Arquivos Mensais: setembro \27\UTC 2012

TÔ NEM AÍ PRO PORTUGUÊS ! – por renoir pereira da silva

Aquela Feijoada Baiana estava cheirosa, aquele feijão estava gostoso, aquele feijão estava charmoso, aquele feijão estava uma uva. Não era qualquer feijão. Aquele feijão tinha cheiro de quê? Aquele feijão é para quem gostava de feijão, é para convencer quem não gostava. A feijoada passou, mas na memória ficou. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Um bocadinho mais. Não coma quaisquer feijões, coma com folhas de coroas olímpicas. O Manuel pôs só cinco folhinhas? Um bocadinho mais. Aquele feijão estava um arco-íris, em cores, aquele feijão estava a cores. O pessoal comeu bem, à custa do trabalho do Manuel, que além de cozinheiro é um belo advogado, que ganhou um bom dinheiro com as custas de um processo e pagou a bebida. Só 700g de charque? Eu disse “um bocadinho mais”. Ai! Que saudade da feijoada, saudades da cenoura e da linguiça e do último prato. 200g de toucinho salgado? Hum! Um bocadinho mais. Eu, que voltei a estudar, pedi um prato de Phaseolus vulgaris, Manuel se confundiu, depois de eu explicar, todo mundo riu. 500g de carne bovina? Um bocadinho mais. Em vez de uma cabeça de alho amassado, foi posta inteira, ele disse que é melhor. Mas só uma cabeça? Ao invés de cair os preços, com a chegada da safra, os preços aumentaram. Bela desculpa para o pão duro, que é o Manuel. Manuel escreveu para mim: “Minha namorada, que mora em Joinville, virá amanhã”. Sábio Manuel, que pôs “que mora em Joinville” entre vírgulas, caso ao contrário ele teria várias namoradas, e só viria aquela que mora em Joinville, ai ele se complicaria. Só 1 kg de Feijão Mulatinho? Depois não reclama. Perguntei: Posso vir aqui pegar mais, Manuel? E ele disse: se eu vir tu não pagarás. Sem ele ver… mais do mesmo. 400g de rabo de porco? Olha! 300g de orelha de porco? Mais pares. 600g de pernil de porco? Logo pernil. 600g pé de porco? Mais pares. 600g de costela de porco defumada? Logo costela. Vai faltar porco. Numa provável sobra fiquei rodeando. Numa eventual mudança do mau humor do cozinheiro, eu pensava em pegar mais. Que feijão! Manuel prefere fazê-lo a comê-lo. Vai entendê-lo. Eu, já prefiro comê-lo que fazê-lo. Manuel pediu-me para ser discreto, agir com discreção, ir devagar, mas sou indiscreto, agi naturalmente, com discrição. Era um prato atrás do outro. Nem dei bola para o Manuel. A bagunça? Não foi culpa minha. Foram eles quem fez. Eu nem havia saído da mesa, ainda. 400g de paio? Um bocadinho mais. 200g de tomate picado? Depois não reclama. 250g de cebola picada? Põe 500g. São indescritíveis os cheiros por que tive de cheirar. Por que aquele feijão é tão cheiroso? Aquele feijão é tão gostoso por quê? Até ali, ninguém sabia o porquê daquele gosto. Eu fui perguntar àquele homem o motivo do feijão ser tão gostoso. Manuel não revelou o porquê. Ninguém sabia por que ele não explicou. Ninguém sabia porque ele não explicou. Chamaram-me. Hum! Não fui porque estava comendo. A minha tia não veio, porque estava doente, e, como ela come três pratos, mas três sobraram, e sobraram para mim. Eu toda hora ia aonde a feijoada estava e ficava ali onde a feijoada estava. E ficava ali à-toa. Dito assim parece à toa. 5 ramos de hortelã? Um bocadinho mais. 2 colheres de coentro picado? Põe três. Aquele era o feijão ao qual me refiro. A feijoada do Manuel. A todo poderosa feijoada dele tem feitiço, aquilo não era panela, era um caldeirão. Aquele é o feijão que eu gosto. Manuel é o cozinheiro de quem lhes falo. Ele é brabo, pois tem brabeza. Ele é bravo, pois tem bravura. Manuel, quem faz um ótimo feijão. 10g de pimenta do reino moída? Põe 15g. A féria do final do dia, ou seja, o acumulado no final do dia foi um cansaço enorme do Manuel. Ele já estava pensando nas férias. 4 colheres de extrato de tomate? Que estranho!Mas põe seis. O sal é a gosto. Há bastantes razões para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Há razões bastante irresistíveis para se comer mais de um prato, tais como, o cheiro, a textura, o segredo principal. Meu caro leitor, a feijoada de sua mãe não chega perto da feijoada daquele cara. A dele seguem anexas linguiças temperadas, seguem anexos segredos, seguem, em axexo, as especiarias do gajo. Após muita insistência, Manuel explicou como se faz: deixe as carnes de molho de um dia para o outro, trocando a água para retirar o sal. Refogue as carnes no toucinho, acrescentando o feijão e a água necessária. Tempere com tomate, cebola, alho, hortelã, pimenta do reino, extrato de tomate e louro. Retire as carnes que forem amolecendo até que o feijão fique cozido. Faltou feijoada, eu bem disse. Comi tanto, que fui processado por Manuel a limpar as panelas. Limpei só uma e fui embora. Tô nem ai pro português.

LULA – antonio delfim netto / são paulo.sp

Desde a Constituição de 1988, as instituições vêm se fortalecendo e o poder incumbente tem, com maior ou menor disposição, obedecido aos objetivos nela implícitos: primeiro, a construção de uma República onde todos, inclusive ele, são sujeitos à mesma lei sob o controle do Supremo Tribunal Federal; segundo, a construção de uma sociedade democrática com eleições livres e à prova de fraudes; terceiro, a construção de uma sociedade em que a igualdade de oportunidades deve ser crescente, por meio de um acesso universal e não oneroso de todo cidadão à educação e à saúde, independentemente de sua origem, cor, credo ou renda.
Vivemos um momento em que se acirram as legítimas disputas para estabelecer a distribuição do poder entre as várias organizações partidárias e que é propício aos excessos verbais, às promessas irresponsáveis e à agressão selvagem.
Afrouxam-se e liquefazem-se os compromissos com a moralidade pública, revelados no universo da “mídia”. Esta também, legitimamente, assume o partido que melhor reflete sua “visão do mundo”.
A situação é, agora, mais crítica porque a campanha eleitoral se processa ao mesmo tempo em que o Supremo Tribunal Federal julga um intrincado processo que envolve o PT e, em breve, vai fazê-lo em outro, da mesma natureza, que envolve o PSDB.
O que alguma mídia parece ignorar é que o uso abusivo do seu poder é corrosivo e ameaçador à necessária e fundamental liberdade de opinião assegurada no artigo 220 da Constituição, onde se afirma que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição”.
Primeiro, porque o parágrafo 5º do mesmo dispositivo previne que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. E, segundo, porque no art. 224 a Constituição fecha o ciclo: “Para os efeitos do disposto nesse capítulo, o Congresso Nacional instituirá, como seu órgão auxiliar, o Conselho de Comunicação Social, na forma da lei”. Dois dispositivos suficientemente vagos que podem acabar criando problemas muito delicados no futuro.
Um exemplo daquele abuso é a procura maliciosa de alguns deles de, no calor da disputa eleitoral, tentar destruir, com aleivosias genéricas, a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ignorando o grande avanço social e econômico por ele produzido com a inserção social, o fortalecimento das instituições, a redução das desigualdades e a superação dos constrangimentos externos que sempre prejudicaram o nosso desenvolvimento.
agencia folha.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

A REPETIÇÃO DA HISTÓRIA – por luis nassif e COMENTÁRIO de paulo timm / são paulo.sp e portugal.pt

São significativas as semelhanças entre os tempos atuais e o período pré-64, que levou à queda de Jango e ao início do regime militar e mesmo o período 1954, que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.

Os tempos são outros, é verdade, e há pelo menos duas diferenças fundamentais descartando a possibilidade de um mesmo desfecho: uma  economia sob controle e uma presidência exercida na sua plenitude, sem vácuo de poder.

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Tirando essas diferenças, a dança é a mesma.

A falta de perspectivas da oposição em assumir o poder, ou em desenvolver um discurso propositivo, leva-a a explorar caminhos não-eleitorais.

Parte-se, então, para duas estratégias de desestabilização  – ambas em pacto com a chamada grande mídia.

Uma, a demonização dos personagens políticos. Antes do seu suicídio, Vargas foi submetido a uma campanha implacável, inclusive com ataques à sua honra pessoal – que, depois, revelaram-se falsos.

No quadro atual, sem espaço para criticar a presidente Dilma Rousseff, a mídia – especialmente a revista Veja – move uma campanha implacável contra Lula. Chegou  ao cúmulo de ameaçar com uma entrevista supostamente gravada (e não divulgada) de Marcos Valério, como se Valério tivesse qualquer credibilidade.

Surpreendente foi a participação de FHC, em artigo no Estadão, sustentando que o julgamento do “mensalão” marca uma nova era na política. Até agora, o único caso documentado de compra de votos foi no episódio da votação da emenda da reeleição – que beneficiou o próprio FHC.

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A segunda estratégia tem sido a de levantar o fantasma da guerra fria. Mesmo sabendo que Jango jamais foi comunista (aliás, o personagem que mais admirava era o presidente norte-americano John Kennedy) durante meses e meses levantou-se o “perigo vermelho” como ameaça.

Grande intelectual, oposicionista, membro da banda de música da UDN, em 1963 Afonso Arino escreveu um artigo descrevendo o momento. Nele, mencionava o anacronismo de (em 1963!) se falar de guerra fria, logo depois de Kennedy e Kruschev terem apertado as mãos. E dizia que, mesmo sendo anacronismo, esse tipo de campanha acabaria levando à queda do governo pelo meio militar, devido à falta de pulso de Jango, na condução do governo.

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O modelo de atuação da velha mídia é o mesmo de 1964, com a diferença de que hoje em dia não há vácuo de poder, como com Jango.

Primeiro, buscam-se personalidades, pessoas que detenham algum ativo público (como jornalistas, intelectuais, artistas etc.). Depois, abre-se a demanda por comentaristas ferozes. Para se habilitar à visibilidade ofertada, os candidatos precisam se superar na ferocidade dos ataques.

Poetas esquecidos, críticos de música, acadêmicos atrás de visibilidade, jornalistas, empenham-se em uma batalha similar às arenas romanas, onde a vitória não será do mais analítico, ponderado, sábio, mas do que souber melhor agredir o inimigo. É a grande noite do cachorro louco, uma selvageria sem paralelo nas últimas duas décadas.

Com sua postura de não se restringir ao julgamento do “mensalão” em si, mas permitir provocações à presidente da República e a partidos, o STF não cumpre seu papel.

Aliás, o STF do pós-golpe foi muito mais democrático do que o atual Supremo.

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COMENTÁRIO:  de PAULO TIMM

O artigo é digno de reflexão. Afinal, vive-se uma espécie de SETEMBRO NEGRO, com sinais de tensões políticas e “irritação” conjuntural, agudizadas, quer pela crise econômica internacional, com reflexos na perda de dinamismo da nossa economia interna, quer pela crise política deflagrada, sem entrar no mérito, pelo julgamento do “Mensalão”.

Tenho vários reparos a fazer ao texto do NASSIF.

Acho que em 64 não havia nenhum vácuo de poder. Isso foi desculpa dos golpistas para derrubarem o Governo Goulart . E, independentemente do que Afonso Arinos dizia, estávamos, sim no Auge da Guerra Fria. Recém saídos da Crise dos Mísseis em Cuba. O golpe de 64 tinha apoio efetivo dos Estados Unidos. Hoje, a Guerra é Cambial, como diz nosso Ministro MANTEGA. E, embora os Estados Unidos estejam reagindo ao nosso suposto protecionismo, nada indica que estará financiando a derrubada de Dilma Roussef.

Isso significa, pois, que a atual CRISE tem origem interna.

E, à diferença de 1954 e 1964, tem um caráter não de LUTAS DE CLASSES, mas da consequência de elas se terem deslocado do campo POLITICO ( praças e Congresso) , para o INSTITUCIONAL (Justiça) . Aliás, uma consequência do que se tem denominado JUDICIALIZAÇÃO da LUTA DE CLASSES, ou LUTA POLÍTICA. Um grande perigo.

Getúlio, severamente combatido pela Imprensa que o acusava de estar mergulhado num MAR DE LAMA, refugiou-se no suicídio e deixou uma CARTA TESTAMENTO que entrou para a História como o testemunho das causas reais da crise: a defesa da economia nacional com respeito à soberania e direitos dos trabalhadores. Jango, reflugiou-se no exílio e deixou à História sua presença altiva no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março, quando promulgou a REFORMA AGRÁRIA, no contexto das Reformar de Base, plataforma de seu Governo. Nos dois casos, o que estava em jogo náo era nem um Presidente, muito menos seus aliados, nem um Partido, mas uma Instituição: a Presidência da Republica.

Nos dois casos, contrariamente ao que afirma NASSIF havia Governos democraticamente eleitos, institucionalmente funcionando, sem qualquer vazio de Poder, nem ambiguidades. O que sim, havia, era uma forte Oposição aos respectivos Governos no Congresso Nacional, o que hoje não existe, em função, até, da habilidade da CONCERTAÇAO da Governabilidade pela cúpula dos Partidos. Nos casos de JANGO, VARGAS e DILMA é certo, porém, que a grande imprensa OPERA COMO PARTIDO POLÍTICO jogando pesado a favor do conservadorismo. . O próprio NASSIF , entretanto, ressalta a diferença: O alvo, agora, náo é nem a Presidente, nem seu Governo. O alvo agora é o PT, portanto, o jogo não tem caráter propriamente GOLPISTA, mas político. Pretende debilitar o PT, atingir algumas de suas mais importantes figuras e o próprio LULA, que , aliás, încovenientemente, a meu juízo, procura se defender em campo aberto, coordenando o apoio de setores da sociedade não em apoio ao Governo, que náo está em causa, mas a acusados em um processo em curso. Tem todo o direito, mas é um jogo extremamente perigoso porque cria, sim, uma fratura na autoridade da Presidente da República. Fica evidente que há um PODER FORMAL no Planalto, com grande prestígio de Opiniáo Pública e respeitabilidade da Imprensa e até Oposiçao e OUTRO PODER, DE FATO, no Ex-Presidente, já visivelmente desgastado, seja pela doença, seja pelo afastamento do Poder, seja até pela própria insistência em se manter no HIT PARADE, seja, enfim, pelo efeito da mídia. Isto, sim, cria um vazio de Poder que o autor náo assinala.

O cachorro louco de agosto, parece, pois, que continua solto pelas veredas de setembro. Esperemos outubro…

 

Para que escrever poesia? Para quem? – LES MURRAY

Reprodução/Internet/Rogério Galindo.
Reprodução/Internet / Les Murray.
Les Murray.

O blog traduz mais um poema de Les Murray, torcendo para na semana que vem ele ser anunciado como o vencedor do Nobel…

O instrumento

Quem lê poesia? Não nossos intelectuais;
eles querem controlá-la. Não os amantes, não os combativos,
não os examinadores. Eles também roçam-na em busca de bouquets
e trunfos mágicos. Não os alunos pobres
que peidam furtivamente enquanto criam imunidade contra ela.

A poesia é lida pelos amantes da poesia
e ouvida por mais uns que eles levam ao café
ou à biblioteca local para uma leitura bifocal.
Os amantes de poesia podem somar um milhão
no planeta todo. Menos do que os jogadores de skat.

O que lhes dá prazer é um roçar nunca-assassino
destilado, principalmente versado, e suspenso em êxtase
calmo na superfície de papel. O resto da poesia
de que isso uma vez já foi parte ainda domina
os continentes, como sempre fez. Mas sob a condição hoje

de que seu nome nunca seja dito: construções, poesia selvagem,
o oposto mas também o secreto do racional.
E quem lê isso? Ah, os amantes, os alunos,
debatedores, generais, mafiosos, todos leem:
Porsche, plástica, Gaia, Bacana, patriarcal.

Entre as estrofes selvagens há muitas que exigem tua carne
para incorporá-las. Só a arte completa
livre de obediência a seu tempo pode te fazer dar piruetas
ao longo e através dos poemas maiores em que você está.
Estar fora de toda poesia é um vazio inalcançável.

Por que escrever poesia? Pelo estranho desemprego.
Pelas dores de cabeça indolores, que devem ser aproveitadas para atacar
por meio de seu braço que escreve no momento acumulado.
Pelos ajustes posteriores, alinhando facetas em um verbo
antes que o transe te deixe. Para trabalhar sempre além

de sua própria inteligência. Para não precisar se erguer
e trair os pobres para fazê-lo. Por uma fama não-devoradora.
Pouca coisa na política lembra isso: talvez
os colonizadores australianos reinventando o falso
e muito adotado voto secreto, no qual a deflação podia se esconder

e, como um portador do bem-estar, envergonhar as Revoluções da vala-comum.
Tão cortada a machado, tão cônsul-ar.
Foi essa uma brilhante vitória mundial da covardia moral?
Respirar em ritmo de sonho quando acordado e longe da cama
revela o dom. Ser trágico com um livro na sua cabeça.

hoje completa três anos que nosso amigo, filósofo, ideólogo, jornalista, poeta e escritor WALMOR MARCELLINO deixou de conviver conosco.

colaborador assíduo deste sitio com seus textos críticos, substantivos , contundentes e se por melhor pudéssemos afirmar os seus POEMAS atraíram milhares de leitores que até hoje lhe visitam. como lembranças de WALMOR postamos, abaixo, um texto que refere-se a uma eleição dado ao momento e um de seus poemas.

VAMOS ASSIM, rapaziada

Manipulei um convite de contribuição no valor de R$1.000,00 (ao dia 2 de setembro, às 19h30min, no Buffet du Batel) para participação no “Jantar dos Amigos do Beto” e compreendi como o “trabalho continua” com a Coligação Curitiba, sob entusiasmo de quem teve registrados 70% nas pesquisas de “intenção de voto”, e que procura perder pouco dessa “fofura” até as eleições. Para quem está habituado a ver uma “fezinha” de R$10,00 a R$50,00 em colaboração para algum candidato sinistróide, essa “espontaneidade” de milão dá coceiras.

Mais ainda sabendo que se trata de um plus arrecadante de um amplo grupo de amigos de prefeito, em que empreiteiros de obras e empresários notáveis “por sua contribuição à nunca suficientemente louvada democracia representativa” já definiram participações (de pars, partis, a parte) muito mais significativas na campanha ‑ e que a escória “socialista de gaveta” do PSB, do PDT e do PPS se tem alinhado pela direita e agora faz seu pule no capão mais habilitado ‑ enquanto suas lideranças já dividiram os bônus do processo eleitoral. Aqui me quedo abismado.

Entretanto, não devemos ficar discutindo fundos e apoios políticos, e sim a forma e o estilo, que são o busílis ideológico-político. Claro está que as eleições não são lugar específico para assertivas ideológicas e pregações de doutrina, já que o “anuente” se submete a regras de disputa de funções político-administrativas, para as quais, pensa-se, terá alguma contribuição objetiva além de retórica. Quando muito, poderá vincular suas propostas objetivas a uma visão político-administrativa e urbanística.

Além do discurso verde do PV e do discurso vermelho do PSOL-PSTU-PCB, que no geral  só convocam atenção dos próprios simpatizantes, e de que Fábio Camargo é um livre-atirador a serviço da candidatura Beto Richa (e de seu próprio prestigiamento, é óbvio), a candidatura Gleise Hoffmann estranhamente afirma “eles estão cansados e pouco criativos”: como elogios à privatização das áreas municipais e à criação do sistema de transporte para a Volvo, para o “pool”empresas de transporte coletivo e para fabricantes de equipamentos urbanos; e também aos urbanistas e arquitetos associados na cópia de obras existentes no exterior ‑ sempre, lembremos, com aviso para os amigos do IPPUC e do prefeito de quais áreas urbanas irão valorizar ‑. Tudo como se fosse um fulgurante sistema de planejamento urbano em declínio!

A sua vez, bem articulado em sugestões democráticas e de repercussão pública, o candidato do PMDB consegue fazer propostas incisivas e razoáveis, mas que não conseguirão ultrapassar o nível de falas ocasionais. Simplesmente porque o processo eleitoral entre nós começaria logo após as eleições, com necessária formatação de críticas passo a passo e extrapolação delas como constante informação pública. Todavia, o contexto de delirantes e espaventados que o cerca diminui a credibilidade do ex-reitor da UFPR.

 Poemática

Ao inventor do quadrado de quatro pontas

José Luiz Gaspar

Xamãs tupiniquins alvoroçados

‑ cada qual com seu fado ‑

vão denotando como que se faz

‑ um pouco na frente, outro atrás ‑

espetar pelo ramos as rosas

‑ galhofando-as nas glosas ‑

de raspar seu lápis na lousa

‑ para extrair enfim outra coisa.

Apenas um som não faz sentido

seu sentido é que procura o som.

como criança brinca de bandido

enquanto o ególatra tasca seu tom.

Todas palavras gozam à ideofrenia

arritimando-se pelos batecuns,

sempre desiguais como um +um.

O coração despulsa nessa sangria

ensandecido numa feroz dislalia

em que coaxaria refaz sua cultura.

Aí, a bilurribina exsuda acumputura;

a pele triscada, um calor à mente

e no verbo um som intermitente:

Batecum! Batecum, mais um.

