Os apuros de Kevin – por omar de le roca / são paulo/sp

 

O dia amanhecera daquele jeito que só quem mora em São Paulo sabe. Nem quente e nem frio. Se colocasse agasalho, Kevin sentiria calor. Se tirasse sentiria frio. Optou por sentir calor e abrandar o passo. Estava preocupado pois  hoje era sexta feira. Tinha visitas para fazer no Tatuapé. Mas não eram as visitas que o preocupavam. Havia combinado com Omar e Sergio aquela famosa cervejinha no final do dia. Pegou o metro no Jabaquara até o escritório. Tentou ler mas não conseguiu se concentrar no livro. Seus amigos o haviam intimado. Hoje era o dia dele contar uma estória . “ Tenho vontade de contar tudo,mas tudo é muita coisa.Mas se não contar tudo como poderão entender o contexto ? “ Ficava se questionando sobre qual a melhor abordagem,que palavras iria usar,até onde poderia ir sem perder a amizade que tanto prezava ? “ Bom , posso contar sobre a violência sexual sofrida quando criança.Mas será que não iriam ter suas próprias idéias e desvirtuar tudo ? Será que a própria menção da agressão sofrida não iria desencadear uma série de dúvidas  ou pena que não preciso? Não, isso é coisa de minha cabeça. Nos damos muito bem e com certeza não os iria perder.” Passou mais uma estação e o metro estava superlotado. Por sorte havia conseguido se sentar. Pegou novamente o livro mas O Silmarillion de Tolkien estava recheado  por demais com personagens que iam mudando de nome durante a estória e precisava de muita atenção para acompanhar. “ Não , isso não posso contar.” Lembrando-se de quando entrou na empresa há seis anos atrás e havia um rapaz que o interessara. Ele até evitava de falar com ele de medo que percebesse o seu interesse. Na primeira vez que conversaram, o coração dele começou a bater com força e ele teve dificuldade de conversar. O condutor do metro avisava para não segurar as portas. Abaixou a cabeça embaraçado ao lembrar daquele dia em que se encontraram por acaso na hora do almoço. Omar e Sergio tinham saído para ir ao banco e Kevin havia atrasado devido a um problema no seu computador. Ele tinha acabado de se sentar quando o rapaz o viu e veio com abandeja em sua direção. “ E ai cara ? Tudo bem. “ “ Tudo na paz.” Costumava responder Belê mas ficou com vergonha. O rapaz sentou-se em frente dele.Era uma mesa apenas para dois naquele restaurante por quilo ao qual iam de vez em quando. Hoje tinha salmão que por coincidência os dois gostavam. Kevin estava meio sem jeito e precisava se esforçar para sentir o sabor do peixe.O rapaz falou bastante sobre si próprio e sorria com freqüência. Em determinado ponto,o rapaz ainda rindo, tocou o braço de Kevin. O garfo caiu no prato, ele teve um pequeno tremor e tossiu para disfarçar. Sem querer que ninguém percebesse  a  pequena mancha que is se espalhando por sua calça. Por sorte estava de paletó e conseguiu ir ao banheiro sem chamar atenção.    ” Não cara, você esta louco ? Não poderá contar isso a ninguém . “ Então pensou em contar sobre a adolescência. Os anos de sofrimento, entre querer contato masculino e a vergonha de querer. O sexo sempre fora estigmatizado na família dele. Tudo relacionado a ele era doentio e sujo.Tudo era errado. E ele foi crescendo entre o freio e a espora. Ser veado, que era como se dizia na época, era a vergonha das vergonhas. Eram pessoas que ficavam sempre a margem. Lógico que havia os exageros, os exibicionismos. Moravam perto da Record e um ramo da família tinha contato com algum artista. Que se comprazia em dizer quem era e quem não era. E ele não sabia o que. Nada era conversado nada era esclarecido. Na família era assunto tabu e pelo que ele já vivenciara, sabia que nunca poderia abordar suas dúvidas. “ Pô cara, primeiro eles nem vão ouvir. E depois o que iriam falar ? e pensar ? “ Desceu em sua estação e seguiu para o escritório. “ Poderia falar de quando comecei a ter ereções nos lugares mais incômodos e ficava aterrorizado que alguém visse. E que recorri aos livros para aprender alguma coisa e abrandar meus conflitos.E quando aprendi com amigos de classe o que era masturbação e a experimentei, cheio de culpa no banheiro de casa.  