como é divulgado?

Dr.Zequinha – A imprensa nunca apoiou o movimento dos estudantes de modo aberto, objetivo. Havia casos isolados de jornalistas, mas nada a ver com a imprensa de modo geral.

Comunicação – Você estava em Curitiba na redemocratização do país? Como foi a experiência de ver essa ‘revolução’?

Dr.Zequinha – Sim, estava em Curitiba. Foi um complemento, embora não total, de toda aquela luta que nós fizemos. O movimento estudantil de 68, apoiado pelas primeiras greves operárias, teve a repercussão. Desde o AI-5 estava se concretizando um pensamento que culminou nas Diretas Já. Então, para mim, foi muito legal. Estive falando em palanques no movimento… Valeu a pena tudo o que fizemos. Temos que ter orgulho. Não ser prepotentes, nada disso, mas saber que tudo culminou para exterminar a ditadura que se abateu sobre o país.

Comunicação – Recentemente a Superinteressante publicou um artigo dizendo que a visão que temos de 68 é muito romântica. Que na verdade, os movimentos eram feitos por ‘filhinhos de papai’, burgueses, que haviam enriquecido com a Segunda Guerra Mundial. Qual é sua opinião sobre isso?

Dr.Zequinha – É difícil negar os fatos da história. Naquela época, os cursos universitários tinham uma característica mais elitista. É difícil negar isso. Mas mesmo que fôssemos de classe média, havia toda uma questão nacional e internacional que exerceu influência sobre os estudantes. As ditaduras da América Latina, Allende, a Revolução Cubana. Havia mitos, como Che Guevara, Ho Chi Mihn. Tínhamos acesso a livros de Marx, Engels, Mao Tse-Tung. Foi essa juventude que fez a Passeata dos Cem Mil, que foi pra cima da ditadura quando assassinaram o Edson Luís, no Rio de Janeiro. A classe cultural, poetas, músicos, atores, intelectuais de forma geral foram às ruas protestar. Não eram todos ‘filhinhos de papai’. Um ou outro podia ter sido, mas e daí? É uma posição política. E o idealismo próprio de ser jovem? Uma afirmação como essa renega até esse idealismo, a forma de questionar sistemas, inerente à juventude. Vejo os jovens de hoje lutando pelo acesso mais democrático à universidade. Isso é ser ‘filhinho de papai’?

Comunicação – Qual a sua opinião a respeito da atuação política de pessoas que sofreram nas mãos do regime ditatorial? Presos, perseguidos, exilados, torturados, como a Dilma Rousseff, o José Dirceu e mesmo o presidente Lula?

Dr.Zequinha – Eu vejo de forma muito positiva a participação deles. Tentam manter a política progressista. Obviamente, alguns cometem erros. Podem cometer erros, mas que não reneguem o passado. Vejo isso em alguns políticos, como o senador pelo Amazonas, Arthur Virgílio Neto. Alguns tomaram um posicionamento claramente conservador.

Comunicação – E sobre o Daniel Cohn-Benedit? Ele era um grande líder estudantil e símbolo dos movimentos de 68. Hoje, trabalha no Parlamento Alemão.

Dr.Zequinha – Não sei qual é a função dele no Parlamento. Mas, com certeza, é importante lembrar o grande papel dele naquela época, no meio daquela revolução cultural toda, na reforma de ensino, nas várias discussões, inclusive sobre liberdade sexual. Tudo se concentrou naqueles anos.

Comunicação – Qual é sua relação com o governo atual do país, com a política do Lula?

Dr.Zequinha – Participei da frente Brasil Popular, fui coordenador da campanha do Lula no Paraná, em 1989. Percorremos o estado todo, fizemos três comícios grandes. Apóio o governo do Lula, acho que ele tem tomado decisões muito importantes para a mudança da situação do povo brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, sou crítico. Faço crítica à política econômica, que julgo, ainda, conservadora. O próprio presidente não toma uma posição mais altiva. No entanto, é um governo eleito, democrático, progressista e popular, então apóio, com certeza.

Comunicação – E quais as suas impressões sobre o governo do Requião no Paraná?

Dr.Zequinha – Apóio o governo avançado e democrático do Requião. Ele é taxado de louco, de chato, mas o que a mídia faz com ele é algo muito violento, a mídia o provoca. Ele é, também, sangue-quente, todos sabem disso, mas tem feito políticas sociais muito boas no Paraná. É um estado que se tornou referência. Há avanços na área de educação, de saneamento básico que eu, como médico, julgo imprescindível, assim como a distribuição de energia elétrica. Assim como no governo Lula, há o apoio à pequena e média empresa. Eu, particularmente, tenho esse senso crítico em relação a tudo. Observo e, se julgo errado, critico. Mas tanto o governo do Lula quanto o do Requião, são, em geral, bons governos, necessários para esse país.

Comunicação – Há boatos de que a UNE, atualmente, é muito ligada ao governo federal, defendendo mais seus interesses do que os dos estudantes. Como você encara a atuação, tanto da UNE quanto da UPE, atualmente?

Dr.Zequinha – Eu acho que a UNE não segue o governo do Lula, ela sempre manteve sua independência e tem como característica pensar na luta geral do povo. Questões como ‘o petróleo é nosso’ e a luta das Diretas Já. Evidentemente, a UNE tem uma visão positiva do governo federal, mas continua fazendo críticas ao presidente. Há grupos que se dizem esquerdistas ao extremo, mas quando são comparados os discursos desses grupos, com os grupos de direita, conservadores, eles são muito parecidos. A própria Heloísa Helena, na segunda eleição do Lula, acabou tendo uma postura mais conservadora. O fio entre esquerda e direita é muito tênue. Mas a postura independente, que nos permite fazer críticas nas horas certas é essencial para que haja a organização e a mudança.

Comunicação – E como o PC do B se situa hoje na política?

Dr.Zequinha – O meu partido está no governo. Mas apresentamos propostas para mudanças. Criamos um bloco unindo PC do B, PRB, PSB e PDT, que se situa à esquerda e apresentamos várias propostas para o governo Lula. Cinco reformas estruturais fundamentais, entre elas a Reforma Agrária, Reforma Urbana e a Reforma da Educação. Visamos envolver a participação popular para mudar a estrutura do país e permitir essas melhoras.

Comunicação – Como é seu trabalho na Comissão Especial de Indenização a Ex-Presos Políticos, sendo representante dos ex-presos políticos?

Dr.Zequinha – É a segunda vez que atuo na Comissão. Somos muito criteriosos na hora de conceder as indenizações. Existe um decreto que estabelece normas e regras que devemos seguir. Só tem direito à indenização quem esteve preso no estado do Paraná, e tiver provas concretas dos eventuais maus-tratos. Quem esteve preso um pequeno número de dias deve receber indenização proporcional ao período. Há muitos parentes de camponeses que foram presos, já falecidos, que não apresentam provas necessárias. Então as pessoas saem chateadas, mas são as normas estipuladas pelo governo estadual. O governo tem a ação louvável de reconhecer o seu erro, oferecendo uma quantia justa às pessoas. Obviamente, é impossível pagar ou repor doze anos de clandestinidade. É preciso retomar a vida. Eu, casado, com dois filhos, voltei da clandestinidade e me tornei novamente estudante, para concluir o curso de medicina. Eu podia ter me formado médico e exercido a profissão há anos, nenhuma quantia paga tudo isso. O que importa é ser reconhecido. Fui perseguido. Fui torturado. Fui preso político.

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Reportagem LUCIANA GALASTRI
Edição VANESSA PRATEANO
EDISON JANSEN

Conheça o garoto que pode mudar a história do câncer

Antes de tornar realidade um teste mais sensível, rápido e barato para detectar o câncer de pâncreas, Jack Andraka foi rejeitado por 199 pesquisadores

São Paulo –  Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Em maio deste ano ele venceu a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel com um projeto que pode mudar a história do câncer de pâncreas : um teste para detectar a doença 68 vezes mais rápido, 400 vezes mais sensível e 26 mil vezes mais barato que o padrão usado hoje para detectar a doença, inventado nos anos 50.

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

Jack com o sensor de nanotubos: potencial revolução no diagnóstico do câncer de pâncreas | Foto: Reprodução Internet

A doença que vitimou um familiar de Jack e inspirou o jovem a pesquisar uma forma de detectá-la antes que ela se espalhe para o resto do corpo, tem um prognóstico sombrio: menos de 2% dos diagnosticados em estágio avançado sobrevivem.

“Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito”, conta ele.

Munido de vontade, curiosidade e uma bagagem científica incomum para garotos da idade dele, Jack se embrenhou no tema e bolou o teste unindo conceitos estudados nas aulas de Biologia com o que havia lido em um artigo sobre nanotubos – estruturas milhares de vezes menores do que a espessura de um fio de cabelo.

“Eles têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência.”

Como ele conseguiu fazer isso? Filho mais novo de uma médica e um engenheiro civil, ele foi estimulado desde cedo a encontrar por si as respostas para as dúvidas que tinha sobre as coisas. Além de inteligente e esforçado, claro, Jack foi perseverante. Decidido a concretizar a ideia do teste, ele escreveu para nada menos que 200 pesquisadores norte-americanos apresentando o projeto de pesquisa e pedindo espaço em laboratório para trabalhar nele. Apenas um respondeu que sim. Ainda bem.

Jack conversou por telefone, do laboratório que aceitou abrigá-lo e incentivá-lo. Hoje, ele estuda meios de viabilizar comercialmente o teste. Jack Andraka – guarde esse nome – tem 15 anos. Veja a seguir a entrevista.

Quando você começou a se interessar por ciências?
Eu tinha uns três anos quando meu pai comprou para mim e para o meu irmão [ dois anos mais velho ] uma maquete de plástico de um rio, com água e tudo. Nós ficamos brincando com aquilo o dia inteiro, observando a corrente e colocando os mais diferentes objetos nela, para ver o que afundava, o que seguia o curso da água e o que mudava a corrente. A gente queria respostas. Queria entender como aquilo acontecia. Acho que o interesse despertou a partir daí.

Quanto tempo depois disso você começou a participar de competições de ciências?
A primeira competição foi na 6ª série, com 12 anos. Eu adaptei um dispositivo de segurança para evitar que o fluxo de água nas quedas d’água de pequenas represas cause afogamentos.

Você venceu?
Eu tinha 10 anos e como estava na 6ª série, não podia participar do prêmio da Intel, porque aqui nos EUA ele é apenas para estudantes de ensino médio. Mas tirei segundo lugar na versão internacional do mesmo prêmio com esse projeto.

Como você teve a ideia do projeto vencedor do prêmio internacional deste ano?
Eu escolhi um tema que me interessava na época. O câncer de pâncreas teve um impacto importante na minha família, nós perdemos um parente com a doença. Aí fui pesquisar sobre ela e descobri que 85% dos casos são diagnosticados em estágios avançados, quando o câncer já está espalhado pelo corpo e os pacientes em geral têm menos de 2% de chances de sobrevivência. Eu pensei: se fosse possível diagnosticar essa doença em estágios bem iniciais, as chances de sobrevivência aumentariam muito.

E você simplesmente decidiu fazer isso?
Bem, eu fui atrás de todas as formas conhecidas de diagnóstico desse tipo de câncer e descobri uma proteína chamada mesotelina, que está presente no câncer de pâncreas, assim como nos de ovário e pulmão. A ideia veio mesmo numa aula de biologia. Estávamos aprendendo sobre anticorpos, essas estruturas produzidas pelo sistema imunológico. No câncer que eu estava estudando, os anticorpos se ligavam apenas à mesotelina. Na mesma época, li um artigo muito legal sobre nanotubos de carbono. Você sabia que essas estruturas têm o diâmetro 150 mil vezes menor do que o de um fio do seu cabelo?

Nossa, não tinha ideia de que eram tão pequenas…
Sim, os nanotubos têm propriedades incríveis, são como super-heróis da Ciência. Ok, o que fiz foi meio que conectar essas duas ideias. Eu inventei um sensor de nanotubos de carbono e anticorpos capaz de identificar a presença da mesotelina e dizer, baseado no quanto dessa proteína se liga aos anticorpos, se a pessoa tem câncer de pâncreas.

Quanto tempo você levou para concretizar a ideia?
Foram ao todo 7 meses de muito trabalho.

Onde você trabalhou? Em casa? No laboratório da escola?
Não, eu contatei 200 pesquisadores na Universidade Johns Hopkins e nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos pedindo espaço em laboratório e apoio para desenvolver a minha pesquisa. Apenas um me disse sim [ Anirban Maitra, professor de Patologia, Oncologia e Engenharia Química e Biomolecular da Escola de Medicina da Johns Hopkins ]. Uns me responderam que não tinham espaço, outros que não tinham o equipamento, outros simplesmente não responderam. Quando finalmente fui aceito, cumpri um rigoroso processo para me transformar em um pesquisador e iniciei o trabalho.