PARA A GAUCHADA NA SEMANA FARROUPILHA – HOMENAGEM 1 – TRECHO DO ROMANCE “ENCAIXOTANDO BRASÍLIA” – por abelardo barbosa brandão / brasilia.df

…Boato do dia: “Pimenta fugiu”. “Vamos ver, se ele conseguir, quem sabe, nós fazemos o mesmo”, disse o Gaúcho esfregando as mãos. Pelo que vi no mapa, vai virar almoço de onça, isto se não morrer afogado, pegar malária ou outra doença pior, comentei pessimista como sempre. De boatos em boatos íamos levando a vida. Continuamos com nosso joguinho de vôlei de manhã, à tarde consertávamos as casas, o muro e limpávamos o Igarapé da Bosta. O Gaúcho, como “comandante dos presos”, dirigia as operações. Quando chegava no dístico “Aqui Defendemos a Fronteira do Brasil”, eu costumava fazer uma piadinha, quase sempre sobre a capacidade daquela meia dúzia de soldados que tomavam conta da prisão, serem capazes de defender alguma fronteira. O Gaúcho retrucava professoral: “É simbólico, igual quando a gente faz uma cerca na fazenda, avisando ao vizinho: daqui para dentro a terra é minha”. É preciso ver se o vizinho vai respeitar, pensei na Segunda Guerra, todos fizeram suas cerquinhas, os alemães vieram com tanques e aviões e passaram por cima de tudo. “Vizinhos sempre se respeitam”, disse o Gaúcho, pensando em fazendeiros.

Estava arrumando um telhado, do alto da escada avistei um grupo de índios trazendo um homem numa rede. Era o Pimenta. O indivíduo ficou magro, magérrimo, em menos de um mês a Terçã deixou-o irreconhecível, do rosto redondo sobrou uma cara esquelética assustadora, amarela. Tudo nele ficou amarelo, a pele, os lábios, o branco dos olhos, as unhas, tudo. Quando o vi de perto pensei que já estava morto, mas os índios faziam sinais dizendo que não. Os Juminás viviam numa aldeia ali perto e encontraram o Pimenta a uns oitenta quilômetros ao Norte, próximo de um lugar chamado Ponta dos Índios, perto do Cabo Orange. Ia na direção do mar, devia ter um plano, não sei se contaria, era calado, quieto. No momento não conseguia falar nada, mesmo que quisesse. O comandante mandou os cozinheiros arranjarem comida, montaram um prataço de quatro andares: o primeiro andar só com feijão enlatado, o segundo, inhame com linguiça de lata, o terceiro de farinha derramando pelas bordas, e lá no alto, como se fosse o atrativo principal, uma banana cozida, gentileza do cozinheiro. Imaginei que aquela comidaria ia acabar de matá-lo, mas não, quando viu a comida ficou mais animado, mas não conseguiu engolir três colheradas, só comeu a banana. “Dê-lhe água, muita água, está desidratado”, recomendou o enfermeiro, ao mesmo tempo enfiou-lhe dois comprimidos de Aralen na boca. Deixamos que tentasse comer em paz, depois iríamos ver se dizia algo de útil para uma fuga mais concatenada. O Periquito, como o Gaúcho chamava o comandante, botou-lhe uma semana atrás das grades e mandou aumentar a comida e o Aralen. Quando saiu, pouco falava, mesmo diante da insistência do Gaúcho. “Por que foste na direção Norte, rapaz?” Insistiu o Gaúcho. “Não sei, Queria chegar no mar, no Atlântico. É muito longe, só andava de dia, orientado pelo sol, não levei bússola. Ainda bem que os índios apareceram, senão morria de fome e da malária.”
O Gaúcho tentava conversar com os índios, saber mais sobre a região, difícil, não falava a língua deles e depois havia um problema sério, falavam sem parar, todos de uma vez, acho que gostavam do som de suas próprias vozes. Não eram como nós, que esperamos o outro acabar e respondemos. Não, eles falavam, falavam e falavam, às vezes todos juntos uma confusão danada. A chamada da manhã era a melhor parte do dia, repetindo o próprio nome, como se estivesse reconhecendo a veracidade da situação. “É. Sou eu mesmo e estou aqui, vivo”. Em três meses, tínhamos pintado as casas e consertado as instalações de água e luz. Começamos a construir uma fossa enorme, na tentativa de salvar o Igarapé da Bosta que agora era chamado Igarapé do Lacerda, homenagem ao governador do Rio. O comandante mandou, e a maioria de nós tratamos de cumprir, não tinha queixa dele, diferente do Gaúcho, que o considerava, no mínimo um reacionário e de vez em quando comentava entre brincalhão e irônico: “Bem que podíamos tomar este quartel vagabundo, botamos o Papagaio na gaiola e nos declaramos rebelados”. Não é Papagaio, é Periquito. E fazer o quê depois, embrenhar-se na mata por mais de quatrocentos quilômetros e pedir asilo ao Governo da Guiana? Do jeito que são as coisas por lá, mandariam nos fuzilar na hora, só para ficar com as armas e as botas. “Papagaio ou Periquito, que diferença faz”. Pra você nenhuma, só entende de cavalos. “Companheiro, podemos tentar sair por mar, teve um francês que fugiu de uma prisão na Guiana e ninguém sabe como, chegou na França, o nome me escapa agora, mas é chamado de borboleta em francês, li algo sobre ele, pena não ter trazido o livro, ia facilitar”. Você deve ter lido algum romance francês, isso sim, vai ver o cara saiu borboleteando mar adentro até chegar em Paris, depois deu uma volta em torno da Torre Eiffel, tipo Santos Dumont. “Tchê, tu és muito jovem, não sabe nada, é inculto como uma boceta, age por impulso. Já percebi que estás querendo dizer que nosso pai da aviação era viado. Quando sairmos daqui vou te levar na Livraria Civilização Brasileira do meu amigo Ênio da Silveira, o livro está na prateleira, aí tu vais ver”.
Com o tempo fiquei amigo do Gaúcho, sentávamos juntos no almoço, jantar e café da manhã e passei até a responder seu “buenos dias garoto” com outro “buenos dias, tchê”. Até hoje, passados mais de quarenta anos, ainda respondo cumprimentos matutinos com um “buenos dias” para espantar o mau humor, e não há como deixar de lembrar do Gaúcho. Dizia ter quarenta anos (quase o dobro da minha idade), baixinho, pernas curtas, cabelo avermelhado cortado rente, voz ranheta e a calça sempre abaixo da linha da cintura, querendo cair, mas suspensa de vez em quando em um movimento automático. Do que sente mais falta? “Primeiro, da mulher e da filharada, segundo, do frio que permitia lagartear de manhã, em terceiro lugar, do chimarrão. Do meu cavalo não vou sentir tanta falta, por aqui tem uns pangarés, mas vi também um Frontino e um Gateado muito bonito. Bem que tentava substituir sua bebida predileta, produzindo um chá forte de mate queimado, que conseguia às escondidas com o cozinheiro. O frio podia esquecer, estávamos em cima da linha do Equador, o calor era alarmante, só diminuía quando desabava o temporal. Nem sei como fiquei amigo do Gaúcho, éramos tão diferentes, além de que eu detestava o frio, gostava de café e não era chegado a cavalos, preferia gatos com sua costumeira independência. Ele poderia passar horas, como às vezes passava, falando de cavalos. “Você sabe tchê, que existem mais de cinqüenta cores de cavalos? Alazão, Argel, Arminado, Estrelado, Prateado, Quatralvo…
Ele tinha uma expressão favorita: “a concha é uma adaptação ao animal que vive nela”. Eu insistia que era o inverso e argumentava que a selva não era um mundo adaptado aos índios, eles é que se adaptaram a selva. Ele contra argumentava explicando que na selva viviam milhares de animais e “eles é que fizeram da selva, a selva. Sem pessoas ou animais não há selva. Assim como sem o ser humano não há terra”. Íamos nos infiltrando por discussões intermináveis, resultante da falta do que fazer. Algumas sobre prisão, é claro. Eu insistia que todos ali, incluído o comandante, estavam tão presos quanto nós, com a diferença que podiam comunicar-se com as famílias ou até trazê-las. Retrucava didaticamente, para que eu pudesse entender, que a liberdade não era um substantivo concreto, mas abstrato, que nossos guardas tinham a perspectiva e a sensação que estavam livres, nós não, isto é que fazia a diferença. Na dúvida, consultávamos os livros dele: Kant, Hegel e até Aristóteles, que nunca consegui compreender. “Marx não tem, os militares confiscaram”. Ainda bem, só serve para iludir os meninos. O Gaúcho discordava irritado e bramia todas aquelas frases prontas do Manifesto Comunista, do tipo “vós não tendes nada a perder além de teus grilhões”, referindo-se aos pobres. Eu sabia, por experiência própria, que era o contrário: os pobres têm tão pouco, que quando perdem, perdem tudo, acho que por isso, as revoluções sempre veem de cima, dos que tem a perder. Argumentar contra Marx era bobagem. Para o Gaúcho, ele se assemelhava a Deus, estava muito acima de qualquer mortal, e não sei como depois de passar por tantas revistas, conseguiu chegar ao Oiapoque com uma pequena foto de seu ídolo…. Era um sujeito culto e de posição ideológica inflexível, acreditava que a solução para o Brasil era uma revolução que implantasse aqui o Marxismo-Leninismo. Hoje isto pode parecer a muita gente uma heresia, mas aqueles eram tempos de mudanças, tudo parecia possível aos olhos de pessoas como o Gaúcho… “Conheces alguma coisa da história do Brasil, tchê?”
Bem, mais ou menos, Pedro Álvares Cabral, Tiradentes, Pedro I, Princesa Isabel, Floriano Peixoto. “Não! Estou falando da história recente, não dessas pessoas que a gente nem sabe direito se existiram mesmo, da história como um conjunto de fatos articulados com causas e efeitos”. Nunca pensei muito nisso, só sei que somos um país explorado, primeiro por Portugal, depois pelos ingleses e agora, os americanos. “É, mas não se esqueça que começamos nossa caminhada como um país que produzia o que se toma depois da sobremesa, uma semente que era posta ao sol para secar, depois torrada, depois esmigalhada, depois virava pó e levada a água fervente resultava num líquido feio e amargo que só descia garganta abaixo se botássemos açúcar. Então trocávamos essa semente seca e queimada por outros produtos, e assim íamos avançando, mas como queríamos tomar café, começamos a produzir o açúcar, como era muito amargo mesmo assim, começamos a produzir leite. A partir desse produtozinho vagabundo conseguimos criar uma nação. Para que isso fosse possível, tivemos uma política construída por algumas pessoas de visão. Anote aí na tua cabeça oca, o nome dessa política é o nacional-desenvolvimentismo”.
Tá, mas e os ciclos do açúcar, do ouro?
“Não interessa agora, já passou, já era, agora o que interessa é como sair do líquido preto e feio e produzir outras coisas, além de dar empregos, saúde e educação para o povo. O nacional-desenvolvimentismo vinha tentando manter alguma independência e promover o desenvolvimento com a grana do próprio governo, ou seja, dos impostos que arrancam de todos nós. Só que essa política está esgotada, entende tchê, esgotada. Temos que partir para uma atitude mais ousada, nos libertarmos por completo dos gringos, adotar outro regime político, fazer uma ruptura com o passado anacrônico, modernizar o Brasil”.

A RECUPERAÇÃO MORAL – por mauro santayana / brasilia.df

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse em São Paulo, em um  encontro com artistas e intelectuais, que esse é o momento de “recuperação moral” da política brasileira. Ele pode ter razão, e a terá ainda mais se, depois do escrutínio judicial da Ação 470, o exame de outras ações pendentes no STF e nos tribunais dos Estados, abrir o véu que cobre o período de 1995 a 2003. Seria importante saber como se deu a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa construída por mineiros. E seria também importante verificar, em sua intimidade, o processo de privatização da Telebrás e suas subsidiárias.

Estamos submetidos a um péssimo serviço, quase todo ele explorado por empresas estrangeiras. Segundo o PROCON, as reclamações contra os serviços telefônicos celulares batem o recorde naquele órgão. Enquanto isso, algumas empresas, como a Telefônica, continuam se valendo do nosso dinheiro, via BNDES, para financiar sua expansão no país, enquanto os lucros são enviados a Madri, e usados para a compra de empresas no resto do mundo.

Será, da mesma forma, necessária à recuperação moral da política brasileira saber quais foram as razões daquela medida, e como se desenvolveu o processo do Proer e da transferência de ativos nacionais  aos bancos estrangeiros, alguns deles envolvidos em negócios repulsivos, como a lavagem de dinheiro do narcotráfico.

Quem fala em recuperação moral estuprou a Constituição da República com a emenda da reeleição, recomendada pelo Consenso de Washington, uma vez que aos donos do mundo interessava a continuidade governamental nos países periféricos, necessária à queda das barreiras nacionais e à brutal globalização da economia, com os efeitos nefastos para os nossos países. Seria, assim, também importante, no processo histórico da “recuperação moral”, saber se houve ou não houve compra de votos para a aprovação do segundo mandato de Fernando Henrique, como se denunciou na época, e com algumas confissões conhecidas.

Tivemos oito anos sem  crescimento do ensino universitário público no Brasil, enquanto se multiplicaram os centros privados de ensino superior, que formam, todos os anos, bacharéis analfabetos, médicos açougueiros, sociólogos inúteis.

Para essa “recuperação moral” conviria ao ex-presidente explicar por que, no apagar das luzes de seu governo, recebeu, para um jantar a dois, o banqueiro Daniel Dantas, acusado de desviar dinheiro de seu fundo de investimentos para os paraísos fiscais, violando a legislação brasileira. Seria também importante reexaminar a súbita prosperidade dos jovens gênios que serviram à famosa “equipe econômica” em seus dois mandatos.

Se a “recuperação moral” for mesmo para valer, o ex-presidente não tem como eludir às suas responsabilidades. Para começar, se alguém se habilitar a investigar – e julgar ! – basta o seu diálogo gravado com o pessoal do BNDES no caso da privatização das telefônicas.

INEDITORIAL – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Gaúcho que é gaúcho é assim:  maula, mas sensível à poesia, hiperbólico mas llano,  como o pampa que lhe faz morada. Mesmo que pareça para muitos,  “Para Nada”, como vaticinou Ascenso Ferreira em seus versos satíricos. O gaúcho é grande:

 

“Eu sou maior do que História Grega, Eu sou gaúcho e me basta…”

 

Por via das dúvidas, estamos no dia 20 de setembro, data máxima do civismo rio-grandense. Haverá, além do Acampamento Farroupilha, no Parque da Harmonia, em Porto Alegre,  muita cavalgada pelo interior, muita discurseira, tanto de palanque , quanto de beira de chão, e fortes doses de folclore. Alguns, como o cientísta politico Dilan Camargo, ridicularização mais um vez os feitos de 35;  Juremir Machado reiterará seu ceticismo diante de qualquer Revolução, Farrapa ou não;  um ou outro historiador lembrará Bento Gonçalves. Mas, curiosamente, há pouco debate sério sobre o 20 de setembro.

 

Ah que falta faz o Décio Freitas! Ele alíás, sentenciou : “A historiografia dos Farrapos não é crítica. Há uma massa enorme de documentos que nunca foi utilizada pelos historiadores. Por quê? Porque os historiadores têm medo de mexer em verdades estabelecidas” – DÉCIO FREITAS, NA APLAUSO 46 (2003) . Nos falta também o Joaquim Felizardo, tanto ou mais iridescente do que o Décio, mas também fumante inveterado e senhor de papos homéricos. Resta-nos, pois, na data, o regozijo com o folclore, farto por todo o Rio Grande e até na China, com a proliferação de CTGs, ficando a lacuna da reflexão.

 

Por certo, náo é este o lugar para teses aprofundadas. Mas pior é a omissão.

 

Comecemos por separar o que é tradição – e aí se enquadra o movimento propriamente chamado de “Tradicionalista”, cuja maior expressão sáo exatamente os CTGs, do que é cultura riograndense, aí situando a questão do separatismo .

 

Há uma confusão muito grande entre o FOLCLORE gaucho, que acabou se concentrando na valorização da Revolução Farroupilha e a questão do sentimento separatista do gaucho.

O folclore é e sempre será RETROSPECTIVO  e nisso ele cumpre – e cumpriu-  importantes papeis. Não fora ele, nós seríamos identificados, no sul, como fazem os australianos, pelo canguru, ou canadenses, por uma árvore. Os paranaenses, aqui ao lado padecem do mesmo estigma. São simbolizados por um pinheiro… O folclore, principalmente depois dos grandes esforços de Paixão Cortes , deu-nos uma expressão antropológica. Forçou a barra. Mas reconstruiu um modelo típico ideal do gaúcho – não o inventou – e o propôs como paradigma no meio de um processo da formação multicultural, que a geografia e a economia só  acentuaram entre 1824 e meados do século XX.  . Funcionou! Aí está. Não foi imposto por nenhum Partido Político ou Igreja sectária. Rebrotou naturalmente do ventre do pampa para a sociedade gaúcha como um Manifesto. E se instalou definitivamente como um dado da cultura.

 

Eu tive minha infância em Santa Maria entre 1945 e 1955, vindo depois para Porto Alegre, filho de um militar de origem alemã e uma prendada professora. Todos de cultura eminente urbana. Nunca montei num cavalo- as tentativas de meu avô, fazendeiro em Tupanciretá, foram desastrosas…- nem me adentrei nas profundezas do sertão pampeano. Sou, rigorosamente, um europeu: branco, supereducado, louco por livros e cinema, socialista. Nem sequer chimarrão se via nas nossas tertúlias portoalegrinas nos anos 60. Às vezes pintava um João, asmático e gauchesco,  de cuia na mão nas rodas da Livraria do Arnaldo,  na Praça da Alfândega. Mas era raro. Mesmo os que chegavam do interior e ganhavam alguma projeção, como um dos melhores tribunos daquela época, vindo de Quaraí, onde fez política, logo se socializavam na cultura eminente urbana de Porto Alegre. E víamos, sempre, a movimentação tradicionalista, cujo epicentro era exatamente no “Julinho”, onde eu estudei e de onde provinha grande parte da elite da época, com distanciamente e até preconceito. – “Era a indiada”, como se dizia. Hoje, malgrado a globalização, o gauchismo foi entronizado pelas elites como um dado da cultura riograndense. E basta ir à Redenção para ver a infinidade de gente de cuia na mão. Até bombacha…Vitória do “tradicionalismo”…

 

Mas é claro que o tradicionalismo, para se firmar, apoiou-se mais no feito da Revolução Farroupilha, que pouco conhece em profundidade, sendo até suspeito para fazê-lo porque o toma como ato de fé ,  do que no próprio folclore. Acabou nesta sobrevalorização do 20 de Setembro, quando, se tivesse sido mais cuidadoso com a História,  teria valorizado mais o 11 de setembro, data da fundação da República Riograndense. A tarefa, porém, de pesquisa cuidadosa no terreno sobre música, danças, indumentária e estilos de vida antigas , são dignas de um prêmio de Antropologia. Eles não revelaram apenas formas de uma outra era, mas a própria alma de um povo rústico em sua formação.

 

Outra confusão do tradicionalismo foi misturar folclore com ideologia. Antes de 64 o Movimento era francamente “trabalhista”e deixou não raros registros desse alinhamento em suas canções. Depois… Melhor nem falar…

 

Mas voltemos ao  separatismo, muitas vezes suscitado no 20 de Setembro.

 

Se ele ocorreu no passado, ou não, cabe aos historiadores comprová-lo. O que é certo é que , quando a Independencia foi feita, em 1822, o Rio Grande era uma vastidão incerta, com uma população muito pequena e, certamente, poucas convicções nativistas. O resto do Brasil, nesta época, com mais de três séculos de vida, já tinha desenvolvido seus próprios interesses, contrários ao domínio colonial, do qual padeciam severas discriminações. O Rio Grande, porém, ocupado por militares portugueses retirados do serviço militar, com epicentro (deslocado) ainda na cidade de Rio Grande, estava longe de participar ativamente, como Minas, Rio de Janeiro e o Nordeste todo, do estado de espírito que levou à Independência. Desconheço como se deu, ela, aqui no Rio Grande, e estranho que, tal como houve  em outros pontos do país, a guarnição lusitana não tenha tomado os brios de quem lhe pagava os soldos…: a Coroa Portuguesa.

 

De qualquer forma, o SEPARATISMO no Rio Grande, se tem um olho no passado, o outro será sempre  PROSPECTIVO, embora , inevitavelmente recorra ao FOLCLORE como justificação e propaganda. . Assim fazem aqui na Europa catalães, bascos , escoceses e todos os demais povos que se separaram , não sem dores, da antiga YUGOSLAVIA.  E também os que se separaram da Uniáo Soviética. Um olho no padre, outro na missa. Porque o projeto POLITICO de emancipação é eminentemente  IDEOLÓGICO, e deve nutrir –se de sólidas  razões para a construção de um futuro independente  melhor.

