Arquivos Mensais: outubro \30\UTC 2012

Ministros do Supremo Tribunal planejaram o “julgamento” do chamado mensalão para coincindir com as eleições de 2012 para verem LULA e a esquerda derrotados! FRUSTRADOS, VÃO RELAXAR NA EUROPA COM O NOSSO DINHEIRO!

Ministros do STJ vão à Europa de primeira classe

FREDERICO VASCONCELOS

DE SÃO PAULO

Ministros do Superior Tribunal de Justiça e presidentes de Tribunais Regionais Federais embarcam neste fim de semana para uma visita a tribunais da Alemanha. Viajarão em primeira classe e terão todas as despesas pagas pelo erário, com diárias antecipadas em dólar.

Sorteados para participar da mesma comitiva, dez juízes federais pagarão do próprio bolso os gastos com transporte aéreo, hospedagem e alimentação.

A viagem, de 27 a 31 de outubro, integra programa de intercâmbio criado pela Corregedoria da Justiça Federal em 2010 –na gestão de Francisco Falcão, atual corregedor nacional de Justiça.

Seu sucessor, ministro João Otávio de Noronha, disponibilizou dez vagas para a Ajufe (Associação de Juízes Federais do Brasil), que custeará só as despesas de transporte terrestre –ônibus em Berlim, Leipzig e Munique.

Alguns magistrados veem a extensão do convite aos juízes como uma forma de diluir a imagem de um “tour” internacional patrocinado com recursos públicos.

Além de Noronha, viajarão como convidados os ministros do STJ Isabel Gallotti e Sidnei Beneti, os membros efetivos do Conselho da Justiça Federal, os presidentes dos tribunais regionais federais das 2ª, 3ª, 4ª e 5ª Regiões e o da Ajufe, Nino Toldo.

“Trata-se de evento oficial nas universidades e tribunais alemães, conforme termo de cooperação, e não se concebe como, em visita oficial, os ministros tenham que ir do próprio bolso”, afirma Márcio Mafra, juiz auxiliar do CJF, coordenador da missão.

Um bilhete ida e volta para a Alemanha, em primeira classe, saía ontem por US$ 10.939 (R$ 22.173) no site da Decolar.com.

No programa do intercâmbio, não há reciprocidade em termos de custos. Professores e magistrados alemães que participaram de seminários em Recife, Florianópolis e São Paulo tiveram as despesas pagas pela Justiça Federal. Em São Paulo, o seminário foi organizado pela Fundação Álvares Penteado, com patrocínio do Banco do Brasil e do governo federal.

A “2ª Visita a Tribunais Superiores da Alemanha” é promovida pelo Instituto de Direito Processual Civil Alemão e Comparado da Universidade Albert-Ludwig, de Friburgo. Será assinada a prorrogação de acordo de cooperação entre o Conselho da Justiça Federal e as Universidades de Berlim e de Friburgo.

O presidente da Ajufe, Nino Toldo, diz que um dos objetivos da entidade é “incentivar o estudo do direito, por meio de cursos, convênios e viagens, com entidades afins, no país e no exterior”.

Por dispositivo estatutário, as despesas de passagens aéreas e hospedagem do presidente da Ajufe são pagas pela entidade. Sua assessoria relata que Toldo viajará à Alemanha na classe econômica.

O TRF da 3ª Região informa que as despesas se enquadram no Plano Nacional de Aperfeiçoamento de Pesquisa para Juízes Federais.

foto da internet.

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COMENTÁRIOS NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO:

  1. antonio andrade (24)
    em 28/10/2012 às 07h41

    Pode parecer piada, mas, no Brasil, a Monarquia foi substituída pelo Judiciário. Alguém se arriscaria a desafiar Vossas Excelências, os magistrados?

    O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

  2. Leopoldo de Dorinha (609)
    em 28/10/2012 às 08h38

    Quanto mais subdesenvolvido o país, maior a necessidade de delegações pomposas, viagens de 1ª classe etc.

    Faz parte da mentalidade nacional. Pois onde já se viu uma autoridade dessas se misturar com a ralé na classe econômica?

    Ah! Mas a viagem é longa! Não interessa, é longa para todos.

    Não existe princípio da igualdade no Brasil.

    Outro exemplo, embaixadores europeus viajam de classe econômica; embaixadores brasileiros (e de outros países subdesenvolvidos e pobres) viajam de 1ª classe…

    O comentário não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem

  3. VICENTE DE PAULA VILELA (1)
    em 28/10/2012 às 11h08

    Eu acho que não pode! Fere os princípios básicos da ética no trato do dinheiro público! Tem alguém mais necessitado desses recursos, ainda que considerem poucos!

    Recuem, Excelências!

    “….O sonho de Joaquim Barbosa e a obsessão em demonstrar que incorporou, na íntegra, as bases ideológicas conservadoras daquele tribunal e dos setores da sociedade que ainda detém o “poder por trás do poder” está levando-o a atropelar regras básicas do direito, em consonância com os demais ministros, comprometidos com a manutenção de uma sociedade excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária.”  Prof. RAMATIS JACINO  (USP)

OS LIVROS PERDIDOS – por paulo timm / portugal.pt

Desde a Bíblia Sagrada perdem-se muitos livros levando consigo idéias que jamais serão recuperadas

Diz a letra de um velho samba  que  “Quem acha vive se perdendo…”  (Feitio de Oração, Noel Rosa –http://letras.terra.com.br/noel-rosa-musicas/535516/), numa evocação de profunda filosofia que, no Brasil, só a música popular parece alcançar. Há anos, procuro, sem êxito, uma crônica de Lara Rezende ou Paulo Mendes Campos, não lembro bem – (perdi…!),  tratando exatamente desta relação – Música Popular / Filosofia-, que li há décadas e que guardei apenas como vaga lembrança. Um autor contemporâneo, Hugo Allan Matos, também acredita nisso. O próprio Noel Rosa acabou escrevendo uma de suas músicas com teste título – “Filosofia”,http://letras.terra.com.br/noel-rosa-musicas/125751/ – abrindo caminho para esta tese.    Com efeito, a vida é um imenso labirinto cuja graça consiste, precisamente, em transitar , sem que saiba ao certo, sequer, se há saídas…

Mas e quem perde? O que acontece…? Haverá saídas para as perdas? Aparentemente, não. A perda é sempre algo irreversível, principalmente quando se perde o tempo, as idéias, ou o próprio juízo sobre elas. Mas a perda é sempre inevitável e, curiosamente humana. O homem vive e sobrevive através das perdas. Perde o útero materno, perde o seio da mãe, perde a própria memória que vai se transformando numa névoa do passado. Afinal, perde a juventude, perde a saúde, vai-se a própria vida. Perde-se o homem de si mesmo e gasta grande parte de sua vida tentando se reencontrar…A perda, enfim, é um tema tão comovente que já foi objeto de um interessante livro – “Perdas Necessárias”, de autoria de Judith Viorst, da Editora Melhoramentos.  Ele pode ter influenciado o título de uma canção bem popular do Pe. Fábio de Melo: “Perdas Necessárias” – http://letras.cifras.com.br/fabio-de-melo/perdas-necessarias .

 Inúmeras fábulas já trataram, também, do dilema da perda. Mas não vou falar aqui, nem da perda como processo, nem de fábulas. Quero falar sobre fatos: A perda de livros, ao longo da História Humana, mais das vezes devorados pelas chamas do ódio e da intolerância, senão mera, crassa ignorância e até a inteligência em suas manifestações de vanguarda tecnológica. Um autor, por exemplo, Robert Darnton – “A questão dos livros”, Cia das Letras -,  fez, recentemente, uma denúncia contra a destruição de coleções de jornais promovidos por bibliotecas  dos Estados Unidos, em nome da preservação.

Darnton reafirma a durabilidade dos códices, falando criticamente do livro de Baker e de como ele apresentou essa caça ao papel nas bibliotecas. Ocorrida com mais freqüência nos anos 80, bibliotecários americanos começaram a implantar a preservação de periódicos antigos em microfilmagem, danificando e, literalmente, jogando no lixo jornais e revistas antigas que são o material básico para um estudo histórico – mas não o mais importante, ressalta o autor.

(http://blog.meiapalavra.com.br/2010/11/22/a-questao-dos-livros-robert-darnton/)

Diante disso, fico me imaginando quantos livros, teses acadêmicas, bibliotecas  inteiras não se perderão diante da febre digitalizadora que nos assola? Ontem,  foram as micro-filmadoras as algozes destruidoras de toneladas de jornais; hoje, os scanners e e-books, apesar de que Darnton os tenha defendido arduamente em seuProjeto Gutenberg-e, desenvolvido entre 2000 e 2006.

O projeto consistia na publicação de monografias no formato e-book como forma de facilitar a entrada de jovens pesquisadores de História na carreira acadêmica. Darnton faz todo um histórico sobre a crise da publicação de monografias, fruto de uma reação em cadeia que começou com o aumento do preço de periódicos que obrigou as bibliotecas a fazerem cortes em suas verbas. (…) Um outro objetivo do Gutenberg-e, segundo Darnton, era afirmar a seriedade dos e-books, tratá-los com o mesmo respeito de um livro publicado fisicamente.

(http://blog.meiapalavra.com.br/2010/11/22/a-questao-dos-livros-robert-darnton/)

Poucos sabem, entretanto,  que este meio eletrônico é extremamente frágil e suscetível de apagões sob certas descargas eletromagnética .  Grandes acervos de imagens, por exemplo, têm sido melhor conservados em fitas de vídeo e não em CDs, como, por exemplo, o da Rede Globo. Uma tempestade solar mais forte, um raio inconveniente, uma cápsula perdida de Césio 137, tal como ocorreu em Goiânia, anos atrás, e puffff…Lá se vão nossos belos arquivos digitais…Acho, aliás, que foi Einstein quem disse certa vez:

“Não sei como será a III Grande Guerra, mas estou seguro de que a IV será com pedras…”

A verdade é que não há garantias contra as perdas…Pois assim foi com a própria Bíblia, a qual  teria, ao longo dos séculos e milênios, perdido grande  parte de suas narrativas e profecias. Segundo consta, há centenas de seus livros que se perderam e que dificilmente serão reencontrados. Alguns foram consumidos pelo tempo, outros foram suprimidos por conterem, à luz das autoridades da Igreja, em cada tempo, revelações que não se coadunavam com seus ensinamentos. Eis, segundo um estudioso – um roteiro dessas perdas, para os interessados: http://www.gnosisonline.org/teologia-gnostica/livros-apocrifos-mencionados-na-biblia-mas-perdidos/

Mas não foram só os livros sagrados, apenas, que desapareceram. Uma inusitada crônica de Sérgio Faraco – Livros Perdidos in Gregos e Gringos, Ed.Mercado Aberto, Porto Alegre, 1998 –  , notável contista gaúcho, nos dá conta de outras perdas irreparáveis. Dou-lhe a palavra, por sábia e insubstituível  :

Livros Perdidos

(…)

A história da humanidade está repleta de notícias de aniquilações do conhecimento compendiado,, e os soldados, sobretudo os romanos, tiveram um papel de proa nessa cruzada bárbara. Na tomada de Cartago, incendiaram a cidade e se acharam no dever de fazer o mesmo , com sua biblioteca, que ardeu 17 dias para que se consumissem seus 500.000 volumes. Os mesmos romanos, na campanha de Julio Cesar no Egito, puseram fogo a Biblioteca de Alexandria, varrendo da história 700.000 textos e as velhas paredes que tinham visto Euclides escrever seus Elementos de Geometria, Erastótenes calcular a circunferência da Terra e o médico Herófilo produzir uma obra pioneira no campo de anatomia.

Bastam essas perdas para que exista em nossa trajetória cultural uma intermitência que mil anos não hão de recompor. E no entanto são apenas dois entre muitos outros casos de destruição selvagem, como o da coleção de Pisístrato em Atenas (da qual se salvaram as rapsódias de Homero), dos papiros do Templo de Ptah em Mênfis, dos milhares de pergaminhos do Colégio de Druídas em Bribactis (hoje Autun, França) , dos 300.000 livros queimados por Léo Isauro em Constantinopla e dos códices maias no México por Diego de Landa.

E não se diga que os tempos eram outros e eram ásperos. O homem que destrói livros pertence, geralmente, à mesma ordem de cultura daquele que os constrói.

Nada do que se perdeu será recobrado  e para maior desgraça nossa, dos nossos filhos, dos homens do milênio vindouro, houve momentos em que, como no romance de Umberto Eco (O nome da Rosa) , como na luta de Guilherme e Jorge, por um triz deixamos de recuperar valiosas obras que já eram dadas por perdidas.

