PARA A GAUCHADA NA SEMANA FARROUPILHA – HOMENAGEM 1 – TRECHO DO ROMANCE “ENCAIXOTANDO BRASÍLIA” – por abelardo barbosa brandão / brasilia.df

…Boato do dia: “Pimenta fugiu”. “Vamos ver, se ele conseguir, quem sabe, nós fazemos o mesmo”, disse o Gaúcho esfregando as mãos. Pelo que vi no mapa, vai virar almoço de onça, isto se não morrer afogado, pegar malária ou outra doença pior, comentei pessimista como sempre. De boatos em boatos íamos levando a vida. Continuamos com nosso joguinho de vôlei de manhã, à tarde consertávamos as casas, o muro e limpávamos o Igarapé da Bosta. O Gaúcho, como “comandante dos presos”, dirigia as operações. Quando chegava no dístico “Aqui Defendemos a Fronteira do Brasil”, eu costumava fazer uma piadinha, quase sempre sobre a capacidade daquela meia dúzia de soldados que tomavam conta da prisão, serem capazes de defender alguma fronteira. O Gaúcho retrucava professoral: “É simbólico, igual quando a gente faz uma cerca na fazenda, avisando ao vizinho: daqui para dentro a terra é minha”. É preciso ver se o vizinho vai respeitar, pensei na Segunda Guerra, todos fizeram suas cerquinhas, os alemães vieram com tanques e aviões e passaram por cima de tudo. “Vizinhos sempre se respeitam”, disse o Gaúcho, pensando em fazendeiros.

Estava arrumando um telhado, do alto da escada avistei um grupo de índios trazendo um homem numa rede. Era o Pimenta. O indivíduo ficou magro, magérrimo, em menos de um mês a Terçã deixou-o irreconhecível, do rosto redondo sobrou uma cara esquelética assustadora, amarela. Tudo nele ficou amarelo, a pele, os lábios, o branco dos olhos, as unhas, tudo. Quando o vi de perto pensei que já estava morto, mas os índios faziam sinais dizendo que não. Os Juminás viviam numa aldeia ali perto e encontraram o Pimenta a uns oitenta quilômetros ao Norte, próximo de um lugar chamado Ponta dos Índios, perto do Cabo Orange. Ia na direção do mar, devia ter um plano, não sei se contaria, era calado, quieto. No momento não conseguia falar nada, mesmo que quisesse. O comandante mandou os cozinheiros arranjarem comida, montaram um prataço de quatro andares: o primeiro andar só com feijão enlatado, o segundo, inhame com linguiça de lata, o terceiro de farinha derramando pelas bordas, e lá no alto, como se fosse o atrativo principal, uma banana cozida, gentileza do cozinheiro. Imaginei que aquela comidaria ia acabar de matá-lo, mas não, quando viu a comida ficou mais animado, mas não conseguiu engolir três colheradas, só comeu a banana. “Dê-lhe água, muita água, está desidratado”, recomendou o enfermeiro, ao mesmo tempo enfiou-lhe dois comprimidos de Aralen na boca. Deixamos que tentasse comer em paz, depois iríamos ver se dizia algo de útil para uma fuga mais concatenada. O Periquito, como o Gaúcho chamava o comandante, botou-lhe uma semana atrás das grades e mandou aumentar a comida e o Aralen. Quando saiu, pouco falava, mesmo diante da insistência do Gaúcho. “Por que foste na direção Norte, rapaz?” Insistiu o Gaúcho. “Não sei, Queria chegar no mar, no Atlântico. É muito longe, só andava de dia, orientado pelo sol, não levei bússola. Ainda bem que os índios apareceram, senão morria de fome e da malária.”
