Leitor e Chuva – por jorge lescano / são paulo.sp

Chovia com violência e as pessoas se recolhiam na entrada do banco. Esperavam impacientes que o temporal amainasse para ir embora rumo aos seus afazeres; aparentemente resignado ao capricho do clima, o homem tirou um livro de sua bolsa a tiracolo.

Chuva torrencial.

Sob a laje de concreto

um casal de pardais.

Um leve sorriso modificou-lhe as feições, a turma de garotos comemora a chuva dançando na tormenta entre gritos e gargalhadas. Mesmo interrompida no espaço por prédios, domesticada por encanamentos, civilizada, enfim, a chuva é uma festa da natureza. Repentinamente o leitor decidiu contemplar o primitivo espetáculo do aguaceiro.

A ventania cria vagas que desabam sobre as pessoas apinhadas no refugio acanhado. A rua alaga-se, os carros levantam pequenas ondas ao passar espirrando naqueles que se atrevem a andar no temporal. Os carros perfuram a tarde. A chuva é tão densa que se pode sentir os esforço do veículo para abrir caminho, e este espaço é quase visível quando o carro perfura a massa líquida que cede na parte anterior e vai se fechando novamente a medida que ele avança, de modo que se o carro não estivesse alguns metros adiante no momento seguinte se poderia pensar que é a massa de água que se movimenta em sentido contrário envolvendo o veículo do capô ao porta-malas. As vagas são oblíquas pela ação do vento, isto aumenta a sensação de imobilidade do trânsito de veículos. Tudo acontece em um instante, a sua percepção é simultânea a ponto de ser quase imperceptível no momento em que acontece, e só depois, ao lembrar o fato, é que a observadora toma ciência do fenômeno.

Na outra calçada, na janela de um primeiro andar, alguém está imóvel contemplando a rua. Talvez um homem atarefado que vê frustrar-se uma reunião importante para seus negócios – quando chove o trânsito na cidade vira um caos –, ou uma mãe preocupada com seu filho que ainda não chegou do colégio. Talvez uma criança que se maravilha ao perceber pela primeira vez que a chuva é um espetáculo musical de beleza mágica, embora preocupe o homem de negócios e a mãe do rapaz que demora em chegar.

A figura permanece imóvel além da densa cortina líquida, bem protegida pela vidraça. Não importa quem é. Faz parte da paisagem – monocromática agora – deste início de outono.

Árvores antigas balançam suas frondosas copas ao sabor da ventania, um arbusto baixo se sacode feito cachorro depois do banho.

O catador de papel, provável morador de rua, atrelado às barras de madeira, puxa sua carroça contra o vento, sob o veículo, seu cão de estimação de raça indefinida acompanha o passo lerdo do patrão. O chapéu do homem despeja grossos fios de água diante dos seus olhos. Todo seucorpo está encharcado, tomou banho em plena rua.

Um flash de luz celeste ilumina todo o cenário, por um instante a cena fica congelada, o espectador postado na janela tem uma instantânea do grupo.

O leitor conserva seu livro aberto e olha a chuva. A moça de vestido preto protege seu peito do vento com uma pasta branca. No horário do almoço a jovem havia consumido protetor solar e sabonete e dentifrício e talco para os pés e para o corpo e creme para as mãos e para prevenir rugas no rosto e xampus e tinturas para o cabelo e fixador e creme umectante e desodorante em pasta e aerossol e esmaltes para as unhas e batons para o dia e para a noite e sombra para os olhos e rímel para os cílios e supercílios, pois ela está ligeiramente acima do peso e é oportuno completar a ausência de gorduras na comida com cosméticos,mesmo quando se é apenas heroína de uma história literária. 

Um motociclista veste a brilhante roupa impermeável e as galochas para enfrentar a intempérie, deve entregar documentos ou mercadoria antes do fim do expediente comercial. Nada mais pode ser visto no lampejo do raio. O trovão estremece o ar, afasta-se ribombando em ziguezague.

A moça estica a mão espalmada para conferir se a chuva parou, como as horas, a água lhe escorre entre os dedos. Diminui a força d’água, ou é a fúria do vento que decresce e dá a sensação de que a chuva está amainando. Lentamente o grupo acorda. Em câmera lenta os personagens retornam à vida. De fato, a chuva está mais leve. A figura da janela desaparece.

Não havia o cheiro de terra molhada que tanto lhe agradava quando criança e ainda não era noite para contemplar o rastro lusco-fusco das rodas dos carros sobre o asfalto. Brilhos fugitivos, um dos prazeres visuais da chuva noturna na cidade. Os guarda-chuvas, apesar de perigosos para seus óculos, especialmente se portados por mulheres, sempre mais baixas que ele, também mereceriam a atenção do pintor. Amava a chuva e sabia que não poderia viver numa cidade dominada pelo sol. A chuva sempre lhe trazia lembranças de sua cidade que lhe parecia nórdica com o céu de nuvens baixas e escuras de abril e agosto,

No fim do outono a cidade vive sua época mais bela, com as árvores que perdem a folhagem enfeitando o chão com cores que vão do amarelo ao terra-sombra passando pelo ocre, o sépia, o laranja, e ouve-se o crepitar das folhas ao andar sobre elas. O sol pálido cria longos crepúsculos feéricos que convidam a passeios distraídos sem rumo, perambular a esmo até as luzes serem acesas. Quando o chuvisco apressa a noite, ele veste a sua velha capa de chuva e sai a vagar. Nesses anoiteceres sente-se na Londres dos romances de mistério do século XIX. Longe dela percebe que ama a sua cidade que provavelmente nunca mais verá. O homem fechou o livro, guardou-o na bolsa, levantou a gola do casaco, abaixou a cabeça e adentrou na massa líquida da tarde.

As árvores conservariam em suas copas agitadas os rastros da tempestade e por longas horas continuariam a despejar gotículas iridescentes de cores variegadas ao ritmo das luzes que aos poucos se acendem na cidade e dissolvem os objetos em massas indefinidas de cor pastel. O crepúsculo distribui seu cromatismo sobre formas evanescentes que aos poucos desaparecem pela invasão das sombras noturnas. À luz dos faróis, o chuvisco é um redemoinho de alfinetes.

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