Conta o inglês Andrew Thomas – e isto não é ficção – que certa vez houve um grande indêndio no harém de um sultão do Império Otomano. Um jovem secretário da Missão Francesa viu saqueadores invadirem o palácio para roubar objetos de valor , e uma dramática coincidência o levou a esbarrar num homem que fugia sobraçando um monumental cartapácio. Era a História de Roma, de Tito Livio , até então desaparecida. O funcionário interceptou o ladrão  e ofereceu-lhe considerável soma em troca da preciosidade. O turco aceitou, mas o francês – que fatalidade! – só dispunha de escassas moedas na algibeira. Aflito sugeriu que o pagamento fosse feito em sua residência e ainda discutiam quando vieram abaixo as traves do palácio em chamas. A multidão recuou em pânico e separou os dois homens, que não mais puderam reencontrar-se.

O volume abarcava sete séculos e meio da história romana, e de seus 142 livros chegaram até nós, por outros caminhos, apenas 35.

Outro autor, cuja própria vida também parece envolta em perdas, Stuart Kelly Kelly   dedicou-se, ao tema dos livros perdidos e escreveu um verdadeiro clássico: “O Livro dos livros perdidos” – Ed. Record. Nele descobrimos coisas incríveis: Como se perderam as obras completas de Ésquilo, na destruição da Biblioteca de Alexandria. Isso porque havia um único exemplar do livro, vendido por atenienses a Ptolomeu do Egito, como condição  do estranho negócio. Ou sobre o descuidado amigo que extraviou um caderno de anotações de Rimbaud. Ou ainda o mistério envolvendo “Cardenio” , de Shakespeare. Um livro, enfim, divertido,  escrito com bom humor, capaz de suscitar a curiosidade sobre o tempo, a literatura, as perdas irreversíveis, e as pessoas que estiveram por trás de tudo isto.

O livro mereceu várias  e interessantes resenhas e comentários  no Brasil. Eis uma delas:

Em O livro dos livros perdidos, Stuart Kelly revela trabalhos desaparecidos de autores famosos e conta fascinantes histórias reais por trás de livros que não foram publicados por terem sido destruídos, extraviados, interrompidos pela morte do autor ou simplesmente nunca começados. O que realmente aconteceu com o segundo romance de Sylvia Plath? E qual seria o monstruoso segredo contido nas memórias de Lord Byron que levou seu editor a queimar o manuscrito? Essas são algumas das perguntas respondidas por Kelly nesta pesquisa fascinante.

http://www.janeaustenbrasil.com.br/2009/11/o-livro-dos-livros-perdidos.html

Fica aqui, pois, meu registro em homenagem a estas páginas perdidas de letras imemoriais e seus descobridores. Poetas, escritores, cronistas são bibliófilos incansáveis. Amam livros.  Têm com eles uma relação muito especial, afetiva mesmo. Encontram um prazer indizível em contemplar suas prateleiras repletas de exemplares com formas,  capas e cores tão diferentes. Exaltam-se ao escolher dentre elas um título cativante, dentro do qual assinalaram uma passagem cativante, que voltam a ler de tempos em tempos com o mesmo sentimento da primeira vez. Sublimam-se citações, versos, parágrafos de beleza ímpar de Shakespeare (“O resto é silêncio”) de Tolstoi (“Cada família infeliz tem seu jeito próprio de ser infeliz”), de Guimarães Rosa (“Viver é muito perigoso”), de Paulo Leminski (“Por um lindésimo de segundo”). Eternas fontes de inspiração vital . Porventura reencontrados por escavadores de livros perdidos como capítulos re-velados da geologia humana.

Darcy Ribeiro: intelectual longe das convenções – por eduardo portella / são paulo.sp

Nascido há 90 anos em Montes Claros (MG) o antropólogo foi comprometido com a busca do ‘ser brasileiro’

 

Exemplos tirados da história recente para se opor à ideia comum de 'cordialidade' - Wilson Pedrosa/Estadão
Wilson Pedrosa/Estadão
Exemplos tirados da história recente para se opor à ideia comum de ‘cordialidade’

Certa vez escreveu, com aquela pulsação vital que era bem sua:

“Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei uma universidade séria, não consegui. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

São palavras nunca de um conformista, porém de um indignado, se recolhemos hoje os ecos da Plaza Mayor, de Madri. Indignado com a “situação calamitosa” (são palavras suas) da rede escolar pública, oscilando entre a magnitude e a precariedade.

As suas memoráveis memórias, Aos Trancos e Barrancos, se mantêm à distância do ajuste de contas e da queima de arquivos, marcas obsessivas do nosso memorialismo hegemônico. Em Darcy o que é bem visível são os movimentos crispados da história, movida pela memória viva, sanguínea, enérgica, porém imune ao ressentimento e à miséria humana.

Os caprichos do destino, em dias remotos de uma “Abertura” para inglês ver, me concederam a honra e felicidade de anistiar Darcy Ribeiro. Participei de uma guerra sem quartel. A chamada comunidade de informação, desinformada por vocação e vontade, não se conformou. Solicitaram que desanistiasse. Resisti. Foi uma das poucas batalhas que consegui vencer. Ela e os seus protagonistas desapareceram. Darcy continua vivo.

Talvez possamos tomar O Povo Brasileiro (1995) como o seu livro mais emblemático da formação e do sentido do Brasil. É o corolário de um esforço que vem de longe, infatigável e coerente, destinado a reconhecer a heroicidade anônima de mulatos e caboclos, de “mamelucos-brasilíndios”, pela nossa parte mitigada, filhos de negros e índios, sequestrados prematuramente em nome da civilização. Esse livro foi preparado por cinco antecessores muito bem acolhidos em várias geografias: O Processo Civilizatório, As Américas e a Civilização, O Dilema da América Latina, Os Brasileiros: Teoria do Brasil e Os Índios e a Civilização. Deve ser considerado o corolário porque arremata e leva às últimas consequências, sob a forma de uma insólita crítica da razão apropriativa, as mazelas dos poderes concentracionários ao longo de sucessivas hipotecas históricas. A essas obras se juntam outras, como A Universidade Necessária, proposta pedagógica que reoxigenou o ensino universitário na América Latina.

Darcy Ribeiro percorre, atentamente, o interminável caminho da exclusão. Acompanha toda a movimentação humana, e inumana, que impulsiona os deslocamentos populacionais, as ocupações territoriais, as desfigurações culturais, conduzidos pela exploração, o arbítrio, a violência. Ele observa de perto, certamente a contragosto, a desindianização e a desafricanização. Mas não deixa de saudar, compreensivamente, a emergência de tipos inesperados como o crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira. Entre os brasilíndios, os afro-brasileiros, os neobrasileiros, os brasileiros, Darcy indaga, o tempo todo, pelo ser brasileiro. Sem fechar a questão, é claro.

O Povo Brasileiro adquire, logo de início, o jeito de um diálogo, não sei se confortável, mas em qualquer caso amistoso, entre o político e o cientista Darcy Ribeiro. O primeiro, terrivelmente veraz, deixa de lado as conveniências da frieza expositiva, ou do distanciamento crítico, para assumir, de corpo e alma, a paixão. Talvez até para desmentir o boato de que a paixão é inimiga da razão. O segundo reconstitui e descreve, com precisão, a história dos vencidos, mas sem deixar de matizar o desempenho dos vencedores. O cientista reconstrói o passado; o político traz o passado para o presente. O livro se mantém muito fiel a Darcy. Decifra enigmas que ficaram para trás, porém com mais liberdade; imune às pressões ideológicas. Até porque Darcy Ribeiro nunca foi bem tratado nem pela esquerda predatória nem pela direita alucinatória – ambas predominantes, e tão afins. O que ele quer é viver, abertamente, declaradamente, o sonho precoce de “uma teoria geral, cuja luz nos tornasse explicáveis em seus próprios termos, fundada em nossa experiência histórica”. São suas palavras.

O itinerário de O Povo Brasileiro cobre um período extenso, que vai desde as determinações iniciais da Revolução Mercantil até a industrialização e a urbanização da modernidade tardia, no seio das quais as relações de trabalho nunca deixaram de ser mais ou menos aviltantes. Antes mais do que menos. O cativeiro dos índios e a sujeição dos negros, comprados e coisificados, distribuídos no litoral e progressivamente no interior, tornaram-se, com o passar dos tempos, a nódoa maior do nosso trajeto “civilizatório”. Não somente: também o lugar tenso, em que o extermínio e a gestação, gravados contraditoriamente nas cores da pele, foi abrindo passagem para o advento do novo. Os escravos índios e negros, subjugados até a crueldade, resistiam culturalmente. Não raro, politicamente. Jamais economicamente ou tecnicamente. Aí as armas eram extremamente desiguais.

Mas o livro de Darcy Ribeiro evita permanecer sob as ordens da memória, e acatar obedientemente os desígnios da tradição patrimonial, certamente tombada e cuidadosamente guardada, debaixo de sete chaves, nas gavetas de alguma Torre famosa. Se assim fosse, não seria Darcy, nem estaríamos falando de um livro-vida. Ele reconstitui, calorosamente, todo o processo da construção do homem tropical lusofalante, recorrendo aos documentos fornecidos pela Coroa e pela Igreja, e desde o momento em que se alternam, harmoniosamente, a razão de Estado e a ratio studiorum. E já nesse amanhecer era possível perceber, no espelho enviesado da colonização, não por acaso contemporâneo do maneirismo, as impurezas da razão. Mas o autor imprevisível, vez por outra reaproxima a generosidade da raiva, absorvendo as contradições do percurso. Nessa hora, os portugueses são distinguidos com um ou outro reconhecimento, do tipo: “O engenho açucareiro, primeira forma de grande empresa agroindustrial exportadora, foi, há um tempo, o instrumento de viabilização do empreendimento colonial português e a matriz do primeiro modo de ser dos brasileiros”. Esses instantes de armistício, vale lembrar, ocorrem sem muita insistência. Darcy prefere exaltar o reverso da medalha. O índio e o negro, pelo menos na cena colonial, e na reviravolta proposta pelo autor de O Povo Brasileiro, foram atores muito mais criativos do que poderia imaginar a montagem importada.

Darcy Ribeiro está empenhado em denunciar o dispositivo da exclusão. Ele fotografa os mecanismos de dominação em movimento, contesta a unidade forjada pela violência, e se espanta ao constatar a síndrome da feitoria perturbando a produção qualitativa da sociedade. Chega aos nossos dias, à mundialização de mão única, ao descalabro da cidade e, por consequência, do que deveria ser a vida urbana na comunidade de cidadãos.

Ao deparar-se com “o povo-massa, sofrido e perplexo”, o otimismo constitutivo, talvez até biogenético, de Darcy Ribeiro, parece experimentar ligeiro abalo. O radical esforço reflexivo de O Povo Brasileiro é confrontado com duas legendas dificilmente conciliáveis: a do “povo-nação” e de “povo-massa”. Tudo dependerá, sou levado a supor, da consistência do povo, ou da taxa de povo introjetada na massa, ou da nossa capacidade de, através da educação, desmassificar a massa. Darcy nos conduz para um debate que, pelo menos até aqui, continua em aberto. No primeiro movimento, ele se choca com a voracidade mundializadora; no segundo, abriga uma cisão interna que, justamente por causa da globalização e de seus correlatos comunicativos, tende a incompatibilizar povo e massa. É forte a tendência para admitir que perdemos as chances, os prazos históricos, para a realização da categoria povo, tal como emergiu e se plenificou em algumas de nossas matrizes ocidentais. Não é menos plausível a conclusão de que só nos resta a opção de reencaminhar singularmente esse fenômeno desconcertante a que batizamos com o nome de massa. Nesta hipótese, a massa, que seria o povo sem rosto, fatalmente anônimo, teria de ser reprogramada, pelos instrumentos insubstituíveis da cultura, da educação, da ciência, da comunicação.

Darcy Ribeiro permanece esperançoso, confiante no povo novo, e investe todas as suas energias vitais e intelectuais – e nele as duas coisas se confundem – na “vontade de felicidade” do povo brasileiro, na “Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar”. A impressão de resvalar no psicologismo, apostando todas as suas economias na “felicidade” possível, logo se recupera no questionamento da cordialidade inata que, em dias mais radiosos, chegou a embalar o sono, e talvez o sonho, das aspirações nacionais. Darcy guardou, da história e de episódios recentes, exemplos sucessivos de ausência total de cordialidade. Uma conclusão alternativa, sem maiores compromissos, merece ser lançada: inexiste povo vocacionalmente avesso à felicidade, e congenitamente destinado à cordialidade? Não creio. O que existe é o caminhar do caminho. E ninguém melhor do que Darcy sabe de cor e de coração a cartografia dessa viagem.