Mas acho que não iriam se interessar. Ou quando descobri aquele livrinho que falava sobre a vida sexual da Belinha, escondido de meu pai. Ou quando, cedendo ao desejo, comecei a usar objetos. Puta merda cara ! Não tem mais nada que você possa pensar?” Depois de abrir seus e-mails, pegou os endereços que precisava e saiu para as visitas. O sol não havia saído,mas não estava frio. Pegou o metro, folheou a revista que pegara emprestada e falava sobre combinações de alimentos. Chegou ao Tatuapé e fez as visitas. Gostava de conversar com o gerente de uma das agências, que lhe lembrava daquele rapaz. Mas ele havia saído para tomar café e ele não conseguiu motivo para prolongar a conversa. Voltando a rua, passou por um sebo e procurou entre os livros em inglês. Acho um de Anais Nin e abrindo ao acaso achou a passagem que ela dava um tratamento manual ao outro personagem. Lembrou-se do trecho de  Quarenta tons de cinza . E saiu rápido da livraria com culpa de imaginar-se na posição dos personagens. Fez mais uma visita, e depois outra. Sem problemas. Seguiu para o shopping pensando que alguma coisa poderia acontecer no banheiro de lá. “ Acho que não interesso a mais ninguém.” Pensava quando cruzava com alguém e espichava o olho. “ Poderia falar do tormento de querer e não poder por vergonha ou por ser considerado errado. De sonhar acordado sem poder concretizar o sonho,por medo de ofender aos outros , com vergonha de não ser normal. Repetiu para si mesmo a mesma frase que dizia a uma amiga “ Não nascemos para ser normais.” E lembrou-se que ela questionara na época sobre o que é ser normal ? Pelo caminho ia pensando no almoço. Queira uma massa.A menos que tivesse Pizza Hut. Havia e ele pediu. Passou pelo banheiro para escovar os dentes mas estava vazio. “ Os bons peixes já foram fisgados”. Era um pensamento recorrente. Mas procurava manter o otimismo.Vou continuar tentando.Com certeza acharei alguém. “ Só gostaria de ter contato com alguém que fosse decente.Não precisava ser nenhum monumento.” Mas é claro que queria sim,um corpo bem desenhado. Mas alguém que não fosse vazio. E pensava nas inúmeras pessoas com quem havia cruzado durante a vida e que,apesar de terem uma aparência interessante, ao abrirem a boca, estavam automaticamente desclassificadas de seu interesse. Dependendo da época, até procurava puxar conversa com alguém sabendo que ira desencanar da pessoa na sequência. Voltou ao escritório. Havia alguns e-mails ainda por responder. Um relatório para atualizar. Algumas ligações. Quando olhou no relógio, já estava na hora de sair. As sextas saiam meia hora mais cedo. Omar lhe mostrou o pulso com o dedo, como se dissesse ‘ É hoje’. Sergio foi ao banheiro. Kevin respirou fundo, arrumou a papelada,desligou o computador. Com a mão mesmo ajeitou o cabelo. Assoou o nariz ali mesmo, com uma toalha de papel que havia trazido do banheiro do shopping, quando o faxineiro não estava olhando. Pegou sua valise, acenou para a loira da contabilidade, que lhe mandou um beijo. Sentou-se na poltrona giratória do hall dos elevadores para esperar seus amigos. Eles não demoraram. Mas demorou o elevador, que descia sempre cheio. Enfim acharam lugar. O sol estava se pondo. O céu estava imenso a seus olhos.Foram caminhando para o bar na prainha ( que de praia não tinha nada, era tipo um calçadão a que davam este nome para ficar mais atraente).Pediram uma mesa abrigada, que nunca se sabe quando pode chover. Sentaram-se e começaram a conversar.Então  Kevin, criando coragem, limpou a garganta e começou com Era uma vez…