O Gaúcho tentava conversar com os índios, saber mais sobre a região, difícil, não falava a língua deles e depois havia um problema sério, falavam sem parar, todos de uma vez, acho que gostavam do som de suas próprias vozes. Não eram como nós, que esperamos o outro acabar e respondemos. Não, eles falavam, falavam e falavam, às vezes todos juntos uma confusão danada. A chamada da manhã era a melhor parte do dia, repetindo o próprio nome, como se estivesse reconhecendo a veracidade da situação. “É. Sou eu mesmo e estou aqui, vivo”. Em três meses, tínhamos pintado as casas e consertado as instalações de água e luz. Começamos a construir uma fossa enorme, na tentativa de salvar o Igarapé da Bosta que agora era chamado Igarapé do Lacerda, homenagem ao governador do Rio. O comandante mandou, e a maioria de nós tratamos de cumprir, não tinha queixa dele, diferente do Gaúcho, que o considerava, no mínimo um reacionário e de vez em quando comentava entre brincalhão e irônico: “Bem que podíamos tomar este quartel vagabundo, botamos o Papagaio na gaiola e nos declaramos rebelados”. Não é Papagaio, é Periquito. E fazer o quê depois, embrenhar-se na mata por mais de quatrocentos quilômetros e pedir asilo ao Governo da Guiana? Do jeito que são as coisas por lá, mandariam nos fuzilar na hora, só para ficar com as armas e as botas. “Papagaio ou Periquito, que diferença faz”. Pra você nenhuma, só entende de cavalos. “Companheiro, podemos tentar sair por mar, teve um francês que fugiu de uma prisão na Guiana e ninguém sabe como, chegou na França, o nome me escapa agora, mas é chamado de borboleta em francês, li algo sobre ele, pena não ter trazido o livro, ia facilitar”. Você deve ter lido algum romance francês, isso sim, vai ver o cara saiu borboleteando mar adentro até chegar em Paris, depois deu uma volta em torno da Torre Eiffel, tipo Santos Dumont. “Tchê, tu és muito jovem, não sabe nada, é inculto como uma boceta, age por impulso. Já percebi que estás querendo dizer que nosso pai da aviação era viado. Quando sairmos daqui vou te levar na Livraria Civilização Brasileira do meu amigo Ênio da Silveira, o livro está na prateleira, aí tu vais ver”.
Com o tempo fiquei amigo do Gaúcho, sentávamos juntos no almoço, jantar e café da manhã e passei até a responder seu “buenos dias garoto” com outro “buenos dias, tchê”. Até hoje, passados mais de quarenta anos, ainda respondo cumprimentos matutinos com um “buenos dias” para espantar o mau humor, e não há como deixar de lembrar do Gaúcho. Dizia ter quarenta anos (quase o dobro da minha idade), baixinho, pernas curtas, cabelo avermelhado cortado rente, voz ranheta e a calça sempre abaixo da linha da cintura, querendo cair, mas suspensa de vez em quando em um movimento automático. Do que sente mais falta? “Primeiro, da mulher e da filharada, segundo, do frio que permitia lagartear de manhã, em terceiro lugar, do chimarrão. Do meu cavalo não vou sentir tanta falta, por aqui tem uns pangarés, mas vi também um Frontino e um Gateado muito bonito. Bem que tentava substituir sua bebida predileta, produzindo um chá forte de mate queimado, que conseguia às escondidas com o cozinheiro. O frio podia esquecer, estávamos em cima da linha do Equador, o calor era alarmante, só diminuía quando desabava o temporal. Nem sei como fiquei amigo do Gaúcho, éramos tão diferentes, além de que eu detestava o frio, gostava de café e não era chegado a cavalos, preferia gatos com sua costumeira independência. Ele poderia passar horas, como às vezes passava, falando de cavalos. “Você sabe tchê, que existem mais de cinqüenta cores de cavalos? Alazão, Argel, Arminado, Estrelado, Prateado, Quatralvo…