O olhar interpretativo de Darcy Ribeiro, no seu afã de dar conta da complexidade, inscrita visceralmente na formação e no sentido do Brasil, recorreu à cooperação interdisciplinar. O seu saber, fortemente empírico, se relaciona com o seu viver. Nem por isso ele cede ao narcisismo biográfico. As pequenas digressões autobiográficas são logo abandonadas, ou porque se reconhecem públicas e notórias, ou porque não têm dúvidas quanto ao descrédito que envolve hoje os gêneros pessoais, submersos nas fantasias de memórias e diários pós-fabricados. Em Darcy, a vida o ajuda a ver. Daí que o seu livro contenha uma vibração existencial pouco frequente.

Em O Povo Brasileiro, a fluência narrativa com que as situações se encadeiam nos propicia a descrição precisa e sentida, do desenrolar sinuoso, da corrida de obstáculos, do infindável passar a limpo que, ainda hoje, interdita o trânsito, paralisa a circulação cidadã.

A qualidade do texto, nesta obra, se une e facilita a vida do trabalho crítico deliberadamente enraizado. O enraizado aqui tem o uso específico que lhe confere o próprio Darcy, sempre e sobretudo quando se abre para a ambicionada “nova romanidade”. Mesmo fazendo ficção, em Maíra ou em Migo, por exemplo, o escritor interpela, pergunta incessantemente pela nossa gente, sua identidade e sua diferença. E ninguém como ele conseguiu transformar, sob os auspícios da linguagem, a esperança em realidade – descobrindo Brasis, inventando mundos.

Nos campos da Educação e da Cultura as suas impressões digitais permanecem como indicações de caminho: o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, juntamente com Anísio Teixeira, o Ministério da Educação altivo, a Universidade de Brasília, os 500 Cieps implantados no Rio de Janeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense, o Sambódromo, a Lei de Diretrizes e Bases, marcos da ação integrada de educação, ciência, cultura, a serviço da transformação social.

Assim como há os Darcys do Brasil, existem também os Brasis de Darcy. É uma constelação solidária e, apesar de todos os pesares, e de todos os maus-tratos, confiante.

 

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EDUARDO PORTELLA, MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (CADEIRA 27), É

ESCRITOR E PROFESSOR. FUNDOU E DIRIGE,

DESDE 1962, A REVISTA TEMPO BRASILEIRO

TOMBINI, UM GAÚCHO NO MINISTÉRIO DA FAZENDA? – paulo timm / portugal.pt

 

Poucos sabem, mas Getúlio Vargas foi o último Ministro da Fazenda gaúcho, nos estertores  da República Velha. Eleito deputado federal em 1922, ele acabou ocupando  este Ministério no Governo Washington Luiz . Agora, outro gaúcho, embora  mais de nascimento do que de alma,  filho de pais gaúchos que moraram no Chile na década de 70, parece que vai emplacar de novo: O  economista   Alexandre Antônio Tombini (Porto Alegre, 9 de dezembro de 1963), atual  presidente do Banco Central do Brasil.

Desde que foi sabatinado  pelo Senado, cumprindo exigência para assumir o Banco Central, Tombini mostrou um perfil distinto de seu antecessor, Henrique Meirelles. Ele tem sólida formação profissional e é servidor público de carreira, alinhado com uma visão firme no papel do Banco Central no controle da inflação , mas menos ortodoxa.

Com efeito, em sua gestão, em fina sintonia com a Presidente Dilma, Tombini vem conseguindo baixar os juros SELIC e reduzir o peso da dívida pública com relação ao PIB. Operando de modo inovador, desde o início de 2012, passou a atuar politicamente para reduzir aos poucos a taxa básica de juros SELIC e do Sistema Caixa e Banco do Brasil – trazendo todo o mercado financeiro para novos patamares- e ,também, a controlar a taxa de câmbio, a partir de abril, cuja valorização colocava em apuros a indústria nacional e exportadores.

O remanejamento na Fazenda se impões por duas razões:

Primeira, o Ministro Guido Mantega está há muito tempo à frente da Pasta e isto causa inevitáveis desgastes. Particularmente neste último ano,  Mantega acabou respondendo quase que pessoalmente pelo desafios propostos pelo Governo no sentido de baixar os juros e administrar o câmbio. Em alguns casos chegou a peitar os Bancos, custando-lhe severas críticas. Paradoxalmente, Mantega sai pelas mesmas razões que sobe Tombini, com a vantagem de que este não se expôs.

A outra razão, porém, é mais profunda: O marasmo da economia brasileira que não mostrou nenhum vigor no segundo trimestre deste ano e tudo indica que não será superior a 1% no terceiro.  E este é uma responsabilidade precípua da Fazenda que náo consegue alavancar os Investimentos necessários ao crescimento do PIB. Pior, diante da recorrência do fracasso nas políticas adotadas pela recuperar a economia, o Ministro reitera um ar de exagerada confiança em números melhores que nunca se comprovam. Passa, então, ao mercado e à opinião pública, uma imagem de manipulação de expectativas através de bravatas, além das consideradas como mera servidão do cargo. Seria a hora, portanto, de mudar para criar um novo clima de retomada do PAC e de novos projetos de investimentos, capaz de romper a onde de pessimismo que tomou conta do empresariado. Armínio Fraga, ex-Presidente do Banco Central no Governo FHC, em longa entrevista à Folha nesta semana certifica o pessimismo, mas vai além da crítica de humores ou de gestão. Para ele Investimento não se reanima. O que  há, diz ele, é  uma retração mesmo do empresariado em razão de uma guinada esquerdizante da Política Econômica.

Ressalte-se na entrevista de Armínio Fraga um conjunto crítico de caráter conservador que bem poderia estar na base da plataforma da Oposição no Brasil, mas não é o que se vê no processo eleitoral, tomado de um desvario moralista como há muito se via no Brasil.

A verdade, portanto, é que a economia não vai bem e “onde não tem pão não tem união”. Se  Dilma não acertar o rumo rapidamente, corre sérios riscos de perder a base aliada antes mesmo de 2014. Com Tombini, que  está mais próximo dela e que é um de seus delfins , frequentando com assiduidade as reuniões do Planalto, a Presidente  reforça seu comando e  tenta  impor sua marca com um novo estilo de aproximação com os empresários.

Mas, mesmo com a nova energia de um nome novo na Fazenda, o horizonte para a retomada do crescimento da economia brasileira não é nada promissor. Todas as estimativas para a o desempenho da economia mundial são pessimistas, há o risco da desaceleração mais acentuada ainda do crescimento chinês, já no limite de uma estratégia de esforços múltiplos de investimentos em cadeia e o mercado interno brasileiro não está respondendo aos incentivos com a elasticidade desejada.

 

PAULO TIMM, economista,  é professor aposentado da UNB.

Cidades privadas em Honduras: e se essa moda pega? – por raquel rolnik

Na prática, o governo está entregando estas áreas para empresas transnacionais estrangeiras que nelas deverão construir “cidades modelo”

Na semana passada, o governo de Honduras assinou um acordo com uma empresa dos EUA para iniciar a construção das chamadas Regiões Especiais de Desenvolvimento. Na prática, o governo está entregando estas áreas para empresas transnacionais estrangeiras que nelas deverão construir “cidades modelo”, ou “charter cities”.

Trata-se de áreas “recortadas” do espaço institucional e político do país, convertidas em uma espécie de território autônomo — com economia, leis e governo próprios — totalmente implementado e gerido por corporações privadas. Idealizado por um pesquisador norte-americano, este modelo de cidade foi recusado por muitos países, inclusive pelo Brasil — Ufa! — antes de ser aceito em Honduras, através de uma mudança da Constituição aprovada em janeiro deste ano.

Organizações da sociedade civil, incluindo grupos indígenas cujos territórios podem estar inseridos nas zonas “liberadas”, vêm criticando o projeto, que consideram catastrófico, e já acionaram a Suprema Corte de Honduras, alegando inconstitucionalidade.

Versão extrema de um liberalismo anti-Estado e pró-mercado, o fato é que este modelo, na verdade, exacerba uma lógica privatista de organização da cidade, já presente em várias partes do Brasil e do mundo, como é o caso dos condomínios fechados, das leis de exceção vigentes sobre áreas onde se realizam megaeventos esportivos, dos modelos de concessões urbanísticas, entre outros exemplos possíveis.

A ilusão de uma sociedade sem Estado, teoricamente livre da burocracia, da corrupção e do abuso de poder, é na verdade a ditadura do consumo e do poder absoluto do lucro sobre a vida dos cidadãos. Imagina se essa moda pega…

Raquel é urbanista, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada.

Vocês estão vendo isso com preocupação? Eu acho que esse será um interessantíssimo estudo de caso. Existem certas coisas que só se comprova testando e francamente não é sempre que se pode testar uma teoria de forma tão completa quanto esta.

Acho que vale a pena ver o que vai acontecer. E se for um sucesso? E se for um fracasso? Estou curioso pra daqui a 10 anos ver se essas cidades prosperaram e tiveram melhorias da vida de sua população ou se o mercado causou o inverso..mais miséria em troca do lucro das empresas.

Acho que devem considerar essa experiência pelo que ela é…uma experiência. E guardar esse tubo de ensaio para que no futuro tenhamos ainda mais argumentos contra ou a favor da teoria por trás desta experiência.

CHIMARRÃO – de vitor ramil e joão da cunha vargas / porto alegre/rs

Chimarrão

Velho porongo crioulo te conheci no galpão
Trazendo meu chimarrão com cheirinho de fumaça
Bebida amarga da raça que adoça o meu coração.
Bomba de prata cravada junto ao açude do pago
Quanta china ou índio vago dá água ao seu pensamento
De alegria, sofrimento, de desengano ou afago.

Te vejo na lata de erva, toda coberta de poeira,
Na mão da china faceira ou derredor do fogão,
Debruçado num tição ou recostado à chaleira.

Me acotovelo no joelho, me sento sobre o garrão
Ao pé do fogo de chão vou repassando a memória
E não encontro na história quem te inventou, chimarrrão.

Foi índio do pelo duro quando pisou neste pago,
Louco pra tomar um trago, trazia seca a garganta,
Provando a folha da planta, foi quem te fez mate amargo.

Foste bebida selvagem e hoje és tradição,
E só tu, meu chimarrão, que o gaucho não despreza
Porque és o livro de reza que rezo junto ao fogão.

Embora frio ou lavado ou que teu topete desande
Minha alegria se expande ao ver-te assim, meu troféu,
Quem te inventou foi pro céu e te deixou pro Rio Grande.

 

O FUTURO NAS CIDADES – são paulo.br – paris.fr

Marc Giget antecipa as mudanças previstas para as cidades

Casas tecnológicas, alimentos saudáveis e meios de transporte mais limpos e velozes devem fazer parte do cenário da vida urbana a partir de 2030

Casas altamente tecnológicas, mais verticalizadas, com amplo espaço em ambientes comuns como salas e cozinhas e ao mesmo tempo espaço destinado ao uso pessoal como um casulo; meios de transporte mais velozes, mais limpos e específicos para cada tipo de translado (curta ou longa distância); alimentação mais saudável e voltada para frutas, verduras e legumes. Estas devem ser algumas características da vida nas cidades daqui a 20 anos, de acordo com pesquisas de universidades de várias países. O tema foi detalhado pelo diretor do Instituto Europeu de Estratégias Criativas, da França, Marc Giget, na palestra “A Vida nas Cidades a partir de 2030”, realizada por iniciativa da Fiep, na noite da última segunda-feira (22), em Curitiba.

Formado pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais e doutor em Economia Internacional pela Universidade de Paris, desde que criou o Instituto Europeu de Estratégias Criativas, Giget se dedica a pesquisas ligadas à inovação e durante a palestra trouxe à discussão vários prognósticos do futuro.

“Não há nenhuma grande revolução à primeira vista, mas são mudanças significativas, muitas já em curso, que farão total diferença na nossa forma de enxergar o mundo e dialogar com ele”, enfatiza Giget. Por isso, a necessidade de se fazer uma reflexão diante de um futuro não tão distante. Citando Leonardo da Vinci ‘não antecipar é gemer’, o cientista social reitera a importância de antecipar o futuro como forma de prever futuros problemas e já buscar as soluções para eles.

A grande mudança em relação às casas e domicílios é o desenvolvimento sustentável, já em prática em muitas cidades do mundo. Não se pensa em mudanças radicais já que as pessoas são apegadas as suas casas. Vemos uma volta às casas com átrio como na Antiga Mesopotâmia ou Grécia Antiga, em que a natureza entra em casa, trazendo luz e calor. Com inverno e chuva seria um problema, aí é que entra a tecnologia para isolamento térmico entre outras modernidades. “O futuro não é a negação do passado é a retomada dos objetivos técnicos, de conforto e segurança alinhados às novas possibilidades”, enfatiza.

Giget também mostrou como deverá ser o desenho das cidades no futuro. Já existe pesquisa do Instituto Europeu de Estratégias Criativas que mostram que os novos edifícios serão energeticamente autônomos e neutros em emissões de gás carbônico. “Chamadas de Cidades – Colina, as novas cidades serão menos horizontalizadas e mais verticalizadas, ocupando menos perímetro urbano. Essa economia de espaço vai trazer a aproximação das pessoas, não só fisicamente, mas no modo de organização social, com um fortalecimento das redes e da vida em comunidade”.