 

Discutir o separatismo não é também mover uma guerra pela independência do Rio Grande do Sul, tout court. Trata-se, na verdade, de se discutir o federalismo no Brasil. E se ele , tal como está implantado, é bom ou mau para os gaúchos. Nessa discussão, temos que entrar com argumentos e determinação. Não será um convite para um jantar, nem um piquenique, ao qual levamos sanduíches. Trata-se de levantar argumentos e entrar de sola para rediscutir várias questões do federalismo no Brasil: a representação parlamentar no Congresso Nacional, o sistema tributário, o regime de subsídios ao capital e ao trabalho, segundo as regiões do país, os critérios de redistribuição do produto da arrecadação da União no Estado, os meios de comunicação e a industrial cultural, a importância dos resultados na educação , o balanço de produtos estratégicos , como petróleo e outros do subsolo, etc. Daí poderá até haver uma nova concertação federal. Mas se não houver conserto (…) a atual deve ser veemente combatida, nem que seja através de uma luta pela autonomia riograndense. Vivo , aliás, em Portugal, um país “pequeno, mas muito grande”, como lembra José Saramago , em “Viagem a Portugal” e com uma qualidade de vida exemplar, apesar da Crise.  Pois bem, o Rio Grande é até maior do que Portugal, em população, em diversidade geográfica, em PIB industrial , em tecnologia e até em exportações. Só não é  maior em glórias, apesar do Movimento Tradicionalista…

A data do 20 de setembro, portanto, deve nos resgatar parte destas glórias do passado, mas deve, sobretudo, lançar-nos com o olhar para o futuro de forma a nos perguntarmos: O que queremos do Rio Grande. Um Novo Nordeste, como profetizou em série de reportagens memoráveis Franklinde Oliveira, nos anos 1960, mercê da perda de substância no processo econômico em curso no país? Ou ficar a Pátria Livre, e morrer … pelo Rio Grande, senão independente, autônomo.

Por que a reeleição de FHC nunca chegou ao STF? – por laurez cerqueira / são paulo.sp

A campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pela Folha de S. Paulo, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

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Quem não sabe como são feitas as salsichas, as leis e as eleições? A novidade é que parte do Ministério Público e parte do Supremo Tribunal Federal resolveram julgar o “caixa dois”, feito para as eleições municipais de 2004, curvando-se à versão sobre o “mensalão” criada por Roberto Jefferson, pela oposição e por parte da imprensa que sempre tratou o PT como um intruso na política brasileira. Um precedente perigoso que coloca o STF acima dos demais poderes da República. O alvo é o PT. Destruir o PT.

Afinal, a elite não acreditava que os de baixo fossem capazes de se organizar num partido politico de massa para fazer a luta social e eleitoral no país das desigualdades. Naquela eleição, em 2004, apesar de tudo, a esquerda cresceu eleitoralmente e em seguida reelegeu Lula.

Agora, como num delírio narcísico diante do espelho (câmeras de tv, internet) ministros do STF, enrolados nas suas capas pretas, parecem fazer o jogo de setores da imprensa, que querem fazer valer a todo custo a versão do “Mensalão” e patrocinam um triste espetáculo. A hipocrisia, o cinismo, aparecem reluzentes nas faces de alguns inquisidores como se o financiamento de campanhas eleitorais por meio de “caixa dois” fosse uma invenção do PT. As câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do caráter de personagens centrais do julgamento no STF.

As investigações foram cirúrgicas e não foram além da superfície do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais de todos os partidos políticos.
 Não há nenhum questionamento sobre os demais partidos, como se os de oposição (PSDB, DEM, PPS) tivessem financiado as eleições de 2004 na mais perfeita ordem.

Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que nas eleições municipais de 2004 cerca de 400 mil políticos empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de trabalhadores, para disputar 55 mil vagas de vereador e 5.600 cargos de prefeito no país.

A infra-estrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 – propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de comunicação – comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais. O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor. 
Especialistas estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas.

Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não foram registradas como manda a lei. O que daria em média geral 1 real para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois. Quem adota o caixa dois costuma dizer que as contribuições sem registro são feitas a pedido dos contribuintes que não querem se expor como se o problema fosse a Lei Eleitoral.

O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota, pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e chegou a conclusão que as candidaturas a presidência da República são financiadas com maior volume de recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço e a petroquímica. Isso porque a Presidência da República é quem responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de subsídios. Os setores financiadores das campanhas à presidência da República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no Senado e na Câmara são também do âmbito da União; já as candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras, isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados; os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das empresas de transporte e de coleta de lixo.

A campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país e nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo jornal Folha de São Paulo, assinada pelo repórter Fernando Rodrigues, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.

Naquele momento, Sérgio Motta, ministro das Comunicações havia declarado que o projeto dos tucanos era permanecer no poder por no mínimo 20 anos. Disse isso depois das privatizações dentre outras áreas, a de telecomunicações.

No início da campanha presidencial de 1998, o comitê eleitoral responsável pelas articulações da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seria necessário R$ 73 milhões. Esse orçamento prévio foi comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral.

Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões. 
A revista Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou das finanças, coordenada pelo ex-ministro Bresser Pereira, dias depois do envio da lista ao Tribunal, refez as contas e concluiu que os gastos foram R$ 45,931 milhões, uma quantia muito superior ao total declarado ao TSE.

Esse desencontro de valores, entre o que se arrecadou, o que se gastou e o que se declarou ao TSE jamais foi explicado pelos coordenadores. Paira sobre esse assunto uma nuvem de mistério. Curioso é que na campanha de 1998 o candidato Fernando Henrique Cardoso viajou menos, fez menos comícios do que em 1994, mas gastou R$ 10 milhões a mais. 
Bresser Pereira conta que, diante do volume das dívidas deixadas pelo comitê, ele foi obrigado a reunir a equipe financeira e colocá-la de novo em campo para arrecadar mais dinheiro dos empresários para cobrir o rombo.

A revista Época informou ainda que as solicitações foram deliberadamente concentradas nos grupos empresariais que compraram as estatais. Na segunda quinzena de outubro daquele ano (período proibido pela lei) foram arrecadados R$ 8,2 milhões. Essa decisão foi absolutamente ilegal e contrariou a legislação eleitoral, mas mesmo assim a arrecadação de recurso foi feita.

Dentre as empresas que doaram recursos após o pleito, constam a Vale do Rio Doce, Companhia Petroquímica do Sul (Copesul) e Telebras. As subsidiárias da Vale do Rio Doce doaram R$ 1,5 milhão. Os donos da Copesul, R$ 1 milhão e os grupos La Fonte/Jereissati/Andrade Gutierrez e Inepar, que haviam comprado as empresas do sistema Telebras, doaram R$ 2,5 milhões. No final da ofensiva dos coletores, os dirigentes do comitê disseram que ficou faltando R$ 2,9 milhões para liquidar as contas.

Na mesma matéria, a Época destacou o setor financeiro como o que mais contribuiu para a campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Em 1994, os banqueiros deram R$ 7,1 milhões. De cada R$ 10,00 que entraram no caixa da campanha, R$ 4,30 originaram do setor financeiro. Em 1998, a aposta do setor no candidato à reeleição atingiu 43% (R$ 18,6 milhões) mais que o dobro da campanha anterior. Apenas cinco conglomerados financeiros contribuíram com quase R$ 10 milhões. Somados, responderam por 66,1% das doações feitas pelo setor financeiro e 28,6% do total de contribuições declaradas na campanha presidencial, informou a revista.

As controvérsias sobre o financiamento da milionária campanha à reeleição de Fernando Henrique Cardoso não pararam por aí. Para complicar ainda mais a vida do tucanato a Folha de São Paulo, de 12 de novembro de 2000, publicou uma vasta matéria com informações comprometedoras, obtidas de planilhas eletrônicas datadas de 30 de setembro de 1998, vazadas do comitê eleitoral do candidato tucano. Essas planilhas revelam a existência de uma contabilidade paralela de arrecadações e gastos da campanha. 
O jornal informou que pelo menos R$ 10,120 milhões deixaram de ser declarados ao TSE e que, de cada R$ 5,00 arrecadados R$ 1,00 era desviado para uma contabilidade particular desconhecida.

Além dos R$ 10,120 milhões não declarados oficialmente ao Tribunal, feitos os cálculos, tomando por base a planilha completa, ficou de fora R$ 4,726 milhões, doados por empresas que constam da lista do TSE, com valores menores do que os da planilha, que aparecem sob a rubrica de uma associação de classe de empreiteiros.
O dinheiro arrecadado pelo comitê financeiro, descrito em 34 registros na planilha principal obtida pelo jornal, totalizara R$ 53,120 milhões. Vale lembrar que na data constante da planilha, a qual os repórteres tiveram acesso, o comitê ainda não havia registrado todas as contribuições o que leva a crer que o volume de recursos não declarados devia ser muito maior, levando em consideração que o orçamento estimado inicialmente pelo comitê para os gastos, e comunicado ao TSE, era de R$ 73 milhões.

Nota-se que havia margem suficiente para declarar os recursos constantes na contabilidade paralela em questão e a equipe financeira não o fez. As razões não foram esclarecidas à imprensa, que insistentemente tentou sem sucesso obter explicações dos responsáveis pelas contas. Toda essa história acabou envolta num manto de mistério.

A imprensa, na época da divulgação das planilhas pelo jornal, andou escarafunchando a lista de contribuintes da campanha da reeleição e trouxe à baila informações preciosas. Os colaboradores ao ver seus nomes e os nomes de suas empresas publicados nos jornais não conseguiram esconder o constrangimento. Muitos deles acabaram dando informações contraditórias. A lista mais parecia um condomínio de interesses escusos. 
A maior doação constante na planilha publicada foi de R$ 3 milhões e não está registrada no TSE.

O jornal atribuiu à época essa contribuição ao então ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência, Andrea Matarazzo. Ele negou dizendo que não participou do grupo de arrecadadores e que apenas realizou alguns jantares com empresários. Mas, membros da equipe financeira como Bresser Pereira e o publicitário Luiz Fernando Furquim afirmam que Andrea Matarazzo fazia parte sim do grupo de coletores. Um detalhe: na planilha não consta registro da procedência do dinheiro.

O publicitário Roberto Duailibi, dono da agência DPZ, em entrevista à Folha de São Paulo, disse no primeiro momento que havia contribuído com R$ 7.500 mil. Quando ficou sabendo que a sua doação não estava registrada no TSE ligou para o jornal e disse que a empresa dele não havia contribuído com a campanha. Porém, consta na planilha que a DPZ contribuiu com R$ 200 mil. Outro publicitário, Geraldo Alonso, da agência Publicis Norton disse ao jornal que contribuiu para a campanha com serviços de publicidade. O valor do trabalho prestado pela agência dele registrado na planilha foi de R$ 50 mil. Em seguida ele negou que havia prestado serviços.

A empresa Atlântica Empreendimentos Imobiliários, da banqueira Kátia Almeida Braga, (Grupo Icatu), uma das coletoras de recursos, disse que contribuiu com R$ 100 mil e que tinha recibo emitido pelo PSDB. Esse valor aparece na planilha e não foi registrado na contabilidade oficial. Numa investida no Rio de Janeiro, Kátia Almeida Braga procurou dezoito empresários. Uma das empresa da lista era a Sacre, de Salvatore Cacchiola, aquele banqueiro do caso Marka e FonteCindan, que fugiu para a Itália depois do escânddalo financeiro. Kátia Braga conseguiu que a empresa dele doasse R$ 50 mil para a campanha.

Outra empresa que chamou atenção na lista de contribuintes da campanha de Fernando Henrique Cardoso foi a Vasp, de Wagner Canhedo, um dos acusados de integrar o esquema PC no governo Collor e que responde até hoje vários processos na justiça. A empresa de Canhedo era devedora na época de mais de R$ 3 bilhões ao governo. Canhedo doou R$ 150 mil e não consta na declaração do TSE. No caso da Vasp a lei proíbe doações, mas a direção da empresa confirmou a doação à Folha de São Paulo.

Além desses casos existem muitas outras irregularidades reveladas pela imprensa, como por exemplo, doações feitas por universidades e escolas privadas. A legislação proíbe instituições de ensino de participar de financeiramento de campanhas eleitorais, mas o presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Edson Franco, confirmou a jornalistas que diversas instituições foram procuradas pelo ex-ministro Bresser Pereira e que várias delas fizeram doações. Ele citou a Unip, de João Carlos Di Gênio e a Faculdade Anhembi-Morumbi. Todos esses casos nunca foram investigados, o Minitério Público e o STF não se interessam por esse assunto.

A diferença do caixa dois da reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do caixa dois das eleições municipais de 2004 é que o PT dançou, foi investigado e está sendo julgado, enquanto os tucanos e o PFL flanam na desgraça do PT. 
O deputado José Dirceu, em seu depoimento no Conselho de Ética, lembrou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa vez que não admitiu a instalação de CPIs durante seu governo porque sabia que uma CPI o derrubaria.

Portanto, o financiamento de campanhas eleitorais por meio de caixa-dois é uma prática conhecida e só veio a público porque parte da cúpula do PT resolveu participar da festa e se deu mal. Agora o partido está sendo ridicularizado como se fosse um penetra.

Financiamento público já!

 

(*) Jornalista e escritor, autor, entre outros trabalhos de Florestan Fernandes – vida e obra, Florestan Fernandes – um mestre radical e O Outro Lado do Real, em parceria com o deputado Henrique Fontana.

SENTINELA DAS LIBERDADES – 20 de SETEMBRO

MORRE SANTIAGO CARRILLO, HERDEIRO DA PASSIONÁRIA., MENTOR DE MONCLOA – paulo timm / portugal.pt

Morreu dia 18 passado, sem que se saiba a hora, mas à sagrada séstia ibérica,   aos 94 anos, o líder comunista espanhol Santiago Carrillo, verdadeira legenda da esquerda européia.  Carrillo nasceu no início do “Século dos Direitos” , como Norberto Bobbio se refere ao Século XX, e o acompanhou enquanto teve lucidez.  Entrou jovem para o Partido Comunista Espanhol, fez a Guerra Civil (1936/39) , entrou para uma longa clandestinidade da qual emergiu na Europa nos anos 70 como um dos arautos do “Eurocomunismo”, protagonizou o Pacto de Moncloa, que redemocratizou a Espanha pós-Franco e comandou o comunismo espanhol nos anos seguintes, até 1982, sucedendo Dolores Ibarruri, La Passionaria. 

 Velho e enfermo, recolheu-se, logo depois,  até o anuncio de sua morte, sempre escrevendo artigos e proferindo palestras, com grande reconhecimento por todas as lideranças espanholas. Politicamente, pode-se dizer que transitou da ortodoxia leninista da vanguarda como instrumento do assalto ao poder para uma concepção do socialismo como resultado de um longo processo de rupturas pactuadas, para o qual o conceito de hegemonia se revela cada vez mais importante.
Duas passagens, contraditórias, mas intrinsecamente ligadas à sua militância e forte caráter, são hoje lembradas: sua suposta participação no assassinato de prisioneiros franquistas na Batalha de Madrid, em 1936,  e sua bravura, em 1981, quando um alucinado coronel fascista adentrou a Câmara dos Deputados em Espanha, tentando, de arma em punho,  impedir a redemocratização em curso.
Sobre este último fato,  um colunista do Diário de Notícias de Portugal, assim se refere, hoje:

“Ele há homens e ele há homens

por FERREIRA FERNANDES

É conhecido o verso do poema de Lorca dedicado ao toureiro Ignacio Sánchez Mejías: “Eran las cinco en punto de la tarde.” Menos conhecido, até porque não há, é o verso: “Eran las seis y veinte y dos en punto de la tarde.” Não há mas devia haver. Por essa exata hora do dia 23 de fevereiro de 1981, em Madrid, o Parlamento foi invadido por um bando e o chefe deste, um tenente-coronel bigodudo, subiu à tribuna e gritou: “Quieto todo el mundo!” Assistiu-se à humilhação: todos os deputados (quer dizer, toda a nação) encafuaram-se que nem coelhos sob as cadeiras e o tampo das mesas. Um militar na tribuna com uma pistola na mão – cujo disparo para o teto convenceu os hesitantes – dominava a casa dos representantes do povo. Mas quer a história que por vezes haja uns mais representantes do que outros. Três homens não obedeceram: um velho general, então ministro da Defesa, Gutiérrez Mellado, um homem de direita, o chefe do Governo demissionário, Adolfo Suárez, e um homem de esquerda, o comunista Santiago Carrillo. O general levantou-se para interpelar o bando e foi agredido, Suárez e Carrillo mantiveram-se sentados, soberbos. O general morreu em 1995, Suárez perdeu a lucidez e vive retirado eSantiago Carrillo morreu ontem. O último verso de Lorca diz: “Eran las cinco en sombra de la tarde.” No poema que não foi escrito, o das seis e vinte e dois de 23 de fevereiro de 1981, a palavra não seria sombra, mas luz. Graças a três homens”

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As “Matanzas de Paracuellos.” se constituíram num episódio insólito e ainda pouco elucidado sobre o assassinato de cerca de 2.500 prisioneiros políticos  , pelos Republicanos, no controle de Madrid, entre 7 de novembro e 4 de dezembro de 1936 . A responsabilidade destas matanzas ainda é um ponto obscuro entre historiadores.  Ian Gibson, irlandês, que escreveu sobre o insólito assunto, atribui clara responsabilidade ao Partido Comunista,  visto ser, à época a força hegemônica na  Madrid republicana , junto ao Conselho Geral de Segurança da  Consejería de Ordem Público , o qual, sob estrita vigilancia de um agente do COMINTERN, Mijail Koltsov , implantara um verdadeiro sistema de terror e morte na cidade. Não era frequente o recurso à liquidação de prisioneiros, mas quando Franco sitia Madrid e a submete a severo bombardeio, as pressões para o exterminio de prisioneiros ter-se-a se tornado irresistível.

A verdade é que , com erros e acertos, Santiago Carrillo foi um homem do seu tempo, imbuído dos ideais de heroísmo como resultado não só de palavras, mas de ações. Ainda assim, teve tempo para refletir – e conducir – , junto com outro ilustre español, Fernando Claudim,  sobre os caminhos do comunismo no final do século XX. Na minha juventude tinha estes dois nomes , reverenciados pelos cânones da rebeldía da época, como verdadeiros faróis de Alexandria. Sempre que  ia à Europa, no final dos anos 70, empenhado num Doutorado na Sorbonne para o qual o antigo SNI jamais me autorizou, como punição à uma ficha considerada “suja”,  fazia questão de parar em Madrid para adquirir seus libros, ainda desconhecidos no Brasil. Eles, Enrico Berlinger e, em menor escala Georges Marchais, líderes dos Partidos Comunistas de Espanha, Itália e França, sacudiram a ortodoxia marxista muito antes da queda do Império Soviético. Com isso, faziam coro aos líderes comunistas rebeldes da Primavera de Praga e da Polônia invadida,  abrindo novas fronteiras para a esquerda. A questão central: a democracia como valor universal e a questão da liberdade como seu maior ingrediente  .

Tais ideias podem soar “revisionistas” nestes días de crise sombria do capitalismo, quando se percebe um renascimento do Marx radical como profeta do Socialismo. É natural. Principalmente quando a abertura crítica  do marxismo coincidiu, nos anos 70/80, com o Consenso de Washington, vindo a dobrar   as melhores inteligências do mundo occidental aos imperativos do neoliberalismo desenfreado.  Nem mesmo o trabalhismo inglês, o socialismo europeu, o peronismo, e a ilustração brasileira escaparam. Chega a ser inacreditável que Sergio Paulo Rounet foi Ministro da Cultura do Governo Collor e que Francisco Weffort o tenha sucedido no Governo FHC, dois dos melhores intelectuais críticos  que já produzimos.  Tudo mostra do capitulacionismo ideológico do final do século, quando se confundiu o monolitismo da Pax Americana no processo de globalização com uma Nova Era de Paz e Prosperidade para o mundo inteiro.

Mas não se confunda a venda das coisas sagradas com os fundamentos da doutrina, como fez Lutero na Reforma Religiosa. Se há algo de podre no Reino de Dinamarca a salvação nunca estará num passo atrás, na Teologia de Revolução, mas um passo adiante, na Epifania da Liberdade.

O Maestro Waltel Branco receberá título de Doutor “Honoris Causa” na Universidade Federal do Paraná – 19 de setembro de 2012

Waltel Branco receberá o título de “doutor honoris causa” pela UFPR. Uma justa homenagem ao músico e compositor.

Waltel Branco: maestro, compositor, arranjador e professor – Foto: Rodrigo Juste Duarte

O renomado maestro Waltel Branco vai receber da UFPR o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento a sua vida dedicada ao estudo da música. O maestro, que está com 82 anos, começou seu aprendizado quando criança e desde então nunca parou. Receberá o título durante um dos eventos mensais que a universidade celebra em comemoração ao seu centenário, marcado para 19 de setembro.

Nascido em Paranaguá, Waltel Branco começou a estudar em Curitiba. Entre os muitos instrumentos que aprendeu a tocar, o violão sempre foi seu favorito. De Curitiba, viajou para diversos países como Estados Unidos, Cuba, Espanha, Itália, fosse pelo aprendizado, ou pela oportunidade de tocar e trabalhar com grandes nomes da música, como Nat King Cole, Dizzy Gillespie, Perez Prado, Mongo Santamaria, Quincy Jones e Henry Manciny (com este, trabalhou como arranjador da música tema do filme “A Pantera Cor de Rosa”). No Brasil, compôs e arranjou diversas trilhas sonoras para novelas entre as décadas de 60 a 90. Foi arranjador de álbuns de artistas dos mais diversos, como Elis Regina, Gal Costa, Tim Maia, Cazuza, Astor Piazzola, Tom Jobim, Roberto Carlos, Zé Ramalho, entre tantos outros.

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atualizado em 19/09/2012 às 22:06

Waltel Branco recebe homenagem da UFPR por vida dedicada à música

Músico e compositor paranaense é considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil

19/09/2012 | 18:39 | GAZETA DO POVO 

O maestro paranaense Waltel Branco recebeu nesta quarta-feira (19) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) o título de Doutor Honoris Causa em reconhecimento à vida dedicada à música. Filho de um maestro, ele começou na área do pai ainda criança e nunca mais parou, tornando-se uma referência em todo o país e até no exterior. A premiação fez parte das comemorações do centenário da UFPR, que será comemorado em 19 de dezembro.

