A“INVENÇÃO” DO 7 DE SETEMBRO – por paulo timm / portugal.pt

 

 

Culminando a  Semana da Pátria, neste 7 de setembro, quecelebra o aniversário da Independência do Brasil, tropas militares, estudantes,organizações cívicas e alguns poucos  remanescentes vivos da Força ExpedicionáriaBrasileira – FEB- na II Guerra Mundial desfilarão pelas ruas de cidades de todoo país. Neste dia, em 1822, o Príncipe Regente de Portugal, indo ao encontro dos anseios da nação teria dado o famoso Grito do Ipiranga, que nos separou dePortugal.  Isso posto,  o 7 de setembro, está inscrito, hoje, como adata da Independência do Brasil. Não obstante, esta é apenas parte da verdade,senão, segundo alguns pesquisadores mais críticos, pura invenção. Por quê? Porque, na História, os acontecimentos passados são sempre pensados e transmitidos pelos recursos de cada época e, a partir destas redefinições, se renaturalizam, como se tivessem ocorrido exatamente como são contados.

 

Diversos autores já discutiram a moldura geral da nossa Independência, que se consagrou mediante um pouco glorioso Tratado com a Potência Colonial, mediado pela Inglaterra, justo no dia 07 de setembro de1925.

 

Outros pesquisadores procuram precisar com mais rigor o efetivo significado desta data três anos antes, no suposto Grito da Independência de D.Pedro I.  Demonstram eles  que houve poucos registros do  ato. E pouco crédito sobre ele, embora sempre fosse registrado como um momento importante, mas não “o momento” da Independência. Datam de 1862, data em que se viria  inaugurar a estátua eqüestre de D.Pedro I na Praça da Constituição no Rio de Janeiro, então capital, os depoimentos do Coronel Marcondes e do Tenente Canto, testemunhas do feito, os quais reproduziram outro relatório, do Padre Belquior, de 1826, este considerado peça chave do  momento da fundação do Brasil.  A verdade, porém,  é que só por volta de 1830, no auge da crise do I Império, que resultaria na saída de Dom Pedro I do trono, o 7 de setembro se consolidaria como data nacional.  Foi  Gottfried Heinrich Handelmann quem observou em sua Historia do Brasil, publicada  em1860, este fato, destacando que  “a princípio não se lhe ligou tanta importância (…)”. Outra data, a da Proclamação do Imperador, em 12 de outubro, lhe ofuscava, embora tenha  suscitado preocupações na Europa, que temia, na época, os excessos populistas.

 

Até 1930 , pois,  duas  datas eram celebradas como fundadoras da nação, por ordem de importância: Dia 12 de outubro e o  07 de setembro .

 

Por trás destas duas datas, a tensão política que dividia as opiniões entre liberais e conservadores. Estes, sintonizados com a vaga conservadora do Congresso deViena, em 1815 – e provavelmente mais próximos dos interesses remanescentes da Coroa Portuguesa na Corte de Dom Pedro I, optavam pela cerimônia protocolar, de caráter mais palaciano e militar, preferiam o 7 de setembro. Os liberais,inflamados pelo jornal Aurora Fluminense, que depois de 1927 seria editado por Evaristo da Veiga, preferiam o 12 de outubro, data em que a população teria participado festivamente da independência.

 

As duas datas foram largamente celebradas na primeira década da Independência do Brasil como fundadoras da nação e  ambas eram igualmente  prestigiadas pelo Imperador, mas com distintos significados.  Não foi  por acaso que a celebração do Tratado da Independência, mediado pela Inglaterra, acabou sendo  firmado a 7 de setembro de 1825. Contra ele,  , aliás, levantaram-se indignadas muitas vozes liberais, vez que assinalava a concessão, à penas (!),  da Independência e não sua conquista como resultado de anseios populares. Mas Dom Pedro I soube administrar durante este tempo a controvérsia, não sem os desgastes que o levariam à abdicação. Firmemente, com medidas extremas como a dissolução da Constituinte, e a draconiana repressão à Confederação do Equador,  foi  impondo, não só os diktats do referido Tratado, como, também,  o 7 de setembro como data nacional, amplamente reconhecida em todo o território. Não por acaso, também, contrariamente à data nacional em outros países, bastante festivas, esta sempre foi tomada como festividade cívico-militar.

Chegada a Regência, enfim, já não havia o que discutir, embora nenhum documento, nenhum monumento, nenhum registro viesse a demarcar o 7 de setembro como DATA NACIONAL.

Nos últimos anos,soterrada a história sob o peso dos anos, Governo e Sociedade vêem procurando popularizar mais o 7 de setembro, retirando-o dos quartéis, para uma celebraçãode tipo mais festiva, como deveria ser. Mas a timidez das celebrações demonstra que o esforço ainda levará algum tempo. Até lá, o brado do cronista…

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