 

Alimentação – Dentro os tantos assuntos abordados, comida é um tema que chama muito atenção. Atualmente vive-se um medo eminente da falta dela para todos. Para Giget, em nível global não há grandes riscos de faltar alimento, pois além de novos tipos de alimentos, haverá uma grande revolução verde, voltada para frutas, verduras e legumes mais saudáveis, com menor quantidade de sal e açúcar. “No futuro vamos comer as mesmas coisas que hoje, só que os nutrientes dos alimentos estarão potencializados pelas pesquisas que a biologia molecular tem nos trazido. E podemos ter alimentos mais atrativos para crianças, por exemplo, um vegetal em formato de pirulito ou algo do gênero”, ressalta.

O pesquisador mostrou vários protótipos de novos veículos, demonstrou como serão as aulas no futuro com processo educativo mais atrativo e interativo, a mudança da ideia de televisão trazendo obras de museus para dentro de casa, maior exploração do universo ao alcance de todos e não apenas de cientistas. Também apresentou a futura forma de comunicação inter-culturalmente com um equipamento de tradução simultânea quebrando a distância cultural da língua em tempo real; a medicina que terá as funções de salvamento, controle e monitoramento com as novas técnicas preventivas, entre outras possibilidades.

Planejamento – “As tecnologias estão avançando a passos cada vez mais velozes e qualitativos e as relações que se faz entre essas novas tecnologias e a novas potencialidades é o encontrar o que as pessoas realmente desejam para o futuro”, daí a necessidade de se fazer um retroplanejamento. “Se no futuro queremos que haja pouco consumo de energia, com base nas novas tecnologias já podemos estudar e definir como alcançar esse baixo consumo nos próximos anos”, afirma.

Para fazer esse retroplanejamento, Giget explica que é imprescindível a reflexão coletiva de todos os setores da sociedade. Segundo ele, os pesquisadores podem apontar como já foi no passado e como está sendo feito no presente; empresas e empresários que lidam diretamente com os produtos reais, podem dizer o que funciona e o que não funciona; os adolescentes podem apontar em que tipo de mundo querem viver; os idosos que não serão impactados diretamente mas pensam em seus descendentes e, por isso, possuem visão filosófica e otimista; e também as crianças que ainda não têm nenhuma preocupação quanto ao futuro e, por isso mesmo, pensam em soluções criativas e animadas. “A oportunidade de um diálogo com todos os tipos de pessoas é o que nos trará respostas para o mundo daqui a 20 e 30 anos”, acredita Giget.

O cientista social também abordou a necessidade do ‘reencantamento do mundo’ preconizado por Max Weber para que questões psicológicas, sociológicas e tecnológicas tenham valor agregado e estejam disponíveis para todas as pessoas. “Quando olhamos para o passado, vimos que o essencial não muda. Mozart nasceu em 1756 e ainda continua sendo o número 1 da música clássica; a Torre Eiffel foi construída em 1889 e continua sendo um dos pontos turísticos mais visitados em todo o mundo; as sandálias Havaianas foram lançadas em 1962 e continuam líder de mercado e devem acompanhar até 2030 ou 2040”.

A palestra foi uma iniciativa do Sistema Fiep, como parte do programa Cidades Inovadoras que engloba um conjunto de ações de curto, médio e longo prazos voltadas ao desenvolvimento local em Curitiba, região metropolitana e interior do Paraná.

PÁSSARO AZUL – de bukowski / eua

CHARLES BUKOWSKI.

 

Pássaro Azul

 

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,

e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

 

O JULGAMENTO DO “MENSALÃO” MUDOU O PAÍS? – por cynara menezes / são paulo.sp

Ministros do Supremo, 380 milhões de olhos vos contemplam

Em agosto deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello concedeu liminar suspendendo o júri popular que finalmente faria Justiça ao “caso Nicole”. O empresário Pablo Russel Rocha é acusado de, em 1998, ter arrastado com sua caminhonete, até a morte, a garota de programa Selma Artigas da Silva, então com 22 anos, em Ribeirão Preto. A jovem era conhecida como Nicole.

Grávida, Nicole teve uma discussão com Pablo. A acusação diz que ele a prendeu ao cinto de segurança e a arrastou pela rua. Pablo, que responde pelo crime em liberdade, diz “não ter percebido” que a moça estava presa ao cinto e nem ter ouvido os gritos da moça porque “o som da Pajero estava muito alto”. O corpo de Nicole foi encontrado, totalmente desfigurado, do outro lado da cidade. Com a suspensão, a família de Selma/Nicole vai esperar não se sabe quantos anos mais pelo julgamento do acusado.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Celso de Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de formação de quadrilha. Já os havia condenado por corrupção ativa. “Eu nunca vi algo tão claro”, disse ele, sobre a culpabilidade dos réus.

Em novembro de 2011, o ministro do STF Marco Aurélio Mello concedeu habeas corpus ao empresário Alfeu Crozado Mozaquatro, de São José do Rio Preto (SP), acusado de liderar a “máfia do boi”, mega-esquema de sonegação fiscal no setor de frigoríficos desvendado pela Polícia Federal. De acordo com a Receita Federal, o esquema foi responsável pela sonegação de mais de 1 bilhão e meio de reais em impostos. Relator do processo, Marco Aurélio alegou haver “excesso” de imputações aos réus.

Na segunda-feira 22 de outubro, o mesmo ministro Marco Aurélio Mello condenaria os petistas Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino pelo crime de “formação de quadrilha”. Já os havia condenado por “corrupção ativa”. O esquema do chamado “mensalão” envolveria a quantia de 150 milhões de reais. “Houve a formação de uma quadrilha das mais complexas.  Os integrantes estariam a lembrar a máfia italiana”, disse Marco Aurélio.

Em julho de 2008, o ministro do STF Gilmar Mendes concedeu dois habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas, sua irmã Verônica e mais nove pessoas presas na operação Satiagraha da PF, entre elas o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (que morreu em 2009). A Satiagraha investigava justamente desdobramentos do chamado mensalão, mas, para Mendes, a prisão era “desnecessária”.

Segundo o MPF (Ministério Público Federal), o grupo de Dantas teria cometido o crime de evasão de divisas, por meio do Opportunity Fund, uma offshore nas ilhas Cayman que movimentou entre 1992 e 2004 quase 2 bilhões de reais. O grupo também era acusado de formação de quadrilha e gestão fraudulenta.

Na segunda-feira 22 de outubro o mesmo ministro Gilmar Mendes que livrou o banqueiro Daniel Dantas da cadeia enviou para a prisão a banqueira Kátia Rabello, presidente do banco Rural, por formação de quadrilha. Já a havia condenado por gestão fraudulenta, evasão e lavagem de dinheiro. “Sem dúvida, entrelaçaram-se interesses. Houve a formação de uma engrenagem ilícita que atendeu a todos”, disse Gilmar.

O final do julgamento do mensalão multiplica por 25 – o número de condenados – a responsabilidade futura do STF. É inegavelmente salutar que, pela primeira vez na história do País, um grupo de políticos e banqueiros tenha sido condenado por corrupção. Mas, a partir de agora, os olhos da Nação estarão voltados para cada um dos ministros do Supremo para exigir idêntico rigor, para que a Justiça se multiplique e de fato valha para todos.

Estamos fartos da impunidade, sim. E também estamos fartos dos habeas corpus e liminares concedidos por alguns ministros em decisão monocrática, em geral nos finais de semana ou em férias, quando o plenário não pode ser reunido. Não se pode esquecer que o Supremo que agora condena os petistas pelo “mensalão” é o mesmo Supremo que tomou decisões progressistas importantes, como a liberação do aborto de anencéfalos e da união civil homossexual e a aprovação das cotas para afro-descendentes nas universidades. Estas foram, porém, decisões do colegiado. Separadamente, saltam aos olhos decisões injustas como as que expus acima.

Se há, como defendem alguns ministros, uma evolução no pensamento do STF como um todo, que isto também se reflita nas posições tomadas individualmente por seus membros. Não se pode, diante das câmeras de tevê, anunciar com toda a pompa a condenação e a prisão de poderosos e, à sorrelfa, na calada da noite, soltar outros. Cada vez que um poderoso for libertado por um habeas corpus inexplicável, ou que uma liminar sem pé nem cabeça for concedida por um ministro do Supremo para adiar o julgamento de gente rica, estará demonstrado que o mensalão não foi um divisor de águas coisa nenhuma.

Daqui para a frente, os ministros do Supremo Tribunal Federal têm, mais do que nunca, a obrigação de serem fiéis a si próprios e ao que demarcaram neste julgamento. Nós, cidadãos, estaremos atentos às contradições. Elas serão denunciadas, ainda que ignoradas pela grande mídia.

A Justiça pode ser cega. Mas nós, brasileiros, temos milhões de olhos. E estaremos vigiando.

CAETANO E A VANGUARDA DO ATRASO

“ACM é lindo” e “Lula é analfabeto”. Duas sentenças definitivas de Caetano. Em meio ao desalento, eu canto meu lamento. Triste Bahia

 

ACM é lindo” e “Lula é analfabeto” são sentenças “definitivas” atribuídas ao filho famoso de Dona Canô e Seu Zeca, Caetano Veloso. Chega-me pelos jornais a notícia de que o provecto tropicalista, compositor de algumas das grandes e inesquecíveis canções da nossa MPB, emprestou seu apoio e prestígio à candidatura de ACM Neto – “quem lê tanta notícia?”.

É um direito dele o de apoiar quem bem entender e quiser – advertiria você, leitor mais crítico e atento. Deploro o seu apoio a um homem público que representa o retrocesso, o atraso, mas… É verdade, ele tem o direito de escolher, apoiar e votar em quem quiser. Porém, o digno de nota, e de minha “curiosidade”, é que esse Caetano é o mesmo que apoiou a candidatura de Marcelo Freixo do PSol, no Rio de Janeiro. É, também, o mesmo Caetano que disse, num discurso inflamado na década de 1960, que a juventude “não entendia nada”. Eu também não entendo nada. Alguém por acaso entende?

Fica a impressão que o compositor tem alguma “bronca” com o PT ou com um (in)certo e tão propalado “lulismo”. A ponto de transitar, sem pudor ou constrangimento algum, da extrema-esquerda à extrema-direita. Com essa sua aparente incongruência, Caetano parece nos dizer enfaticamente e com exagero barroco, como é de seu feitio: “Tudo, menos apoiar um candidato do PT! Eu detesto Lula e o PT!”.

ACM era lindo? Hoje se sabe que a “boniteza” não era exatamente o principal predicado deste falecido oligarca baiano – pelo menos não era algo assim, digamos, relevante a se assinalar/asseverar na atuação política daquele homem público, e não era algo que afetasse assim, diretamente, o destino do povo da Bahia. Mas Caetano é surpreendente. Caetano “é um gênio”. Então, está tudo certo.

Lula era um analfabeto? À época presidente, Luiz Inácio Lula da Silva não era, obviamente, um “analfabeto”. Era um homem que não teve o devido acesso ao estudo, como a maioria dos brasileiros de sua época – incluindo-se aí, claro, os baianos. Mas isso não o impediu de realizar um grande governo. Aliás, Lula, no começo de sua carreira de sindicalista, por ser nordestino, mas não por ser supostamente “iletrado”, era conhecido no meio sindical paulista como “baiano”. Caetano exprime aí, sem querer, numa espécie de ato-falho, uma característica de boa parte de nossa elite: pensar que apenas aos mais letrados é dado o direito de ter certo protagonismo na vida política do país. Isso é um preconceito de classe, um equívoco que Caetano, na condição de “vanguarda” [um homem à frente de seu povo], tinha obrigação de aclarar. E o fez – mas por linhas tortas.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes…”

A Bahia, governada por Antônio Carlos Magalhães ou correligionários, por mais de duas décadas, ainda hoje é um dos estados brasileiros que têm uma das maiores dívidas sociais para com o seu povo – seguido bem de perto pelo Piauí, Alagoas e Maranhão, salvo engano. E essa “dívida” que o estado tem para com o seu povo não é consequência – pelo menos não exatamente – da “beleza” de ACM.

O patriarca dos Magalhães foi um dos mais nefandos e autoritários oligarcas desse país. Boa parte do atraso e pobreza porque passa hoje a Bahia deve-se às políticas públicas equivocadas (ou à faltas destas) implantadas (ou não) por esse “coronel” de triste memória e/ou pelo seu grupo político. Esse “sinhozinho”, denunciam seus opositores, juntamente com seus asseclas e correligionários, pilhou o estado em benefício próprio; subornou e corrompeu a Justiça; erigiu monumentos à memória dos seus à custa do erário; perseguiu, prendeu e mandou matar seus desafetos. ACM governava com a burra numa mão e a chibata na outra. A esse grupo político e a esse modo de governar convencionou-se nominar “carlismo”. Triste Bahia. Triste memória.