Walter Alves/ Gazeta do Povo

Walter Alves/ Gazeta do Povo / Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feiraAmpliar imagem

Maestro recebeu o título da UFPR em cerimônia nesta quarta-feira

Com 82 anos de idade, Waltel nasceu em Paranaguá, em 22 de novembro de 1929, Dia da Música. Atuou no Brasil, em Cuba, nos Estados Unidos, na Espanha e na Itália. Tem uma obra extensa, com mais de 20 discos autorais e participação em cerca de mil discos importantes da música brasileira como instrumentista, regente ou arranjador.

Nesta quarta, com um sorriso no rosto o tempo todo, mesmo com a saúde frágil e amparado por uma bengala, Waltel agradeceu o reconhecimento do povo do Paraná pelos seus acordes. O músico se disse satisfeitíssimo com o título da UFPR. “É ótimo receber um prêmio como esse em vida, já que é algo concedido geralmente depois da morte”, declarou, pedindo desculpas pela voz rouca. Por fim, dedicou o título à mulher e às duas filhas.

Entre os artistas com os quais Waltel estabeleceu parcerias estão Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho, João Bosco, Tim Maia e João Gilberto — todos os arranjos de Chega de Saudade são do maestro paranaense. É considerado um dos precursores do jazz-fusion nos Estados Unidos e da bossa nova no Brasil.

FACEBOOK – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

FACEBOOK. O veículo desgovernado vai passando, entra o Leonardo com o adágio do dia (hoje ele abriu o baú e mostrou o peitão da Ella). Benício entrou pautando com um link, pra variar. Entrou o Ribondi com uma mulher nua do Ingres, acho que é a Dominique, atrás uma centena de seguidores, o ônibus passa debaixo dos Ipês (azuis, amarelos, brancos), todo mundo curte, e tome cervejas, depois o Bolivar

 com a política e a musica, ultimamente dá pra ouvir a risada dele. Nem parece o cara que citei na minha tese há 30 anos. O Cassio deve estar doente, não botou nada, logo entra no ônibus o pessoal do amor romântico: pelos cachorrinhos, gatinhos, leõezinhos. Finalmente a Silvia aparece, acompanhada pelo Flósculo, sai fora Silvia. O Walter reapareceu. A Silvia curtiu uma flor branca. Ah, o Luis Áquila, volto, Proust. A Gauchada chegou, entra o Vidal, e o Timm direto de Torres. Ishh, baixou o pessoal das músicas. Douglas entrou com suas orações, botou um Cristo do Mantegna, ainda bem. O Bruno e Prdl Saldanha a essa hora? Devem ter caído da cama. Tadeu aparece de boné correndo a maratona do Texas, e o Torelly, onde andará? O Evangelos ativa os neurônios dos arquitetos, aí entra minha filha e diz pra eu parar de falar palavrões. Agora tu vê. Dalvinha e Lee dos EUA e suas meninas lindas. João e sua paixão: MENGOOO. Giselle Moll hoje está curtindo adoidado, e a Patricia Melasso mostra mais uma vez o belo rosto com sardas, no espelho. Patricia Doyle compareceu discretamente com a trilha dos “intocáveis”, Toledo sai do Sarah-Rio e nos bombardeia com uns desenhos fantásticos e uma foto do sítio Alecrim(fui Papai Noel numa festa lá).Instituto Moreira Sales diz que falta sexo, aqui em casa acho que não. Giselle Mancini em inglês, nossa! Como diria o Ribondi. Paulo Cesar da UnB quer um dia mundial sem carro, faz isso não Paulo. Timothy reaparece. Carlos Fernando, que não vejo há um tempão, curtiu “La Règle de Jeu”, está passando em Paris, de graça. Aí entram uns garotos, já chegam kkkkkk. O pessoal do Rio deve estar na praia. Rochana Rams entrou com um ditado indiano. Estou sentindo falta da piada do Fabiano. Aí entra outra carrada de cervejas e logo a seguir o time da política, Rollemberg quer regular o uso da rocha moída. Imagine que até FHC me aparece recebendo alguém no seu Cafofo, será que é candidato? Eu entro com uma historinha do Marquês, ninguém curtiu, pesada demais. O veículo é desgovernado, mas nem tanto. E tome cerveja. Vou pro Badoo.

O que está por trás dos protestos no mundo islâmico?

Filme que satiriza o Islã e seu profeta Maomé parece ter sido somente estopim para manifestações
Agência Efe (17/09/12)


Manifestante atira bomba de gás lacrimogêneo de volta contra polícia no Paquistão

De turbantes e véus, milhares de muçulmanos e muçulmanas tomaram as ruas de suas cidades, queimaram bandeiras dos Estados Unidos e invadiram sedes diplomáticas norte-americanas. O motivo parecia comum: o filme A Inocência dos Muçulmanos, que satiriza o Islã e seu profeta, Maomé.

Foi assim, como fundamentalistas fanáticos e irracionais, que aqueles que protestaram contra o vídeo norte-americano, no qual Maomé aparece fazendo sexo oral e seus fieis são comparados a um burro, foram classificados. “A raiva muçulmana” diz a capa da revista semanal norte-americana NewsWeek, enquanto a CNN questiona se “a Primavera Árabe valeu a pena?”.

A grande mídia ocidental – e boa parte de seus articulistas – voltou a ecoar o raciocínio de “choque entre civilizações” como se a questão por trás dos protestos dos últimos dias pudesse ser explicada pela religião islâmica. O argumento central é que os muçulmanos não conseguem conviver com a liberdade de expressão norte-americana e respondem violentamente.

Agência Efe (17/09/12)

Manifestação contra o filme reuniu centenas de pessoas em Beirute, no Líbano, depois de convocação do Hezbollah

Longe de respostas simples e rápidas, essas manifestações, na verdade, oferecem muitas interrogações. Quem saiu às ruas para manifestar? Por que muitos protestos foram marcados em frente a sedes diplomáticas dos EUA? Quais as consequências destas manifestações? Quem será favorecido e quem pode perder com isso?

Os protestos estão envolvidos em uma miscelânea de atores, interesses e motivações, que incluem indivíduos, organizações políticas e Estados, e exigem um olhar crítico, distante de estereótipos ou preconceitos.

“A Inocência dos Muçulmanos” pode ter funcionado como uma faísca em um campo de trigo seco, onde grande parte da população está descontente com a política norte-americana para a região e organizações disputam o poder.

Anti-americanismo

Uma pesquisa do Instituto Zogby, de 2007, mostra que 88% dos moradores do Egito, Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita e Emirados Árabes se opõem às medidas dos EUA.

Entre os fatos apontados estão a invasão do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003; as políticas em apoio a Israel; a instalação de bases militares em diversos países da Ásia, África e Oriente Médio; a ocorrência de abusos e tortura em Abu Graib, Guantánamo e nas prisões afegãs; e a presença de forças de segurança privada.

Agência Efe (14/09/12)Bandeira dos Estados Unidos foi queimada durante manifestação contra o filme no Paquistão

Além disso, soldados norte-americanos no Afeganistão queimaram centenas de cópias do Alcorão e não foram sequer penalizados; muitas vezes nos discursos de autoridades, o Islã foi mencionado como uma parte importante da guerra contra o terror; em Nova Iorque, a população proibiu a construção de um centro cultural muçulmano perto das torres gêmeas; civis muçulmanos não recebem visto de entrada para os EUA.

Estes fatos apenas alimentaram a percepção dos muçulmanos de que a sociedade, o governo e as forças armadas dos EUA desrespeitam sua religião e querem interferir em seus países. “Nós nunca insultamos nenhum profeta – nem Moisés nem Jesus – então por que não podemos pedir que Maomé seja respeitado?”, questiona o egípcio Ali ao jornal New York Times.

Quebra-cabeças

Outros analistas explicam também que organizações isoladas durante os processos de transformação da Primavera Árabe podem ter se aproveitado do vídeo para incitar a população a ir para as ruas e desestabilizar a situação política. Este é o caso, por exemplo, dos salafistas na Líbia, na Tunísia e no Egito que inflamaram os manifestantes.

Muitos também apontam que as manifestações podem atender aos interesses dos EUA. Sob o argumento de que estes países estão “instáveis”, o governo norte-americano consegue justificar – e possivelmente, aumentar – a sua presença na região.

Além disso, os protestos podem afetar a percepção da sociedade norte-americana e de outros países sobre a Primavera Árabe: será que o processo revolucionário, que tirou do poder ditadores laicos, deu espaço para islâmicos radicais?

Ainda é cedo para qualquer resposta, mas as peças deste quebra-cabeça já estão postas na mesa.

Os apuros de Kevin – por omar de le roca / são paulo/sp

 

O dia amanhecera daquele jeito que só quem mora em São Paulo sabe. Nem quente e nem frio. Se colocasse agasalho, Kevin sentiria calor. Se tirasse sentiria frio. Optou por sentir calor e abrandar o passo. Estava preocupado pois  hoje era sexta feira. Tinha visitas para fazer no Tatuapé. Mas não eram as visitas que o preocupavam. Havia combinado com Omar e Sergio aquela famosa cervejinha no final do dia. Pegou o metro no Jabaquara até o escritório. Tentou ler mas não conseguiu se concentrar no livro. Seus amigos o haviam intimado. Hoje era o dia dele contar uma estória . “ Tenho vontade de contar tudo,mas tudo é muita coisa.Mas se não contar tudo como poderão entender o contexto ? “ Ficava se questionando sobre qual a melhor abordagem,que palavras iria usar,até onde poderia ir sem perder a amizade que tanto prezava ? “ Bom , posso contar sobre a violência sexual sofrida quando criança.Mas será que não iriam ter suas próprias idéias e desvirtuar tudo ? Será que a própria menção da agressão sofrida não iria desencadear uma série de dúvidas  ou pena que não preciso? Não, isso é coisa de minha cabeça. Nos damos muito bem e com certeza não os iria perder.” Passou mais uma estação e o metro estava superlotado. Por sorte havia conseguido se sentar. Pegou novamente o livro mas O Silmarillion de Tolkien estava recheado  por demais com personagens que iam mudando de nome durante a estória e precisava de muita atenção para acompanhar. “ Não , isso não posso contar.” Lembrando-se de quando entrou na empresa há seis anos atrás e havia um rapaz que o interessara. Ele até evitava de falar com ele de medo que percebesse o seu interesse. Na primeira vez que conversaram, o coração dele começou a bater com força e ele teve dificuldade de conversar. O condutor do metro avisava para não segurar as portas. Abaixou a cabeça embaraçado ao lembrar daquele dia em que se encontraram por acaso na hora do almoço. Omar e Sergio tinham saído para ir ao banco e Kevin havia atrasado devido a um problema no seu computador. Ele tinha acabado de se sentar quando o rapaz o viu e veio com abandeja em sua direção. “ E ai cara ? Tudo bem. “ “ Tudo na paz.” Costumava responder Belê mas ficou com vergonha. O rapaz sentou-se em frente dele.Era uma mesa apenas para dois naquele restaurante por quilo ao qual iam de vez em quando. Hoje tinha salmão que por coincidência os dois gostavam. Kevin estava meio sem jeito e precisava se esforçar para sentir o sabor do peixe.O rapaz falou bastante sobre si próprio e sorria com freqüência. Em determinado ponto,o rapaz ainda rindo, tocou o braço de Kevin. O garfo caiu no prato, ele teve um pequeno tremor e tossiu para disfarçar. Sem querer que ninguém percebesse  a  pequena mancha que is se espalhando por sua calça. Por sorte estava de paletó e conseguiu ir ao banheiro sem chamar atenção.    ” Não cara, você esta louco ? Não poderá contar isso a ninguém . “ Então pensou em contar sobre a adolescência. Os anos de sofrimento, entre querer contato masculino e a vergonha de querer. O sexo sempre fora estigmatizado na família dele. Tudo relacionado a ele era doentio e sujo.Tudo era errado. E ele foi crescendo entre o freio e a espora. Ser veado, que era como se dizia na época, era a vergonha das vergonhas. Eram pessoas que ficavam sempre a margem. Lógico que havia os exageros, os exibicionismos. Moravam perto da Record e um ramo da família tinha contato com algum artista. Que se comprazia em dizer quem era e quem não era. E ele não sabia o que. Nada era conversado nada era esclarecido. Na família era assunto tabu e pelo que ele já vivenciara, sabia que nunca poderia abordar suas dúvidas. “ Pô cara, primeiro eles nem vão ouvir. E depois o que iriam falar ? e pensar ? “ Desceu em sua estação e seguiu para o escritório. “ Poderia falar de quando comecei a ter ereções nos lugares mais incômodos e ficava aterrorizado que alguém visse. E que recorri aos livros para aprender alguma coisa e abrandar meus conflitos.E quando aprendi com amigos de classe o que era masturbação e a experimentei, cheio de culpa no banheiro de casa.  Mas acho que não iriam se interessar. Ou quando descobri aquele livrinho que falava sobre a vida sexual da Belinha, escondido de meu pai. Ou quando, cedendo ao desejo, comecei a usar objetos. Puta merda cara ! Não tem mais nada que você possa pensar?” Depois de abrir seus e-mails, pegou os endereços que precisava e saiu para as visitas. O sol não havia saído,mas não estava frio. Pegou o metro, folheou a revista que pegara emprestada e falava sobre combinações de alimentos. Chegou ao Tatuapé e fez as visitas. Gostava de conversar com o gerente de uma das agências, que lhe lembrava daquele rapaz. Mas ele havia saído para tomar café e ele não conseguiu motivo para prolongar a conversa. Voltando a rua, passou por um sebo e procurou entre os livros em inglês. Acho um de Anais Nin e abrindo ao acaso achou a passagem que ela dava um tratamento manual ao outro personagem. Lembrou-se do trecho de  Quarenta tons de cinza . E saiu rápido da livraria com culpa de imaginar-se na posição dos personagens. Fez mais uma visita, e depois outra. Sem problemas. Seguiu para o shopping pensando que alguma coisa poderia acontecer no banheiro de lá. “ Acho que não interesso a mais ninguém.” Pensava quando cruzava com alguém e espichava o olho. “ Poderia falar do tormento de querer e não poder por vergonha ou por ser considerado errado. De sonhar acordado sem poder concretizar o sonho,por medo de ofender aos outros , com vergonha de não ser normal. Repetiu para si mesmo a mesma frase que dizia a uma amiga “ Não nascemos para ser normais.” E lembrou-se que ela questionara na época sobre o que é ser normal ? Pelo caminho ia pensando no almoço. Queira uma massa.A menos que tivesse Pizza Hut. Havia e ele pediu. Passou pelo banheiro para escovar os dentes mas estava vazio. “ Os bons peixes já foram fisgados”. Era um pensamento recorrente. Mas procurava manter o otimismo.Vou continuar tentando.Com certeza acharei alguém. “ Só gostaria de ter contato com alguém que fosse decente.Não precisava ser nenhum monumento.” Mas é claro que queria sim,um corpo bem desenhado. Mas alguém que não fosse vazio. E pensava nas inúmeras pessoas com quem havia cruzado durante a vida e que,apesar de terem uma aparência interessante, ao abrirem a boca, estavam automaticamente desclassificadas de seu interesse. Dependendo da época, até procurava puxar conversa com alguém sabendo que ira desencanar da pessoa na sequência. Voltou ao escritório. Havia alguns e-mails ainda por responder. Um relatório para atualizar. Algumas ligações. Quando olhou no relógio, já estava na hora de sair. As sextas saiam meia hora mais cedo. Omar lhe mostrou o pulso com o dedo, como se dissesse ‘ É hoje’. Sergio foi ao banheiro. Kevin respirou fundo, arrumou a papelada,desligou o computador. Com a mão mesmo ajeitou o cabelo. Assoou o nariz ali mesmo, com uma toalha de papel que havia trazido do banheiro do shopping, quando o faxineiro não estava olhando. Pegou sua valise, acenou para a loira da contabilidade, que lhe mandou um beijo. Sentou-se na poltrona giratória do hall dos elevadores para esperar seus amigos. Eles não demoraram. Mas demorou o elevador, que descia sempre cheio. Enfim acharam lugar. O sol estava se pondo. O céu estava imenso a seus olhos.Foram caminhando para o bar na prainha ( que de praia não tinha nada, era tipo um calçadão a que davam este nome para ficar mais atraente).Pediram uma mesa abrigada, que nunca se sabe quando pode chover. Sentaram-se e começaram a conversar.Então  Kevin, criando coragem, limpou a garganta e começou com Era uma vez…

Era um amanhecer daqueles, em que o céu acabara de se separar do mar e tingia-se das cores mais suaves de uma aquarela. Daquelas manhãs que o tempo parecia um tempo entre os tempos e que os sonhos  sonhavam com sonhadores de olhos abertos. Eu havia passado a noite observando as estrelas cadentes que sempre apareciam naquela praia deserta. Não havia a sensação nem de frio e nem de calor, a brisa soprava tranqüila e meus sentidos estavam aguçados. Pisquei os olhos para ter certeza do que estava vendo. Era um barco?      Sim , mas mal se destacava entre as ondas.Observando melhor ele se aproximava rápido como se deslizasse sobre elas firme e inabalável. Era de madrepérola e as velas, mostravam cores que eu não conhecia, mas sempre suaves. Pássaros marinhos faziam o cortejo, e os golfinhos saltavam ao redor. A praia era como uma meia lua de areia cercada por penhascos altos e o acesso era difícil. O barco agora diminuia a velocidade aos poucos e foi chegando na areia enquanto os pássaros se afastavam brincando com os golfinhos.Uma figura se destacava na proa. Ela tinha olhos verdes que brilhavam com as estrelas de Órion e cabelos pretos e curtos e vestia um longo vestido lilás que tremeluzia como se milhares de pequenos  pontos  acendessem e apagassem  captando os primeiros raios de sol.O barco parou e uma passarela foi descida, com cuidado para não ferir as estrelas do mar que levantavam suas cabeças em saudação ,para que ela chegasse na areia sem molhar os pezinhos. Começou a andar em direção a parede rochosa. A cada passo que ela dava, brotavam de suas pegadas  pocinhas de água  onde minúsculos peixinhos cor de cobre polido brincavam e pulavam de uma pegada a outra seguindo-a. Continuou na direção do penhasco. Quando estava a poucos passos, a rocha se transformou em uma parede de cristal liso e transparente e uma pequena porta abriu-se para o interior luminoso. Um pequenino pássaro cinzento sobrevoou e ela estendeu a mão para que ele pousasse nela. Atravessou o portal cristalino e saiu do outro lado que eu ainda desconhecia. O pássaro cinzento havia se transformado num beija flor branco com rabo longo que mostrava todas as cores do topázio. Havia mais um trecho de areia e logo mais a frente uma ponte de pedra, mais antiga que o tempo, levava ao outro lado também de areia. Quando  ela atravessou a ponte e pisou no chão, a areia ia se transformando num gramado verdejante com florzinhas azuis e as rochas no fundo em árvores muito verdes com frutos dourados e prateados. No meio da clareira mágica, ela fez um lento rodopio . Então, de seu vestido ( que era verde azulado ,ou azul esverdeado ou turquesa, ainda não sei ) voejaram milhares de borboletas lilases que pararam por um segundo ao redor dela, brilhando intensamente  e que seguiram como uma nuvem de lavanda para as árvores próximas . Ela fez  uma pequena mesura, e traçou  um sinal secreto no ar ao qual um pégaso fantástico, com asas de  penas muito brancas  atendeu, permitiu que ela subisse nele e partiram para onde o céu encontra o mar,onde o fogo encontra o ar e a água encontra a terra. E eu fiquei ali. Sem ter certeza do que se passara. Sem saber do tempo que era. Olhei para trás e só vi minhas pegadas que o vento forte ia apagando na areia.

Kevin ficou encabulado com os aplausos das mesas próximas.Não havia percebido que chamara tanto a atenção.Omar e Sergio levantaram-se para abraça-lo. Curvou-se meio de brincadeira para agradecer o carinha enquanto sua mão subia ao rosto para espantar uma lágrima.

 

 

O FURTO DO ALECRIM – por olsen jr / rio negrinho.sc

O FURTO DO ALECRIM

Olsen Jr.

   A garagem tinha sido adaptada para receber as celebrações de aniversário do primogênito da casa que estava comemorando 13 anos. Os balões coloridos (mobilizaram a família toda na tarefa de enchê-los) estavam onde deveriam estar. Uma plotagem meticulosamente realizada felicitava publicamente o dono da festa. Antes que me perguntem, sim tinha os indefectíveis “brigadeiros” e os indispensáveis “canudinhos recheados com maionese” o que, sem isso, nenhuma comemoração é digna de nota. Aos refrigerantes tradicionais somava-se a coqueluche do lugar, a famosa “Gengibirra” uma bebida cujo ingrediente principal é o gengibre e é muito apreciada.

O dono da festa está como gosta, ora compartilhando os seus jogos eletrônicos com alguns convidados, ora animando pequenos grupos de amigas onde pontifica como o centro das atenções.

Observo o vizinho da casa em frente que acaba de chegar. A residência possui um jardim bem organizado mesclando plantas ornamentais e também outras de utilidades domésticas. Tudo bem cuidado e deixando claro que o morador do lugar é alguém com mentalidade prática e bem determinado.