Durante a pesquisa, como ficou a escola? Você conseguia dar conta de tudo?
Normalmente eu consigo fazer todas as coisas da escola durante o período das aulas. Enquanto desenvolvia o projeto, eu ficava até tarde da noite no laboratório fazendo e refazendo os testes, então aproveitava o tempo entre eles para completar o dever de casa.

Os seus pais não reclamavam de você ficar até tarde da noite trabalhando?
Meus pais não reclamavam, pelo contrário. Eles sempre valorizaram o trabalho e o esforço. Acho que só consegui chegar até aqui porque como pais eles me ajudaram e me incentivaram.

Com todas essas atividades, você consegue passar algum tempo com os amigos e a família? Aliás, você tem namorada?
Não tenho namorada. Mas eu gosto de socializar sim. Este ano, com todo o trabalho no projeto, a minha vida social ficou um pouco comprometida, mas os meus amigos me apoiam e entendem isso. E continuam meus amigos.

Depois da vitória no prêmio da Intel você foi contatado por algum interessado em produzir e vender o seu teste?
Sim, já fui contatado por sete empresas de biotecnologia interessadas em produzir o teste. Estou aguardando a conclusão do processo de patente, ainda não decidi que direção quero tomar.

Além do câncer, quais outras áreas você ainda gostaria de pesquisar?
Eu definitivamente gosto de Biologia, mas também tenho interesses em Física e Química. Então venho tentando combinar essas três coisas nos meus próximos projetos.

Já pensou sobre a faculdade? O que pretende cursar e onde deseja estudar?
Hum…não tenho a mínima ideia de onde ou o que vou estudar. Há tantas opções hoje em dia e tanta gente com diploma. Não sei se quero seguir esse caminho.

O seu histórico e a sua mais recente invenção geraram uma grande expectativa em torno da sua performance no concurso do próximo ano. Como você lida com isso?
Acho que será um novo desafio. Quero participar do concurso do ano que vem e pretendo me divertir com isso. Só quero seguir pesquisando.

 Leoleli Camargo do iG

‘A pirataria online pode minar a produção do conhecimento’ – por roberto feith

Diretor da Objetiva diz que seu maior arrependimento foi deixar passar a edição de ‘Harry Potter’

24 de agosto de 2012 | 19h 30

Não, não é porque diz sentir falta da “adrenalina da TV” que o ex-repórter carioca Roberto Feith, diretor-geral da Objetiva, uma das maiores editoras de livros do País, pode ser considerado ainda jornalista, a despeito dos mais de 20 anos que deixou a profissão. Ex-correspondente da TV Globo na Europa e ex-editor chefe do Globo Repórter, Feith aceitou em 1991 a proposta de dois conhecidos e comprou 60% de uma editora inexpressiva – ela mesma, a Objetiva. Àquela altura, tocava uma produtora, a Metavídeo, após ter estado com Walter Salles na Intervídeo, que fazia trabalhos para a extinta TV Manchete. Não entendia nada de editora, mas como bom repórter diante de um furo em potencial, decidiu arriscar – seguindo critérios jornalísticos.

 

Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz - Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE
Viés jornalístico foi fundamental na trajetória da editora, diz

Começou mal. Apostou numa biografia de Boris Ieltsin – política internacional era sua especialidade -, que resultou num enorme fracasso. Aos poucos, porém, foi ajustando o foco. “Como correspondente e depois noGlobo Repórter, exercitei muito a função do editor e o trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para contar determinada história. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, em função dessas características”, diz ele na entrevista a seguir. Confortavelmente instalado num hotel da região da Avenida Paulista, Feith conversou com uma equipe do Estado: Rinaldo Gama, editor do Sabático; os repórteres Antonio Gonçalves Filho e Maria Fernanda Rodrigues, e Ubiratan Brasil, editor do Caderno 2.

Por três horas, seu raciocínio cristalino e a fala assertiva – educada pelos sinais elétricos dos microfones e uma longa convivência com a escrita – atravessaram um largo espectro de temas ligados ao livro: o dia a dia do processo editorial, os erros (Harry Porter lhe foi oferecido com insistência e ele deixou passar), os acertos (Inteligência Emocional, que vendeu meio milhão de exemplares), pirataria online (“o Google e o Yahoo são ‘sócios’ do Megaupload”, alfineta), o futuro do e-book no Brasil e da própria literatura brasileira, para o qual, aliás, ele acenou publicando novos talentos em um número especial da revistaGranta. Aos 60 anos, Roberto Feith não é mais majoritário na Objetiva: em 2005, vendeu 76% da empresa para a Santillana, que participou da criação do prestigioso jornal espanholEl País. Sim – mesmo sem a adrenalina da TV, Feith, de certo modo, está em casa.

Que interesse o senhor tinha no mercado editorial para entrar de sócio na Objetiva?

Um dos projetos importantes que fizemos na Metavídeo foi uma série de seis documentários sobre a história do cinema no Brasil. Produzimos tanto, que uma grande parte desse material fotográfico e de entrevista ficou inédito. Então, surgiu a ideia de fazer um livro usando esse conteúdo. A Nova Fronteira coeditou. Lá, o Alfredo Gonçalves e o Armando Campos tocaram o projeto comigo. Passou-se um tempo e nunca mais os vi, mas soube que seis meses depois eles saíram para criar uma editora, com o apoio de um investidor. A editora não conseguiu evoluir. Anos depois, esse sócio saiu e eles me procuraram. Foi assim que eu entrei no negócio. O meu sonho profissional era ser jornalista de imprensa escrita; entrei para a TV por mero acaso. Mas sempre fui um leitor voraz, rato de livraria. Minha mulher foi a única pessoa que me incentivou a investir numa editora. Todo mundo me dizia que eu estava maluco, que televisão era o veículo de maior poderio e projeção no Brasil, que aqui ninguém lê. Depois que entrei, continuei anos com a produtora enquanto tentava entender como funcionava o mercado e uma editora. (Gonçalves deixou a editora em 2004 e Campos, em 2006)

Quando o senhor fez o negócio, tinha um modelo de editor na cabeça?

Não. E não tinha por ignorância.

Alguma linha editoria em mente?

Hoje poderia falar sobre isso de um modo mais coerente. Na época, foi uma mistura de oportunidades que surgiam aleatoriamente com as minhas experiências pessoais. Eu me lembro de contratar direitos de tradução de muitos títulos sobre política internacional, um grave equívoco, nenhum deles vendeu nada. Era o assunto que eu conhecia e gostava. Um dos primeiros livros que compramos foi uma biografia do Boris Yeltsin. Imagine se alguém ia ler um livro do Yeltsin! Aprendi isso a duras penas. E o outro tipo de livro que a gente acabou trabalhando foram aqueles que surgiram por circunstâncias aleatórias. O Lair Ribeiro é um bom exemplo disso. Não me lembro como apareceu a oportunidade, mas aproveitamos e ele foi nosso primeiro best-seller.

Qual sua participação ao entrar na editora?

Se não me engano comprei 60% da empresa em 1991. O que veio a ser um investimento mais substantivo não foi a compra das cotas, mas sim a tentativa de fazer a editora decolar.

Quanto pagou?

Não tenho a menor ideia. Mas foi pouco. Talvez o valor de um carro usado.

Muitos editores dizem que publicam best-sellers para ter recursos que possibilitem vencer o leilão de um título de qualidade literária indiscutível. Essa também foi a estratégia da Objetiva a partir de sua entrada?

Havia a ideia de que publicando autores comercialmente potentes teríamos condições de desenvolver a editora na linha de um projeto mais consistente.

Ainda sobre best-sellers, o senhor criou a Plenos Pecados, uma série com autores de prestígio escrevendo a respeito de temas mais palatáveis. Como é a reação de autores consagrados quando se oferece a eles a oportunidade de escrever um livro para uma série como essa?

Uma das razões de montar esse projeto era atrair autores de renome para uma editora ainda sem grande visibilidade ou uma trajetória consolidada. Fiz o projeto com Isa Pessoa, que trabalhava na editora. Levou quase um ano para fecharmos a lista dos sete autores. Convidamos o Mario Vargas Llosa, e ele disse que escreveria contanto que fosse sobre a luxúria. Mas a luxúria já estava tomada pelo João Ubaldo. A coleção deu certo, trouxe autores de grande qualidade e sucesso comercial, e pudemos começar a montar a editora que sonhávamos.

E qual era essa editora?

Como disse antes, eu não tinha um modelo de editora – nem mesmo considerando as estrangeiras. Se olharmos a trajetória da Objetiva, veremos que ela não é igual a nenhuma outra. Acho que é um pouco pela experiência de vida das pessoas da equipe – havia muito o viés jornalístico.

De que modo ter atuado como jornalista contribui para o trabalho da editora?

Como repórter e correspondente internacional e depois no Globo Repórter, exercitei muito a função do editor e do trabalho em equipe. Nessas tarefas, você está sempre buscando uma abordagem original para um determinado tema, procurando como contar determinada história. Às vezes, você vê um assunto que tem consistência, que tem interesse ou relevância, mas precisa encontrar uma outra maneira de tratá-lo. E o trabalho do editor de livro, principalmente do livro de não ficção, é muito próximo disso; as aptidões e os talentos são muito parecidos. A Objetiva evoluiu, principalmente na área da não ficção, ou a da ficção dirigida, encomendada, em função dessas características.

O modelo do publisher americano parece que vingou no Brasil – e o europeu ficou um pouco esquecido. Filho de americano, o senhor acabou unindo as duas pontas: o pragmatismo de um publisher dos EUA, atento à performance de vendas, e uma visão europeia, marcada mais pela vontade de publicar qualidade literária, independentemente dos resultados financeiros. Como se deu isso?

Ser filho de americano não teve, na prática, nenhuma influência. Como mencionei, acredito que a vivência que mais marcou meu papel na editora foi a jornalística. Acho que há pessoas que tocam editoras lendo e editando e outras não. Sou editor-geral de uma editora que faz as duas coisas. Desde o início.

Sua editora cresceu muito. O senhor ainda consegue estar em todas as frentes?

Conciliar tudo tem sido um exercício. A palavra publisher evoca uma pessoa que não edita. Não me sinto totalmente encaixado nesse conceito porque não é bem esse o meu cotidiano. Continuo avaliando manuscritos, vou a feiras, converso com os agentes.

O senhor edita algum autor que não vende, mas dá prestígio ao catálogo da editora?

Naturalmente. Prestígio, prazer de publicar. Mas essa não é uma decisão puramente romântica, porque poder publicar grandes autores, ainda que comercialmente não sejam tão bem-sucedidos, é uma forma de você qualificar o selo e atrair outros escritores. Tem outro componente relevante no universo editorial brasileiro: esses grandes autores podem não vender muito, mas periodicamente são adotados num vestibular ou entram numa compra pública. Lobo Antunes é um exemplo disso. Os Cus de Judas foi um livro dele que vendeu mais de 20 mil exemplares por causa de um vestibular.

Qual foi o seu maior sucesso de vendas?

Comédias Para se Ler na Escola, do Verissimo. Mais de 1 milhão de exemplares.

Quando seguiu sua intuição na hora de adquirir um livro, qual foi seu maior equívoco e o maior êxito?

O maior equívoco é fácil. Tessie Barham, hoje uma importante agente literária, nos ajudava na avaliação de textos. Naquela época, ela ainda estava tateando e me propôs uma série juvenil maravilhosa, a Fronteiras do Universo, de Philip Pullman. Compramos, investimos pesado em marketing, e nada aconteceu. Paradoxalmente, anos depois vendeu mais de 100 mil exemplares.

E o arrependimento?

Foi nos anos 90. Um dia, Tessie me mandou um e-mail assim: “Roberto, tem aqui outro livro juvenil para você comprar. Muito bom, você tem de comprar. Chama-se Harry Potter.” E eu: “Olha, Tessie, me desculpe, mas não vou comprar.” Ela ficava mandando e-mail dizendo que eu iria me arrepender. E eu: “Tessie, lembra o que aconteceu com o Pullman?” Bem, ela estava certa, claro; eu me arrependi amargamente. Errei e continuo errando. Mas se o editor ficar desanimado quando errar, ele vai mudar de profissão.

Algum outro acerto?

Nessa linha um pouco anedótica da intuição e do imponderável, comprei os direitos de um livro que vendeu maravilhosamente bem (meio milhão de exemplares), que foi oInteligência Emocional, do Daniel Goleman. Li o informe do nosso scout e intuitivamente achei aquilo muito forte. Entrei no leilão em Frankfurt, suei, mas consegui.