Parecia viver-se hoje outros tempos. Louvava-se o fato de que o “carlismo” estava morto e enterrado na Bahia. Porém, nos mesmos dias que correm hoje, dias em que novos políticos, homens e mulheres de variadas agremiações partidárias do campo das esquerdas, se esforçam por construir um novo Brasil, eis que aparecem os herdeiros do “carlismo” (a velha arena, PDS, PFL e, hoje, DEM) pretendendo, novamente, empunhar a burra e a chibata e subjugar o povo de Salvador e depois, provavelmente, o povo da Bahia.

Quando você for convidado pra subir no adro/da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/dando porrada na nuca de malandros pretos/de ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/ só para mostrar aos outros quase pretos/(E são quase todos pretos)/E aos quase brancos, pobres como pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos, quase pretos, de tão pobres são tratados/ E não importa se os olhos do mundo inteiro/Possam estar  voltados para o largo/Onde os escravos eram castigados(…).”

Essa canção nos remete aos tempos do “carlismo” em Salvador e na Bahia. É difícil  acreditar que o autor dessa doída poesia agora associa-se à vanguarda do atraso.

Em meio ao desalento, eu canto meu lamento. Triste Bahia.

[Em tempo: Gilberto Gil emprestou seu apoio a Pelegrino. Gil, portanto, segue “louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado”.]

N.A.: Foram citados no artigo, como excertos, trechos de duas músicas de Caetano Veloso: “Podres Poderes” e “Haiti”.

 

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LULA MIRANDA.

Conheçam a Venezuela – por maximilien arveláiz / brasilia.df

A mídia brasileira não admite a nossa plena democracia, apoia a oposição e ataca Chávez com adjetivos elitistas de quem não conhece o país, como ‘populista’

 

Quando amanheceu o dia 8 de outubro, os venezuelanos puderam se sentir orgulhosos. Nosso sistema eleitoral, automatizado e seguro, foi respeitado por governo e oposição, acompanhado por entidades e personalidades internacionais e considerado o melhor do mundo pelo ex-presidente americano Jimmy Carter.

Nossa população, numa demonstração de consciência e politização, compareceu em massa às urnas desde a madrugada até que votasse a última pessoa na fila, já de noite. Alcançamos mais de 80% de participação do eleitorado em um país onde o voto não é obrigatório. Não se pode ignorar: a Venezuela é exemplo de democracia para o mundo.

Diante de tudo isso, constrange a forma com que os meios de comunicação internacionais, dentre os quais os brasileiros têm relevância, custam a enxergar a existência de uma democracia consolidada na Venezuela.

Seja por puro desconhecimento da realidade do nosso país, seja em união a uma campanha internacional contra os avanços da revolução bolivariana, a mídia privada brasileira fez uma cobertura desequilibrada do processo eleitoral no país.

É claro que utilizo aqui o recurso da generalização. Mas, numa leitura rápida das notícias, salta aos olhos o apoio deliberado da mídia pela oposição e a tentativa sistemática de deslegitimar o processo revolucionário em curso na Venezuela.

Grande parte das reportagens e editoriais priorizou ressaltar as críticas ao governo Chávez, deu exagerada importância a uma minoria de pesquisas que apontavam o empate ou a vitória de Henrique Capriles e ainda alardeou um caos político que viria da não aceitação do resultado das urnas por parte do governo, supostamente, “ditatorial” de Chávez.

Ainda mais graves foram as teses que tentavam buscar explicações para os mais de 8 milhões de votos a favor da reeleição de Hugo Chávez, como se não fosse nada menos do que natural a vitória do candidato que proporcionou uma série de mudanças positivas na vida dos venezuelanos, tendo reduzido à metade a pobreza extrema nos últimos 13 anos.

O favoritismo de Chávez foi creditado primeiro a um “populismo” do presidente “caudilho” e depois ao suposto uso da máquina pública e abuso de tempo de propaganda televisa. Tal análise, elitista e preconceituosa, pressupõe que a população, passiva e despolitizada, troca votos por casas, comidas e eletrodomésticos -o que é facilmente desconstruído com uma visita ao país.

Mais do que comparecer às urnas toda vez sempre (entre eleições e referendos, já aconteceram 16 pleitos desde que Chávez chegou ao poder), os venezuelanos, incentivados pelo presidente Chávez, constroem a cada dia mecanismos de participação direta na vida política do país.

O mais importante deles são os Consejos Comunales, microgovernos construídos no interior das comunidades, compostos e geridos por moradores. Se há um povo despolitizado e passivo, não é o nosso.

A liberdade de expressão, imprescindível na democracia, também é facilmente constatável. Os principais jornais da Venezuela hoje, o “El Nacional”, o “El Universal” e o “Últimas Noticias”, são claramente simpáticos à oposição e circulam sem qualquer censura ou boicote. Quadro similar se dá na TV e no rádio.

O que não foi divulgado em quase nenhum meio de comunicação internacional é que Capriles, cuja família é dona de uma cadeia de comunicação, teve, segundo estudo do Centro de Análise e Estudos Estratégicos Aluvión, mais tempo de propaganda eleitoral na televisão privada do que Hugo Chávez. A propaganda do presidente ocupou apenas 12% do tempo nos meios privados. A do candidato da oposição, 88%.

Vencer o desconhecimento sobre o que ocorre na Venezuela é hoje nosso maior desafio. Por isso, transmito o convite feito pelo presidente Hugo Chávez em coletiva de imprensa aos meios de comunicação nacionais e internacionais logo depois de votar: “Aos que queiram ver uma democracia pujante, sólida e madura, venham à Venezuela”. Torço para que venham livres de preconceitos e dispostos a enxergar as verdadeiras razões pelas quais Hugo Chávez foi reeleito com 55,25% dos votos.

MAXIMILIEN ARVELÁIZ, 39, é embaixador da República Bolivariana da Venezuela no Brasil

O diabo no caminho de Mick Jagger / biografias por Philip Norman

Sexo, drogas e rock and roll. A biografia Mick Jagger (Companhia das Letras, 624 págs., R$ 49,50, nas livrarias dia 25) não deixa muito espaço para outros assuntos além desses três no dossiê sobre o vocalista dos Rolling Stones.

E são duas centenas de páginas a mais que a biografia de seu grupo musical, publicada há quase 30 anos pelo mesmo autor, Symphony for the Devil: The Rolling Stones Story (1983), escrita pelo jornalista inglês Philip Norman, autor de biografias de John Lennon e Elton John.

Não se pode dizer que Mick Jagger seja o que se convencionou chamar de uma biografia chapa branca, até porque o ícone do rock surge no livro como um superstar arrogante, sovina, narcisista e predador – enfim, um Casanova pouco preocupado com suas presas sexuais, aí incluídos mulheres e homens (David Bowie, entre eles).

No momento em que os Rolling Stones comemoram 50 anos anunciando um retorno aos palcos e Mick chega aos 70 com quatro casamentos e sete filhos, não é uma biografia recomendável para novos fãs. Os antigos já sabem o que esperar.

O jornalista Philip Norman é um produto dos anos 1960. Adora rememorar a vida louca da swinging London, as orgias e os banquetes regados a álcool e alucinógenos. Conheceu Jagger numa entrevista, em 1965, dois anos antes de o cantor ser preso por porte de drogas e quatro antes do trágico concerto dos Rolling Stones em Altamont, na Califórnia, quando um jovem negro foi morto a facadas por membros da gangue Hell’s Angels, contratados para a segurança do show americano.

Quanto às drogas, há uma novidade: Norman diz que o fornecedor de ácido lisérgico (LSD) aos Stones era um agente do FBI recrutado para um programa de contrainteligência (Cointelpro) que investigava “subversivos” (comunistas, feministas, negros militantes e simpatizantes).

FOTO: REUTERS/Suzanne Plunkett

Em 1967, o Cointelpro de J. Edgar Hoover mudou o foco para os roqueiros – especialmente os ingleses – que, na sua visão, “corrompiam” a juventude americana. Os serviços secretos ingleses teriam auxiliado o FBI na missão.

A batida que levou Mick Jagger e sua namorada Marianne Faithfull presos, em 1967, se deu graças a David Jove, que morreu em 2004, aos 64 anos. Ele usava, então, um sobrenome falso, Snyderman, e tinha também os Beatles na mira. Se condenados, eles não poderiam entrar nos EUA.

Quanto ao trágico episódio de Altamont, é fato que, na época, Jagger foi criticado na mídia como irresponsável por ter organizado o concerto e atribuído aos Hell’s Angels a segurança do show. Durante a apresentação de Under My Thumb, um garoto de apenas 18 anos, Meredith Hunter, foi assassinado em frente do palco.

Norman tenta livrar a barra de Jagger, escrevendo que os diabólicos Hell’s Angels foram, na verdade, contratados pelos músicos do grupo Grateful Dead. Em várias outras passagens, o jornalista toma partido do biografado, que, no entanto, não colaborou com o livro.

Mesmo Marianne Faithfull, citada a todo momento, é lembrada por meio da autobiografia, Faithfull, e não por longos depoimentos pessoais. E ela teria muito a dizer, especialmente sobre a adesão de Jagger ao satanismo (eles acabaram queimado toda a biblioteca “satânica” do vocalista, mas o biógrafo não revela as circunstâncias).

Curiosamente, Norman culpa Satã por todo o mal que perseguiu os amigos de Jagger e os coadjuvantes de seus filmes. Mais uma vez, o biógrafo reprisa a velha história do cantor de blues Robert Johnson, que teria feito um pacto como o demônio para obter sucesso (ouça Me and the Devil Blues para atestar se isso é verdade).

A seu modo, Norman insinua que Jagger leu O Mestre e Margarida, do russo Mikhail Bulgákov, e ficou tão impressionado com a história que, influenciado por Marianne, compôs Sympathy for the Devil. Em síntese, Bulgákov fala que o grande triunfo de Satã foi o de colocar Pôncio Pilatos no caminho de Jesus, recusando salvá-lo da cruz.

FOTO: REUTERS/David Callow

Jagger atualiza o baile organizado pelo diabo, no livro do russo, e fala de algumas celebridades históricas que herdaram o bastão de Pilatos: Hitler é o protagonista da canção de Jagger, mas há lugar para os bolcheviques que mataram a família real russa e os assassinos de vários membros da família Kennedy.

Jagger queria transpor O Mestre e Margarida para as telas. Ele, naturalmente, faria o papel de Satã. Desde que estreou como ator em Performance, de Nicholas Roeg, tinha obsessão de interpretar um anti-herói no cinema. Chegou, no máximo, a fazer o papel de um conhecido bandido australiano em Ned Kelly, dirigido por Tony Richardson.

Desde que compôs Sympathy for the Devil, garante o biógrafo, Jagger passou a se interessar muito por satanismo e magia negra, especialmente pela obra do bruxo Aleister Crowley, que escandalizou a Inglaterra no começo do século passado ao defender a feitiçaria. Verdade ou não, uma das namoradas de Jagger, a atriz alemã Anita Pallenberg, era bruxa, segundo o biógrafo.

Jagger pode não ser, mas aceitou atuar num filme maldito de Kenneth Anger, Lucifer Rising, ao lado de garotos nus submetidos a cenas de sadomasoquismo (incluindo mutilação). Detalhe: Anger tinha o nome Lúcifer tatuado no peito e acreditava ser a reencarnação de Aleister Crowley.

Anita Pallenberg, coadjuvante de Jagger em Performance, ficou viciada em heroína, que, segundo Norman, “viria a lhe devastar o rosto e o corpo perfeitos”. James Fox, que vinha de um sucesso de crítica, O Criado, dirigido por Joseph Losey, fez Performance e perdeu o pai, ficou desorientado, vagando meses pela América do Sul e abandonando a carreira no auge – só retornaria a ela anos depois.

Jagger escapou ileso da maldição de Performance e das filmagens de Fitzcarraldo (ele desistiu do filme de Herzog, cuja produção registrou todo o tipo de tragédia), mas ficou conhecido como o rei da uruca nos sets. Nenhum de seus grandes projetos no cinema deu certo.

Ele, porém, ainda tem uma carta na mão: quer revisitar o próprio passado num filme que o músico deve produzir e estrelar chamado Tabloid, retrato do magnata de imprensa Rupert Murdoch, dono do tabloide dominical News of the World, que queria destruir Jagger, acusando-o de porte de drogas, em 1967 (quando o jornal pertencia a outros).

Por direito, diz o biógrafo, os escândalos protagonizados por Jagger nos anos 1960 deveriam ter sido esquecidos décadas atrás. O cantor, diz ele, poderia ter desenvolvido uma carreira paralela nas telas tão bem-sucedida quanto a de Elvis Presley. Ou ser um político, usando sua rebeldia. Ou um poeta, como Leonard Cohen. Então, por que não foi?