Depois de cumprimentar a todos enquanto experimenta um canudinho de maionese, fica prestando a atenção no que diz uma das convidadas da festa exibindo dois belos ramos de alecrim… “Olhem só que coisa mais linda, nunca vi um alecrim tão bonito, viçoso, com estas folhas verdes brilhantes… Já tentei de tudo lá em casa e não consigo fazer eles vingarem, deve haver algum segredo, afinal sei que se dão bem em solos mais secos e nem precisam de tantos cuidados”… “E onde você achou estes?” Indaga outra convidada interessada naquela planta… “Ali no jardim daquela casa em frente” – responde ingênua e prontamente…

Foi quando o dono do jardim onde a planta fora retirada resolveu intervir, depois de limpar a boca com um guardanapo, dar uma pigarreada chamando a atenção para si, timidamente, mas seguro do que estava fazendo, afirmar “então a senhora gostou do meu alecrim”… Um breve silêncio açambarcou o grupo de mulheres, e antes que alguém se manifestasse, continuou “o alecrim já era cultivado pelos romanos que o chamavam de rosmarinus, nome em latim e que significa “orvalho da noite” e além de servir de tempero também era usado para fins medicinais, religiosos e até em perfumaria… E não se confunda com o rosmaninho que é outra coisa de gênero bem diferente”…  Aquela breve intervenção deu tempo da mulher que segurava os ramos de alecrim cair em si, e levemente sem graça confessar “olha só e eu me exibindo com a beleza da planta que peguei do teu jardim sem pedir autorização”… Não terminou o pensamento e todos a estas alturas começaram a rir… “Não tem importância – disse o homem – eu sempre distribuo para quem gosta e sabe dar valor e depois, considero um grande elogio para mim que estas coisas (referia-se ao furto), às vezes, aconteçam…

Depois, a mulher se desculpou e tudo acabou em gargalhadas… ”Quem iria supor, brincava ela, que logo o proprietário daquele belo jardim fosse aparecer e me flagrar em uma confissão dessas?”…

Mais tarde pouco antes de ir embora, pensei que alguns pés de alecrim poderiam ficar bem lá em frente da minha casa, para isso deveria esperar o dono das plantas se retirar, então, sem que percebesse, me apropriar de alguns ramos de alegrim… Claro, como bem lembrou, seria mais um grande elogio ao bom gosto e a excelência de seu jardim!

Aquelas circunstâncias me fizeram lembrar um conto “Os Crisântemos”, de John Steinbeck onde a planta é usada como um símbolo que codifica o amor de sua cultivadora para compensar a ausência deste sentimento entre ela e o marido, mas é outra história…

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NOTAS:

A música poderia ser esta…

Composta por Horace Ott…

Tem a letra de Bennie Benjamin, Gloria Caldwell (mulher de Horace) e Marcus Sun…

Foi concebida para a cantora Nina Simone que a gravou em 1964…

Uma versão lenta e introspectiva bem ao seu jeito, aliás uma artista muito visada por ser considerada uma “ativista” pelos direitos civis, etc, etc…

A Novela que já se conhece…

Mas quem “matou a pau” foi o grupo “The Animals”…

A revista Rolling Stone inclui esta “Please don’t let me be misunderstood” entre as 500 melhores músicas de todos os tempos…

Muitos artista já fiseram versões dela…

Santa Esmeralda, Joe Cocker, Moody Blues, Cyndi Lauper, Elvis Costello, Dire Straits… Entre outros…

Vai com o carinho do poeta, sempre!

http://www.youtube.com/watch?v=HHjKzr6tLz0&feature=related

“NOITES ANTIGAS” de NORMAN MAILER. 3ª EDIÇÃO, 950 PÁGINAS – resenha de arnaldo brandão

 

É óbvio que os dois competiam, Criação é de 1981, Noites Antigas é de 83, a temática é semelhante. O Mailer entrou em Harvard aos 16 pra fazer engenharia, depois abandonou. Foi boxeur, entre outras coisas. Descendia de outro macaco. Escrevia livros enormes, este, “Noites Antigas” bate de longe “Criação” do Gore Vidal. Não bate só em tamanho, mas também, em qualidade. Os caras trabalhavam duro e subiam o morro até os píncaros, mas as editoras americanas bancavam. É uma boa oportunidade pra se observar como o mundo mudou. Outro dia me vem o Paulo Coelho, aquele escritorzinho bem ruinzinho, que pertence a Academia Brasileira de Letras só porque vende livros, e propõe botar o “Ulisses” em 14 caracteres no twiter, ele queria nos lembrar que estamos na era do quanto menor o biquíni, melhor, isso já sabemos desde que o Gabeira voltou com sua tanga, mas com um livro interessante debaixo do braço.

E o Paulo Coelho escreve o que: umas bobagens que misturam auto-ajuda com misticismo barato. É por essas e outras que a literatura no Brasil chegou onde chegou, e um autor como o Jonhatan Frazen, que não se pode dizer que seja um bam-bam-bam, fica esnobando os brasileiros na Feira de Paraty, é claro que ele percebeu de cara que não se tratava propriamente de um evento literário, tinha virado um mafuá, por essas e outras não fui lá receber meu prêmio. Como ele pretende ser levado a sério, assim como eu, pulamos fora. A entrevista do pessoal da Veja com o Gore em 1987 foi a mesma coisa, o cara ficava fazendo gozações. Ainda bem que existem os leitores do Facebook e dos Torpedos que leem estas resenhas e ficam sabendo das coisas. Quer dizer, só uma meia-dúzia de contar nos dedos, mas como diz o ditado: “de grão em grão a galinha enche o papo” e depois que estiver bem gordinha vai pra panela, ou então vai ser exposta naquelas televisões de cachorros de porta de padaria.  É claro que o cara não precisa escrever um livrão enorme pra produzir uma obra-prima, vide meu texto favorito: “O Coração das Trevas”, se quiserem um brasileiro, tem o Raduan Nassar, que abandonou o ringue e foi criar coelhos. Às vezes, o cara precisa de 1.000 páginas pra dar seu recado, é o caso do Mailer, talvez o melhor escritor da segunda metade do século XX.  Ele não era tão famoso quanto o Gore Vidal, embora tão polêmico quanto. Nasceu pobre, morava no Brooklin. Os dois disputavam o título de maiores escritores do EUA e certamente do mundo. Se eu puder opinar diria que ele é o melhor. Com este livro ganhou mais uma vez o Premio Pulitzer, isto foi em 1980. O que tenho em mãos é a terceira edição brasileira, tradução de Aulide  Rodrigues. É um livro que pode até ser colocado na estante de “romances históricos”, o que não significa absolutamente nada. Segundo Mailer, falando dos livros de história, mas dando um “jab”, (tipo aqueles que o Muhamad Ali dava) no queixo do Gore: “o que circula por aí não é história, é uma série de romances extremamente sóbrios, escritos por homens que geralmente não tem vastos talentos literários, tem muito menos a dizer sobre o mundo real que os romancistas”. Assino embaixo, embora ele tenha lido dezenas de livros de história para escrever este. O Mailer não escreveu apenas um livro sobre o Egito Antigo, no fundo a obsessão dele é, como sempre foi, os EUA e o totalitarismo, que ele analisa através de um olhar prolongado sobre a superfície irregular das vidas de um tal Manhenhetet. Ele certamente é da estirpe do Gorvaidal, Guimarães Rosa e outros, que viveram várias vidas, uma só não seria suficiente para entenderem o que queriam entender.

O livro começa com um prólogo do W.B. Yeats, grande poeta irlandês: “creio na pratica e na filosofia do que se convencionou chamar de magia e no que devo chamar de invocação dos espíritos…”. Se Yeats e Mailer acreditavam, porque eu não acreditaria. O texto se divide em 7 livros, ou melhor, 7 capítulos. E estes capítulos são subdivididos em subcapítulos, como se quisesse dar, a nós leitores, um tempo para respirar. O livro se passa entre a 19ª e 20ªdinastias, 1290 a 1100 aC. O narrador é um tal Manhenhetet que durante as suas vidas encarna e reencarna várias vezes e passa a se chamar Manhehetet I, II e assim sucessivamente. Neste périplo ele convive com deuses, faraós e principalmente com Nefertiti, e como vocês podem imaginar, toda vez que ela aparece, eu não durmo direito, situação muito parecida quando o Gore Vidal falava de Babilônia. Ela costumava usar uma espécie de blusa que deixava um dos seios de fora. Era lindíssima, nada a ver com Cleópatra, que não era essas coisas que Roliude disse. Vamos ao que interessa, o texto do Mailer.

“A escuridão era profunda. No entanto agora eu sabia. Estava em uma câmara subterrânea de dez passos de comprimento por cinco de largura, e percebi (com a rapidez de um morcego) que o compartimento estava vazio…No escuro meus dedos encontraram um nicho entre dois blocos de pedras, não maior que uma  cabeça humana. Pelo hálito fresco devia conduzir à noite lá fora.” Pelo texto já devem ter percebido, que o estilo é muito diferente do Gore, muito mais poético, mais dentro da tradição inglesa e eventualmente americana, mais caprichado, mais tudo. Notem que a descrição alude a um morcego, só pra criar um ambiente mais assustador. O personagem acaba de reencarnar e começa a entender que tinha um corpo, e ele tinha a memória do que havia vivido, e então vai andando pelo que se chama hoje de “Vale dos Mortos”. Então ele se lembra do pai dele, que era ”superintendente do estojo de cosméticos” diz ele, o Manhenhetet, que preferia morrer de novo a ambicionar um título como aquele. Estão rindo, vocês não fazem ideia, mas tive um grande amigo que era uma figura lendária (participou diretamente da construção do Alvorada e era amigo do Plínio Salgado) e por acaso, meu ex-sogro. Ele me contou que mesmo os militares tinham a disposição uma maquiadora 24 horas por dia. Jango e a Maria Teresa eram clientes constantes, assim como JK. Daí podem fazer ideia da importância da coisa, para os egípcios a maquiagem era tão importante quanto a alimentação. Por falar em JK, quando comecei a escrever o romance “Encaixotando Brasília”, cogitei seriamente em contar a história de Brasília a partir da tumba de JK, que seria o protagonista (Benício registra a ideia, por favor). Não desisti ainda. Para concluir, vamos ao texto altamente poético do Mailer e vejam se ele não é muito melhor que o Gore: “…pois agora um cometa se aproxima. Sou açoitado por um vento terrível…Navegamos através de domínios vagamente avistados, afagados pelas ondas do tempo. Aramos campos de magnetismo. Passado e futuro se unem em tempestades e nossos corações mortos vivem como o relâmpago nos ferimentos dos deuses.”

 

Mais de Eyjafjallajokull – Islândia

Mais de Eyjafjallajokull

Como cinzas do vulcão da Islândia Eyjafjallajokull continuava a manter o espaço aéreo europeu fechado no fim de semana, afetando milhões de viajantes de todo o mundo, algumas agências governamentais e companhias aéreas discordaram sobre as proibições de voo. Alguns espaço aéreo restrito agora está começando a se abrir e alguns voos limitados estão sendo autorizados agora como as companhias aéreas estão pressionando para que a capacidade de julgar as condições de segurança para si. O vulcão continua a Rumble e lançar cinzas para o céu, se a uma taxa ligeiramente diminuída agora, como a nuvem de cinzas dispersar caiu mais perto da terra, e da Organização Mundial de Saúde emitiu um alerta de saúde para os europeus com problemas respiratórios. Reunido aqui estão algumas imagens da Islândia ao longo dos últimos dias. ( 35 total de fotos)

Estrias relâmpagos no céu como fluxos de lava de um vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson)

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar pouco antes do pôr do sol ON sexta-feira, 16 de abril, 2010. Trações grossas de cinzas vulcânicas cobriu partes da Islândia rural na sexta-feira como uma pluma, vasto e invisível do grão pairava sobre a Europa, esvaziando os céus de aviões e enviando centenas de milhares de pessoas em busca de quartos de hotel, bilhetes de trem ou aluguel de carros. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Vista lente longa de fazenda perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção final em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um carro é visto dirigindo perto Kirkjubaejarklaustur, Islândia, através das cinzas da erupção do vulcão sob a geleira Eyjafjallajokull na quinta-feira 15 de abril de 2010. (AP Photo / Omar Oskarsson) #

Pedaços de gelo de uma inundação glacial desencadeada por uma mentira erupção vulcânica na frente do vulcão em erupção perto ainda Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ash cobre vegetação em Eyjafjallasveit, no sul da Islândia abril 17, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Esta foto aérea mostra o vulcão Eyjafjallajokull billowing fumaça e cinzas em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma mulher está perto de uma cachoeira que foi sujo pelas cinzas que tem acumulado a partir da pluma de um vulcão em erupção perto de Eyjafjallajokull, na Islândia em 18 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos luta perto da cidade de Sulfoss, a Islândia como um vulcão em Eyjafjallajokull entra em erupção em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Agricultor Thorarinn Olafsson tenta atrair seu cavalo de volta para o estábulo como uma nuvem de cinza negra paira em cima Drangshlid em Eyjafjöll em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Um avião de pequeno porte (superior esquerdo) voa fumaça e cinzas passado ondulando de um vulcão em Eyjafjallajokul, na Islândia em 17 de abril de 2010.(REUTERS / Lucas Jackson) #

Fumaça ondas de um vulcão em Eyjafjallajokull em 16 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

O sol se põe em um céu salpicado com cinzas, sobre o Lago Genebra, como visto a partir dos vinhedos de Lavaux, pela UNESCO, na Suíça, em 17 de abril de 2010. (FABRICE COFFRINI / AFP / Getty Images) #

O vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Agricultores se unem para salvar o gado da exposição ao cinza tóxica vulcânica em uma fazenda em Nupur, Islândia, como o vulcão Eyjafjallajokull no sul da Islândia geleira envia cinzas para o ar sábado, 17 de abril de 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Uma equipe de resgate ajuda a proprietários de terras para limpar cinzas vulcânicas de um telhado em Seljavellir, Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Sheep agricultor Thorkell Eiriksson (R) e seu irmão-de-lei Petur trabalho Runottsson para selar um celeiro de ovelhas, em turno caso ventos e cinzas de um vulcão em erupção através das terras do vale em sua fazenda, em Eyjafjallajokull 17 de abril de 2010. A atual temporada é quando os cordeiros primavera nascem e tais animais jovens são especialmente suscetíveis a cinza vulcânica em seus pulmões para que eles devem ser guardados no interior. (REUTERS / Lucas Jackson) #

A nuvem de cinzas escura paira sobre o sul da Islândia costa 17 abr, 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Fumaça relâmpago, e lava acima vulcão Eyjafjallajokul Islândia em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Ver visto de uma estrada que leva ao vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010.(Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Um homem corre ao longo da estrada, tirando fotos do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Uma enorme nuvem de cinzas se arrasta sobre o sul da Islândia costa 16 de abril de 2010. (REUTERS / Ingolfur Juliusson) #

Usando uma máscara e óculos de proteção contra a fumaça, fazendeiro Berglind Hilmarsdottir de Nupur, Islândia, olha para o gado perdidas em cinzas nuvens, sábado 17 de abril, 2010. (AP Photo / Brynjar Gauti) #

Um agricultor verifica cinzas vulcânicas lamacenta em sua terra na Islândia em 18 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Esta imagem aérea mostra a cratera expelindo cinzas e nuvens de areia no cume do vulcão Eyjafjallajokull na Islândia sul geleira Sábado Abril 17, 2010. (AP Photo / Arnar Thorisson / Helicopter.is) #

Um piloto tira fotos do vulcão Eyjafjallajokull fumaça ondulante e cinzas durante uma erupção em 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

As equipes de construção reparar uma estrada danificada pelas cheias do derretimento glacial causada por um vulcão em Eyjafjallajokull, na Islândia 17 de abril, 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

Cavalos pastam em um campo perto do vulcão Eyjafjallajokull, uma vez que continua a billow fumaça escura e cinzas durante uma erupção na noite de 17 de abril de 2010. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

Ingi Sveinbjoernsso leva seus cavalos em uma estrada coberta de cinzas vulcânicas volta a seu celeiro em Yzta-baeli, Islândia em 18 de abril de 2010. Eles vêm a galope para fora da tempestade vulcânica, cascos abafados nas cinzas, crinas voando. 24 horas antes, ele havia perdido os cavalos islandeses shaggy em uma nuvem de cinzas que se transformou o dia em noite, cobrindo a paisagem de lama cinza pegajoso. (Halldor KOLBEINS / AFP / Getty Images) #

A nuvem de cinzas do Eyjafjallajokull córregos sudoeste da Islândia vulcão ao sul do Oceano Atlântico Norte em uma fotografia de satélite feitas 17 de abril de 2010. O vulcão em erupção na Islândia enviou tremores novos em 19 de abril, mas a nuvem de cinzas que provocou caos aéreo na Europa baixou a uma altura de cerca de 2 km (1,2 milhas), o Instituto de Meteorologia disse. (REUTERS / NERC Estação de Satélites Receber, Universidade de Dundee, Escócia) #

Uma mulher faz uma chamada de telefone no hall de entrada vazia do Aeroporto de Praga, Ruzyne, após todos os vôos foram cancelados devido a cinzas vulcânicas nos céus provenientes da Islândia 18 abr 2010. As viagens aéreas na maior parte da Europa estava paralisada pelo quarto dia no domingo por uma enorme nuvem de cinzas vulcânicas, mas voos de teste holandeses e alemães realizado sem danos aparentes parecia oferecer esperança de trégua.(REUTERS / David W Cerny) #

Lava e luz relâmpago a cratera do vulcão Eyjafjallajokul em 17 de abril de 2010. (REUTERS / Lucas Jackson) #

O primeiro de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur em uma distância de 25 km a partir das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. Relâmpago e movimento turva cinzas aparecem nesta exposição de 15 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

O segundo de três fotos por Olivier Vandeginste, tomada a 25 km das crateras Eyjafjallajokull em 18 de abril de 2010. A pluma de cinzas está iluminado por dentro por flashes de raios em várias esta exposição 168 segundo. (© Olivier Vandeginste ) #

O terceiro dos três fotos por Olivier Vandeginste, tomada 10 km a leste de Hvolsvollur Islândia em 18 de abril de 2010. Relâmpagos e lava incandescente iluminar partes da pluma de cinzas Eyjafjallajokull maciço neste exposição de 30 segundos. (© Olivier Vandeginste ) #

OS BRASILEIROS NO CHILE DE ALLENDE – por paulo timm / portugal.pt

 

Enquanto o regime militar se estabilizava no Brasil em 1970, não só pela repressão amparada no AI-5 , mas também mercê dos êxitos econômicos inesperados,  aumentava, dia a dia, o número de exilados brasileiros em Santiago. Teriam chegado a dez mil.  Lá encontraram, no ano de 70, uma fase de grande euforia, marcada  pela vitória da Unidade Popular que elegeria o primeiro Presidente marxista na América Latina, em plena Guerra Fria e contra os interesses dos Estados Unidos;  o  ano seguinte foi de esperança, ao se conhecerem os primeiros indicadores de desempenho da economia divulgados pelo Ministro Pedro Vuskovic e de aceitação do Governo Allende; o terceiro, 1972, de mãos à obra, com intensa mobilização de toda a comunidade exilada nos trabalhos voluntários, de forma a compensar a boicote de setores empresariais, e de incorporação em ações estatais ou político-partidárias; e o ano de 73, até o dia 11 de setembro, dia do golpe,  de grandes apreensões .

“Em 1973, a inflação chegou a cifras de 381,1%, os produtos básicos de consumo desapareceram das prateleiras, o desemprego crescia assustadoramente e a produção e o valor da moeda de então, o Escudo Chileno, em proporção inversa, caíam de forma vertiginosa.”

                                              (wiki)

 

Os brasileiros, mergulhados na vida cotidiana do Chile, iam aprendendo melhor a língua, os costumes, as variantes culturais e, sobretudo, a especificidade da via chilena. Alguns casamentos. Todo o começo é sempre difícil. Mas havia as compensações: A paisagem fascinante, a vida organizada, as comidas – o pastel de choclo, as empanadas, os “locos” – e muita poesia musical, estimulada pela presença de Pablo Neruda nas manifestações e espetáculos.

Politicamente,  foi muito difícil entender aquela obstinação que tinham os chilenos com a estabilidade institucional do país. Ela fora convertida em mito pela esquerda chilena. Ela confiava pia e sagradamente que a profissionalização de suas forças armadas, há 40 anos distante de qualquer intervenção, jamais seria capaz de fazer o que fizeram em outros países do continente. A via chilena, enfim, era um dogma, que o Presidente Allende, levou, coerentemente, às últimas conseqüências.  Anos mais tarde, indaguei, em Porto Alegre, numa Mesa Redonda sobre Economia, na Assembléia Legislativa,   em que participava com Pedro Vuskovic, se Allende, enfim, não sabia do golpe. Ele, Ministro, confiou-me que sim, Allende pressentia, e que chamara as lideranças que o sustentavam advertindo-as para o imperativo de uma ação revolucionária das instâncias Partidárias, vez que ele, jamais o faria, pelo juramento à Constituição. Não houve resposta. O mito da estabilidade as paralisara totalmente. Um pequeno mas atuante grupo, à esquerda da Unidade Popular, o MOVIMIENTO DE IZQUIERDA REVOLUCIONÁRIA – MIR-  , altamente consciente da gravidade da situação política que se deteriorava ao longo de 1973, comprometendo a sobrevivência do Governo, em decorrência de boicotes empresariais,  greves nos transportes e “acaparamientos”, que consistiam em retiradas de produtos básicos das prateleiras e seu depósito em “escondites”, tentava , em vão, uma mudança de rumos. Mas poucos lhes davam ouvidos. A “via chilena”se consagrara , acima de qualquer questionamento. Insólita, como a qualificou Fidel Castro, em visita – incômoda- ao país. Mas imperativa.