Os grandes livros não são mais vendidos em Frankfurt, são? Perdeu-se um pouco do frenesi dos leilões?

Hoje, os agentes literários e as editoras que têm uma grande oferta de direitos autorais para tradução, deliberadamente, esperam até a véspera da feira para distribuir alguns de seus títulos mais potentes, porque eles compreendem que a dinâmica da pré-feira leva a uma disputa mais acirrada pelos editores de cada país por aqueles direitos.

Os brasileiros estão pagando valores irreais nos leilões?

Houve num passado recente e continua havendo uma exuberância irracional, para tomar emprestada uma expressão do Alan Greenspan, em relação à compra de direitos de tradução. Adquirir um livro que exija torná-lo um mega best-seller para recuperar esse investimento é um exercício perigoso. Isso é realidade e tem a ver com o aumento da concorrência.

Enquanto as grandes editoras criam selos para organizar melhor o catálogo, as de menor porte têm se especializado em determinado segmento. Isso terá lugar no futuro ou acha que as pequenas serão incorporadas por grandes grupos?

Sempre houve e haverá espaço para pequenas editoras focadas em determinados nichos. Isso não é novo. Novo são editoras importantes buscando diversidade de linhas de atuação criando novos selos, de uma forma semelhante ao que adotamos há cinco anos. Isso está acontecendo de forma sistemática. A tendência é que nenhuma editora se limite a atuar só num gênero.

O que leva a isso?

Hoje, a diversidade é um bem em si no mercado editorial, dado o grau de competição visto na última década.

No início do ano, o senhor escreveu um artigo investindo contra a campanha das gigantes da internet contra a lei antipirataria. Como vê o futuro do mercado digital, as leis antipirataria?

Fico feliz que tenham levantado esse assunto, que é importante. Vivemos a era do conhecimento. A produção do conhecimento é fundamental para o avanço de qualquer país. E esse tipo de produção tem de ser incentivada, e não minada. As empresas, ou pessoas, que defendem a pirataria online, ou a cópia irrestrita online, estão minando a produção do conhecimento nos seus respectivos países. Da mesma forma que não existe o milagre da multiplicação dos peixes, não existe o milagre da multiplicação do conhecimento. Sua produção exige formação, trabalho, investimento, e tudo isso tem de ser remunerado. Ninguém imagina que uma pessoa possa entrar numa livraria, pegar uma dúzia de livros e sair sem pagar. Mas algumas pessoas argumentam que na internet você pode e deve fazer isso.

A Objetiva sofre com a pirataria?

O Sindicato Nacional de Editores apoia um grupo de trabalho que identifica a oferta de conteúdo ilegal e pirata online. Em maio, no caso da Objetiva, havia 1.600 títulos oferecidos ilegalmente – 90% em um só site, o Fourshared. Esse site americano está ganhando dinheiro com escritores que publicamos, e alguns deles são brasileiros. Para isso as pessoas não atentam. O Fourshared e o Megaupload não têm estrutura para vender publicidade pelos quatro cantos. Eles usam estruturas criadas para esse fim por grandes corporações da internet, como o Google e o Yahoo. Então, o Google e o Yahoo são “sócios” do Megaupload e, indiretamente, se apropriam de obras dos escritores brasileiros para faturar milhões de dólares. E faturam literalmente milhões de dólares. Assim, quando uma grande corporação da web defende a pirataria na internet, argumentando que é uma questão de liberdade de expressão, estamos diante do mais puro oportunismo e demagogia. É preciso que a sociedade se conscientize, porque se a pirataria for consolidada como prática na web, a produção de conhecimento vai atrofiar aqui, e o brasileiro será obrigado a consumir conhecimento produzido nos países onde essa atividade é estimulada.

No momento em que o e-book se difundir efetivamente, o que o livro impresso precisará ter para não perder vendas?

O e-book é coisa do futuro e será uma coisa do presente. Mas eu não vejo o livro físico sendo a parte menor do mercado. Não vejo o digital ocupando a maior parte do mercado brasileiro no horizonte de uma década.

A Objetiva tem uma equipe focada na questão do livro digital?

Não, acho isso um erro. Todos têm de entender do digital para fazer seu trabalho. Mas uma das coisas que fiz tendo em vista essa transformação foi propor a criação da Distribuidora de Livros Digitais, que toma grande parte do meu tempo e tem como sócias as editoras Objetiva, Record, Sextante, Rocco, Planeta, L&PM e Novo Conceito.

Por que uma distribuidora?

Quando formamos a DLD, pretendíamos participar da definição de como o livro digital iria se consolidar e se implantar no Brasil. Essa preocupação se traduz em três objetivos. Primeiro, trazer para o consumidor brasileiro o que existe de melhor no exterior, em termos de experiência de consumo de livro digital, sem que isso signifique que empresas vindas de fora tenham condições de concorrência, no relacionamento com as editoras, superiores àquelas disputadas pelas empresas brasileiras que atuam no entorno digital. Segundo, garantir uma oferta diversificada e ampla de conteúdo. E terceiro, trabalhar com preços que sejam atraentes para o consumidor, mais baratos que o livro impresso, mas que remunerem o trabalho do escritor, da editora e da livraria.

De quanto é o desconto da DLD?

Nosso e-book tende a ser de 30% a 40% mais barato que o livro impresso; em julho, o preço médio do livro vendido pela DLD foi de cerca de R$ 16. Ou seja, menos que US$ 9.

Como estão as negociações com as empresas estrangeiras que querem atuar no País?

Estamos conversando com cinco empresas e muito perto de fechar acordos – acho que até o fim do ano teremos novidades. Para que o livro digital dê corda no Brasil, precisamos de três coisas: dispositivos de leitura bons e baratos, livrarias virtuais com facilidade de uso e oferta ampla e diversificada de títulos pelas editoras. A conclusão desse tripé é que teremos, ainda este ano, dispositivos de leitura lançados aqui, de primeira geração, a preços acessíveis. Penso que teremos o primeiro Natal digital.

Quais são as cinco estrangeiras que estão negociando para atuar aqui?

Amazon, Apple, Google, Kobo e nós, na Objetiva, estamos negociando com a Barnes & Noble, mas não para o Brasil.

Falamos em concorrência, em e-book, mas existe também a questão da territorialidade. Até pouco tempo atrás, era possível comprar um e-book de um autor português editado no Brasil pela Alfaguara diretamente da editora portuguesa desse autor.

Você está se referindo a um livro de António Lobo Antunes. Foi uma falha da editora portuguesa, já foi sanada. Isso se chama territorialidade. Hoje, quando você faz o upload de um título, tem de indicar para que países tem os direitos de venda.

Como fazer para que as pessoas leiam independentemente de obrigações escolares ou profissionais? Há, de modo recorrente, a queixa de que o livro no Brasil é caro.

O Snel e a Câmara Brasileira do Livro vêm contratando pesquisa de mercado há mais de uma década, que é feita pela Fipe. A última pesquisa, de 2011, identificou que no setor de obras gerais o número de lançamentos aumentou 8,6%, o número de exemplares vendidos aumentou 0,2%, e o faturamento, em reais, caiu 11%. Se considerar o acumulado de 2004 até 2011, em obras gerais, em valores nominais, a queda no preço médio foi de 26%. Em valores reais, compensados a inflação, 45% de redução. Eu pergunto: que outro produto teve uma queda de 45% no seu preço médio, real, nos últimos sete anos?

Por que o preço caiu?

Competição, competição. Há outros fatores: Avon, com vendas de porta em porta, os selos de bolso, a desoneração, no caso de livros de obras gerais.

Essa queda está chegando ao limite?

Sim. A criatividade dos editores está sendo cada vez mais exigida. Acredito que as margens têm sido comprimidas por esses processos. O que aconteceu de 2007 para 2011 não pode se repetir. A tendência é desacelerar, mas não posso afirmar que não haverá mais uma queda de preço.

A Alfaguara Brasil lançou recentemente uma edição da Granta com novos talentos do País. Essa seleção consolidou alguns autores que, nos últimos anos, começaram a se posicionar como promessas. O que sua editora, dentro ou não da Granta, faz para descobrir, de fato, novos valores na ficção?

A maioria das editoras que publicam ficção está sempre louca para encontrar jovens talentos. Eu sei que muita gente comenta que é difícil conseguir ser publicado, mas é difícil encontrar talento também. Temos conseguido atrair grandes autores da literatura brasileira, nomes como João Ubaldo, João Cabral de Melo Neto, e agora o Mário Quintana. Mas fiquei preocupado que o selo se tornasse clássico demais, com pouca vitalidade e criatividade. Por isso, temos feito grande esforço para encontrar e trazer jovens autores. Hoje em dia, temos quatro ou cinco novos escritores com muito potencial. Laura Erber é uma jovem que tem muito a dizer, domina a técnica da escrita. O Ricardo Lísias nem se fala, ele é completamente original, uma coisa difícil de encontrar.

Fazer uma seleção como a da Granta é uma experiência de risco.

Sim, dá dor de cabeça. Mas olhando em retrospecto, posso dizer que deu tudo certo. Estávamos preocupados. Quando anunciamos o projeto, não sabíamos se seria bem-sucedido. Era efetivamente um risco. A primeira coisa que nos tranquilizou foi a quantidade e a qualidade de textos submetidos. Depois, conseguimos montar um grupo de jurados de inegável qualidade e qualificação. O resultado da revista foi muito bom. Há desigualdades, diversidade. Alguns textos são melhores que os outros e nunca tive expectativa de achar que os 20 seriam extraordinários, isso não acontece em coletânea nenhuma. O resultado tem quantidade suficiente – na minha opinião pessoal – de escritores de talento para que se possa dizer: está justificado o esforço.

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Rinaldo Gama, Antonio Gonçalves Filho, Maria Fernanda Rodrigues e Ubiratan Brasil – O Estado de S. Paulo

EX-PRESIDENTE Getúlio Dornelles Vargas : 24/08/2012 aniversário de morte / rio dejaneiro.rj

19/4/1882 – São Borja, Rio Grande do Sul
24/8/1954 – Rio de Janeiro, RJ

Palácio do Planalto 

Getúlio Dornelles Vargas nasceu no dia 19 de abril de 1882, em São Borja, no Rio Grande do Sul. Alterou o ano de seu nascimento para 1883 por razões desconhecidas. O fato foi descoberto somente no ano do centenário de seu nascimento, quando a igreja onde havia sido registrado divulgou sua certidão verdadeira. A falsificação descoberta por estudiosos constava do atestado militar apresentado por ele à Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Ingressou na política em 1909, como deputado estadual pelo PRP (Partido Republicano Rio-Grandense). De 1922 a 1926, cumpriu o mandato de deputado federal. Ministro da Fazenda do governo Washington Luís, deixou o cargo em 1928, quando foi eleito para governar seu Estado. Foi o comandante da Revolução de 1930, que derrubou o então presidente Washington Luís.

Ocupou a presidência nos 15 anos seguintes e adotou uma política nacionalista. Em 1934, promulgou uma nova Constituição. Em 1937, fechou o Congresso, prescreveu todos os partidos, outorgou uma Constituição, instalou o Estado Novo e governou com poderes ditatoriais. Nesse período, adotou forte centralização política e atuação do Estado.

Na área trabalhista, criou a Justiça do Trabalho (1930), o Ministério da Justiça e o salário mínimo (1940), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) (1943), a carteira profissional, a semana de 48 horas de trabalho e as férias remuneradas. Na área estatal, criou a Companhia Siderúrgica Nacional (1940), a Vale do Rio Doce (1942), a Hidrelétrica do Vale do São Francisco (1945) e entidades como o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1938). Foi derrubado pelos militares em 1945.

Voltou à presidência na eleição de 1950, eleito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), que ajudou a fundar. No último mandato, criou a Petrobrás. O envolvimento do chefe de sua guarda pessoal no atentado contra o jornalista Carlos Lacerda levou as Forças Armadas a exigir sua renúncia no último ano do mandato.

Suicidou-se em meio à crise política, com um tiro no peito, na madrugada de 24 de agosto de 1954, dentro do Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, deixando uma carta-testamento em que apontava os inimigos da nação como responsáveis por seu suicídio.

Impressionistas no Centro Cultural do Banco do Brasil / são Paulo.sp

DE 04 de agosto a o7 de outubro de 2012.   ENTRADA FRANCA.