Era um amanhecer daqueles, em que o céu acabara de se separar do mar e tingia-se das cores mais suaves de uma aquarela. Daquelas manhãs que o tempo parecia um tempo entre os tempos e que os sonhos  sonhavam com sonhadores de olhos abertos. Eu havia passado a noite observando as estrelas cadentes que sempre apareciam naquela praia deserta. Não havia a sensação nem de frio e nem de calor, a brisa soprava tranqüila e meus sentidos estavam aguçados. Pisquei os olhos para ter certeza do que estava vendo. Era um barco?      Sim , mas mal se destacava entre as ondas.Observando melhor ele se aproximava rápido como se deslizasse sobre elas firme e inabalável. Era de madrepérola e as velas, mostravam cores que eu não conhecia, mas sempre suaves. Pássaros marinhos faziam o cortejo, e os golfinhos saltavam ao redor. A praia era como uma meia lua de areia cercada por penhascos altos e o acesso era difícil. O barco agora diminuia a velocidade aos poucos e foi chegando na areia enquanto os pássaros se afastavam brincando com os golfinhos.Uma figura se destacava na proa. Ela tinha olhos verdes que brilhavam com as estrelas de Órion e cabelos pretos e curtos e vestia um longo vestido lilás que tremeluzia como se milhares de pequenos  pontos  acendessem e apagassem  captando os primeiros raios de sol.O barco parou e uma passarela foi descida, com cuidado para não ferir as estrelas do mar que levantavam suas cabeças em saudação ,para que ela chegasse na areia sem molhar os pezinhos. Começou a andar em direção a parede rochosa. A cada passo que ela dava, brotavam de suas pegadas  pocinhas de água  onde minúsculos peixinhos cor de cobre polido brincavam e pulavam de uma pegada a outra seguindo-a. Continuou na direção do penhasco. Quando estava a poucos passos, a rocha se transformou em uma parede de cristal liso e transparente e uma pequena porta abriu-se para o interior luminoso. Um pequenino pássaro cinzento sobrevoou e ela estendeu a mão para que ele pousasse nela. Atravessou o portal cristalino e saiu do outro lado que eu ainda desconhecia. O pássaro cinzento havia se transformado num beija flor branco com rabo longo que mostrava todas as cores do topázio. Havia mais um trecho de areia e logo mais a frente uma ponte de pedra, mais antiga que o tempo, levava ao outro lado também de areia. Quando  ela atravessou a ponte e pisou no chão, a areia ia se transformando num gramado verdejante com florzinhas azuis e as rochas no fundo em árvores muito verdes com frutos dourados e prateados. No meio da clareira mágica, ela fez um lento rodopio . Então, de seu vestido ( que era verde azulado ,ou azul esverdeado ou turquesa, ainda não sei ) voejaram milhares de borboletas lilases que pararam por um segundo ao redor dela, brilhando intensamente  e que seguiram como uma nuvem de lavanda para as árvores próximas . Ela fez  uma pequena mesura, e traçou  um sinal secreto no ar ao qual um pégaso fantástico, com asas de  penas muito brancas  atendeu, permitiu que ela subisse nele e partiram para onde o céu encontra o mar,onde o fogo encontra o ar e a água encontra a terra. E eu fiquei ali. Sem ter certeza do que se passara. Sem saber do tempo que era. Olhei para trás e só vi minhas pegadas que o vento forte ia apagando na areia.

Kevin ficou encabulado com os aplausos das mesas próximas.Não havia percebido que chamara tanto a atenção.Omar e Sergio levantaram-se para abraça-lo. Curvou-se meio de brincadeira para agradecer o carinha enquanto sua mão subia ao rosto para espantar uma lágrima.

 

 

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3 Respostas

  1. Tomara que ele goste…

  2. Vou falar com o Kevin agora no fim da tarde e o aviso sobre o teu comentário.Na certa ele ja deve ter visto,mas na dúvida…
    Abraço

  3. Omar, amigo meu, esse teu personagem Kevin escreveu um texto lindo de dupla face, que Kevin é um rico personagem a ver a vida em toda a complexidade,perplexidade e rostos paradoxais que ela, vida, às vezes ostenta, às vezes oculta, às vezes oculta- ostentando e vice-versa. De paradoxos tua amiga Zu entende, bem o sabes,meu caro Omar; dos paradoxos próprios e dos de seus “cúmplices-irmãos” cá nesta vida. Mais um belo texto de tua lavra, amigo,parabéns!
    Abraço grande da
    Zu.

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