Toda esta trajetória da Paixão e Morte da Via Chilena , não foi apenas vivenciada pelos brasileiros que lá estavam. Hoje ela está fartamente avaliada em diversos livros e Teses acadêmicas, como,por exemplo,  “ Salvador Allende e o mito da estabilidade chilena”, de Ana Cristina Augusto de Souza –http://www.revistaintellector.cenegri.org.br/ed2007-06/anacristina-2007.pdf , na qual se pode encontrar farta indicação bibliográfica. Naquela época, porém, cada grupo a avaliava segundo sua ótica política própria.

A “aristocracia” exilada, mais antiga e acomodada nos órgãos internacionais sediados em Santiago ou na Universidade , quando não no próprio Governo, como Conceição Tavares, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, pactuou firmemente com o mito da estabilidade. Todos eles tiveram um papel importantíssimo na colônia pela crítica ao regime militar no Brasil e apoio à “Caixinha”. Creio que um dos últimos responsáveis por ela , aliás,  foi o nosso saudoso conterrâneo Paulo Renato,  funcionário da OIT, cuja temperança política não fazia par com o destemor e espírito de solidariedade que demonstrou nos dias cruciais do Golpe. Muitos lhe devem a vida. Eu lhe devo a fidalguia de ter acompanhado minha segunda esposa, chilena, acusada pelo ex-marido como terrorista e seqüestradora de uma filha, a um Tribunal.

Outros segmentos dos brasileiros, enfim,  acomodavam-se em seus respectivos grupos políticos. E com a quantidade de gente que já lá estava em 1973, era impossível fazer qualquer classificação. Uma coisa, porém, é certo: Tirávamos lições.

A primeira lição que aprendemos no Chile foi sobre a importância da democracia. A esquerda brasileira vinha de uma formação estalinista, propensa a descartar qualquer importância às Instituições e ao Estado, tomados como burgueses. Mesmo com as tensões da Via Chilena e seu posterior fracasso, começamos a dar um valor crescente à construção da democracia como um valor universal. E ao Estado como instrumento social. Pouco depois, Carlos Nelson Coutinho nos brindaria como um artigo, no Brasil, com este título e que inauguraria o arejamento da esquerda com o contributo gramsciano da  importância da hegemonia e não apenas do Poder para o socialismo.

Outra lição importante, para todos nós, foi a compreensão das alianças, corolário do anterior, na montagem de estratégias de Poder. Pudemos perceber, na experiência chilena, que numa sociedade moderna a classe média e suas representações políticas têm um papel importantíssimo, que pode ou não viabilizar estratégias de mudança. Digo até, que essa foi uma lição decisiva para pensadores marxistas ortodoxos, como Emir Sader e Marco Aurélio, na montagem de estratégias de governabilidade do Governo do PT no Brasil, a partir de 2004.

Decisivo foi também o entendimento de uma dialética interna da esquerda, quando,  dentro e fora de um Governo , há fronteiras a serem respeitadas. Muitos até debitam o enfraquecimento de Allende às divergências internas da UNIDADE POPULAR ou à existência de uma ultra-esquerda, o MIR, que lhe teria solapado o vigor ideológico. Ledo engano! As divergências internas foram extremamente salutares ao  regime e o MIR, conquanto de extrema esquerda, e fora do Governo, jamais abriu baterias contra a pessoa do Presidente Allende. Pelo contrário, conta-se que a Guarda Pessoal de Allende era feita por militantes do MIR. Nada parecido com o que hoje presenciamos na cena brasileira, na qual  , a cada defecção escorre um filamento de ódios incontidos.

Finalmente, os tempos idos e vividos no Chile realimentaram a esquerda brasileira de um elemento decisivo na sua decantação humana: a solidariedade. Talvez até pela necessidade. Mas foi um fato, talvez extraviado.   As portas se abriam a cada um que chegava, amizades se fortaleciam no apoio a pessoas que deixavam para trás família, maridos ou pais presos, empregos, estabilidade. Refinava-se o ingrediente básico de uma visão de mundo mais fraterna, curiosamente destacado sempre pelo próprio Allende, ao  frisar, incansavelmente,  que tudo deveria começar no coração de cada chileno. Tenho o orgulho de ter, nesse processo, aberto não só nossa casa a muitos camaradas, maioria gaúchos exilados, com os quais me reaproximei,  não tanto em obediência à fórmulas doutrinárias de socialismo, mas ao reconhecimento de valores humanos como caráter, coragem , determinação e amizade.

No dia 11 de setembro de 1973, tudo acabou. Nas cinzas do La Moneda , Palacio Predencial bombardeado,  as últimas palavras del “Chicho” , testemunhando a barbárie :http://www.youtube.com/watch?v=g1QJ-y_xUmk  E o paradoxo de ter, com o fracasso da “Via Chilena”, enterrado a ilusão militarista e condoreira da esquerda do assalto ao Poder. A partir de então, surgia na América Latina uma nova esquerda, francamente aberta a comprometida com a democracia, só tática, mas estrategicamente.

Paulo Timm é economista.

TARSO GENRO (*): O “novo” (velho) conglomerado / porto alegre.rs

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

 

O julgamento do chamado “mensalão” e o esforço que vem sendo feito pela mídia, sustentado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, de separar a presidenta Dilma do presidente Lula, configura um novo momento da luta política no país e exige uma nova atitude da esquerda para disputar os rumos da revolução democrática em curso no Brasil.

A tentativa de separar Lula e Dilma, como se o projeto de governo da presidenta fosse uma ruptura com tudo que Lula representou para o país, nos seus dois governos, redundou num fracasso completo. Só quem não conhece Dilma poderia achar que ela embarcaria nesta armadilha primária. Mas a tática da direita e da centro-direita brasileira, no contexto político que vive o país e a América Latina, não foi ingênua. Ela revela uma estratégia bem concebida para restaurar a hegemonia do “conglomerado” centro-direitista que já reinou no país.

Os protagonistas desta estratégia têm uma visão voltada, não somente para as próximas duas eleições presidenciais, mas também para o esfacelamento do principal partido de massas da esquerda brasileira. Com seus acertos, erros, desvios e crises -que de resto atingem toda esquerda mundial no “pós muro”- o PT vem mudando a estrutura de classes da sociedade brasileira e reorganizando os interesses destas classes no cenário da “grande política”, aquela que decide os rumos da democracia e dos modelos de desenvolvimento.

O PT, através dos nossos governos de “coalizão”, vem promovendo uma ascensão extraordinária das classes populares, no plano social e também no universo da política. O “incômodo PT”, formado por Lula, é o suporte principal, com seus aliados de esquerda, das mudanças na letárgica desigualdade social que imobilizava o país. O ascenso social de dezenas de milhões, conjugado com as novas perspectivas para uma parte do empresariado compartilhar de um novo projeto de nação – cooperativa, soberana e interdependente na globalização – pode abrir um novo ciclo de mudanças.

A espetacularização do julgamento do “mensalão”, colocado como marco “inaugural” da corrupção no Brasil e os vínculos deste processo manipulado com o PT, como instituição; a insistência dos vínculos do “mensalão” com a figura do ex-Presidente Lula; a demonização da política e a glorificação da gestão pública “técnica”, isenta de “política”, que passa a ser sinônimo de pureza institucional (tática sempre praticada pelo fascismo em momentos de crise); a “revisão” do governo Lula, especialmente promovida por manifestações do principal líder da oposição (FHC, o único que restou em avançada idade), tudo isso aclara a tentativa de reorganização de um bloco político e social, neoconservador e neoliberal, que já havia colocado o país numa situação dramática. Como já registrou um editorial da Carta Maior:

“Para ficar apenas no alicerce fiscal/monetário: em dezembro de 2002 – último mês do PSDB na Presidência da República – a relação dívida/PIB atingia estratosféricos 63,2%, praticamente o dobro dos 30,2% existentes no início do ciclo tucano, em 1994. Anote-se: isso, depois de um salto da carga fiscal, que passou de 28,6% para 35% no período. Hoje a relação dívida/PIB é de 35%; a previsão para 2013 é de 32,7%” – (03/09/2012 – Saul Leblon).

Este bloco organiza a direita intelectual de corte liberal e neoliberal, com o apoio ideológico dos grandes meios de comunicação (que jamais engoliram Lula e o PT), visando recuperar o partido tucano. Arruinado pelas suas lutas internas e fracionado pelos seus interesses regionais e empresariais divergentes, é preciso dar ao PSDB algum novo conteúdo para que ele possa renascer. Os Democratas não conseguiram cumprir esta função, o PMDB está dividido segundo os seus interesses regionais fracionários e o PSDB é o único sobrevivente autêntico do projeto representado pelos dois governos de FHC.

A tática supostamente renovadora deste “novo“ conglomerado não leva em consideração, porém, três mudanças fundamentais, que o país sofreu nos últimos dez anos. Estas mudanças possivelmente impeçam a restauração neoliberal:

Primeiro, o país já tem um universo empresarial novo, que se fortaleceu nos governos Lula, ao qual não mais interessa o projeto neoliberal em crise. Novos processos de acumulação “via” mercado interno, pré-sal, construção civil pesada e habitacional, setor de fabricação de máquinas e equipamentos, produção de bioenergia, produção de alimentos para consumo interno, negócios originários das políticas de cooperação e construção de infraestrutura – tudo orientado por ações normativas do Estado – afastaram amplos setores burgueses (tradicionalmente submissos à ideia de uma nação “associada e dependente”) dos seus antigos comandantes. Agora estes setores vinculam a reprodução do seu capital e dos seus negócios a outro modelo de desenvolvimento, ao qual o neoliberalismo só atrapalha.

Segundo, como o projeto pretendido pelo “novo” conglomerado não difere muito daquele do presidente FHC, e é uma restauração, ele tem impedimentos sociais de monta. A combinação ousada de reorganização financeira do Estado, com investimentos em infraestrutura, políticas de inclusão produtiva e educacional voltadas para as comunidades de baixa renda e, ainda, a incidência soberana do país no cenário internacional, constituíram bases populares fortes no país, em defesa do projeto comandado por Lula. Os governos Lula recuperaram a nossa autoestima, reduziram as desigualdades sociais e regionais, que sempre marcaram a história do Brasil e promoveram dezenas de milhões a condições de mínima dignidade. Ao não levar em consideração estas mudanças, o “novo” conglomerado tucano, mais a mídia e a intelectualidade liberal e neoliberal, descolam-se do sentimento popular e não conseguem promover o seu “novo” projeto.

Terceiro, a organização do “novo” conglomerado não leva em consideração, também, a existência nos dias de hoje das redes sociais, das novas tecnologias de informação, das redes de comunicação e informação alternativas, que formam núcleos de resistência e de produção de uma opinião pública livre. São os novos espaços autônomos que não estão subordinados aos velhos métodos de manipulação que permeiam a maior parte da grande imprensa. O controle da produção e formação da opinião não é mais aquele legado pela ditadura, já que há um amplo espaço autônomo de promoção da circulação da informação e da opinião, que é impossível de controlar.

Concordemos ou não com as sentenças que advirão do “mensalão”, elas deverão ser respeitadas por todos e por nós. É o Estado de Direito funcionando. Especialmente nós, do Partido dos Trabalhadores, devemos tirar lições políticas e jurídicas do episódio. Analisar todas as causas que abriram as maiores feridas na nossa história não significa inculpar pessoas ou buscar bodes expiatórios, pois a função de um partido político socialista não é a de ser sucursal de um Tribunal ou de uma Delegacia de Polícia. A função de um partido como o nosso é promover a condução intelectual e moral de um contingente do povo para levá-lo a melhores níveis de emancipação política e social.

O nosso patrimônio é maior do que este legado do “mensalão”. O nosso dever, agora, é compreender que se abre um novo cenário na luta política do Brasil e que devemos compor uma força política orgânica e plural, que amarre fortemente as convicções da esquerda democrática e socialista com os ideais progressistas da centro-esquerda e do centro-democrático. É um novo patamar de unidade política que deve ser pautado pelos partidos de esquerda, em conjunto, para organizar e dirigir esses novos contingentes sociais, que se organizaram na estrutura de classes da sociedade e cujo futuro não tem chances de ser beneficiado pelo “novo” e velho conglomerado.

(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA : Zero Hora visitou lugares mitológicos da Revolução Farroupilha, palcos da guerra contra o Império. Assista ao documentário e saiba o que eles guardam na memória.

veja os dez principais palcos da REVOLUÇÃO FARROUPILHA (1835 – 1845)

CLIQUE AQUIREVOLUÇÃO FARROUPILHA

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A Revolução Farroupilha, também é chamada de Guerra dos Farrapos ou Decênio Heróico ( 1835 – 1845), eclodiu no RS e configurou-se, na mais longa revolta brasileira.

Foram diversas as causas que levaram os farroupilhas a atacarem Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, dando início a Revolução Farroupilha, que estendeu-se, até o dia 11 de setembro de 1836, quando Antônio de Souza Neto, proclamou a República Riograndense. Após esta data, iniciou-se então, uma guerra que durou até 28 de fevereiro de 1845.

Muitos fatos aconteceram, várias pessoas morreram, e quase dez anos depois de muitas lutas e combates, houve a pacificação.

Os problemas econômicos que atingiam as classes dominantes, figuram entre as principais causas da revolução. Os poderosos estancieiros gaúchos, queriam que o governo imperial, protegesse a pecuária do RS e dificultasse a entrada do charque argentino e uruguaio no Brasil, que devido o baixo imposto de importação, fazia concorrência desleal, arruinando a economia gaúcha. Essa mesma elite dos grandes fazendeiros, também lutava junto ao governo imperial, por uma maior liberdade administrativa para o RS.

A revolução farroupilha não foi portanto, uma revolta do povo pobre, e sim, uma rebelião dos ricos estancieiros que lutavam pelos seus interesses econômicos e políticos. O povo só participou do movimento, sob o controle dos fazendeiros. Não existia entre os líderes, o desejo de libertar o povo da exploração social, da escravidão ou da vida miserável.

Entre os principais líderes, destacam-se: Bento Gonçalves, Davi Canabarro, José Garibaldi, Antônio de Souza Neto, Gomes Jardim e Lucas de Oliveira.

O momento máximo da expansão do movimento, deu-se em 1839, com a fundação da República Juliana, na cidade de Laguna em Santa Catarina, sob comando de Canabarro e Garibaldi.

As capitais da República Riograndense, foram Piratini, Caçapava e Alegrete.

Os oficiais farroupilhas, reuniram-se nos Campos de Ponche Verde, e discutiram as questões do tratado de paz. Ocorreu então, um tratado entre duas nações: Rio Grande do Sul e Brasil. Assinou o tratado representando os farroupilhas, Davi Camabarro e pelos imperiais, Duque de Caxias, no qual não houve vencedores ou vencidos.

REVOLUÇÃO FARROUPILHA

ANTECEDENTES

              No Brasil, estávamos no período das Regências, duas correntes políticas existiam: Corrente Liberal Moderada – Chimangos que desejavam modificação do regime através de leis, e a Corrente Liberal Escoltada – Farroupilhas, que apontava como a solução a resolução.

Em 1833, quando Bento Gonçalves foi chamado ã Corte, (RJ), entrou em contato com Evaristo da Veiga e com o Padre Diogo Antonio Feijó, (futuro regente), e indica Antônio Rodrigues Braga, um moderado republicano, para o cargo de presidente da província, que por influência de seu irmão, passou para o partido conservador, rompendo com Bento Gonçalves.

Foram geradas as divergências entre o poder executivo (Fernandes Braga) e o poder legislativo; que era em sua maioria formado por deputados liberais, que acusaram Fernandes Braga de déspota por que havia mudado de partido.

CAUSAS

– Idéias de liberdade política
– Desejo de implantação do sistema republicano no Brasil com a federação das províncias;
– O descontentamento reinante aqui, pelos desastrosos e não contentáveis governos da província que eram orientados pelo império. Era o caso de Fernandes Braga.
– Um regime iníquo com excessivos impostos e taxas, cobradas pelo poder central, o Império, sobre nossa principal economia o Charque.
– Faltam de estradas, pontes e escolas;
– Dificuldades para o registro das pessoas físicas
– O desgosto do soldado gaúcho, pelo revés sofrido nos campos da Cisplatina, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos, cuja culpa era atribuída aos comandos escolhidos pelo império;
– Os gaúchos já haviam participado a lança e a espada em mais de uma campanha não queriam se deixar dominar e oprimir pela corrupção imperial brasileira.

ÉPOCA 1835/1845

TEATRO DE OPERAÇÕES Província do Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina

INÍCIO 20/09/1835 com a entrada em Porto Alegre de Gomes Jardim e Onofre Pires.

A primeira fase do Movimento Farroupilha contou com o apoio de todas as correntes liberais. Esta fase caracterizou-se pela deposição do presidente Fernandes Braga.

PRINCIPAIS EVENTOS

Ano de 1835

19/setembro , um grupo de 400 revolucionários reuniu-se nos arredores de Porto Alegre, e nas 1ªas da madrugada de 20/09 – junto à ponte da Azenha, ocorria a 1ª escaramuça com os Imperiais, visando a ocupação da capital. Bento Gonçalves Chega a 21.os farroupilhas eram comandados por Onofre Pires e Vasconcelos Gomes Jardim, enquanto a defesa da capital estava confinada a Gaspar Mena Barreto.

DR, Fernandes Braga, foge para a cidade do Rio Grande, de barco pela Laguna dos Patos. Bento Gonçalves segue para Rio Grande, ã frente de um pequeno destacamento, para enfrentar o Presidente deposto, porém, Fernandes Braga já havia fugido para a corte do Rio de Janeiro.

Entre as cidades que não aderem a causa estão : Rio Grande, Pelotas, e São José do Norte.

08.setembro – Entrada dos Farrapos em Piratini.
09.setembro – Os Farroupilhas apoderam-se de Rio Pardo.
13.setembro – Os revolucionários são derrotados em Arroio Grande.

Ano de 1836

07 de abril – Entrada dos Farroupilhas em Pelotas.

15 de junho – Restauração de Porto Alegre pelos imperiais.

10 de setembro – , no Campo dos Menezes a Batalha do Seival, onde ocorre a maior vitória das forças Farroupilhas, as tropas do Cel. Antonio de Souza Netto derrotaram as do Cel. João da Silva Tavares.

Na noite de 10 para 11 de setembro de 1836 chimarreando ao redor do fogo e ainda comemorando a brilhante vitória, Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares deram a idéia da Proclamação da República Rio Grandense. Na manhã seguinte as tropas foram perfiladas em ordem e o General Netto faz um pronunciamento.

12 de setembro – Proclamação da República Rio-Grandense por Souza Netto, nos Campos dos Menzes, pontas do Jaguará Chico, afluente do rio Jaquarão.

04 de outubro – Bento Gonçalves é derrotado e preso na Ilha do Fanfa (Rio Jacuí- proximidades de Rio Pardo). É enviado para a Corte e daí para o Forte do Mar na Bahia.

10 de novembro – Piratini torna-se a primeira Capital da novel Republica.

Ano de 1837

09 de março – Tomada de Lages (Santa Catarina) pelos farroupilhas.

07 de abril – Os republicanos tomam Caçapava.

10 de setembro – Fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar, na Bahia.

Ano de 1838

17 de março – Os imperiais retomam Rio Pardo

06 de maio – Rio Pardo volta ao poder dos revolucionários.

12 de setembro – Lages (santa Catarina) pela 2ª vez, é tomada pelos farroupilhas.

Ano de 1839

14 de fevereiro – A Capital da República é transferida para Caçapava, instalando-se o governo no dia 24.

06 de junho – Garibaldi inicia sua memorável travessia por terra com seus lanchões Seival e Rio Pardo, conduzindo os do Capivari até o Tramandaí.

22 de julho – Combate e tomada de Laguna (Santa Catarina)

25 de julho – Proclamação da República Juliana.

15 de novembro – Restauração de Laguna pelos imperiais após o combate naval desse dia.

Ano de 1840

03 de maio – Combate de Taquari, de resultados indecisos.

16 de julho Ataque a São José do Norte, de conseqüências desastrosas para os Farrapos. São José do norte recebe o Título de “Mui heróica Vila”. E Ajuda os feridos das tropas farrapas.

Cerco de Porto Alegre.

Ano de 1841

Continua Porto Alegre cercada
19 de outubro – Porto Alegre recebe o título de “Mui Leal e valorosa” pela resistência à revolução.

Ano de 1842

Inicia o declínio da revolução. Divergências entre os revolucionários. É assassinado o vice-presidente Antonio Paulino da Fontoura. Bento Gonçalves é acusado de autor intelectual. Duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires, resultando a morte deste.
09 de novembro – Caxias assume a presidência e o comando das armas legais.

01 de dezembro – Alegrete torna-se a sede do governo republicano.

Ano de 1843

26 de maio – Combate de Ponche Verde, de resultados indecisos.

Vantagens dos legalistas em todo o território. A revolução começa e perder terreno.

Ano de 1844

Início das conversações de paz.

14 de novembro – Surpresa de Porongos. Canabarro é derrotado pro Chico Pedro.

29 de dezembro – Combate de Quero (afluente do quarai) último da Revolução.

Ano de 1845 – Final da Guerra – Inicio da Paz.

28 de fevereiro – Assinatura da paz no acampamento de Ponche Verde, município de D.Pedrito.

01 de março – Caxias, nos campos de Alexandre Simões, proclama a anistia do Rio Grande do Sul, declarando pacificada a província.