De Terça a Domingo das 10:00 as 22:00

4 Andar – Paris é uma Festa – Paris Cidade Moderna

James Tissot – Noite ou O Baile

Andre Devambez – Concerto Colonne

Felix Vallotton – Terceira Galeria do Teatro Chatelet

Johan Bartold Jongkind – Sena e Notre Dame

Monet – Os Carvoeiros

Monet – A Garçonete e as Cervejas

Gauguin – Tempo de Neve

Albert Andre – Sacre Coeur Visto do Atelier do Artista

Santiago Rusiñol y Prats – Sacre Coeur em Construção

Stanislas Lépine – Rue Saint Vincent em Montmartre

James Wilson Morrice – Quai des Grands Augustins

Maximilian Luce – O Cais Saint Michel e Notre Dame

Pissarro – O Sena e o Louvre

Giovanni Boldini – O Conde Rubens de Montesquiou

Giovanni Boldini – Moulin Rouge

Degas – Dançarinas Subindo Escadas

3 andar A Vida Parisiense e seus Atores. Paris Cidade Moderna.

Henri Ottman – Estação de Luxemburgo em Bruxelas

Monet – Gare Saint Lazare

Monet – Tuilleries

Toulouse Lautrec – Mulher com Boa Preto

Toulouse Lautrec – Mulher de Luvas Brancas

Louis Anquetin – Mulher na Rua

Renoir – Gabrielle et Jean

Renoir – Mulher com Jabô Branco

Charles Angrand – Casal na Rua

Jean Beraud – A Espera

Theophile Steinlen – A Rajada de Vento

George Garen – Iluminação da Torre Eiffel

Louis Welden Hawkins – A Torre Eiffel

2 andar – A Vida Parisiense e seus Atores. Fugir da Cidade.

Renoir – Retrato da sra Georges Hartmann

Renoir – Retrato de Ferdinand Halphern

Renoir – Moças ao Piano

Renoir – Paisagem Argelina

Renoir – A Porta da Estrada de Ferro em Chatou

Renoir – Sra Darras

Pissarro – Jovem Camponesa Fazendo Fogo

Pissarro – Centro de Jardim no Hermitage

Pissarro – Estrada de Ennery

Pissarro – Os Telhados Vermelhos,Recanto de Aldeia,Efeito de Neve.

Pissarro – A Colheita

Seurat – O O Pequeno Camponês de Azul

Monet – O Lago das Ninféias

Monet – Igreja de Vetheuil

Monet – Regatas em Argenteuil

Monet – Argenteuil

Monet – O Tocador de Pífaro

Sisley – Sob a Neve

Sisley – Caminho da Máquina em Louveciennes

Frederic  Bazille – O Vestido Rosa

Frederic Bazille – Floresta de Fontainebleau

Paul Guigou – Lavadeira

Theodore Rousseau – A Manhã

Camile Corot – A Charrete – Lembrança de Marcoussis

Charles-François Daubigny – Colheita

Cézanne – Retrato do Artista com Fundo Rosa

Carolus-Duran – Retrato de Manet

Leon Bonnat – Autorretrato

Courbet – Homem do Cinto de Couro

Berthe Morisot  ( A Única Pintora ) – O Berço

Alfred Stevens – O Banho

Henri Fantin Latour –  A Família Dubourg

Sub Solo

 

Pierre Bonnard – Sob a Lâmpada

Maurice Denis – Noite de Setembro

Maurice Denis – O Minueto d Princesa Maleine

Maurice Denis – A Criança de Calça Azul

Ker-Xavier Roussel – O Terraço

Edouard Vuillard – O Armário de Roupas Brancas

Edouard Vuillard – Depois da Refeição

Edouard Vuillard – Depois da Refeição

Edouard Vuillard – Na Casa de Maurice Denis

Edouard Vuillard – O Café da Manhã

Gauguin – Camponesas Bretãs

Gauguin – As Medas Amarelas

Gauguin – Les Alyscamps

Paul Serusier – A Barreira Florida

Emile Bernard – As Bretãs de Guarda Chuva

Rene Seyssaud –  As Oliveiras

Cézanne – Rochedos Perto das Grutas Acima de Chateau Noir

Cézanne – Natureza Morta com Sopeira

Van Gogh – O Salão de Dança em Arles

Adolphe Monticelli – Natureza Morta com Jarro Branco

Courbet – Ramo de Macieira em Flor

Manet –  Hastes de Peônia e Tesoura de Poda

Henri Fantin Latour –  Rosas em um Vaso

Paul Sérusier – Natureza Morta – O Atelier do Artista

Paul Signac – O Castelo dos Papas

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Colaboração de OMAR DE LA ROCA/sp

Dilma é a 3ª mais poderosa em ranking da revista Forbes / reuters.eua

Presidente é capa da edição de publicação e é mencionada em lista pela segunda vez consecutiva; chanceler alemã, Angela Merkel ficou em primeiro

22 de agosto de 2012 | 12h 03
Reuters

A revista Forbes colocou a presidente Dilma Rousseff em 3º lugar, pelo segundo ano consecutivo, em seu ranking anual das mulheres mais poderosa do mundo, que tem novamente a chanceler alemã, Angela Merkel, na liderança da lista dominada por políticas, empresárias e personalidades da mídia. A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, ficou em 2º lugar, numa repetição das três primeiras colocadas do ano passado. A presidente ainda estampou a capa da publicação.

Veja também:
link O ranking completo da Forbes

 

A lista elencou mulheres envolvidas na política, entretenimento, tecnologia e organizações sem fins lucrativos, entre outros campos. Elas foram classificadas de acordo com influência, quantidade de dinheiro que controla ou ganha, e presença na mídia.

“Essas mulheres de poder exercem influência de formas muito diferentes e para fins muito diferentes, e todas com impactos muito diferentes sobre a comunidade global”, disse a presidente e editora da ForbesWoman, Moira Forbes.

A revista mencionou Dilma por sua liderança à frente do governo brasileiro e pelos índices de aprovação dentro do País.

A chanceler alemã (primeira-ministra) Merkel foi citada pela Forbes por sua firmeza em preservar a União Europeia e sua influência sobre a crise da dívida da zona do euro.

Hillary foi aplaudida pela forma como lidou com crises, como a divulgação de uma série de telegramas diplomáticos secretos dos Estados Unido pelo site WikiLeaks.

A média de idade das 100 mulheres mais poderosas do mundo segundo a revista, que são de 28 países, foi de 55 anos. Somadas, elas tinham 90 milhões de seguidores no Twitter, disse a Forbes.

Também estão entre os cinco primeiros lugares Melinda Gates, co-presidente da Fundação Bill & Melinda Gates e esposa de Bill Gates, cofundador da Microsoft, e Jill Abramson, editora-executiva do New York Times.

Sonia Gandhi, presidente do Congresso Nacional Indiano, ficou em 6o lugar. A primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, que liderou a lista em 2010, ficou em 7º.

A lista contou com recém-chegadas como a atriz e cantora Jennifer Lopez e Laurene Powell Jobs, viúva do fundador da Apple, Steve Jobs.

Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, ficou em 8º. A ex-ministra francesa está na lista desde sua primeira edição, em 2004.

ANA DECKER e o QUINTETO NOVO convidam: WONKA BAR em CURITIBA

A-gosto – de paulo timm / portugal.pt

A –   gosto

                                               

 

 

Na tarde quente e seca deste agosto

No desgosto das incansáveis folhas desprendidas

Procuro em vão a meada do meu verso tosco

Na macarronada  fria das manchetes estendidas

 

Para algo servem os noticiários…

 

De repente ,descubro que, vivos , mesmo com seus vícios,

Drummond centenário

Nelson Rodrigues, 92 anos ,legendário,

Estariam , festivos, um de cada lado , celebrando a vida

 

Para algo servem os aniversários…

 

Drummond, esguio, esquivo , mineiro, à esgueira

Falaria de sua infância em Itabira, em oposição à máquina do mundo

Palmilhando o passo entre o cotidiano monótono dos Raimundos

E uma eternidade metafísica sem eira nem beira.

Para que serve mesmo a poesia…?

Nelson, cosmopolita assumido, destemido

Faria o contraponto da especulação na ruína do baixo ventre da cidade.

Profetizaria mazelas escorregadias da subjetividade

Com fé cínica no fato consumido

 

A vida serve para quem dela se serve.

O Grande Poeta, tímido e envergonhado de sua humana condição,

Pagando em imortal melodia a penitência pelo só existir

O Grande Cronista , desavergonhado e acima de qualquer servidão,

Num só afã de mostrar a vida, simplesmente, como ela é, no seu devir .

Ambos universais..

Senhores da nossa língua.

Da nossa alma.

                              Sirvam-se, por favor!

.

               (Paulo Timm,Olhos d Agua, GO 7/ago/2002)

Islândia: agora, o julgamento do neoliberalismo – editoria

Processo não se limita a dirigentes que submeteram país à ditadura dos mercados. Procura alternativas para que fato nunca se repita. Cada passo é acompanhado pela população, via internet.

Durante o governo de coligação direitista e social democrata de Geir
Haarde, os bancos faliram, a economia entrou em colapso. Mais do que
julgar o homem que à frente do governo não conseguiu evitar a
dramática situação no pequeno país, os juízes tentam apurar o que se
passou e as circunstâncias que provocaram a crise. O tribunal
considera que não é possível responsabilizar unicamente o ex-primeiro
ministro pelo que se passou.

Da sua acusação constam o fato de não ter feito nada para evitar a
debandada dos estabelecimentos financeiros, de não ter feito com que o
banco online Icesave tivesse o estatuto de filial britânica, o que
teria permitido transferir o problema da falência para Londres e
evitado ao país a realização de dois referendos e a decisão dos
islandeses de se recusarem a pagar por dívidas que não são suas. Este
problema está atualmente no Tribunal Europeu de Justiça.

Juízes e cerca de 60 testemunhas têm refletido durante o julgamento –
que não é transmitido ao vivo pela TV mas que está sendo seguido por
milhares de islandeses através da internet – sobre as causas de uma
situação que não surgiu em 2008 por geração espontânea mas sim pela
deriva neoliberal a que o governo sujeitou o país.

Em causa estão, principalmente, a privatização das quotas de pesca que
proporcionou aos armadores fortunas incalculáveis, um investimento em
cascata no estrangeiro, quase sempre com maus resultados, uma
privatização desastrosa dos bancos feita frequentemente segundo
métodos corruptos e de clientelismo. A este processo seguiu-se uma
onda de concessão de créditos bancários sem critérios nem garantias
proporcionando, à escala do país, problemas semelhantes aos que se
registaram nos Estados Unidos com a bolha imobiliária e o subprime.

Nesta fase, os bancos concederam um volume global de crédito que
superou em 11 vezes o PIB islandês; quando o primeiro ministro
decretou a sua falência era impossível salvá-los. Além disso, os
islandeses não o permitiram e recusaram-se a assumir as dívidas
alheias.

A resposta dos islandeses à crise não alinhou pelos caminhos impostos
pela União Europeia aos Estados membros, pelo que hoje a Islândia,
apesar de sofrer os efeitos de uma forte austeridade econômica e de
uma acentuada quebra no consumo, conseguiu salvaguardar o Estado
social, o desemprego está em sete por cento e as entidades patronais
não foram além de limitar o trabalho extraordinário para conseguirem
evitar os despedimentos.

Geir Haarde, político direitista e considerado um fundamentalista
neoliberal, tem 64 anos e abandonou a carreira política. Incorre numa
pena de dois anos de prisão. Mais do que um chefe de governo incapaz
de dirigir o país – é a acusação a que corresponderá a pena que vier a
ser aplicada – no banco dos réus está a política neoliberal.

O mestre e os aprendizes do terror ( herança da ditadura militar) – por luiz claudio cunha / rio de janeiro.rj

O mestre e os aprendizes do terror

O grupo de jovens corria pelas ruas do bairro carioca da Tijuca, em marcha sincronizada, cantando: “Bate, espanca/ Quebra os ossos/ Bate até morrer”. O chefe do bando perguntava: “E a cabeça?”.

A resposta vinha em coro: “Arranca a cabeça e joga no mar!”. O chefe, de novo: “E quem faz isso?”. A resposta afinada não deixava dúvidas: “É o Esquadrão Caveira!”.

A história foi revelada, em julho, pelo colunista Ilimar Franco, de O Globo. Não era um bando de marginais descendo o morro. Era um animado pelotão do I Batalhão da Polícia do Exército berrando a plenos pulmões o ideário truculento que devem ter contraído em seu local de trabalho.

Como lembrou o advogado Wadih Damous, presidente da OAB do Rio de Janeiro, a malta de potenciais assassinos serve no mesmo quartel da rua Barão de Mesquita, 425, no Andaraí, onde operou na década de 70 o notório DOI-CODI do I Exército, um dos maiores centros de tortura do regime militar.

Só a memória insana da ditadura pode explicar o treinamento idiota aplicado aos recrutas do batalhão marcado pelo estigma da violência. E só o paraíso da impunidade pode explicar a falta de indignação dos comandantes que admitem e se omitem diante de uma demonstração pública de desrespeito ao ser humano.

