Arquivos Diários: 2 setembro, 2012

Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

CONTRA O ‘GAUCHISMO” IDIOTA – guilherme.f.x / porto alegre. rs

Quem vem a Porto Alegre e passa em frente ao acampamento farroupilha, vindo de fora do Rio Grande do Sul, não deve entender nada. Não basta permitir que se instalem as malocas da Vila do Chocolatão: os tradicionalistas brindam a cidade com um visual que rivaliza com os desvalidos e excluídos urbanos. É um imenso malocão (favela é termo carioca, considerado menos pejorativo – caiu no gosto da terra e está em franca substituição pelo politicamente correto comunidade; aqui é maloca mesmo e nada saudosa).

Não tenho mais paciência com este gauchismo idiota, com estas representações de farrapos usando bombacha em desacordo com a história. Os ‘’pantalones turcos’’ excedentes da guerra da Criméia só foram desovados pelos ingleses no Prata e caíram no gosto campeiro após as nossas façanhas. Não aguento aqueles que se transformam e passam a usar impostação vocal de Paixão Cortes quando setembro chega com barro e bosta de cavalo na mui leal e valerosa.

Esta cultura de CTG é muito esquisita mesmo. O alicerce de tudo, CTG com patrão, capataz, sota e primeira prenda, reproduz o modelo estancieiro de exploração do homem do campo. A grande virtude do gaúcho modelar é a lealdade à terra, entendida aí como propriedade do patrão ao qual o gaúcho devota uma fidelidade canina. Outro fato curioso é o grande numero de patrões de CTG com nome italiano, mesmo na campanha. O gringo trabalhador após descer a serra e prosperar no pampa está assumindo o seu lugar na ordem social nativista. Não vou nem comentar as primeira prendas Jeniffer anunciadas no sistema de som, deve ser a tal globalização no gauchismo.

Na minha geração fomos invadidos pelo Fogaço-Crioulismo (não é meu o conceito), movimento tradicionalista que trouxe para a juventude dos anos 80 o orgulho de tomar mate em público. Misturava, numa miríade de festivais quase semanais, gauchismo com Woodstock; bombacha e alpargatas com maconha e bebedeira. Aumentou o consumo de erva mate, o preço subiu e salvamos nossos ervais que estavam sendo dizimadas pela monocultura.

Voltando ao acampamento, aquilo que era alma popular está virando negocio pelas beiradas. O gauchinho da volta, que fazia do setembro seu carnaval de um mês, tirando férias do emprego para passar acampado com os amigos, de fordunço, já não tem mais espaço. Agora temos piquetes de empresas, entidades e associações de aquinhoados funcionários públicos. Estes senhores desvestem-se de gente e fantasiados a caráter botam o pé no barro (duplo sentido:lama e bosta). Mas eles não montam piquete, não fazem comida e não zelam pelo espaço nas madrugadas vazias. Aí o pobre gauchinho agora excluído do seu antigo piquete se emprega com os ‘’doutores’’ por algum cobre, voltando a reproduzir num círculo trágico o modelo de exploração pampeano que tão bem representa.

Antes que me sentem o mango devo dizer que tenho alguma vivência campeira e muita simpatia pelo modo de vida lá de fora. Seguidamente me perguntam de onde eu sou pois devo ter adotado sem saber modos que são estranhos a um porto alegrense urbano. Conheci o gaúcho campeiro da região central, aquele do modelo estancieiro do CTG. Tive contato com o gaúcho missioneiro da Bossoroca, os homens mais primitivos e rústicos que vi lá nos anos 70. Estive muito próximo do gaúcho da região sul dos banhados pra baixo da Quinta. Tenho alguma deficiência no gauchismo dos campos de cima da serra. Conheço de ouvir falar, de rica tradição tropeira.

Então senhores, cultivem suas tradições, não deixem tudo virar um carnaval espetaculoso com assessores cariocas e cavalos de isopor ridículos. Moralizem o acampamento, talvez reduzindo a densidade da costaneira, com mais coletividade associativa cultural e menos individualidades piqueteiras, empresas e associações. O Rio Grande Gaúcho é maior que isso, mais Rio Grande Castilhista positivista sem ode ao modelo oligárquico, que se vigesse ainda nos faria mais parecidos com os coronéis que criticamos para além do Mambituba.