CAPITAIS FARROUPILHAS

Piratini 10.11.1836 a 14.02.1839

Caçapava – 14.02.1839 ã 22.03.1840

Alegrete – 22.03.1840 ao término da Revolução

VULTOS EMINENTES

Imensa é a galeria do relevo nos fatos da memorável EPOPÉIA

Destacam-se, de parte dos farrapos:

Bento Gonçalves da Silva; Antonio de Souza Neto; David Canabarro; Domingos José de Almeida; Onofre Pires; Silva Jardim.

Junto aos imperiais:

Caxias; J.J.de Andrades Neves; João de Deus Mena Barreto; Silva Tavares; Francisco Pedro de Abreu.

Bento Manuel Ribeiro teve destacada atuação quer ao lado dos farrapos, quer dos imperiais

Condições da Paz
Os rio-grandense indicariam o nome para assumir a presidência da província
A dívida revolucionária seria paga pelo governo imperial.

O PÓS-GUERRA

Tempo de Construir – com a economia e a administração pública desorganizada por quase dez anos de guerra., a província tenta recuperar o tempo perdido;
Reinício da Imigração;
Dois partidos 1848 –Partido Conservador – Partido Liberal
18 de julho de 1847 – Morre Bento Gonçalves
1852 – rearticulação partidária , liga partidária, e contra liga.
Antonio de Souza Neto – vai para o Uruguai- se reconcilia com o Governo brasileiro 1864
David Canabarro – Morre em 1867
Da contra liga – origina-se o Partido Liberal Progressista.
1868 – Partenon Literário

Bibliografia : Lessa, Barbosa-Projeto Pró-memória farroupilha. 1985 Filho, Artur Ferreira – Rio Grande Heróico e Pitoresco- 1985 História Ilustrada do Rio Grande do Sul – 1998 Quevedo, Julio – José C.Tamanquevis. Rio Grande do Sul Aspectos da História Freitas, Sebastião Rodrigues de, Estudos Rio-Grandenses.

Kevin Richardson en el Parque de León de Gauteng, Sudáfrica

Kevin Richardson
(nacido en 1974) es un conductista animal, y ha realizado una amplia investigación sobre losanimales nativos de África . Ha sido reconocido en una manada de hienas manchadas y el orgullo de los leones . Él trabaja con las hienas y grandes felinos, como guepardos y leopardos . Se ha especializado con los leones y se ejecuta el Reino de la instalación de White Lion en el Parque de León en provincia de Gauteng, Sudáfrica . Conocido en todo el mundo como el “hombre que susurraba a León,” Richardson es también un autor y productor de cine.



 

VEJA O VÍDEO:

dê UM clic no centro do vídeo:

Carlos Heitor Cony faz uma revisão amarga e irônica da vida, aos 86 anos

Às vésperas de lançar ‘JK e a ditadura’, o autor de ‘Quase memória’ critica o político mineiro, compara a ABL a um ‘jardim de infância ao avesso’ e se diz cansado da ficção

 

 

Com as pernas enfraquecidas pelo câncer, Cony acaba de ir a Nova York

RIO – Os passeios na Lagoa acabaram: um câncer linfático crônico, considerado terminal há 11 anos, e que afetou a força de suas pernas, o obriga a passeios modestos, dentro de casa, com fisioterapeutas. Mas quando vai à rua, na condição de cadeirante, Carlos Heitor Cony, 86 anos, não vê limites: viaja para palestras, vai a Nova York e visita o Marco Zero. E não descarta futuras viagens de navio. Fumante de quatro charutos por dia, lê, escreve suas crônicas para a “Folha de S. Paulo” e participa de debates matinais com Artur Xexéo na CBN. Há um ano, não vai à Academia Brasileira de Letras (ABL) e não pretende voltar à ficção, como tantos fãs esperam. O que não o impede de dissertar, horas seguidas, sobre o relançamento de “Memorial do exílio” (Bloch Editores, 1982), com novo título, “JK e a ditadura”, agora pela Editora Objetiva. Nesta entrevista, o ceticismo de sempre dá espaço a sorrisos entre o diabólico e o abençoado que o tornam uma das figuras mais carismáticas da literatura brasileira.

O GLOBO – Por ser uma espécie de autobiografia em terceira pessoa, “JK e a ditadura” é carente de um viés crítico. Ele existe?

Deveria ser o terceiro volume de sua autobiografia, mas ele morreu. Sim, tenho minhas restrições a Juscelino, em que pese o carinho e a admiração por sua obra. Ele se vendeu como democrata irredutível, mas pressionava o Congresso. Por exemplo, quando pediu licença para processar Carlos Lacerda por vazar informações do Itamaraty, jogou pesado para cima da Câmara na intenção de cassar o adversário. Não conseguiu. Mas comprou voto, constrangeu a imprensa, o diabo a quatro, como todo mundo faz, na base do fisiologismo. Politicamente, errou feio ao apoiar Humberto Castelo Branco em troca da promessa de respeitar o pleito de 1965, o que não aconteceu. A jogada de mestre teria sido renunciar à candidatura em favor do (general Eurico Gaspar) Dutra, um pessedista de 90 anos que estava na lista dos preferidos dos militares e lhe era leal. Dutra ia corrigir os rumos e acalmar os radicais. Uma vez ele me perguntou onde foi que pegou a curva errada, e eu disse isso.

Mas isso seria suficiente para neutralizar a hidra da ditadura?

Seria a chance de evitar um quadro tão violento. Além disso, uma falta menos grave: JK mentia sobre a idade. Dizia, no primeiro volume das memórias, que nasceu em Diamantina em 1902. Tenho a certidão de nascimento: o ano correto é 1900. O então repórter Roberto Muggiati chegou a ser demitido por ter publicado na “Manchete” a idade certa: JK reclamou com o patrão. Interferi a seu favor e ele acabou “exilado” atrás de uma coluna da redação. Dois anos depois, virou diretor da revista.

E o aspecto programático?

A questão de JK sempre foi mesmo a indústria. Getúlio Vargas fez legislação trabalhista sem um tiro e a sociedade, inclusive o empresariado, aceitou. Mas Getúlio não menciona a questão da terra. Se mexesse na terra, seria deposto. JK também foi avesso a essa questão. Mas, com o que fez, transformou a sociedade brasileira e a levou a outro patamar.

A segunda parte do livro, espécie de apêndice, reedita trechos de “O Anjo da Morte”, reforçando a tese de assassinato de Juscelino. Você realmente acredita nisso?

Os indícios são todos nesse sentido. Guilherme Romano, braço direito de Golbery (do Couto e Silva), foi o primeiro a aparecer no local. O pouso onde ele parou pertencia a militares e JK vivia sendo seguido. A notícia da morte por acidente correu dias antes. E, em telegrama ao general (João Batista) Figueiredo, o chefe da Dina, o SNI chileno, equipara Letelier, assassinado pela CIA, a JK, como “um problema para o Brasil”, num tempo em que o presidente Jimmy Carter ouviu de (Ernesto) Geisel que, antes da redemocratização, ainda estava em vias uma “limpeza de terreno”. Sei que indícios não são provas, embora tenha ouvido o (ex-ministro do STF Cezar) Peluso dizer que existe a “prova indicial”. Miro Teixeira chegou a criar uma comissão para apurar as circunstâncias. Todos os depoentes afirmaram isso. O último foi Miguel Arraes, grande articulador da resistência à Operação Condor, que assim se pronunciou: “JK foi assassinado.”

Em 1968, você foi preso na mesma leva que deteve JK. O que guarda desse episódio?

Foi na noite de 3 de dezembro, até depois do carnaval. Três meses. Quando fui sequestrado, ouvi que naquela noite iam fuzilar JK. Incomunicável, acreditei, aquele tempo todo, que havia um paredão. Não fui torturado, mas em muitas noites vomitei ao ouvir berros e pancadas das outras celas. Fiquei numa cela miserável, com um cano de água, que usava para escovar os dentes, e um vaso sanitário. Esta foi a segunda prisão. No total, foram seis. Em 1965, quando ainda havia legalidade, fui processado por (Artur da) Costa e Silva, que, pela Lei de Segurança Nacional, queria me botar 30 anos em cana. O STF transferiu para Lei de Imprensa e peguei seis meses. Cumpri três: foi a única vez na vida que tive bom comportamento. Os militares ainda eram educados. Invoquei a convenção de Genebra e a comida melhorou, ganhei banho de sol e lençóis, e, no Natal, um coronel nos mandou peru, vinho, farofa e castanhas, da casa do comandante.

Você foi muito atacado quando recebeu benefícios como reparação aos danos. Isso o magoou?

Vou contar só um episódio. Quando, em abril de 1964, escrevi, no “Correio da Manhã”, o artigo “A revolução dos caranguejos”, que atacava violentamente o movimento militar, tive que me esconder. No dia da publicação, três sujeitos foram à escola de minhas filhas, que tinham 12 e 8 anos, e disseram à professora que vinham buscá-las, que eram amigos dos pais e precisavam protegê-las pois estavam sob ameaça de sequestro. À saída, a dona do colégio, ao ver duas alunas com três homens estranhos à paisana, pediu documentos. Eles se recusaram a mostrar e puseram minhas filhas num carro. A mulher anotou a placa e nos procurou. Ênio Silveira, que tinha contatos, fez a coisa circular em meios militares e descobriu-se que o carro servia a um oficial da Marinha. Elas foram soltas aos empurrões. Durante o sequestro, haviam sido ameaçadas e insinuaram que tirariam, naquela noite, a sua virgindade. O resto são tecnicalidades que nem preciso mencionar, além do fato de os desembargadores nem terem lido o processo por serem contemporâneos e saberem o que passei. Mas nem se me dessem a Petrobras eu me sentiria compensado. Nem a Amazônia pagaria todo o meu sofrimento.

Por que sua aversão a livros inéditos de ficção? Você desistiu?

Olha, com “Pilatos”, livro da década de 1970, eu disse tudo o que queria dizer. Thomas Mann, depois de escrever “Doutor Fausto”, pensou em não escrever mais. E disse: “Infelizmente, vivi mais que minha obra.” Teve que escrever ainda três ou quatro livros, tudo porcaria, pois precisava de dinheiro. Quando fiz “Pilatos” foi isso: fiquei 23 anos sem escrever. Aí veio o computador, e a doença de minha cadela Mila, eu escrevi “Quase memória” para suportar o sofrimento de ouvir seus gemidos.

“Quase memória” não é bom?

É um desabafo. O que escrevi depois foi por pura pressão comercial. Nada desse período interessa.

Como é sua rotina hoje?

Tenho um câncer linfático e estou em estado terminal há 11 anos. É o mesmo câncer da Dilma e do (Reynaldo) Gianecchini. Não perdi o cabelo, mas o tratamento enfraqueceu minhas pernas. O câncer, porém, não é mais a tal da insidiosa moléstia. Todo mundo tem um. A Hebe, a Ana Maria Braga, todos os líderes do Cone Sul, Lula, Fidel, Chávez, Cristina! Há 12 dias não saio de casa. Meses atrás fui a Nova York. Para visitar os museus, ser cadeirante é bom: fui tratado como príncipe, uma maravilha. No Marco Zero me puseram de cuecas para entrar.

Em “JK e a ditadura” você diz que, com a Frente Ampla, JK, (Carlos) Lacerda e Jango (João Goulart) provaram, tardiamente, que a Humanidade pode ser melhor desde que cada homem procure, no outro, o seu melhor. Você acredita nisso? Precisamos de homens cordiais, como JK?

Não. Em “O ventre”, aos 32 anos, eu digo que só creio naquilo que pode ser atingido pelo meu cuspe. Como disse no meu discurso de posse na ABL, não tenho convicções firmes para ser de direita, disciplina para ser de esquerda nem a imobilidade do centro, que é oportunista. Sou um anarquista inofensivo.

A Academia foi uma concessão, em vistas desse ceticismo?

Entrei com 74 anos, idade com que morreu o JK. Desde 1964 já me haviam convidado. Acabaram me convencendo num movimento para legitimar a candidatura paralela, para outra vaga, de Roberto Campos, que até o Celso Furtado queria. Acabei cedendo, sob a condição de não fazer campanha. A Academia é um ambiente de cordialidade. Resumindo, porém, eu diria que é uma espécie de jardim de infância às avessas. No jardim de infância você não tem passado mas um futuro o espera, com relações novas e amigos vindouros. Na academia, não temos futuro. Temos todos um passado, se é que temos, bom, brilhante ou medíocre, mas 90% dos que lá estão não têm mais nada para fazer na vida. O futuro é o mausoléu.

Você tem medo da morte?

Não, a não ser do ritual da morte. Não quero velório. Nem quero ir para o mausoléu da Academia. Serei cremado. Toda a liturgia da morte hoje é uma contrafação, fria, impessoal. Já conquistei o que queria. Só me restam o Nobel e a morte. Como o Nobel não virá…

O Globo / Ana Branco

NEM SEMPRE FREUD EXPLICA por olsen jr / rio negrinho.sc

Estou no consultório odontológico esperando a minha vez. Procuro ler alguma coisa (qualquer coisa) para aliviar a tensão. Pego uma revista “Status” (remake)… Na década de 1970 uma publicação com este nome era o melhor que se tinha para a satisfação do público masculino. Guardo um exemplar temático (só Drinks) daquela época. Agora, a edição que tenho em mãos é uma pálida evocação do que a memória ainda retém.

Não deveria ter mais “certas” preocupações, mas tenho… Vejo a senhora que sai do gabinete, caminha lentamente em minha direção… Afirmo para descontrair “não doeu nada, certo?”… Ela parece surpresa com a minha observação, afinal tudo ali é asséptico e sério… “Não, meu filho, não doeu”…

Digo para ela que certos “traumas” ou “má vontade” se preferir, com algumas situações a gente leva da infância e não muda mais… A ela junta-se a atendente e ficam me ouvindo… Continuo, “dentista, cortar cabelo e comprar roupas sempre foram questões a serem resolvidas para mim”. O primeiro por não suportar o ruído que a broca faz (e a gente não vê o que ela está fazendo), o segundo porque nunca me deixaram ter o cabelo comprido na época em que isso era moda (na década de 1960 quando os Beatles mandavam na música pop) e por último, se antes era porque a minha mãe escolhia o que iria vestir, agora simplesmente porque não suporto a constatação sempre quando me vejo num provador de que preciso perder peso, e todo o drama continua…”

A mulher e a recepcionista começam a rir e naquele momento esqueço que sou o próximo a ser atendido. Ela concorda comigo e lembra que na sua infância a broca nos consultórios era acionada por pedais e claro, dependia das flutuações da energia do dentista despendidas no ato… Penso que as alterações de rotação da dita cuja deveriam provocar “dores” de intensidades variadas em curto espaço de tempo… E, “quanto aos provadores, acrescentou ela, tenho verdadeiro pavor… Menos porque não goste de comprar roupas, porque gosto, mas não sou compulsiva como uma amiga que já deve ter perdido a conta de quantos sapatos tem em casa”…

Intervenho e afirmo que deve ser algo no componente genético das mulheres porque não conheço uma que não goste de sapatos…

Ela assente com a cabeça e continua a história afirmando que sua amiga teve de ir a uma festa e comprou uma sandália para combinar com a roupa… Quando já em casa foi procurar a peça descobriu que tinha guardada outra sandália, da mesma cor e modelo… Mas eu estava falando dos provadores, porque os detesto… Algum tempo atrás fui provar uma roupa… Estava lá dentro me preparando para vestir a roupa que pretendia comprar quando escorreguei e tentei me apoiar no que eu pensava ser uma parede daquela cabine… Para minha surpresa, levei um susto, eram apenas cortinas dispostas em “U” e caí de costas no provador ao lado… Naquele momento havia um homem só de cuecas que iria também vestir alguma roupa… Caí por cima dele e foi um “Deus nos acuda!”…

Aí foi a minha vez de juntar-me as gargalhadas da recepcionista… A mulher pareceu não se abalar, disse já ter superado o “trauma”, mas não esquecia o caso… Alguém avisou que o motorista dela já estava esperando e ela saiu, não sem antes abraçar a secretária e a atendente do gabinete… Depois olhou para mim e afirmou “não se preocupe, meu filho, não vai doer nada!”

Agradeci aquele conforto moral e depois que ela saiu fiquei imaginando que nada é melhor que o bom humor para encorajar um homem recalcitrante (sem nenhuma vocação para herói) num gabinete de dentista!

NOTAS:

O cantor e ator Ricky Shane é um mistério…

Filho de pai libanês e mãe francesa…

Foi para Paris com 15 anos…

Gravou  “Mamy Blue” em 1971 e literalmente “matou a pau”…

Depois sumiu… Dedicou-se ao cinema e teatro…

Casou, teve filhos…

Nunca mais ouvi falar dele… Uma pena!

Tinha talento, esta composição é um exemplo, vai…

http://www.youtube.com/watch?v=-lgpC4NTr0Y

A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

Rastro do Curiosity em Marte pode ser visto do espaço

Nasa divulgou novas fotos da missão de exploração ao planeta vermelho.

Pouso do robô completa um mês nesta quinta (6).

Do G1, em São Paulo

Ponto no centro da foto é onde o Curiosity pousou. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro (Foto: Nasa/JPL-Caltech/Universidade do Arizona)
Rastros do Curiosity são vistos do espaço
(Foto: Nasa/ JPL-Caltech/Universidade do Arizona)

Os rastros deixados pelo robô Curiosity no solo marciano já podem ser vistos do espaço. A Nasa divulgou nesta quinta-feira (6) novas fotos relativas à missão, que foram tiradas tanto por satélites posicionados na órbita de Marte quanto pelo próprio robô.

Nesta semana, o robô percorreu uma distância de 30,5 metros – exatamente 100 pés, medida usada nos Estados Unidos – em sua rota mais longa até o momento. Nos próximos dias, o robô fica parado, enquanto a Nasa faz testes no braço robótico e nos instrumentos científicos.

Nesta quinta, o robô completa um mês exato desde o seu pouso no planeta vermelho. A distância total que ele já percorreu até o momento é de 109 metros.

Na foto feita pelo Mars Reconnaissance Orbiter, um satélite da Nasa que monitora a superfície marciana, o rastro do Curiosity é claramente visível. Os pontos mais escuros no centro da imagem são o ponto de pouso do robô. A partir dali, ele partiu até a posição atual, à direita da foto, deixando seu rastro pelo caminho.

As fotos abaixo também foram divulgadas nesta quinta. A primeira mostra o rastro do Curiosity registrado pelo próprio robô. Na segunda, uma câmera posicionada no mastro central tirou uma fotografia de alta resolução do braço robótico, onde fica outra câmera.

Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Rastro do Curiosity em Marte, registrado pelo próprio robô (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)
Foto em alta resolução do braço do Curiosity (Foto: Nasa/JPL-Caltech)

Assange afirma que EUA rastreiam usuários por meio do Google

O jornalista e fundador do Wikileaks, Julian Assange, concedeu, nesta quinta-feira (30), a primeira entrevista desde que fugiu de sua prisão domiciliar e pediu asilo político à Embaixada do Equador em Londres. Na conversa, Assange qualificou a decisão do Equador de conceder-lhe asilo como “correta”, porque é uma pessoa “perseguida política pelos Estados Unidos e seus aliados”.

Na conversa com o jornalista Jorge Gestoso, transmitida pelo Canal Multiestatal teleSur e pela equatoriana Gama TV, Assange afirmou que se uma pessoa fizer algo que “vai de encontro à vontade dos Estados Unidos, algo de mau vai acontecer com ela”.A entrevista aconteceu nas dependências da embaixada do Equador no Reino Unido, onde Assange está alojado desde 19 de junho, data na qual deixou a prisão domiciliar e pediu ao governo de Rafael Correa a concessão de um asilo político. A resposta positiva para o pedido veio no dia 16 de agosto, momentos após o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, alegar que o governo britânico pretendia invadir a representação diplomática para prender o jornalista. O governo britânico nega-se a conceder um salvo-conduto para o jornalista deslocar-se até o aeroporto e seguir para Quito. “Eles (EUA) já disseram em documentos oficiais que não se trata somente de acusar Julian Assange por espionagem, mas de parar as atividades do Wikileaks”, relatou Assange.

Em um dos momentos da entrevista, o ativista australiano afirmou que está em marcha uma espécie de “totalitarismo transnacional”, a partir da espionagem deliberada de todos os dados pessoais disponíveis na internet, assim como todas as ligações telefônicas. “Agora podem interceptar tudo, não é necessário preocupar-se com algum suspeito. Simplesmente interceptam-se todos e armazena-se tudo”, disse.

Ele afirmou que empresas de espionagem já possuem tecnologia para armazenar todos os dados pessoais e fornecer pesquisas cruzando informações. “O jogo novo é a interceptação, registra-se tudo, é mais barato registrar tudo desde os EUA e armazenar. Dentro de alguns anos, se te transformas em uma pessoa interessante para as agências dos EUA e seus amigos, dizem: revisemos o que estava fazendo o senhor Assange nestes últimos anos, quem são seus amigos, com quem ele se comunicou”, explicou o jornalista, denominado o tal “totalitarismo transnacional”, porque, para ele, não só os EUA estão praticando esse monitoramento, mas também Alemanha e outras importantes economias mundiais.

“Quando fazemos uma pesquisa no Google, ele registra tudo. O Google trabalha desde os EUA e te conhece melhor do que você mesmo. Se você não recorda o que buscava há dois dias, há três horas, o Google recorda. Conhece-te melhor que tua mãe. Essas informações são armazenadas pelo Google, mas também são interceptadas pelo Conselho Nacional de Segurança dos Estados Unidos”, contou.