Nada estranho para comandantes militares que, num documento enviado no final de 2010 ao então ministro da Defesa, Nelson Jobim, reclamavam contra a criação da Comissão Nacional da Verdade, alegando que, afinal, “passaram-se quase 30 anos do fim do chamado governo militar…”

Os chefes das Forças Armadas que impuseram uma ditadura de 21 anos ao país, fechando o Parlamento, censurando, cassando, prendendo, torturando e matando dissidentes políticos, ainda têm dúvidas se tudo aquilo pode ser chamado de “governo militar”.

É por isso que garotos saudáveis da tropa ainda hoje fazem exercício físico na rua ecoando sua explícita disposição de espancar, quebrar os ossos, bater até morrer, arrancar a cabeça e jogar no mar…

Em julho do ano passado, o site SUL21 revelou uma descoberta da Associação Nacional de História (Anpuh): os alunos das escolas militares do país continuam ensinando aos recrutas que o golpe de 1964 que derrubou o governo constitucional de João Goulart foi “uma revolução democrática”.

O disparate está publicado no livro História do Brasil: Império de República, de Aldo Fernandes, Maurício Soares e Neide Annarumma, aplicado no 7º ano do Ensino Fundamental das escolas militares. Um mês depois, a Anpuh perguntou ao ministro Jobim: “Que cidadãos estão sendo formados por uma literatura que justifica, legitima e esconde o arbítrio, a tortura e a violência?”.

Só no início de 2011, já no governo de Dilma Rousseff, o Comando do Exército respondeu, dizendo que o livro “atende adequadamente às necessidades do ensino da História”. É bom lembrar que, 30 anos atrás, o Colégio Militar de Brasília admitiu no seu corpo docente o coronel Wilson Machado.

Meses antes, em abril de 1981, ele sobrevivera à bomba do frustrado atentado ao Riocentro. O futuro educador de Brasília, então capitão, era o terrorista de Estado que carregava a bomba que explodiu antes da hora no seu Puma, matando na hora seu comparsa, o sargento Guilherme Rosário.

O capitão Machado, como o sargento, servia no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita.

É o mesmo quartel da gurizada que hoje ecoa a lição do camarada terrorista que virou professor.

Todos eles, mestres e aprendizes, seguem intocáveis na marcha sincronizada da impunidade.

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Luiz Cláudio Cunha é jornalista
cunha.luizclaudio@gmail.com

COMPANHIA – de joanna andrade / boca raton.miami.eua

Viajo milhas em tua história só para não te deixar só

Tento seguir à risca o teu percurso para não te perder de vista

Fico para tràs em teu tempo que não consigo alcançar

Olho de longe meu amor por ti se dissipar nesse espaço etéreo

Em tua demência

Em tuas abstinências forçadas pelo acaso corroído da vida

Em tua liberdade enclausurada em ti mesmo

Bicho em semente sedada o qual tece em babas o único fio terra

Olhos estacados como divisória

tu em outro lugar

eu para cá contigo só

o afago

lavado em lágrimas

o olhar

na busca da alma

o adeus

a cada suspiro meu

o amor

no sorriso pela metade

na memória

 

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JA/2010 ( Campo Mourão)
Joanna Andrade

ELEIÇÕES E PESQUISAS – por paulo timm / portugal.pt

Em tempo de eleições, candidatos e eleitores ficam de olho nas pesquisas eleitorais. Elas reinam   soberanas nas campanhas. Depois são esquecidas, como são esquecidos os números da própria eleição.  Lá ficam eles arquivados nos sites da Justiça Eleitoral, como meras estatísticas, desprovidas de encanto. Mas agora é campanha e pesquisa eleitorais…

Muitos têm se debruçado ao estudo da importância das pesquisas eleitorais. Um sociólogo francês , Patrick Champagne, costumava  dizer que  estávamos diante de  grave inversão no processo político, como se fosse o rabo a abanar o cachorro e não vice-versa:  “ As pesquisas de opinião passaram a ser divulgadas como se fossem a própria opinião pública e substituíram a opinião qualitativa dos acadêmicos” (Cesar Maia,Newsletter). Os próprios analistas políticos, de formação jornalística, senhores das colunas nobres em todos os níveis da imprensa, do nacional ao local, desaparecem nesse processo e acabam rendendo-se à análise dos números das pesquisas. Muitos acabam chegando à conclusão de que, no futuro, nem haverá mais necessidade de se fazer eleições diretas, secretas e universais. Basta aplicar pesquisas, cada vez mais refinadas. Será..? Não acredito. De qualquer forma é importante se discutir um pouco sobre como se forma a opinião pública sobre um candidato. Mais do isso: Como se forma o estado de espírito do eleitor no processo eleitoral?

O ponto de partida é a cultura política e a confiança nas instituições a ela associadas: Partidos, Congresso e Camaras legislativas , políticos etc.

Uma cultura política não se constrói de uma hora para outra. Ela responde pelo longo processo através do qual os mecanismos de poder se constituem, ou seja, da forma como uma comunidade se organiza para formular , implantar a Lei e produzir resultados sociais comuns. Outro sociólogo, alemão, Max Weber, muito mais agudo no estudo dos sistemas de dominação política do que seu conterrâneo mais famoso – Karl Marx – , nos deixou o entendimento deste processo, que vai do  encantamento com o líder carismático ao desencanto racional, embora institucionalizado ,  do Estado Moderno. Permeando este trânsito, as próprias transformações de uma sociedade tradicional, pouco desenvolvida em termos de produtividade econômica e complexidade social, rumo à modernidade. Ou seja, a cultura política numa sociedade tribal  será inevitavelmente diferente da política numa sociedade industrial pós-moderna, onde aliás, se incorpora à agenda dos espetáculos.

Mas tanto numa sociedade tradicional como numa sociedade contemporânea a Política terá seus valores, seus rituais, seus mecanismos de realimentação e até mudança. Mesmo nos modelos hierárquicos de inspiração divina, por exemplo, como as monarquias chinesas antigas, os Reis eram obrigados a interpretar os desígnios insondáveis à luz das necessidades terrenas, sob pena de serem sumariamente destituídos diante de catástrofes e grandes dificuldades sociais. A flexibilidade para a destituição do líder diante da frustração dos liderados é, aliás, uma das chaves principais na construção de uma vontade popular no processo político, sendo uma das vantagens apontadas pelos parlamentaristas sobre os presidencialistas.  A rotatividade, enfim, dos representantes dos eleitores, é também um indicador da permeabilidade do sistema político à novos agentes no processo político, sejam por classes , gênero ou idade. Um sistema político que eterniza, por exemplo, grandes proprietários que se profissionalizam e se encastelam em posições políticas, impedindo a renovação de lideranças, será, fatalmente, fadado ao fechamento de seus horizontes de mudança.

Tudo isto se reflete, por fim, nos índices de confiança nas instituições políticas de um país.

As pesquisas, no Brasil, a este respeito são preocupantes. Há um descrédito muito grande das instituições políticas e este descrédito pode levar ao desinteresse da cidadania pelas eleições e pelo futuro da coisa pública. Basta, aliás, consultar as Redes Sociais e se perceberá o que estou dizendo. Políticos e instituições como Congresso Nacional e até o Judiciário são verdadeiramente achincalhados. Veja-se, pois, o último resultado de uma Pesquisa Datafolha, divulgada pela Folha de Sáo Paulo no último dia 12 e que evidencia o descrédito da opinião pública sobre o Congresso e os Partidos Políticos:

Pela ordem: Confia Muito x Confia um Pouco x NãoConfia.

a) Presidência da Republica 33% x 52% x 15%

b)Imprensa: 31% x 51% x 18%

c) Supremo Tribunal Federal 16% x 51% x 32%

d) Congresso Nacional 8% x 40% x 52%

e) PartidosPolíticos 7% x 41% x 52%.

Preocupante…

A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO

Século XVIII.

Uma partida de brasileiros atravessa as verdejantes campinas do Rio Grande do Sul. Impulsionados pela necessidade de braços para as lavouras, buscam o índio. Hão de avassalar as tribos ocupantes daquela região. Com esta disposição, viajam bem municiados e armados. Os índios Minuano, avisados pelas sentinelas, da aproximação dos brancos, montam em seus fogosos cavalos e, armados de flechas e boleadeiras e lanças, deixam seu acampamento e rumam para as coxilhas. Ao avistar os brasileiros se aproximando, os índios usam de sua tática de ocultar-se ao longo de dorso dos cavalos. Destarte, dificilmente saíram descobertos pelos inimigos. Imóveis, esperam eles o momento azado para atirar-se sobre os viajantes. Os brasileiros não são conhecedores dos hábitos e da tática empregada pelos índios habitantes das campinas do Sul. E avistando à distância o bando de cavalos pastando, tomam essa direção, muito senhores de si. Assim, ao se aproximarem os brasileiros, os índios despencam-se nos seus animais do cimo das coxilhas, em galopada, investindo contra os brancos com furiosas saraivadas de flechas. Respondem estes com tiros de armas de fogo. Nova investida dos índios, agora servindo-se das lanças, obriga os invasores a fugir em desordem. Caído por terra acha-se um moço ferido; a seu lado, uma jovem índia minuana. Fascinara-a a coragem do estrangeiro. O brasileiro sabe da sorte que o espera. E, interrogando a moça quando será sacrificado, responde-lhe esta que nada tema, pois estará a seu lado. Anima-o com palavras confortadoras, cheias de simpatia e compaixão pela sorte do estrangeiro. O prisioneiro é levado para o acampamento dos Minuanos. Enquanto esperam que se cure da ferida para sacrificá-lo, lhe dão toda a liberdade sob a vigilância das sentinelas. O jovem branco resolve fazer uma viola. Uma tarde, à sombra de uma árvore, com a pouca ferramenta de que dispõe, a muito custo vai improvisando um rústico instrumento. Inicialmente aparelha, em forma de espessa tábua, um pau de corticeira. Cava-o, dando-lhe a forma de viola. Coloca uma tampa com abertura circular para dar vibração ao som das cordas. Para colar a tampa, emprega o grude da parasita sombaré, das árvores da serra. E da própria fibra da parasita ele prepara as cordas para o instrumento. A índia já lhe tem muita amizade e está sempre a seu lado nas horas de folga. Enquanto lhe vê trabalhar, canta-lhe suavemente um canto doce e pitoresco da gente minuana. Ainda não passara um alua e já, na grande ocara do acampamento, celebra-se o ritual do sacrifício. Amarrado a um tronco está o prisioneiro. Todos os índios da nação, reunidos em volta dele, dançam e cantam sua morte. De quando em vez passam, de mão em mão, cuias contendo delicioso vinho, fabricado com o mel eiratim. Há um silêncio de morte em todo o acampamento. O chefe minuano ordena que soltem o prisioneiro e tragam-no a sua presença. Fitando o moço bem nos olhos, assim fala o cacique: – que aos teus irmãos sirva de lição esta última derrota. Ou não nos tornem vir a nos incomodar. Os que vierem nestes campos buscar escravos, hão de ser esmagados pelas patas de nossos cavalos. E tu pagarás com a morte a tua audácia e a dos teus! Contudo, o chefe Minuano diz ao condenado que faça o seu último pedido. Surpreende-se o branco com tal gesto. E, dotado de uma inteligência não vulgar, num relance percebe como poderá livrar-se da morte. Sabendo da emotividade e a influência que exerce a música sobre aquelas criaturas, pede que lhe tragam o seu instrumento de cordas. Quer tocar pela última vez; cantar uma balada de sua terra. É a jovem índia quem lhe traz a sua viola, debaixo dos olhares curiosos dos índios. Cheio de fé, o moço pega da viola. Depois de alguns sonoros acordes, entoa uma canção. E o rito bárbaro daquelas fisionomias rudes transforma-se como por encanto. Ouvem-se com enlevo, exclamando a todo instante: – Gaú-che! Gau-che! – a significar gente que canta triste. Sensibilizados pela doce cantiga do condenado á morte, os índios intercedem para que o sacrifício seja revogado. E, assim, o brasileiro fica morando com os Minuanos. Enamorado da jovem índia, casa-se com ela. E dessa bela união, do elemento branco com o indígena, resultou o tipo desse homem extraordinário que se chama gaúcho!