Porque Mick encarna o paradoxo do vencedor supremo, segundo Norman, “para quem as colossais realizações parecem não significar nada”. É um extrovertido, mas prefere a discrição, resume. Mick, em sua definição, é amoroso, atencioso com as mulheres, mas nem tanto com os homens.

O biógrafo conta que a atração sexual do primeiro empresário dos Stones, Andrew Oldham, por Jagger foi logo percebida pela namorada Marianne Faithfull. Oldham é apontado como o homem que colocou os Stones na estrada, graças ao talento empresarial (ele trabalhou com Mary Quant, a inventora da minissaia) e sua determinação de fazer dos garotos do grupo os antípodas dos Beatles. Se eles eram certinhos, então os Stones seriam diabólicos, segundo a lógica de Oldham.

Jagger, esperto, seguiu o conselho à risca. Os primeiros álbuns dos Stones trazem referências explícitas ao diabo, presente nas capas dos discos, nas letras das músicas e, quem sabe, por trás da figura do biografado.

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Antonio Gonçalves Filho

CORA CORALINA, IN “LUCROS E PERDAS”

“Revendo o passado,
balanceando a vida…
No acervo do perdido,
no tanto do ganhado
está escriturando:
“- Perdas e danos, meus acertos.

– Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos.”

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 Cora Coralina, in “Lucros e perdas”, Meu livro de Cordel.

Graciliano Ramos, livro reúne 81 textos inéditos – por luís antonio giron / são paulo.sp

 

“Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos” traz escritos de todas as fases do autor de “Vidas secas”

O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro "Garrancho - Achados inéditos de Graciliano Ramos" (Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro “Garrancho –
Achados inéditos de Graciliano Ramos”
(Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)

Pesquisar textos desconhecidos de autores consagrados em revistas antigas e arquivos virou uma atividade reconhecida – e em plena moda. As efemérides dão a deixa para buscar novidades. Neste anos, saíram inéditos de contos e diários de Lúcio Cardoso e crônicas de Nelson Rodrigues, autores cujos centenários foram comemorados recentemente. Os 120 anos do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), bem como os 60 anos de sua morte ano que vem, servem como ocasião para lançamento do livro Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos (editora Record, 378 páginas, R$ 49,90). O volume é o resultado de uma longa pesquisa de Thiago Mio Salla, doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo.

Salla reuniu 81 textos de todas as fases da carreira de Ramos, desde os três primeiros artigos no jornal Parayba do Sul, em 1915, um conto juvenil do mesmo ano, “O ladrão”, até panfletos e ensaios no fim da carreira, depois de sua entrada no Partido Comunista Brasileiro. Isso passando pela coluna Garranchos nos ano 1920, que ele assinou no jornal Palmeiras dos Índios, que editava em sua cidade natal, o período de militância jornalística em Maceió nos anos 1930 e os textos escritos durante sua prisão em Ilha Grande.

Segundo Salla, o volume, apesar de heterogênero, ajuda a conhecer melhor Graciliano, em cada fase de sua vida. “Cada uma, a seu modo, permite iluminar facetas pouco conhecidas ou, até então, obscuras do autor de Vidas secas, fornecendo mais subsídios para a fundamentação, pelo leitor, de certos elementos concernentes a sua poética, além de ampliar as possibilidades de leitura e compreensão do papel desempenhado tanto pelo homem quanto pelo artista Graciliano Ramos”, afirma Salla.

Graciliano foi um dos maiores estilistas do português brasileiro moderno. Seu estilo conciso, tão presente em sua ficção, se faz presente nos textos de ocasião. Mesmo nos textos de formação, como o conto “O ladrão” é claro e cheio de ação, o verbo suplantando os adjetivos, como demonstra esta passagem: “O homem chegou sorrateiramente à esquina, olhou desconfiado os arredores e entrou na única loja que por ali havia aberto àquela hora da noite”. A descoberta deGarranchos é um momento histórico na literatura brasileira.

Obras do acervo do Museu do Louvre chegam ao Masp – por antonio gonçalves filho / são paulo.sp

Mostra ‘Luzes do Norte’ abriu nesta sexta-feira, 19, com 61 desenhos e gravuras de 23 artistas

Detalhe da obra 'Frederico Duque de Saxe', de Brosset - Divulgação
Divulgação
Detalhe da obra ‘Frederico Duque de Saxe’, de Brosset

Especialmente concebida para o Brasil, a exposição Luzes do Norte, com curadoria do francês Pascal Torres, que será aberta nesta sexta-feira, 19, no Masp, reúne 61 desenhos e gravuras de 23 artistas da coleção doada pelo barão de Rothschild, em 1935, ao Museu do Louvre. São obras-primas do Renascimento alemão criadas por Altdorfer, Cranach, Dürer e Holbein, entre outros grandes artistas atuantes nos séculos 15 e 16. Dürer (1471-1528) é a grande atração da mostra, representado por 11 gravuras que recorrem, em igual proporção, a temas religiosos e profanos. Foi o curioso Dürer, aliás, que introduziu os ideais do Renascimento italiano no norte da Europa. É dele o ícone da exposição, a xilogravura (impressa após sua morte) de um rinoceronte monocromático cujo verde faz lembrar a cor dos filmes do russo Sokurov.

Dürer, ao que se sabe, jamais viu um rinoceronte. Nasceu e morreu em Nuremberg e visitou a Itália duas vezes, a primeira aos 23 anos e a segunda, aos 30 anos. Influenciado pela cultura humanista dos renascentistas italianos – especialmente os artistas de Veneza -, Dürer reforçou seu interesse pela perspectiva, proporções harmoniosas e temas inauditos. Foi, aliás, um artista estrangeiro que forneceu ao alemão o esboço do rinoceronte que passou por Lisboa por volta de 1515. Dürer foi pioneiro na ilustração de livros, habilidoso tanto na técnica do retrato (há dois deles na mostra) como em paisagens, animais e temas sacros (destaca-se uma xilogravura da Santíssima Trindade).

A rigor, não houve propriamente um Renascimento alemão. Artistas como Dürer ou Hans Holbein (1497-1543) tiveram, sim, contato com a arte que se praticava em outros países, mas o híbrido que cruzou os Alpes era uma mistura do estilo renascentista italiano com o gótico alemão. Dürer reúne o melhor da tradição medieval e uma vocação humanista traduzida em seu interesse pelo passado e mitos clássicos. Holbein, que aos 19 anos morava em Basel, na fronteira com a França, era um cosmopolita, combinando a monumentalidade do Norte com o requinte da cultura francesa. Dele pode ser vista uma têmpera sobre madeira que retrata o poeta inglês Henry Howard, conde de Surrey, pintada um ano antes da morte do artista e pertencente ao acervo do Masp. Este e o retrato de um jovem aristocrata realizado em 1539 por Lucas Cranach (1472-1553), também da coleção do museu, são os únicos óleos presentes na mostra do Louvre.

Cranach é lembrado pelas imagens que deixou de Martinho Lutero. Um dos amigos mais próximos do pastor reformista, impressiona seu retrato do religioso com o hábito de frei agostiniano (antes de ser excomungado pelo papa). Mesmo apoiando algumas reformas propostas pelo amigo e ilustrando a Bíblia que Lutero traduziu para o alemão, em 1522, Cranach continuou a desenhar nus baseados nos mitos gregos e pintar altares devocionais católicos. Fez largo uso dessa iconografia, como mostram duas xilogravuras da exposição, uma dedicada a São Cristóvão (também retratado por Altdorfer) e outra ao repouso da Sagrada Família em Fuga para o Egito.

A combinação das tradições do gótico alemão com as influências do Alto Renascimento italiano resultou num estilo formal em que a interação da figura com a paisagem caracterizou o trabalho de um grupo de artistas alemães e austríacos conhecido como a Escola do Danúbio. Albrecht Altdorfer (1480-1538) é o representante maior dessa transição do medieval para a modernidade – e a prova disso é um desenho (na exposição) que mostra uma mulher passando a cavalo pela porta de uma cidade. No entanto, o exemplo supremo das paisagens irreais construídas por Altdorfer está em A Natividade, desenho em tinta preta sobre base de guache branco que retrata o nascimento de Jesus, concedendo particular atenção ao ambiente que o cerca. A natureza deixa de ser cenário para ser protagonista em Altdorfer.

O antecessor de todos, Martin Schongauer (1450-1491), mestre do buril que inventou algumas técnicas depois aperfeiçoadas por Dürer, também está na exposição com quatro obras. Uma delas, Cristo Aparecendo a Maria Madalena, deve ter impressionado muito os renascentistas e maneiristas italianos. Tanto que Vasari afirmou ter Michelangelo copiado gravuras do genial alemão.

GRACILIANO RAMOS, livro reúne 81 textos inéditos – por luis antônio giron /são paulo.sp

 

“Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos” traz escritos de todas as fases do autor de “Vidas secas”.

           

O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro "Garrancho - Achados inéditos de Graciliano Ramos" (Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)
O escritor Graciliano Ramos, em foto de 1972, e a capa do livro “Garrancho –
Achados inéditos de Graciliano Ramos”
(Foto: Acervo Editora Globo e divulgação/Editora Record)

Pesquisar textos desconhecidos de autores consagrados em revistas antigas e arquivos virou uma atividade reconhecida – e em plena moda. As efemérides dão a deixa para buscar novidades. Neste anos, saíram inéditos de contos e diários de Lúcio Cardoso e crônicas de Nelson Rodrigues, autores cujos centenários foram comemorados recentemente. Os 120 anos do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), bem como os 60 anos de sua morte ano que vem, servem como ocasião para lançamento do livro Garrancho – Achados inéditos de Graciliano Ramos (editora Record, 378 páginas, R$ 49,90). O volume é o resultado de uma longa pesquisa de Thiago Mio Salla, doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo.

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Salla reuniu 81 textos de todas as fases da carreira de Ramos, desde os três primeiros artigos no jornal Parayba do Sul, em 1915, um conto juvenil do mesmo ano, “O ladrão”, até panfletos e ensaios no fim da carreira, depois de sua entrada no Partido Comunista Brasileiro. Isso passando pela coluna Garranchos nos ano 1920, que ele assinou no jornal Palmeiras dos Índios, que editava em sua cidade natal, o período de militância jornalística em Maceió nos anos 1930 e os textos escritos durante sua prisão em Ilha Grande.

+Leia o primeiro texto publicado de Graciliano Ramos, no jornal Parayba do Sul, em 1915

Segundo Salla, o volume, apesar de heterogênero, ajuda a conhecer melhor Graciliano, em cada fase de sua vida. “Cada uma, a seu modo, permite iluminar facetas pouco conhecidas ou, até então, obscuras do autor de Vidas secas, fornecendo mais subsídios para a fundamentação, pelo leitor, de certos elementos concernentes a sua poética, além de ampliar as possibilidades de leitura e compreensão do papel desempenhado tanto pelo homem quanto pelo artista Graciliano Ramos”, afirma Salla.

Graciliano foi um dos maiores estilistas do português brasileiro moderno. Seu estilo conciso, tão presente em sua ficção, se faz presente nos textos de ocasião. Mesmo nos textos de formação, como o conto “O ladrão” é claro e cheio de ação, o verbo suplantando os adjetivos, como demonstra esta passagem: “O homem chegou sorrateiramente à esquina, olhou desconfiado os arredores e entrou na única loja que por ali havia aberto àquela hora da noite”. A descoberta deGarranchos é um momento histórico na literatura brasileira.

ORDÁLIO DE VERÃO,segundo o poetinha – de paulo timm / portugal.pt

Ordálio de verão, segundo o poetinha

 

                                   I

 

Meninas sozinhas, perdidas no mundo

e dentro de si., sufocantes.

Pés de açucena, mãos despataladas ainda  em botão.

Aurigas imortais ,

Cariátides suplicantes  

Púcaros de bacilos

Sob templos de lues irisadas de vergonha.

 

No  anúncio de  siringes lúgubres

Um abismo hiante:

Social?

Tropical?

Existencial e antropofágico.

Procelas devastadoras em verões sufocantes:

Suplícios, doestos,

Nas vascas de uma  agonia itinerante

 

Tantos cheiros, tantos…

Fragrância fria , distante

E que cores?

Lâmpadas também frias de uma luz cortante

Mas que peso! Que pressa!

Bebi de copo vazio e casto

E me sinto com gosto de lua minguante.

 

II

 

As estações chuvosas são assim.

Vê-se tudo pela janela.

Como esperas de dentista.

Sempre atento ao pior.

`As cinco da manhã , pior ainda:

A  angústia se veste de branco e fica como louca,

Doidona!

Sentada, em pe; sentada.., em pé…

Trocando pernas como quem dança um tango.

