REVOLUÇÃO FARROUPILHA -HOMENAGEM NÚMERO 2 – à GAUCHADA e ALAGOANOS, PERNAMBUCANOS, BAIANOS E PARAENSES – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

 

Uma “nova” interpretação para a Revolução Farroupilha, menos Marx e mais Weber e Freire.

Quando penso no Rio Grande do Sul, por incrível que pareça, penso em Alagoas. Destes dois lugares, aparentemente tão díspares, saíram os homens que moldaram o Brasil moderno. Para os menos informados, basta lembrar Floriano, Hermes da Fonseca, Getúlio e Prestes, mas, se preferirem podem ficar com Corisco (que Glauber imortalizou no seu “Deus e o Diabo…”) e um certo Capitão Rodrigo Cambará(que Érico Veríssimo tornou real). Há alguma dúvida sobre os homens citados, ou preciso explicar? Podem não gostar deles, mas isso é outra história. Há dúvidas sobre a importância de Prestes? Sem a chamada “Intentona” o Brasil seria outro, porque a partir dali o exército mudou, e o exército talvez seja a mais importante das nossas instituições, qualquer tre-le-lé: chama o exército. Quando digo aparentemente dispares, me referindo a Alagoas e Rio Grande, é porque há algo em comum de grande importância: são lugares de gente áspera, basta ler os dois grandes escritores representativos destes lugares. Se vissem um gaúcho cavalgando em alta velocidade tentando capturar uma rês, como eu vi certa vez em Dom Pedrito, ou um boiadeiro alagoano rasgando a caatinga, na tentativa de garantir sua “carne de sol” cotidiana, como vi em Palmeiras dos Índios, iriam entender bem o que estou dizendo. Parece que estou ouvindo alguém dizer: “não é mais assim”. Entendo.
Dizem que a Revolução Farroupilha tem a ver com Carne de Sol, ou de Charque. Eu, como baiano não aceito uma explicação simplista desta, isso é reduzir a heroica Guerra do Farrapos a “pó de traque”. Não aceito. Seria reduzir o Rio Grande a um digamos, Goiás, que alguém divide ao meio e ninguém fala nada. Primeiro porque nunca acho que as coisas são simples e se forem, trato de torná-las complicadas. Quem me explicou há muito tempo, em 1985, como funcionava a produção e exportação de charque, foi o Roberto Cavalcanti, até então imaginava que a carne de sol era coisa nascida e criada no Nordeste e sequer supunha que um nordestino transferiu a tecnologia para os gaúchos que passaram a dominar a produção. Nunca soube que exportavam charque há tanto tempo e pra tão longe, e que o produto representava tanto para a economia do Rio Grande. Pois bem, é comum que os historiadores afirmem, com certa convicção, que a causa da revolução farroupilha foi a entrada do charque argentino e Uruguaio no Brasil, tirando o mercado dos estancieiros gaúchos, e que a revolução interessava apenas aos estancieiros. É uma explicação excessivamente materialista, coisa do pessoal que reza pela bíblia marxista, e não condiz com as tradições gaúchas, nem baianas, nem pernambucanas, vou explicar por quê.
Quem dera que as coisas fossem assim tão simples. Se assim fosse, a Revolução dos Farrapos não teria levado 10 anos, não teria mobilizado tanta gente e tampouco alcançaria a extensão territorial que alcançou. Ocorre que a Região Sul do Brasil sempre foi instável sob o ponto de vista político e militar, devido a muitos fatores, entre os quais, a formação política do Rio Grande (que só recentemente, com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, tornou-se um estado da Federação, de fato), a questão do Uruguai (criação da Província Cisplatina que mexeu com o Rio Grande), a Guerra do Paraguai, que contou com 1/4 de soldados do Rio Grande e portanto mobilizou militarmente o Estado, isto sem mencionar os problemas do Brasil com a Argentina, que é um país instável e beligerante desde sua criação. Vou contar um segredinho pra vocês: quando estive na ESG em 85, soube que a ordem de Guerra nº 1 do Brasil era contra a Argentina. Sabem o que isso significava? Nosso principal inimigo não eram os ingleses ou americanos como os intelectuais marxistas achavam, eram os argentinos e isso implicava que nossa “máquina de guerra” estava virada para o Sul o tempo todo, pra invadir a Argentina. Daí veio o Mercosul que matou vários coelhos(melhorou a economia do Sul, integrou a Argentina, etc.) e antes, veio Itaipu que nos vinculou ao Paraguai para o bem ou para o mal, mais para o bem. E, devido às circunstâncias, nós deveríamos pagar muito bem ao Paraguai pela energia, porque como todos sabemos desde o Beira-Rio até o Maracanã, não dá pra confiar nos portenhos.
Daí quando o Grêmio ou Internacional joga contra o Penarol ou o Boca, o pau quebra. Por que? São povos belicosos. Coloque no caldeirão: cavalos (a verdadeira felicidade está no coração das mulheres e no lombo dos cavalos, sei que a maioria dos meus leitores jamais montou, a não ser nos parquinhos, portanto, não têm a menor ideia), sangue espanhol, distância de centros civilizados, desleixo do governo central, clima hostil (frio infernal e calor infernal), deixe cozinhar ao sol e veja o resultado. Mas ainda não chegamos na questão central das causas da Guerra dos Farrapos, e ela pode ser resumida numa palavra, e que palavra, vão saber daqui a pouco.
Em 1985, fui assistir uma palestra do Gilberto Freire na casa dele em Apipucos, no Recife, onde tomei um licor de pitanga do quintal. Estava arrastando os pés, mas lúcido como sempre. Anotei várias coisas, uma delas nunca tinha cogitado. Ele disse textualmente: “Nordeste faz fronteira com a África”. Fronteira? Pois é, recente, lendo os livros do Costa e Silva é que fui entender bem, mas já desconfiava (“eu quase não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”). Pois é, meus amigos, FRONTEIRA é uma palavra muito complexa. Na Fronteira (como vocês devem ter notado no texto anterior que publiquei aqui), você tem que estar preparado pra o que der e vier. E lá no Sul são três. Por isso, os gaúchos, assim como os nordestinos, assim como os paraenses, são tão briguentos, ou melhor, beligerantes. Se não tem ninguém pra brigar, brigam contra eles mesmos. Lembrem-se da Revolução Federalista, foram mais de 10 mil mortos, isso no final do século XIX.
Todos sabemos que o Rio Grande sempre teve uma tradição separatista, que diferentemente dos pernambucanos, baianos, maranhenses e paraenses, era mais fácil de ser insuflada, seja pela geografia, pela cultura, e até pela língua (lembrei do Dicionário Farroupilha do Vidal) e sobretudo pela beligerância e também, porque não, pelo caráter fanfarrão, que depois, a migração europeia tratou de acalmar. Lembro sempre da história do gaúcho que se afogava no Guaíba e berrou: “sai da frente Guaíba, senão te engulo todo”.
Voltando à Guerra dos Farrapos, seria mais pertinente dizer que houve um conjunto de causas, não saberia dizer qual a mais importante (ou estrutural, concedendo alguma coisa à Marx), contudo é bom considerar que o Brasil viveu o “período regencial”, quando o poder central estava enfraquecido e o exército fraturado por facções, dai a ocorrência, não somente da Revolução Farroupilha, mas também da Sabinada, Balaiada, Cabanagem, Revolta dos Malês, etc. Vejam que, quando o país se reorganizou, Caxias foi lá e acabou com o bafafá. É, meus amigos, quando até baiano faz revolução é porque a coisa estava esculhambada, mas isso não é novidade.

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