(A LENDA DO PRIMEIRO GAÚCHO in LESSA, Barbosa. Estórias e Lendas do Rio Grande do Sul. São Paulo: Livraria Literart Editora, 1960. Lenda coletada de Martha Dutra Tavares, baseada em Cezimbra Jacques e Aurélio Porto, em O Gaúcho, álbum publicado pelaTransoceanic Trading Company). Nota de Barbosa Lessa: a versão gaú – cantar triste, eche – gente, é combatida por vários entendidos em questões lingüísticas, que alegam se inexata essa explicação etimológica. Outras autoridades, porém, como Batista Caetano, aceitam essa tradução, e informam que ainda hoje, no Paraguai, há a forma guahú para designar o uivo tristonho do cão e, por analogia, o canto triste que possa assemelhar-se a esse uivo; quanto a Che – expressão gaúcha tão usual na conversação comum, pode significar fulano, pessoa, e aplica-se muitas vezes quando se quer chamar a atenção de um interlocutor, cujo nome próprio se desconhece.

A DITADURA CONDENADA: Condenação de USTRA abre portas para novas ações – por pedro estevam serrano / são paulo.sp

A ditadura condenada

A 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de decidir por unanimidade negar provimento ao recurso interposto pelo Coronel Carlos Brilhante Ustra contra decisão de primeiro grau que o condenou em ação declaratória como responsável por crimes de tortura durante o regime militar, no período em que foi um dos comandantes do DOI-CODI.

O coronel reformado Carlos Alberto Ustra, ex-comandante do Doi-Codi de SP. Foto: Sergio Dutti/AE

A ação foi promovida pela família Teles, que teve cinco de seus integrantes torturados nas dependências do Doi-Codi sob o comando de Ustra

A decisão é relevantíssima: pela primeira vez o Tribunal paulista reconhece que um agente público específico praticou crimes de tortura no exercício de função publica contra presos políticos na época da ditadura militar.

O caso oferece ao processo judicial e à inquirição judicial seu papel essencial de forma civilizada de acesso a verdade.

A repercussão da decisão no plano histórico e sociopolítico vai muito além da justa pretensão de reconhecimento judicial da ofensa pela família autora.

Leia também:
TJ-SP reconhece Ustra como torturador

Nosso STF teve o pior momento de sua historia recente, após muitas decisões acertadas , quando julgou intangíveis os torturadores e homicidas do regime militar por conta da incidência da Lei de Anistia, contrariando o sentido da própria lei e o disposto em nossa Constituição e em Tratados Internacionais subscritos pelo Brasil.

Das ditaduras sul-americanas das décadas 60 e 70, a brasileira é a única que permanece incólume à ação da Justiça.

As consequência desta impunidade e deste forçado esquecimento, sem identificação das pessoas, dos algozes e dos corpos das vítimas, poderá ser o retorno, no futuro, de um regime político com práticas semelhantes.

Em verdade, tortura e vilipendio ainda é a regra real de conduta do Estado face à maioria pobre de nossa população. O STF tem feito esforços no sentido de ampliar o reconhecimento dos direitos fundamentais de nossa Carta Magna, mas quase nada os Poderes estatais têm feito para efetivamente universalizar estes direitos reconhecidos.

Enquanto criminosos do colarinho branco são presos sem algemas e discretamente (da forma correta e civilizada), suspeitos pobres são seviciados e expostos a público em programas televisivos estimuladores do ódio étnico e de classe.

Neste quadro, a vitória da família Teles – mais do que declarar judicialmente a violência que sofreram – abre portas para que medidas cíveis individuais e de defesa do interesse coletivo possam ser propostas, e com isso, obter ao menos a identificação dos que torturaram e mataram e, quem sabe, auxiliar na localização dos corpos de suas vítimas.

A verdade quanto a nosso passado pode auxiliar para que a ditadura não volte no futuro, e para que os direitos humanos fundamentais, no presente, passem a ser uma realidade para todo o nosso povo.

” SENTIR-SE JOVEM” – de juca chaves / rio de janeiro.rj

UM clique no centro do vídeo:

 

amanheceu – de omar de la roca / são paulo.sp

amanheceu

 

 

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Amanheceu um dia escuro,depois da chuva da noite.
E eu hesitei antes de olhar pela janela.
Medo do escuro,da chuva,do desanimo.
Mas abri as cortinas e olhei para o céu.
Havia um corte nas nuvens por onde escapava
um pouco de azul.Um pouco mais que um pouco.
Mas aquela fresta me disse tudo.
Ha dias escuros,onde nem um pedacinho de azul aparece.
Mas não hoje.Havia um corte azul,como uma cicatriz
numa face de fotografia.
E esse azul me encantou e me deu esperança de luz.
Depois,o sol saiu entre entre azuis e brancos
sorrindo meio encabulado entre as nuvens.
E eu fingi que ele brincava de esconde esconde comigo.

 

Dossiê revela participação civil no golpe militar de 64

12/8/2012 10:04,   – de São Paulo

A edição deste mês da revista de História da Biblioteca Nacional traz um especial discutindo a participação civil no golpe contra o presidente eleito João Goulart, em abril de 1964. A publicação reconstrói a memória do período demonstrando como setores da classe média, religiosos, políticos, setores da imprensa, empresariado e militares se uniram em uma ampla campanha para derrubar o governo de Jango, sobretudo em reação contra as reformas de base e à participação das classes populares na política.

Ditadura militar

Ex-presidente de fato, Castelo Branco, sendo recebido no RJ por oficiais após assinar o AI 2, em 1965

O dossiê trata de temas voltados à compreensão da articulação do golpe e de seus momentos iniciais. Não são objeto de discussão as questões relativas a cassações de direitos políticos ou violações de direitos humanos durante o regime. Uma das questões discutidas é a definição de “ditadura militar” para o período, ocultando o registro histórico da participação de empresários, religiosos e imprensa, entre outros setores civis, que atuaram como financiadores, apoiadores ou que foram beneficiários do regime.

A publicação defende o uso da definição “ditadura civil-militar” como forma mais apropriada de denominar o regime. Embora não traga fatos novos, o dossiê tem importância no momento em que se discute a memória recente do país, através da atuação da Comissão Nacional da Verdade.

De acordo com Vivi Fernandes de Lima, editora da revista, o momento é oportuno para a publicação, que contribuirá para o acesso a essa história por diversas pessoas. “Este tema é pedido pelos leitores há anos e acredito que a revista deve contribuir bastante não apenas para a formação de historiadores, mas principalmente para a de estudantes da educação básica”, disse.

A revista trata dos temas de forma pouco comum à cobertura da imprensa tradicional e mostra como essa mesma imprensa atuou ativamente na articulação do golpe e na desestabilização do governo Goulart. E demonstra a participação dos dois principais jornais paulistanos, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, na campanha para derrubada do presidente João Goulart e de legitimação do regime autoritário que se instalou depois, através de sua manchetes e editoriais.

Dentre os temas tratados estão o início do levante militar em Minas Gerais, a negativa de Goulart em atacar os golpistas, a atuação de políticos e ministros na organização do golpe, o apoio de setores da sociedade — como o de parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil através das Marchas da Família com Deus pela Liberdade — e a importância de tratar do tema de forma clara nas escolas de educação básica, por meio dos livros didáticos e outras publicações.

Entre os especialistas que contribuíram na produção estão o professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense Daniel Aarão Reis, o pesquisador Luiz Antonio Dias, o professor Mateus Henrique de Faria Pereira e o professor Jorge Ferreira, biógrafo de João Goulart.

 

Por Redação, com Rede BA

Quando o pleito do movimento social se torna um incômodo para os políticos – por celso martins / ilha de santa catarina.sc

 

 

Oi, Amigo!

Sou candidato.

Adeus, amigo!

Fui eleito.

Haikai de Aníbal Nunes Pires

(9.8.1915 – 24.4.1978)

 

 

A polêmica envolvendo comunidades do Norte da Ilha (Florianópolis) e a Casan e Prefeitura, motivada pelas péssimas condições de suas estações de tratamento de esgotos, sobretudo a de Canasvieiras, revela algumas facetas de nossa democracia travada. O pleito real da sociedade não interessa aos partidos. Vejamos por partes.

 

1. O pleito do movimento social, que rejeita a concentração dos esgotos do Norte da Ilha em Canasvieiras e o lançamentos dos efluentes na bacia do rio Ratones, chegando às praias, legítimo e necessário, não é bem visto pelas diferentes candidaturas à Prefeitura de Florianópolis. É visto como algo inconveniente pelo momento eleitoral vivido. Ouvi isso de diferentes fontes. No ato público do dia 4 na audiência do dia 7 passados, nenhum candidato ao Executivo da Capital marcou presença, nem seus vices.

 

2. Existem diversas leituras possíveis desse comportamento de nossas elites políticas. A mais cruel nos remete a uma triste constatação: a nossa dor, os nossos pleitos, as reivindicações mais sentidas das comunidades, representadas no movimento social em curso, não interessam às diferentes candidaturas. Elas estão concentradas no marketing, no que diz o conselheiro político, no que sugere o assessor de comunicação, todos preocupados em construir uma imagem, um ícone, visando atingir as massas.

 

3. Assim, criam necessidades artificiais, aspirações fictícias e pleitos gerais, empacotando-os o oferecendo-os aos “eleitores”, envolvidos com um leque de “propostas” e “programas de governo”, raramente considerados depois. É assim que se dá o embate eleitoral. O eterno esforço de convencer o pacato cidadão de que ele é o melhor, seu partido o mais bacana, seu esforço o mais notável e sua disposição a mais altruística possível.

 

4. Por isso rechaçam os pleitos reais da sociedade. Seria um vínculo pesado que, mais a frente, iria incomodar, debater, sugerir, dar o seu pitaco. É melhor acenar com um engodo do que se comprometer com as preocupações. É mais confortável convencer o cidadão com sono que ele não pode dormir, acenar com um café quente ao sujeito que atravessa ofegante o deserto ou oferecer um sorvete a quem treme de frio.

 

5. Vivemos uma democracia travada. Democracia onde o sujeito tem um canal de expressão, o voto, arrancado de assalto com esse tipo de postura. O fato de meia cidade estar envolvida no embate com a Casan e a Prefeitura não interesse aos candidatos. É algo inconveniente, fora de época, incômodo. O correto seria incorporar o anseio social às plataformas dos candidatos, tornando legítimo o processo, tornando o Executivo um executor dos pleitos das comunidades.

 

6. Discutir os rumos do saneamento da cidade da forma como está acontecendo é um exemplo de democracia direta. Mas a democracia das nossas lideranças tem limites e travas que não comportam essa abertura. A mentalidade e posturas dos candidatos à Prefeitura de Florianópolis são as mesmas que levam à criminalização do movimento social e, no limite, sustenta regimes autoritários, ditatoriais. É realmente uma pena que o momento de afirmação e aprofundamento da democracia seja usado exatamente para dar o recado: tratem de votar numa das plataformas do cardápio disponível e não inventem sarnas para a gente se coçar.

 

*Celso Martins é jornalista (editor do Daqui na Rede) e historiador.

O SOCIALISMO É UMA TÉCNICA CIVILIZATÓRIA. E SÓ! – por paulo timm / portugal.pt

 

 

O cronista é  uma ave de rapina sobre os acontecimentos diários. Ele acorda com o sol, ,  levanta vôo, olha com rigor o espaço perscrutado ,aguça os sentidos e prepara-se para o ataque: Avidez pelo fato que lhe saciará a vontade de escrever, temperando algum talento na descrição da realidade com a vaidade de mostrar o que sabe e o que pensa sobre ela.

Hoje, particularmente, os assuntos abundam e confundem o caçador: O sono de dois Ministros do Supremo no Julgamento do século; o aprofundamento da crise na Europa,;  a tensão do PT gaúcho diante de inúmeros contratempos com seus candidatos, à beira de um ataque de nervos, à exceção da boa performance da Nilvia em Torres; a decepção com o Brasil nas Olimpíadas de Londres,;  o lamento mundial pelo aniversário do trágico lançamento da bomba atômica em Hiroshima/Nagasaki,  mal compensado pela lembrança nostálgica da morte de La Monroe; Tanta coisa,  meu Deus…! Como Mas me concentro em algo menor, quase pequeno, onde, como diz a sabedoria popular, o diabo se esconde: O comentário de meu amigo Yamil Dutra, às voltas com um filho hospitalizado em Porto Alegre.

Ele desabava:  –“Enquanto a galera preocupa-se com o mensalão, o Cachoeira e a novela das 8, o caos galopa nos hospitais particulares de Porto Alegre. A classe média, enganada pelos planos de saúde, experimenta um SUS privado em salas de espera mais cômodas mas também superlotadas. A incompetência igualiza a cidadania!”