Espiando o perigo

De onde ele vem mesmo , menina?

Vai pra casa!

Mas minha fadiga encontra seu termo

E meu desejo de evasão se esvai , desejante,

Acovardado pelo enlevo que lhe consome.

O que mais precisa um homem senão

Deste lirismo  indizível da beleza

Cínica da madrugada?

Toda  desiludida de romance… .

                                           III

 

Releio Vinicius, meu grande poeta

Devorador de palavras difíceis e ternas

E sucumbo ao seu verso

Seu poema maior.

Como resistir?

Ao poeta?

Ao seu verso?

Ao poeta que vive como poeta e ainda por cima

Faz versos?

Como não lê-lo?

Como não segui-lo?

Como não plagiá-lo sem qualquer pudor?

Pelo pudor que não é, dá-se!

Como o tempo frágil

Nas mãos do filósofo que ele soube ser.

  

                                          Paulo Timm- Olhos d Água/GO , fevereiro de 2008

FAMÍLIA DE JANGO MOVE AÇÃO CONTRA ESTADOS UNIDOS

Justiça brasileira tenta evitar que Washington responda judicialmente pela “reparação civil” dos danos decorrentes do golpe de 1964.

Quando faltam menos de um ano e meio para que o golpe civil militar de abril de 64 complete 50 anos, a Justiça brasileira está para decidir uma ação da família do presidente deposto João Goulart, co­nhecido como Jango, que poderá resultar na co­locação dos Estados Unidos no banco dos réus. 0 tema é complexo e se arrasta desde 2002 nas mais variadas instâncias da Justiça e foi iniciada pelo ad­vogado José Roberto Rutkoski e agora está a car­go de Trajano Ribeiro e Daniel Renout da Cunha.


Para se entender melhor os meandros da ação, é necessário que os interessados conheçam os porme­nores de uma linguagem jurídica complexa em que se destacam termos como “atos de gestão e de im­pério” por parte do governo estadunidense.

A história da ação começa em 2002, depois de uma entrevista do ex-embaixador Lincoln Gordon, ao lançar em São Paulo e no Rio de Janei­ro o seu livro Brasil Segunda Chance: A Cami­nho do Primeiro Mundo, admitindo o patrocínio oculto da quebra da ordem constitucional me­diante exemplos como o fato de que a CIA dis­pôs 5 milhões de dólares, a partir de 1962, com o financiamento de candidatos ao Congresso que desfraldassem a bandeira do anticomunismo e combatessem também o nacionalismo.
Era o tempo do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e do Instituto de Pesqui­sas Econômicas e Sociais (1PES), que tinha como um dos principais coordenadores o então Coro­nel Golbery do Couto e Silva, um dos principais mentores do golpe de 64.

Com esta admissão, os filhos de Jango, João Vicente e Denise Goulart, bem como a viúva, Ma­ria Tereza, tomaram a iniciativa de processar pela Justiça brasileira o Estado norte-americano como um dos responsáveis pelo golpe que afastou do poder o presidente da República.

SOBERANIA NACIONAL
Inicialmente, segundo explicou João Vicente, o objetivo da ação não visava propriamente indeniza­ção, apenas uma ação afirmativa. 0 pedido sempre foi de indenização, mas não tinha nenhum valor fi­xado porque era uma reação política e de defesa da soberania, mas a Justiça, mais precisamente a 10a Vara Federal do Rio de Janeiro, exigiu que fosse fixado o valor das perdas que a família teve em decorrência do afastamento forçado de Jango da Presidência e posteriormente o exílio no Uruguay.
Foi realizada uma parícia para apurar o valor da evolução patrimonial. Com base na declaração do Im­posto de Renda de 1963 do presidente deposto, a qual foi somada uma quantia referente aos danos mo­rais e o valor da repara­ção, acabou sendo estipu­lada em cerca de 4 bilhões de reais.
A 10a Vara Federal jul­gou extinto o feito com fundamento na impossi­bilidade jurídica do pedi­do com base na imunida­de absoluta de jurisdição do Estado estrangeiro cujo recurso acabou sendo en­caminhado para o Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde, apesar das sucessi­vas negativas da maioria dos Ministros, os advoga­dos ainda tentam colocar o Estado norte-americano no banco dos réus.
No terreno jurídico, segue sendo travada uma batalha complexa e que para entendê-la é necessá­rio também analisar os meandros da política exter­na estadunidense atual e do período da Guerra Fria.

0 financiamento pela CIA da campanha para a derrubada de Jango, que não se limitou na ver­dade aos cofres do IBAD ou do IPES, foi inspira­da no que aconteceu na Itália logo após o fim da II Guerra Mundial. Preocupados com a possibili­dade de uma vitória eleitoral do então poderoso eleitoralmente Partido Comunista Italiano (PCI), a CIA e demais organismos do Estado norte-ame­ricano despejaram milhões de dólares para bene­ficiar, sobretudo partidos como o da Democra­cia Cristã e demais opositores do PCI. A ofensiva anticomunista deu certo e impediu a vitória dos comunistas, então agrupados unitariamente em um partido forte sob a liderança da figura legen­dária do secretário geral Palmiro Togliatti.
Em uma reunião realizada a 30 de julho de 1962 entre o então Presidente John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon, o assessor presiden­cial Richard Goodwin aventou a possibilidade de que “talvez devêssemos pensar em golpe num fu­turo próximo (no Brasil)”.
Na mesma entrevista sobre os gastos da CIA com o esquema de desestabilização do governo constitucional brasileiro, embora confirmando o que disse Goodwin, Gordon procurou mini­mizar o fato declarando que a opinião do as­sessor não foi considerada naquele momento, o que na prática não se confirma pelo teor dos documentos secretos desclassificados em 2004 pelo Departamento de Estado norte-americano.
Segundo o próprio Lincoln Gordon, foram gas­tos pela CIA 5 milhões de reais, o equivalentehoje a cerca de 50 milhões de dólares ou 100 milhões de reais.

MAIOR TEMOR
Na verdade, temendo que no Brasil se consoli­dasse um governo nacionalista, Kennedy chegou a dizer que o número de comunistas no Brasil é irre­levante na cena política e que esse fato serviria ape­nas para atacar o governo de Jango.

Kennedy temia eventuais ameaças aos interes­ses de empresas norte-americanas, sobretudo com a possibilidade, já então concreta, da aprovação da lei de remessa de lucros. Ele não pensou duas vezes em executar o que pouco tempo antes o Conselho de Segurança Nacional estadunidense sob o governo de seu antecessor, o Presidente Dwight Eisenhower, aprovou, ou seja, a resolução sobre as “covers ac- tions” (ações encobertas) contra a ordem jurídica de outros países: “as operações deviam ser secretas e permitir que o governo pudesse negar, com foros de plausibilidade, sua participação nas mesmas”.
Kennedy, portanto, seguindo essa prédica, não poupou esforços no sentido de que em algum mo­mento ocorresse a derrubada de Jango, o que hoje é confirmado com a leitura de uma série de docu­mentos do Departamento de Estado liberados para consulta. Lyndon Johnson, o sucessor de Kennedy, simplesmente levou adiante a política adotada pelo Presidente assassinado em novembro de 1963.
Na petição apresentada pelos advogados da família Goulart à Justiça brasileira, é lembrado o fato de que vários embaixadores estaduniden­ses (no começo da década de 60) queixaram-se de terem sido usados para dissimular atividades de espionagem, mas a CIA sempre insistiu que a cobertura das embaixadas é essencial a seu tra­balho, porque inclusive sem a imunidade de que gozam as propriedade diplomáticas, os códigos, ar­quivos e comunicações da central de inteligência estadunidense não estariam em segurança.
Foi lembrado também que o atrito entre fun­cionários do serviço exterior e os agentes da CIA tornou-se tão agudo ao fim do governo de Dwight Eisenhower que o então presidente ex­pediu uma ordem executiva, em novembro de 1960, onde afirmava: “Os chefes de missões diplo­máticas dos Estados Unidos no exterior, como re­presentantes do Presidente e agindo em seu nome, deverão possuir e exercer, na medida em que permi­tam as leis e de acordo com as instruções que o Pre­sidente venha promulgar, a responsabilidade dire­ta pela coordenação e supervisão das atividades das várias agências que sirvam nos diferentes países”.
E tão logo foi empossado, lembram os advoga­dos Trajano Ribeiro e Daniel Renout da Cunha, John Kennedy apressou-se em reafirmar os poderes do Departamento de Estado e dos embaixadores. Os embaixadores que eventualmente não aceitassem a determinação ou simplesmente apenas a questio­nassem foram removidos e substituídos.

A partir de então, e sem que fossem cance­ladas até hoje as determinações, as embaixa­das estadunidenses se tomaram uma espécie de linha auxiliar da CIA.
Os advogados da família Goulart apresenta­ram na Justiça brasileira a tese segundo a qual a intervenção norte-americana no Brasil com a li­beração de verbas aos golpistas de 64 e a presen­ça de uma esquadra naval norte-americana nas costas brasileiras para, em caso de necessidade, apoiar a ação de derrubada do Presidente brasi­leiro, foi um “ato de gestão”.
Ou seja, o governo estadunidense (Poder Exe­cutivo) agiu sem consultar o Congresso (Poder Le­gislativo). Para entender melhor, foi uma ação di­ferente da empreendida em 2003 contra o Iraque, quando para aprovar a ação militar houve consen­timento do Senado, caracterizando-se como “ato de império”. Não vem ao caso se a decisão do Se­nado ocorreu com base na mentira segundo a qual o Iraque possuía armas de destruição em massa, o que ficou comprovado não existiram.
No caso do golpe de 64, ao intervir da forma como interveio, o governo dos Estados Unidos, se­gundo os advogados Trajano Ribeiro e Renoult da Cunha, simplesmente violou a Constituição norte-americana ao ferir a carta de princípios da Organi­zação dos Estados Americanos (OEA), que impede a intervenção direta ou indireta de um estado es­trangeiro sobre a ordem interna de um aliado dos EUA. Um ato ilícito sob o ponto de vista da Consti­tuição norte-americana, portanto, não pode ser um ato de império.


                                                      Operação “Brother Sam” na costa brasileira em 1964.

NEGATIVAS DA JUSTIÇA

Mas a Justiça brasileira entendeu que a ação dos EUA foi um “ato de império”, inviabilizando a con­tinuação do processo contra o Estado estrangeiro em território nacional, o que em linguagem jurídica é considerado “imunidade absoluta de Jurisdição”.
As sucessivas negativas de recursos que impe­dem de colocar no banco dos réus do Brasil os Es­tados Unidos, tanto da parte da 10a Vara Federal do Rio de Janeiro, como do STJ, inclusive a de impedir que a ação seja encaminhada para decisão do STF, colocam em dúvida se a Justiça brasileira tem mes­mo interesse em defender a soberania nacional ou se sente atemorizada com a solicitação de julgar o Estado norte-americano em território nacional.

Reforça essa tese o fato de o Ministro do STJ, Félix Fischer ter decidido a ação sem permitir que um recurso extraordinário pudesse seguir para o STF sob a alegação de que uma petição não tinha sido apresentada em tempo hábil.
Mas os advogados comprovaram, mediante do­cumento fornecido pelos Correios, que informaram que o documento original havia chegado no prazo ao STJ, não tendo sido juntado a tempo por falha administrativa do órgão judiciário. Isto é, o próprio STJ extraviou o documento em questão, resta saber se deliberadamente ou não. Os advogados alegam que esta questão foi ultrapassada quando o ministro João Otávio de Noronha consagrou o entendimento de que mesmo que os originais do agravo tivessem sido apresentados dentro do prazo “ratificavam-se os fundamentos da decisão que negou seguimen­to a ação rescisória”. Ação que combate o entendi­mento equivocado de que os Estados Unidos praticaram ato de Império, quando a jurisdição brasileira é competente para julgar atos de gestão.