Ele tinha uma expressão favorita: “a concha é uma adaptação ao animal que vive nela”. Eu insistia que era o inverso e argumentava que a selva não era um mundo adaptado aos índios, eles é que se adaptaram a selva. Ele contra argumentava explicando que na selva viviam milhares de animais e “eles é que fizeram da selva, a selva. Sem pessoas ou animais não há selva. Assim como sem o ser humano não há terra”. Íamos nos infiltrando por discussões intermináveis, resultante da falta do que fazer. Algumas sobre prisão, é claro. Eu insistia que todos ali, incluído o comandante, estavam tão presos quanto nós, com a diferença que podiam comunicar-se com as famílias ou até trazê-las. Retrucava didaticamente, para que eu pudesse entender, que a liberdade não era um substantivo concreto, mas abstrato, que nossos guardas tinham a perspectiva e a sensação que estavam livres, nós não, isto é que fazia a diferença. Na dúvida, consultávamos os livros dele: Kant, Hegel e até Aristóteles, que nunca consegui compreender. “Marx não tem, os militares confiscaram”. Ainda bem, só serve para iludir os meninos. O Gaúcho discordava irritado e bramia todas aquelas frases prontas do Manifesto Comunista, do tipo “vós não tendes nada a perder além de teus grilhões”, referindo-se aos pobres. Eu sabia, por experiência própria, que era o contrário: os pobres têm tão pouco, que quando perdem, perdem tudo, acho que por isso, as revoluções sempre veem de cima, dos que tem a perder. Argumentar contra Marx era bobagem. Para o Gaúcho, ele se assemelhava a Deus, estava muito acima de qualquer mortal, e não sei como depois de passar por tantas revistas, conseguiu chegar ao Oiapoque com uma pequena foto de seu ídolo…. Era um sujeito culto e de posição ideológica inflexível, acreditava que a solução para o Brasil era uma revolução que implantasse aqui o Marxismo-Leninismo. Hoje isto pode parecer a muita gente uma heresia, mas aqueles eram tempos de mudanças, tudo parecia possível aos olhos de pessoas como o Gaúcho… “Conheces alguma coisa da história do Brasil, tchê?”
Bem, mais ou menos, Pedro Álvares Cabral, Tiradentes, Pedro I, Princesa Isabel, Floriano Peixoto. “Não! Estou falando da história recente, não dessas pessoas que a gente nem sabe direito se existiram mesmo, da história como um conjunto de fatos articulados com causas e efeitos”. Nunca pensei muito nisso, só sei que somos um país explorado, primeiro por Portugal, depois pelos ingleses e agora, os americanos. “É, mas não se esqueça que começamos nossa caminhada como um país que produzia o que se toma depois da sobremesa, uma semente que era posta ao sol para secar, depois torrada, depois esmigalhada, depois virava pó e levada a água fervente resultava num líquido feio e amargo que só descia garganta abaixo se botássemos açúcar. Então trocávamos essa semente seca e queimada por outros produtos, e assim íamos avançando, mas como queríamos tomar café, começamos a produzir o açúcar, como era muito amargo mesmo assim, começamos a produzir leite. A partir desse produtozinho vagabundo conseguimos criar uma nação. Para que isso fosse possível, tivemos uma política construída por algumas pessoas de visão. Anote aí na tua cabeça oca, o nome dessa política é o nacional-desenvolvimentismo”.
Tá, mas e os ciclos do açúcar, do ouro?
“Não interessa agora, já passou, já era, agora o que interessa é como sair do líquido preto e feio e produzir outras coisas, além de dar empregos, saúde e educação para o povo. O nacional-desenvolvimentismo vinha tentando manter alguma independência e promover o desenvolvimento com a grana do próprio governo, ou seja, dos impostos que arrancam de todos nós. Só que essa política está esgotada, entende tchê, esgotada. Temos que partir para uma atitude mais ousada, nos libertarmos por completo dos gringos, adotar outro regime político, fazer uma ruptura com o passado anacrônico, modernizar o Brasil”.

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