O comentário me comove e me atinge, assim como deve atingir milhões de brasileiros que  pagam regularmente seus Planos de Saúde e que não recebem, destes planos,   o suporte prometido. Eu mesmo, ano passado,  tive que pagar do meu bolso, diversos exames e esperar quase um ano por outros, diante da morosidade do Plano. Sobrevivi. Mas descobri, no meio do desespero , duas coisas: (1)Nenhum plano cumpre o que promete, com exceção de Planos proibitivos, fechados, inacessíveis à classe média; (2) quando a enfermidade se converte numa doença grave , como câncer, todos nós acabamos no SUS, único sistema capaz de pagar os elevados custos desta – e outras – enfermidades. Os leitos hospitalares públicos estão coalhados de doentes graves, grande parte deles, da classe média, régios subscritores de Planos de Saúde. Desde então, contenho-me nos meus ataques ao SUS. Pelo contrário, tenho procurado entender melhor a complexa máquina de financiamento e organização deste modelo de saúde pública, idealizado por dois grandes sanitaristas brasileiros Valério Konder e Mário Magalhães, ainda ao tempo de Vargas.

Agora mesmo, de volta à Portugal, vejo que este é o sistema que opera em grande parte da  Europa e que o distingue do modelo americano, mitigado pela Reforma de Obama. Modelo que hoje eles tentam empurrar para a América Latina. E vejam o paradoxo: a Coroa Britânica orienta seus súditos a fazer “turismo sanitário”no continente, para tratar da saúde. Não acreditam? Leiam então: http://www.torres-rs.tv/site/pags/nacional_turismo2.php?id=2269” . Um grande debate ocupa hoje, também,  o canal europeu, dando conta que a Romênia se debate diante dos imperativos vindos de fora e que pretendem privatizar sua medicina, que aliás, na era comunista, era horrorosa- http://www.torres-rs.tv/site/pags/nac_int2.php?id=2281 .

Ou seja, o SUS é ruim. Viva o SUS! ,  porque é ele que irá nos amparar na hora derradeira – e  não os planos.

Mas não vou encerrar esta crônica falando sobre um tema que pouco conheço: Saúde. Prefiro voltar ao terreno da cidadania. Respondi, pois, ao indignado Yamil, assim:

Com efeito! Voltamos  à consigna politicamente incorreta, embora muito em moda, mesmo por seculares moralistas, do Millor: OU RESTAURE-SE A MORALIDADE OU LOCUPLETEMO-NOS TODOS!  Não sou um esquerdista ortodoxo, opto pela moralidade : Ou estes PLANOS DE SAÚDE funcionam, ou,  é melhor acabar com eles e socializar de vez a medicina no país.  Os ricos, enfim, continuarão fazendo o que sempre fizeram , desde o descobrimento, em 1500  : Vão se tratar no exterior.

O SOCIALISMO, enfim,  não é   “ o sistema ” alternativo  ao “CAPITALISMO”, como os adeptos da Guerra Fria nos fizeram crer, levando-nos ao limiar do holocausto nuclear.  É uma técnica civilizatória. Só! As grandes narrativas e teorias à que tanto se referem os defensores de cada um destes sistemas são meras ilusões que obliteram, em vez de iluminar,  os caminhos da humanidade. Viraram religiões, ou melhor, doutrinas, às quais não faltam os livros sagrados, profetas , hierarquias rígidas e promessas de um futuro radiante.

Boa Sorte, pois, Yamil, aí em Porto Alegre! E saúde ao filho enfermo!

O prof. Paulo Timm é economista.

 www.paulotimm.com.br

ANA DECKER convida: curitiba.pr

UMA FARMÁCIA DENTRO DO CARRO – por olsen jr / rio negrinho.sc

 

Na medida em que vamos passando pelo tempo (detesto a palavra envelhecer) estamos adquirindo e incorporando hábitos.  Quando se é jovem fazemos pouco desta prática ao constatá-la nos outros. Principalmente quando o fato se dá em cima de algo que julgamos não  precisar tão cedo, ou melhor, sequer nos imaginamos em situação de “necessitar”… Estou pensando em “remédios”, por exemplo.

Não lembro quando percebi isso, mas acredito que foi enquanto esperava o frentista abastecer o carro, “the good and old Hägar, o Horríve”l (é o nome dele, herdado do Dick Browne)… Arrisco em contar a história.

Primeiro foi um inocente colírio “Moura Brasil”, apenas para refrescar e clarear a vista já antecipando uma hipotética necessidade em uma viagem em função de minhas novas atividades pelo estado de Santa Catarina…

Depois, quando um check-up detectou uma hipertensão e tive que regularizar isso diariamente com um medicamente tradicional, the big and famous “Captopril”… Como sempre me lembrava de tomar o remédio quando já estava dentro do carro, não tive dúvidas em deixar uma caixa ali à mão para não deixar passar batido…

Mais tarde fui contagiado pela mania de limpar as mãos com um gel anticéptico antes de tocar no volante, segundo se afirmava era uma maneira de não se contaminar com a tal gripe “H1N1” ou Gripe “A”… O contato estava resolvido, mas e o ar?… Não sou médico, estava fazendo o que recomendava a vox populi vox dei…

Acreditando que o tal gel poderia ressecar as mãos, adicionei o hidratante, por recomendação de uma amiga, um creme da Natura, com odor de maracujá, belo, caro, mas eficiente, um odor agradável compensava todo o mise-en-scène em aplicá-lo…

Seguindo a máxima de que “vale mais prevenir que remediar” após três ataques de gota em tempos diferentes com uma dor insuportável, tive de me precaver… A gota era considerada antigamente, a “doença dos reis”, o excesso de proteínas no organismo gerando um ácido úrico além da conta e que se não tratado acaba em “gota”…  Depois de ler sobre o assunto, não é difícil imaginar, aqueles senhores diante de uma mesa farta com carne de javali, coelho, ovelha assada e aves silvestres acompanhadas com vinho tinto… Ingerindo com a pele, o couro, além dos miúdos de aves, coração, moela, fígado onde se concentram os mais altos teores de toxinas e de onde se origina o tal ácido úrico… Well, levava comigo sempre uma caixinha de “Colchicina”… Três comprimidos ao dia, de preferência antes de comer qualquer daquelas comidas apreciáveis por um descendente de viking…

Com a mudança de clima oriunda da altitude (800 m acima do nível do mar) um frio de inverno, lugar úmido e desencanto o velho “Vick – VapoRub” de guerra para melhorar a respiração… À noite, o igualmente imbatível “Neosoro”, no meu tempo de guri era “Rinosoro”, no fim, mais do mesmo…

Todas às vezes que estou num posto de gasolina constato a presença de todos estes medicamentos à minha disposição… Semelhantes àquelas equipes que acompanham os ciclistas na disputa do “Tour de France” estão presentes e correm paralelamente, em algumas etapas não se precisa deles, mas ninguém adivinha qual e por isso andam todos juntos… Depois, se servir de consolo, lembro de Bernard Shaw quando diz “Use toda a sua saúde a ponto de esgotá-la. E gaste todo o seu dinheiro antes de morrer. Não vale a pena sobreviver a essas coisas”… O humor cáustico do escritor irlandês, no entanto, apenas abranda a consciência de que enquanto aquela etapa da prova não for cumprida o atleta não muda, mas a equipe de apoio está constantemente em transição!

lembrei do Mencken “Quanto mais envelheço, mais desconfio da velha máxima de que a idade traz a sabedoria”.

 

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NOTAS:

A música poderia ser essa, “Summertime Blue”, de Eddie Cochran…

Gravada em 1958, foi um dos grandes sucessos daquele ano…

A canção foi trilha do filme “Caddyshack’ (1980)…

Foi classificada em 73 lugar entre as maiores 500 de todos os tempos pela Revista Rolling Stone…

Também gravada por inúmeros artistas, entre eles, os grupos “The Beach Boys” e “The Who”…

Eddie Cochran morreu em 1960, aos 22 anos num acidente de carro…

Este formato que deu para a gravação de “Summertime Blue” acabou moldando o que viria depois…

Do rockabilly ao rok’n roll…

http://www.youtube.com/watch?v=MeWC59FJqGc

O EXEMPLO DA ALEMANHA – por heitor scalambrini costa / recife.pe

O exemplo da Alemanha

Heitor Scalambrini Costa

Professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

 

A Alemanha foi à primeira nação industrializada a ter um plano de abolir a energia nuclear do seu território. A data para por fim a esta era de insegurança foi dia 29 de maio de 2011, por decisão da coalização de governo da chanceler Ângela Merkel. Até 2022 não haverá mais reatores nucleares neste país emblemático, particularmente para o Brasil, que assinou em 1975 um acordo de cooperação técnico-científico-econômico prevendo a instalação de 8 usinas nucleares em nosso território. Juntas, as 17 usinas existentes em solo alemão que produziam menos de 1/4 da energia alemã serão desativadas. Este exemplo está sendo seguido, e paises como a Itália, Áustria, Suíça, Bélgica, Japão, entre outros, já começaram a revisar suas políticas nucleares.

 

A tomada de decisão do governo alemão de deixar de usar a energia nuclear mostra que basta visão e vontade política para livrar um país desta fonte de energia indesejável, pelo perigo que representa; suja pelos resíduos que produz, e não se sabe o que fazer com eles; e cara, implicando em tarifas mais onerosas para o consumidor. Enquanto a Alemanha virava a página do nuclear, técnicos e políticos brasileiros duvidavam que este país pudesse “sobreviver” sem a nucleoeletricidade. Os mais exaltados alegavam até que o desligamento progressivo das usinas nucleares forçaria o país a importarem combustíveis fosseis, contribuindo assim para o aquecimento global. Mais uma vez estes “experts” (?) em energia mostraram o quanto estavam errados.

 

Passado pouco mais de um ano da decisão histórica, no dia 1 de agosto de 2012 a Associação Nacional de Energia e Água (BDEW) anunciou que 25 % de toda energia consumida pela Alemanha no primeiro semestre deste ano foi gerada a partir de fontes renováveis, e que todas estas fontes registraram crescimento no período comparado a 2011, quando representavam 17% do consumo energético total.

 

O setor eólico forneceu 9,2% de toda energia demandada pela Alemanha, produzindo 24,9 bilhões de kWh, respondendo pela maior contribuição das renováveis. A biomassa representou 5,7% da demanda, produzindo 15,3 bilhões de kWh. E o setor fotovoltaico 5,4%. Sendo este o que mais cresceu, 47%, aumentando sua geração do 1º semestre de 2011 de 9,8 bilhões de kWh, para igual período em 2012, de 14,4 bilhões de kWh.

 

O recado parece dado para o Brasil e para o mundo. As fontes renováveis podem e devem substituir os combustíveis fósseis, além da indesejável energia nuclear.

 

No Brasil, apesar do crescimento das instalações eólicas, ainda sua participação na demanda energética é pífia, menos que 2%. Apesar de todo o estardalhaço midiático que governos estaduais e federal fazem, as políticas de incentivo desta fonte de energia ainda são pontuais e pouco expressivas diante do enorme potencial estimado de mais de 350 GW. O caso mais bizarro, que demonstra na prática a falta de interesse,  diz respeito ao atraso incompreensível, na atualização do Atlas Eólico Brasileiro de responsabilidade do Centro de Pesquisas da Eletrobrás (CEPEL), instrumento imprescindível para atração de novas instalações.

 

Com relação aos agrocombustíveis, mesmo com a propaganda encantando o mundo, em torno da produção do etanol e do agrodiesel, a realidade é outra. Etanol está sendo importado, e o preço se aproximando mais e mais da gasolina, resultando numa retração do consumo. E em relação à propalada e alardeada alavancagem da agricultura familiar, com as oleaginosas (quem não lembra dos discursos pró-mamona na região nordeste como redenção dos pequenos agricultores) para a fabricação do agrodiesel, nada aconteceu. Hoje mais de 3/4 da produção do agrodiesel é oriunda da soja.

 

Sobre a energia solar fotovoltaica, nem se fala. Mesmo tendo alguns projetos privados implantados nas arenas esportivas, e uma usina de 1 MW no interior do Ceará, continua sendo apenas “traço” na matriz energética nacional. Existe uma expectativa com a resolução da Aneel  482/2012 de 17 de abril ultimo, estabelecendo o acesso da pequena geração distribuída na rede elétrica, e assim estimular a energia fotovoltaica instalada em domicílios e pequenos comércios. Mesmo com mais de 20 anos de atraso em relação à Alemanha que lançou o projeto “1000 telhados solares” em 1991, no nosso caso “a esperança é a última que morre”. O aquecimento solar da água ainda patina com a iniciativa “Cidades Solares”, legislação municipal que atende hoje a menos de 50 municípios brasileiros. E o programa “Minha Casa, Minha Vida”, incorporando sistemas de aquecimento solar, ainda é uma incógnita.