No início do mês de agosto, o WikiLeaks publicou uma lista de 170 companhias de espionagem que atualmente já prestam estes serviços para diversos governos ocidentais. O jornal britânico MailOnlinepublicou reportagem em 14 de agosto onde descreve que, segundo e-mails de funcionários da empresa de espionagem Strator, vazados pelo Wikileaks, qualquer pessoa que aponte uma câmara para algum monumento em Nova Iorque será registrado como suspeito de terrorismo e será fotografado pela vasta rede de câmeras conectadas ao governo estadunidense. Segundo o e-mail, a empresa que fornece este serviço é a estadunidense Abraxas e o sistema, chamado TrapWire, já funciona no Reino Unido, Canadá e vários estados dos EUA.

América Latina

Nas últimas semanas, o Equador recebeu o apoio da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e da União de Nações Sul-americanas (Unasul) pela concessão do asilo à Assange. O jornalista elogiou e agradeceu a decisão dos países da América Latina em apoiar a decisão do Equador em conceder-lhe asilo político. “Penso que é importante essa solidariedade latino-americana”, disse. O jornalista vê a América Latina como um bloco alternativo a estes movimentos autoritários e de ameaças às liberdades individuais.

O entrevistador, Jorge Gestoso, também perguntou a Assange sobre a acusação que pesa sobre ele de “abuso sexual”. Ele lembra que nenhuma mulher compareceu a uma delegacia para apresentar queixa contra ele, mas apenas a própria polícia suíça. O jornalista não quis falar com mais detalhes sobre a acusação, afirmando que são esdrúxulas, e comparou o caso com os porcos. “Quando uma acusação como essa circula nos meios de comunicação, não se pode responder. Porque é como lutar com um porco, você se suja com lama, mas isso convém às pessoas que lançam a lama”, explicou.

Afirmando que acredita na diplomacia, Assange calcula que poderá sair da embaixada do Equador em “seis a doze meses”, dependendo dos acontecimentos internacionais. Diz também que deve continuar “a luta” de uma “organização que crê nos direitos humanos”, como descreveu o Wikileaks.

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Fonte: Brasil de Fato

Governo recupera R$ 2,2 mi dos R$ 124 bi desviados via Banestado

Esta será a terceira parcela repatriada dos recursos remetidos ilegalmente para o exterior, entre 1996 e 2002, no auge das privatizações tucanas. Mas as investigações sobre o caso continuam cercadas por uma cortina de fumaça. O Ministério da Justiça não divulga informações sobre os processos no exterior. No Judiciário brasileiro, as ações estão pulverizadas em diferentes varas e a maioria corre em segredo de justiça. No Legislativo, a CPI do Banestado (2003) terminou em pizza e a CPI da Privataria (2011) segue engavetada.

Najla Passos

Brasília – O governo brasileiro conseguiu recuperar R$2,2 milhões dos recursos públicos remetidos ilegalmente ao exterior via Banco do Estado do Paraná (Banestado), no esquema de corrupção que abalou o país entre 1996 e 2002, no auge das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o diretor do Departamento Internacional da Advocacia Geral da União (AGU), Boni de Moraes Soares, a parcela que será repatriada já é a terceira relativa ao caso. As duas anteriores representavam valores equivalentes. Mas o percentual desviado é bem mais robusto: algo em torno de R$ 124 bilhões, conforme o deputado Protógenes Queirós (PCdoB), que é delegado da Polícia Federal (PF) e atuou no caso.

Soares conta que os R$ 2,2 milhões estavam bloqueados, desde 2005, em uma conta aberta nos Estados Unidos, por três brasileiros já condenados em primeira instância por envolvimento no caso Banestado. Para reaver o montante, não bastaram os pedidos de devolução feitos pelo Ministério da Justiça (MJ), com base em tratados de cooperação internacional. Foi necessário comprovar, na Corte Distrital de Nova York, que o dinheiro depositado no banco norte-americano era fruto de corrupção. Causa que a AGU assumiu em 2010, segundo ele.

O MJ, que é responsável pela repatriação, não divulga a identidade dos brasileiros e mesmo o nome da instituição financeira. Dez anos após o fim do governo que conduziu as grandes privatizações brasileiras, o escândalo do Banestado permanece cercado por uma cortina de fumaça. As ações contra executivos do banco, doleiros e usuários do sistema fraudulento do banco estão esparsas em diferentes varas da justiça brasileira, a maioria sob segredo de justiça, o que dificulta seu acompanhamento.

A reportagem de Carta Maior perguntou ao secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, quanto, exatamente, o Brasil já recuperou dos recursos desviados via Banestado, quanto resta bloqueado no exterior aguardando o curso dos processos legais e qual o andamento das ações penais relativas ao caso. “A maior parte dos processos corre em segredo de justiça. Como o MJ só atua quando acionado pelo Ministério Público ou pelos juízes responsáveis pelas ações, não nos cabe informar detalhes”, respondeu Abrão.

Uma CPI abortada e outra engavetada
No Legislativo, as investigações sobre o caso não tiveram êxito. A CPI do Banestado, aberta em 2003, terminou em pizza: um acordão indigesto entre PSDB e PT poupou das investigações uma farta carteira de clientes vips da “lavanderia”. Entre eles, alguns já comprovadamente culpados, como o deputado Paulo Maluf (PP-SP), o juiz Nicolau dos Santos Neto, e a fraudadora da Previdência, Jorgina de Freitas. E outros sob os quais pesavam graves indícios, como o publicitário Marcos Valério (que, à época, atendia o governo tucano de Minas Gerais), o ex-senador Jorge Bornhausen (do antigo PFL) e o candidato pelo PSDB à prefeitura de São Paulo, José Serra.

O deputado Protógenes Queirós não desiste de esclarecer os fatos. No final do ano passado, apresentou à mesa diretora da Câmara o pedido de abertura de uma nova comissão parlamentar de inquérito para investigar o caso, batizada de CPI da Privataria. Segundo ele, o lançamento do livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr, em 2011, trouxe novas evidências da corrupção praticada no país pelo esquema ilícito do Banestado. E reascendeu o anseio por investigações.

Mesmo cumprindo todas as formalidades exigidas pela casa, a comissão, hoje, continua engavetada, enquanto a CPI do Cachoeira, proposta vários meses depois, já está caminhando para a conclusão. “O que os partidos alegaram, na época, é que era melhor esperar as eleições deste ano, para não parece que a CPI era uma armação política para minar a candidatura de Serra”, explicou. Esta semana, porém, ele vai voltar a cobrar a instalação da CPI da Privataria. Como o Serra despenca nas pesquisas eleitorais e pessoas ligadas ao PT estão sendo julgadas por crimes semelhantes no processo do “mensalão”, o deputado avalia que a conjuntura está mais favorável.

Se há participação de tucanos nos desvios do Banestado? Protógenes aposta que sim. Segundo ele, empresários interessados em proteger suas reservas da instabilidade fiscal dos anos 1990 também usaram a lavanderia, mas o grosso do dinheiro era proveniente dos recursos públicos desviados das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. “Os personagens que encontrei na investigação coincidem com os retrados no livro Privataria Tucana, o que nos leva a crer que o esquema foi, sim, usado para lavar dinheiro do PSDB”, afirma.

Na obra, o jornalista comprova o envolvimento com o esquema de remessa ilegal de dinheiro para o exterior de dois parentes próximos de Serra: o primo Gregório Martin Preciado e a filha Verônica Serra. O relatório da PF sobre o caso Banestado indica também um possível envolvimento direto do próprio candidato à prefeitura paulistana: extratos fornecidos pelo banco norte-americano JP Morgan Chas apontam que Serra era uma das pessoas autorizadas a movimentar a conta denominada “tucano”, que teria recebido US$ 176,8 milhões, entre 1996 e 2000.

Avanços nas investigações de lavagem
A sofisticação do esquema fraudulento do Banestado prejudicou em muito as investigações iniciadas há uma década. Conforme o diretor do Departamento Internacional da AGU, o dinheiro desviado dos cofres públicos era remetido para uma agência do próprio Banestado nos Estados Unidos. Em Privataria Tucana, Amaury relata que, de lá, o dinheiro circulava em várias outras contas, de forma a despistar sua origem, para só depois ser depositado em paraísos fiscais ou retornar, já lavado, às mãos de seus verdadeiros donos.

Até 2003, o Brasil também não contava com dispositivos eficientes para combater a prática. Foi só após a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que os mecanismos destinados ao combate de crimes que resultam em evasão de divisas foram desenvolvidos. Segundo o secretário nacional de Justiça, a criação da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla) mudou a forma do país processar a investigação desses crimes. O fórum, que congrega 60 órgãos e entidades dos três poderes da República envolvidos com ao combate à lavagem, permitiu a troca de informações, dinamizando prevenção e investigação.

Abrão destaca também a implantação dos Laboratórios de Lavagem de Dinheiro (LABs) , classificados por ele de “escritórios de produção de informação estratégica”. Tratam-se de software e hardware que fazem processamento de dados em massa, indicando as relações que se estabelecessem entre as diversas contas em que os recursos ilícitos circulam. Permitem, portanto, estabelecer a origem e a destinação do dinheiro lavado que, por estratégia de ocultamento, costumam transitar em diferentes contas, de diferentes instituições, antes de chegarem às mãos dos seus verdadeiros destinatários.

O secretário afirma que, hoje, o Brasil possui R$ 3 bilhões de ativos ilícitos bloqueados em outros países, remetidos para o exterior tanto pelo Banestado quando por outros esquemas ilegais de evasão de divisas e lavagem. O montante processado pelos LABs, só de 2009 para cá, chega a R$ 11 bilhões, referentes a 600 casos. “Nossa capacidade de bloqueio de recursos é maior do que a de repatriação porque, no último caso, dependemos da tramitação dos processos aqui no país e nos países estrangeiros”, esclareceu.

O diretor da AGU também avalia que o país tem avançado muito na recuperação do dinheiro público desviado por corrupção. Ele lembra que, na semana passada, o órgão fechou um acordo que resultou na maior operação do gênero, que possibilitará o retorno aos cofres da União dos R$ 468 milhões destinados à construção do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), que haviam sido desviados pelo Grupo OK, do ex-senador Luís Estevão (PP-DF). Do total, R$ 80 milhões foram pagos à vista.

O restante foi parcelado em 96 prestações de R$ 4 milhões. E para garantir a recuperação do total do valor, o órgão mantém penhorados 1.255 imóveis de Estevão, com valor correspondente à 150% do que ele deve ao erário.

Epidemia de indiferença – por atila roque / brasilia.df

O Brasil convive, tragicamente, com uma espécie de “epidemia de indiferença”, quase cumplicidade de grande parcela da sociedade e dos governos, com uma situação que deveria estar sendo tratada como uma verdadeira calamidade social. Em 2010, 8.686 crianças e adolescentes foram vítimas de homicídio. Estamos falando ao equivalente a cerca de 43 aviões da TAM, como o do trágico acidente em 2007, lotados de crianças e adolescentes.

De 1981 a 2010, o país perdeu assassinadas 176.044 pessoas com 19 anos ou menos, sendo que meninos representam em torno de 90% do total. Esses dados horripilantes nos alcançaram mais uma em meados de julho, quando foi divulgado o “Mapa da Violência 2012 – Crianças e Adolescentes do Brasil”, do pesquisador Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador de Estudos sobre a Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) no Brasil. Os dados e análises compilados sistematicamente nos últimos anos pelo Mapa revelam um cenário de dor e horror que não tem obtido a atenção que merece na sociedade brasileira.

Passados mais de uma década de governo do PT e mais de trinta anos de regimes democráticos a área de segurança pública permanece praticamente intocada. Arraigada em um modelo arcaico que não apenas relega aos Estados o grosso das responsabilidades com a implementação das políticas de segurança e que mantém um arcabouço institucional de polícia militarizado que penaliza a sociedade e, em última instância, os próprios profissionais do setor: mal remunerados, mal treinados e sistematicamente desvalorizados. Uma das consequências são os índices de violência e homicídios associados as más práticas da polícia. Somente no Estado de São Paulo, onde a taxa geral de homicídios voltou a subir depois de um período de queda, a polícia matou nos últimos cinco anos nove vezes mais que o total de mortes decorrentes da ação policial em todo os EUA.

A taxa de homicídios na população entre 0 e 19 anos em 1980 era de 3,1 para cada grupo de 100 mil. Em 2010, foi de 13,8

O exemplo mais recente desse descaso do Estado brasileiro em relação a gravidade do tema foi a notícia divulgado ao final do ano passado que o tão esperado Plano Nacional de Redução de Homicídios havia sido engavetado pelo Ministério da Justiça por orientação expressa da presidente Dilma, que preferia concentrar esforços na ampliação e modernização do sistema penitenciário, no combate ao crack e no monitoramento das fronteiras, adiando mais uma vez a abordagem integrada do problema. Em fevereiro deste ano o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que a redução dos homicídios seria uma prioridade do novo Plano Nacional de Enfrentamento da Violência. Infelizmente muito pouco e muito tarde para um problema que se repete todos os anos e para o qual não faltam análises, diagnósticos e propostas colocadas em diferentes graus em debate e experimentadas em pequena escala ao longo das últimas duas décadas.

As chances de uma criança ou adolescente brasileiro morrer assassinado são maiores hoje do que eram há 30 anos, colocando o país na quarta pior colocação numa comparação com outros 91 países. Em 1980, a taxa de homicídios na população entre zero e 19 anos era de 3,1 para cada 100 mil pessoas. Pulou para 7,7 em 1990, chegou a 11,9 em 2000 e alcançou 13,8 em 2010. Um crescimento de 346,4% em três décadas, em contraste com a mortalidade provocada por problemas de saúde, que teve queda acentuada. Quando considerada toda a população, a taxa de homicídios em 2010 foi de 27 por 100 mil habitantes. Considera-se que há uma epidemia de homicídios quando a taxa fica acima de 10 por 100 mil.

 

De fato, o Brasil é o país com o maior número bruto de homicídios no mundo, ocupando o sexto lugar quando considerado a proporção em relação ao tamanho da população do país. E os jovens, em sua maioria crianças e adolescentes, meninos, ocupam uma parcela desproporcional dessas mortes, sem que isso vire um escândalo público nacional. Passado o momento da divulgação dos dados voltamos a situação de quase inércia em que as medidas tomadas não incorporam o sentido de urgência e emergência que a questão merece.

O fim trágico da vida desses jovens vem acompanhado da anulação simbólica de suas histórias, a dor das famílias e dos amigos ignorada, sonhos e trajetórias de vidas suprimidos. Isso ocorre devido à naturalização da violência e a um grau assustador de complacência em relação a essa tragédia. É como se estivéssemos dizendo, como sociedade e governo, que o destino deles já estava traçado. Estavam destinados à tragédia e à morte precoce, violenta, porque nasceram no lugar errado, na classe social errada e com a cor da pele errada, em um país onde o racismo faz parte do processo de socialização e do modo de estruturação do poder na sociedade.

São jovens submetidos constantemente a um processo que os transforma em ameaça, os desumaniza, viram “delinquentes”, “traficantes”, “marginais” ou, às vezes, nem isso, apenas “vítimas” de um contexto de violência e discriminação em relação ao qual a sociedade prefere virar às costas e olhar para o outro lado, com raras exceções.

É preciso quebrar esse padrão de violência e indiferença e compreender que o país está perdendo o melhor da sua juventude. Esses meninos não estavam destinados a morte violenta, mas sim a serem médicos, artistas, engenheiros, professores, filhos e pais, avôs e presidentes da República.

Precisamos criar alternativas, abrir canais de conversação na sociedade sobre essa tragédia, combater a violência armada, inclusive policial, estabelecer instrumentos de participação e controle cidadão sobre o desenho e implementação das políticas públicas de segurança. Reconhecer que isso é uma questão nacional, um problema do estado e central à consolidação da democracia. Precisamos quebrar a apatia, o silêncio e a cumplicidade passiva com o extermínio dos jovens brasileiros.

Atila Roque é diretor executivo da Anistia Internacional Brasil

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA – guilherme.f.x / porto alegre. rs

Quem vem a Porto Alegre e passa em frente ao acampamento farroupilha, vindo de fora do Rio Grande do Sul, não deve entender nada. Não basta permitir que se instalem as malocas da Vila do Chocolatão: os tradicionalistas brindam a cidade com um visual que rivaliza com os desvalidos e excluídos urbanos. É um imenso malocão (favela é termo carioca, considerado menos pejorativo – caiu no gosto da terra e está em franca substituição pelo politicamente correto comunidade; aqui é maloca mesmo e nada saudosa).

Não tenho mais paciência com este gauchismo idiota, com estas representações de farrapos usando bombacha em desacordo com a história. Os ‘’pantalones turcos’’ excedentes da guerra da Criméia só foram desovados pelos ingleses no Prata e caíram no gosto campeiro após as nossas façanhas. Não aguento aqueles que se transformam e passam a usar impostação vocal de Paixão Cortes quando setembro chega com barro e bosta de cavalo na mui leal e valerosa.

Esta cultura de CTG é muito esquisita mesmo. O alicerce de tudo, CTG com patrão, capataz, sota e primeira prenda, reproduz o modelo estancieiro de exploração do homem do campo. A grande virtude do gaúcho modelar é a lealdade à terra, entendida aí como propriedade do patrão ao qual o gaúcho devota uma fidelidade canina. Outro fato curioso é o grande numero de patrões de CTG com nome italiano, mesmo na campanha. O gringo trabalhador após descer a serra e prosperar no pampa está assumindo o seu lugar na ordem social nativista. Não vou nem comentar as primeira prendas Jeniffer anunciadas no sistema de som, deve ser a tal globalização no gauchismo.

Na minha geração fomos invadidos pelo Fogaço-Crioulismo (não é meu o conceito), movimento tradicionalista que trouxe para a juventude dos anos 80 o orgulho de tomar mate em público. Misturava, numa miríade de festivais quase semanais, gauchismo com Woodstock; bombacha e alpargatas com maconha e bebedeira. Aumentou o consumo de erva mate, o preço subiu e salvamos nossos ervais que estavam sendo dizimadas pela monocultura.

Voltando ao acampamento, aquilo que era alma popular está virando negocio pelas beiradas. O gauchinho da volta, que fazia do setembro seu carnaval de um mês, tirando férias do emprego para passar acampado com os amigos, de fordunço, já não tem mais espaço. Agora temos piquetes de empresas, entidades e associações de aquinhoados funcionários públicos. Estes senhores desvestem-se de gente e fantasiados a caráter botam o pé no barro (duplo sentido:lama e bosta). Mas eles não montam piquete, não fazem comida e não zelam pelo espaço nas madrugadas vazias. Aí o pobre gauchinho agora excluído do seu antigo piquete se emprega com os ‘’doutores’’ por algum cobre, voltando a reproduzir num círculo trágico o modelo de exploração pampeano que tão bem representa.

Antes que me sentem o mango devo dizer que tenho alguma vivência campeira e muita simpatia pelo modo de vida lá de fora. Seguidamente me perguntam de onde eu sou pois devo ter adotado sem saber modos que são estranhos a um porto alegrense urbano. Conheci o gaúcho campeiro da região central, aquele do modelo estancieiro do CTG. Tive contato com o gaúcho missioneiro da Bossoroca, os homens mais primitivos e rústicos que vi lá nos anos 70. Estive muito próximo do gaúcho da região sul dos banhados pra baixo da Quinta. Tenho alguma deficiência no gauchismo dos campos de cima da serra. Conheço de ouvir falar, de rica tradição tropeira.

Então senhores, cultivem suas tradições, não deixem tudo virar um carnaval espetaculoso com assessores cariocas e cavalos de isopor ridículos. Moralizem o acampamento, talvez reduzindo a densidade da costaneira, com mais coletividade associativa cultural e menos individualidades piqueteiras, empresas e associações. O Rio Grande Gaúcho é maior que isso, mais Rio Grande Castilhista positivista sem ode ao modelo oligárquico, que se vigesse ainda nos faria mais parecidos com os coronéis que criticamos para além do Mambituba.

Mulher de Cachoeira: ‘chefe da revista VEJA é empregado do meu marido’

 

Postado em: 31 ago 2012 às 11:36

 

Afirmação foi feita por Andressa, mulher de Cachoeira, ao juiz federal Alderico Rocha Santos. Se deu durante tentativa de chantagem sobre ele, para que tirasse o marido da penitenciária da Papuda. Santos registrou ameaça à justiça federal

andressa cachoeira veja

Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, finalmente admite relação de chefe da Veja com seu marido: ‘empregado e patrão’. Foto: divulgação

É muito mais surpreendente, perigosa e antiética a relação que une o contraventor Carlinhos Cachoeira e o jornalista Policarpo Júnior, editor-chefe e diretor da sucursal de Brasília da revista Veja, a julgar pela ameaça feita pela mulher de Cachoeira, Andressa Mendonça, ao juiz federal Alderico Rocha Santos.

Documento obtido com exclusividade por 247 contém o ofício à Justiça Federal de Goiás, datado de 26 de julho, assinado pelo juiz Rocha Santos, no qual ele relata como foi e quais foram os termos da ameaça recebida de Andressa. A iniciativa é tratada como “tentativa de intimidação“. Ele lembrou, oficialmente, que só recebeu Andressa em seu gabinete, na 5ª Vara Federal, em Goiânia, após muita insitência da parte dela.

Com receio do que poderia ser a conversa, Rocha Santos pediu a presença, durante a audiência, da funcionária Kleine. “Após meia hora em que a referida senhora insistia para que este juiz revogasse a prisão preventiva do seu marido Carlos Augusto de Almeida Ramos, a mesma começou a fazer gestos para que fosse retirada do recinto da referida servidora”.

P.P.