 

O Brasil é bem ensolarado, possui muita água, fortes ventos e grandes áreas agrícolas para a produção da biomassa, podendo utilizar tudo isso para seu desenvolvimento e assim melhorar a qualidade de vida de sua população respeitando o meio ambiente. Que pais é este que opta pela energia nuclear, combustíveis fósseis e mega-hidrelétricas na região Amazônica?

“NÚCLEO MEMÓRIA” convida para o “SÁBADO RESISTENTE”: são paulo capital / sp

Governo do Estado de São Paulo
e Secretaria da Cultura apresentam
no Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66 – Luz
Auditório Vitae – 5º andarSÁBADO RESISTENTE 
Dia 11 de agosto 2012, das 14h às 17h30

Palestra de Almino Affonso marca os 50 anos da mobilização social em favor do Plebiscito

Um dos fatos da história brasileira que esteve na origem da deflagração e articulação do Golpe Civil-Militar de 1964 foi a intensa luta da sociedade pela antecipação do Plebiscito para decidir se o regime político brasileiro seria o Parlamentarismo ou o Presidencialismo. Este movimento tinha como objetivo a devolução do poder ao presidente João Goulart, que foi obrigado a aceitar o parlamentarismo como condição para sua posse após a renúncia de Jânio Quadros, em agosto 1961.

Conscientes da irregularidade constitucional que este tipo de regime significou para o País, as forças progressistas – os partidos de esquerda, sindicatos de trabalhadores urbanos e rurais, assim como estudantes organizados – constituíram a força motriz desta mobilização, inclusive com o apoio de alguns comandos militares. A palavra de ordem foi a antecipação das datas do Plebiscito que, inicialmente fixada na Emenda Constitucional para o ano de 1965, finalmente se deu em 6 de janeiro de 1963. Neste dia, num eleitorado de quase 18 milhões (quase 12 milhões compareceram às urnas) o presidencialismo obteve mais de 80% (9.457.448) dos votos contra menos de 20% (2.073.082) dos votos concedidos pelos adeptos do parlamentarismo.

O Sábado Resistente deste mês terá o privilégio de ouvir Almino Affonso, ex-Ministro do Trabalho e da Previdência Social de João Goulart, uma das pessoas que teve um papel de primordial importância neste processo. Sua palestra será um documento histórico, pela riqueza em detalhes e informações a respeito dessa luta pelo Presidencialismo, contra a direita golpista e os bastidores do Golpe que este fato originou.

PROGRAMAÇÃO

14h: Boas vindas – Caroline Menezes (Memorial da Resistência de São Paulo)
Coordenação – Alípio Freire (Núcleo de Preservação da Memória Política)

14h30: PALESTRAS

– Almino Affonso (Advogado, Ministro do Trabalho e Previdência Social em 1963, Secretário de Negócios Metropolitanos do Governo Franco Montoro em São Paulo, Vice-governador de São Paulo na gestão Orestes Quércia, ex-Deputado Federal e Conselheiro da República na gestão do Presidente Lula)
16h00: Debate

Os Sábados Resistentes, promovidos pelo Memorial da Resistência de São Paulo e pelo Núcleo de Preservação da Memória Política, são um espaço de discussão entre militantes das causas libertárias, de ontem e de hoje, pesquisadores, estudantes e todos os interessados no debate sobre as lutas contra a repressão, em especial à resistência ao regime civil-militar implantado com o golpe de Estado de 1964. Os Sábados Resistentes têm como objetivo maior o aprofundamento dos conceitos de Liberdade, Igualdade e Democracia, fundamentais ao Ser Humano.

Informações à imprensa
– Memorial da Resistência de São Paulo
coliveira@pinacoteca.org.br
– Secretaria de Estado da Cultura
Giulianna Correia – 2627-8243 gcorreia@sp.gov.br
Renata Beltrão – 2627-8166 rmbeltrao@sp.gov.br

O LUTADOR – de crispim quirino / salvador.ba

 

 O LUTADOR
Quantos anos serão precisos para descrever Jorge Amado?
Quantos amores, desejos,prédios, imagens, flores, praias e trem?
Quantos amigos, guerreiros, quantos?
“Rebeldes” em seus 1923 pensamentos.
Matuto branco-mulato-homem.
Raízes de todas as horas.
Homem de esquinas e becos e ruas e vielas tortas…
Esse é o nosso amado.
Bendito seja seu canto,
sua roupa de gala,
seu barco à vela,
sua humanização.
Ó Bahia de nosso São Jorge!
Ó irmãos vingados!
Adeus para o eterno.
Um forte e fraterno adeus.
Aquele das mulheres nuas e estrelas falantes,
das casas de barro e meninos traquinos,
dos ventos e cores carnavalescas,
da Bahia.
Ó irmãos da terra!
Ó alma de nossos desejos!
Adeus irmãos vingados.
Adeus eterno baiano.
Adeus (Amado).

Quantos anos serão precisos para descrever Jorge Amado?
Quantos amores, desejos,prédios, imagens, flores, praias e trem?
Quantos amigos, guerreiros, quantos?
“Rebeldes” em seus 1923 pensamentos.
Matuto branco-mulato-homem.
Raízes de todas as horas.
Homem de esquinas e becos e ruas e vielas tortas…
Esse é o nosso amado.
Bendito seja seu canto,
sua roupa de gala,
seu barco à vela,
sua humanização.
Ó Bahia de nosso São Jorge!
Ó irmãos vingados!
Adeus para o eterno.
Um forte e fraterno adeus.
Aquele das mulheres nuas e estrelas falantes,
das casas de barro e meninos traquinos,
dos ventos e cores carnavalescas,
da Bahia.
Ó irmãos da terra!
Ó alma de nossos desejos!
Adeus irmãos vingados.
Adeus eterno baiano.
Adeus (Amado).

E SE FALTAR ESPAÇO NA INTERNET?


De fato, isso já está acontecendo.


Vint Cerf, Chief Internet Evangelist no Google e o pai da Internet, discute a próxima versão da Internet e explica por que precisamos dela.

Por que está começando a faltar espaço na Internet?

Assim como os telefones usam um sistema de números de telefone para efetuar as chamadas, cada dispositivo conectado à Internet recebe um número exclusivo conhecido como “endereço IP” que o conecta coma rede global on-line.

O problema é que o sistema atual de endereçamento da Internet, Internet Protocol v4 (IPv4), só tem espaço para cerca de 4 bilhões de endereços – longe de ser suficiente para os habitantes do planeta, sem falar nos dispositivos que estão on-line hoje e os que estarão no futuro: computadores, telefones, TVs, relógios, geladeiras, carros e por aí vai. Mais de 4 bilhões de dispositivos já compartilham endereços; com o esgotamento dos endereços IPv4 disponíveis, dispositivos e usuários da Internet precisarão compartilhar.

Como estamos abrindo espaço para crescer?

Está claro que a Internet precisa de mais endereços IP.Mais quantos, exatamente? Bem, que tal uns 340 trilhões de trilhões de trilhões (ou 340.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000)? É isso que cabe na nova “tubulação” da Internet, o IPv6. É o suficiente para que todos os habitantes do planeta tenham seus próprios bilhões de endereços IP. Em outras palavras, é suficiente para oferecer espaço infinito para a Internet crescer, de agora até o futuro previsível.

Quando vai acontecer a transição?

Substituir os encanamentos da Internet vai levar um tempinho. O lançamento mundial do IPv6, dia 6 de junho de 2012, marcou apenas o início de uma implantação coordenada pelos principais websites e provedores de serviços e equipamentos de Internet. No Google, acreditamos que o IPv6 seja essencial para o bem-estar e o crescimento contínuos da Internet e que, permitindo que todos os dispositivos conversem entre si diretamente, o IPv6 possibilita novos serviços inovadores.

Você não precisa fazer nada para se preparar, mas se estiver interessado em aprender mais sobre o IPv6 e como apoiar sua implementação, consulte algumas perguntas frequentes.

 

 

 

Perguntas frequentes

IPv4 é a versão atual do Protocolo de Internet, o sistema de identificação que a Internet usa para enviar informações entre dispositivos. O sistema atribui uma série de quatro números (cada um variando entre 0 a 255) a cada dispositivo. O IPv4 permite apenas 4 bilhões de endereços, e a Internet precisa de um espaço maior que esse. O IPv6 é a nova versão do Protocolo de Internet, que aumenta o número de endereços disponíveis a um total praticamente sem limites: 340 trilhões de trilhões de endereços.

Estão faltando endereços IPv4 na Internet. A transição para o IPv6 permite que a Internet continue a crescer e que serviços novos e inovadores sejam desenvolvidos, uma vez que mais dispositivos podem se conectar à Internet.

Assim como um número de telefone ajuda você a se comunicar com outro telefone, um endereço IP (abreviação para endereço de Protocolo de Internet) é fornecido a seu computador para que ele possa se comunicar com websites, serviços de Internet e outros dispositivos. Endereços IP são números exibidos como strings de letras e números, como, por exemplo 192.0.2.1 (para IPv4) e 2001:db8::1234:ace:6006:1e (para IPv6).

O Lançamento Mundial do IPv6, em 6 junho de 2012, organizado pela Internet Society, é o dia em que os principais websites e Provedores de Serviços de Internet (ISPs) participantes ativarão o IPv6 e começarão a transição do IPv4.

Você não precisa preparar nada para o IPv6; seus aplicativos e dispositivos funcionarão exatamente como antes. Essa mudança é para garantir que você possa continuar a usar a Internet no futuro da mesma forma que faz hoje.

A transição completa do IPv4 para o IPv6 demorará algum tempo, uma vez que todos os websites e Provedores de Serviços de Internet precisarão fazer a troca. Por enquanto, ambos os sistemas funcionarão juntos, até que o IPv4 não seja mais necessário.

Não, os serviços de IPv4 continuarão a operar como de costume.

Talvez você já esteja usando o IPv6. Visite ipv6test.google.com para descobrir. Muitos dispositivos que você usa já suportam IPv6; no entanto, os websites que você visita e seu Provedor de Serviços de Internet devem, primeiro, ativar o IPv6 para que você possa usá-lo.

A maioria dos principais websites e Provedores de Serviços de Internet já oferece suporte ao IPv6, mas há outros que ainda precisam realizar a troca. Se você gostaria de usar o IPv6, entre em contato com seu Provedor de Serviços de Internet e peça para fornecerem a você o acesso à Internet com IPv6. Você também precisa ativar o IPv6 em seu roteador doméstico ou fazer upgrade para um que suporte o IPv6. Para obter uma lista de fabricantes de roteadores doméstico que suportam IPv6, comece aqui.

A versão 5 foi reservada para o Protocolo de Fluxo de Internet, desenvolvida antes do IPv6. Ela não foi amplamente implantada e não será usada publicamente.

 

NATUREZA FLUTUANTE – de Almandrade / salvador.ba

NATUREZA FLUTUANTE

 

I

 

A chuva dispensa

o agasalho

um vício

na pele molhada

a febre chega

e brinda a dor.

 

II

 

 

Estilhaços sobre a velocidade

a idade sai

da ingenuidade do século

o ar que passa

arrasa a privacidade

das palavras.

 

 

III

 

A tarde

com seus conflitos

renega a partitura

do imutável

a voz do instrumento

brilha e veste

o que resta

de notas e acordes.

 

IV

 

O título é um achado

semeador de dúvidas

a linguagem acende

as coisas

e dá nome ao repouso

tapete de sombras

e sobras.

 

 

V

 

Na solidariedade do sono

descansa o solitário

o lençol é um consolo

 

 

VI

 

 

Segredos da transparência

luva de gesso

o impulso do imediato

flagra

através do tecido

a anatomia

do que é íntimo.

 

 

Almandrade

(artista plástico, poeta e arquiteto)

POEMA EM DESUSO – gilda kluppel / curitiba.pr

Poema em desuso

Posso cometer um abuso

ao contrariar a realidade

tentando escrever um poema em desuso

destes quaisquer que ninguém mais se interessa

considerado um mero intruso

delírios de quase ou pseudo-artistas

às vezes chamado de melancólico e confuso

 por não se aliar à vontade imediata

procedente da vaidade do corpo

estipulada por um preço à vista

e oferecida numa loja ou mercado.

Um poema destes quaisquer em desuso

sequer tem um nome famoso na etiqueta grifado

não tem prazo de validade para o consumo

e nem enfeita as pessoas pela vestimenta ou calçado

apenas se importa com algo que pouco aparece

e talvez por isso menos atenção desperte

mesmo assim se não existissem tantos poemas

desses quaisquer em desuso

sobrariam somente coisas não essenciais e pequenas

 marcadas por um suposto valor no atacado e varejo

para ostentar e misturar o corpo aos objetos

desalojando as necessidades da alma

jamais esquecida enquanto resistirem os poéticos.