FAVORECIMENTO

Além disso, o que é ainda mais grave, os mi­nistros do STJ, com exceção de Nancy Andrighi e Humberto Gomes de Barros, concederam ao réu (EUA) a prerrogativa, não solicitada, por sinal, de aceitar ou não abrir mão da “imuni­dade de jurisdição”,
Trocando em miúdos, facilitaram o lado dos Es­tados Unidos, que com a decisão fizeram a pergunta que favoreceu ao réu, dando margem à hipótese de que os ministros queriam se livrar, para eles, do fardo de julgar o mérito da ação interposta pela família de João Goulart. Pior, acabaram por declarar de ma­neira ilegal que os Estados Unidos violaram a Car­ta da OEA sem que tivesse direito de se manifestar.
Com isso, fica reforçada a dúvida que os minis­tros do STJ pouco se importam se está em jogo ver­dadeiramente a soberania nacional.
Em razão da dificuldade encontrada para dar se­guimento à ação, não se exclui a possibilidade de a família Goulart fazer o mesmo que fez a família de Jacobo Arbenz, o presidente deposto da Guatema­la, em 1954. Os Arbenz deram entrada, e ganharam, em ação na Justiça dos EUA apresentando o Esta­do norte-americano como um dos responsáveis pelo golpe patrocinado pela CIA. Não foi divulgado o valor que os EUA pagaram pelos danos causa­dos à família Arbenz, mas a decisão cria juris­prudência e, caso os Goulart entrem com ação, obterão resultado favorável ao pleito.
Para João Vicente, no entanto, o ingresso da ação na Justiça brasileira é um recurso importan­te no sentido da afirmação e defesa da soberania nacional, que, no entender dele, foi aviltada com o golpe que derrubou o presidente João Goulart. João Vicente se baseia no fato de que a jurisdi­ção se exerce nos mesmos limites da soberania e o dano foi praticado em território brasileiro. Daí a competência territorial para julgar o pedido de reparação.
A renúncia de jurisdição e competência para julgar o pedido da família Goulart, sem que os Estados Unidos tivessem solicitado formalmente a imunidade de jurisdição, é, sem dúvida, uma renúncia de soberania.
Não se exclui também a possibilidade, segundo admitiu João Vicente Goulart, se a justiça negar totalmente a ação, de a família levar para o julgamento do Tribunal de Haia. “Lamentavelmente, o Brasil terá de ser réu pelo fato de a justiça negar a uma família o direito de julgar em território nacional o país responsável por uma ilegalidade que levou o país a uma longa escura noite de 21 anos”, observou João Vicente Goulart.
Por estas e muitas outras ao longo dos anos, está na hora do Poder Judiciário brasileiro ser passado a limpo, inclusive sepultar os vícios adquiridos ao longo de 21 anos de ditadura e que continuam vigentes.

 

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Mario Augusto Jacobskind, Caros Amigos

Notas zero de jurado definem categoria romance no Jabuti – maria fernanda rodrigues / são paulo.sp

Um dos 3 jurados deu 0 a escritores consagrados e permitiu a vitória de Oscar Nakasato, por ‘Nihonjin’

18 de outubro de 2012 | 21h 16
Maria Fernanda Rodrigues – O Estado de S. Paulo

Em 2010, Oscar Nakasato, então professor de literatura do ensino médio em Apucarana, no Paraná, tirou o romance Nihonjin da gaveta e o inscreveu no 1.º Prêmio Benvirá. Era seu primeiro original. O júri, composto por José Luiz Goldfarb, Nelson de Oliveira e Ana Maria Martins, escolheu a obra por unanimidade e, como prêmio, o professor ganhou R$ 30 mil. O livro, sobre a imigração japonesa, foi editado pela Benvirá, da Saraiva, em 2011. Nesta quinta-feira, 18, Nihonjin foi considerado pelo Prêmio Jabuti como o melhor romance de 2011, desbancando obras como Infâmia, de Ana Maria Machado.

Nakasato desbancou obras como 'Infâmia', de Ana Maria Machado - Reprodução
Reprodução
Nakasato desbancou obras como ‘Infâmia’, de Ana Maria Machado

A nota de um dos três jurados – seu nome só será divulgado na cerimônia em 28 de novembro – foi responsável pela definição do vencedor. Autora de mais de uma centena de livros e presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, por exemplo, recebeu zero em dois critérios: construção de personagem e enredo. Outros concorrentes também tiveram notas baixíssimas, como Julián Fuks, que foi finalista do São Paulo de Literatura e está no páreo pelo Portugal Telecom. E Wilson Bueno, prêmio APCA de romance em 2011 por Mano, a Noite Está Velha, que também concorria ao Jabuti.

“Dar um zero a uma autora já consagrada é pesado e exagerado, mas é um direito do jurado. As regras deste ano abriram margam para que uma nota tivesse peso decisivo e o jurado percebeu a influência da matemática”, disse José Luiz Goldfarb, curador do tradicional prêmio.

Este ano, os membros do júri puderam dar de 0 a 10 às obras concorrentes. Antes, a pontuação ia de 8 a 10 e era possível usar notas decimais, o que tornava a disputa mais equilibrada. Para a próxima edição, Goldfarb já pensa em mudanças – deve eliminar a nota mais baixa e incluir uma quarta pessoa na comissão formada, no caso da categoria romance, por jornalistas e críticos literários. “Agora, não há o que fazer porque o regulamento é claro e seu voto deve ser respeitado.” Segundo o curador, o tal jurado já participou de outras edições do prêmio.

Na conturbada apuração, Naqueles Morros, Depois da Chuva, de Edival Lourenço, ficou em segundo lugar e O Estranho No Corredor, de Chico Lopes, em terceiro. Nakasato e os vencedores das outras 28 categorias ganham a estatueta do Jabuti, R$ 3.500 e chance de concorrer ao prêmio melhor livro do ano, no valor de R$ 30 mil, a ser anunciado na cerimônia. Os segundos e terceiros colocados levam apenas a estatueta.

Esta, porém, não foi a única surpresa da lista, divulgada pela organização. Na categoria conto, Sidney Costa, com seu O Destino das Metáforas, venceu Dalton Trevisan, considerado um dos melhores contistas do País e que concorria com O Anão e A Ninfeta. Na terceira posição ficou Sérgio Sant’Anna, com O Livro de Praga.

Maria Lúcia Dal Farra venceu em poesia com Alumbramentos. Depois vieram Vesúvio, de Zulmira Ribeiro Tavares, e Roça Barroca, de Josely Vianna Baptista.

O Jabuti premia cada uma das etapas da produção de um livro – seja ele de ficção ou técnico. Capa e tradução são algumas das categorias. O Estado e o Direito Depois da crise, de José Eduardo Faria, editorialista do Estado, ficou em 2.º lugar entre os livros de direito.

Escárnio – por saul leblon / são paulo.sp

 

18/10/2012

A maior rede de televisão do país contrata uma pesquisa sobre a disputa eleitoral em São Paulo; omite o resultado esfericamente desfavorável a seu candidato, no telejornal de maior audiência.
O relator de um julgamento polêmico contra o maior partido de esquerda da América Latina estabelece um calendário desfrutável e acopla os trabalhos ao processo eleitoral em curso; na véspera do primeiro turno oferece as cabeças de algumas das principais lideranças partidárias à boca de urna; agora, alega consulta médica –na Alemanha– para acelerar o anúncio das penas, 48 horas antes do 2º turno.

O candidato do conservadorismo em baixa nas pesquisas age com deselegância contra jornalistas, dispara ofensas no ar e boicota desairosamente os que não seguem a pauta de sua conveniência.

Os editoriais e colunistas da indignação seletiva emudecem miseravelmente.

Reunida no país, a 68º assembleia geral da SIP, diretório interamericano da mídia conservadora, emite um balanço no qual denuncia ‘ o cerco à liberdade de imprensa’ por parte de governos latino-americanos (leia editorial de Carta Maior, nesta pag).

O alvo principal da SIP é a Lei dos Meios da Argentina, na qual a radiodiodifusão é definida como atividade a serviço do direito à informação e não um simples negócio, portanto, imiscível com a natureza do monopólio que aborta a pluralidade e o discernimento crítico daí decorrente.

A lei argentina coíbe expressamente qualquer forma de pressão ou punição a empresas ou instituições em função de sua opinião ou linha editorial, desde que pautadas pelo respeito ao estado de direito democrático e pela observação dos direitos humanos.

A lei argentina diz que o Estado tem o direito e o dever de exercer seu papel soberano que garanta a diversidade cultural e o pluralismo das comunicações.

A lei argentina diz que isso requer a igualdade de gênero e igualdade de oportunidade no acesso e participação de todos os setores na titularidade e na gestão dos serviços de radiodifusão.

Literalmente, a lei argentina tipifica a mídia estatal como veículos públicos e não governamentais que devem prover uma ampla variedade de informação noticiosa, cultural e educativa; seu espírito pode ser resumido numa fase:

‘Se poucos controlam a informação, não é possível a democracia’.

A ONU reconheceu a legislação argentina é avakiada como modelar pela ONU. Frank La Rue, relator especial das Nações Unidas para a Liberdade de Opinião e de Expressão, não apenas a elogia como pretende divugá-la como uma referência para o fortalecimento da democracia e da diversidade da informação em outros países (leia reportagem nesta pág).

Sugestivamente, o ponto de vista da ONU não mereceu uma única linha de referência nos veículos que endossam o diagnóstico da SIP; os mesmos que silenciam diante do comportamento belicoso do candidato conservador contra jornalistas; que fecham os olhos ante a seletiva forma de divulgar pesquisas eleitorais; e que aplaudem -induzem?– a desconcertante alternância de rigor e omissão, a depender da coloração partidária, que empurra a suprema corte do país para além da fronteira que separa a legítima opinião política de um togado, de um cabo eleitoral de toga.

Lula articulista do jornal norte-americano “The New York Times”, será?

Um novo articulista é esperadíssimo pelo “The New York Times”. Convidado antes da descoberta do câncer na laringe para escrever para o jornal americano, o ex-presidente Lula teria adiado a proposta para depois das eleições municipais.

“Ele vem conversando, não bateu o martelo ainda, mas deve acontecer. Teremos algo concreto ainda este ano”, disse um auxiliar do ex-presidente. Ainda não está definido quem escreveria os textos em inglês.

IstoÉ.

FERNANDO KOPROSKI convida: curitiba.pr

 

ATIRAR EM MEU PRIMO VLADE – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

 

Não. Não posso fazer isso, pensei. Não posso, atirar em meu primo Vlade, de jeito algum.Os maus pensamentos que me tomavam naqueles minutos foram pouco a pouco evanescendo em nada e voltei ao normal. Ainda trazia às mãos a arma carregada. Meu primo egresso de certa Casa de Orates recém tinha fugido e perambulou pela BR 277, adentrou bares sujos, capões de mato, como um perseguido da polícia, um cão, um lobo feroz, um monstro evadido das profundas da Terra, até chegar em nossa casa. A mãe (minha mulher a anja) atendeu o tranhinho, como mãe, amiga do ser reverbelíneo. Acelerou acelerado o desgringonado do bem. Louqueou, sofregou na dor e na compulsão ao desconhecido. Atirar em meu primo, eu não, não… não posso fazer isso. Mas cheguei a pensar no retorno do vingadorzinho não se sabe do que, iria ele se vingar, meu primo não veio me visitar nas casas de insanos, nas criptas do reencontro do ser com o ser remixado, transmixado, acelerado que se venceu, transvenceu em mente/corpo. Poderia haver pensado isso o meu primo Vlade, e fiquei de campana ao seu retorno. Poderia pensar o tranhinho, agora vou lá, escapei das amarras, das sessões de choque, dos empurrões, do gesto brusco do são para o insano e vou me vingar matando meu primo esse poeta de merda, abduzido, poeta iludido e doido e anjo vingador dos poetas recusados. Pra mim é fácil, pensar pensou o tranhinho e vinha olhos arregalados passos longos pra encurtar distância de lá pra cá da fronteira do sul para o sul do sul onde lido com meus cavalinhos de pouca venda e muito comer. Tinha pressa o meu primo Vlade… pressa em resolver tudo. Ele sabe onde me encontrar. Sabe. No trabalho sabe, no Nosso Bar, do Altomir Kurek, sabe, na beira do rio Iguaçu, sabe, no mato, sabe, nas estradas sabe, na fazenda sabe. Meu primo retornado pra se vingar do que nunca lhe fiz transfiz refiz deliberei não resolvi atendi o tranhinho bom mas acelerado nos princípios meios e fins base de lítio na pegada diária que nunca termina como é de terminar sarar acalmar desacelerar o bólido atentadinho. Meu primo vindo obssessivamente pra se vingar de mim o poeta que não deu certo o poeta iludido que tanto tentou não conseguiu ganhar a mídia e notoriedade no seu tempo transtempo finistempo destempos. O poeta arrogante megalômano que sempre quis ser mais do que realmente é projetou ousou realizou. Meu primo vindo de arma em punho tenso determinado a findar a vida de seu primo o poeta amargurado o poeta de não ser não conseguir resolver os problemas sérios do mundo o poeta participante o poeta sem-terras daquela vez transvez revez o poeta atentado que acredita piamente em seres extraterrestres e que já foi abduzido o poeta messiânico que foi um dia salvador dos mundos o poeta contraditório nos ditos o poeta construtor de estéticas e filosofias que não grassaram entre os ímpios. Meu primo assassino de primo vindo com uma ideia de só matar seu primo poeta liquidar a besta das palavras não assimiladas pelos puros não entendidas pelos gramáticos não amada pelos simples não estudada pelos estudiosos o poeta da vida nova da palavra o poeta da esteira lúmina da poesia crispado de cipós-açus e veios vias vasos meios de conhecer outros mundos no cimo das árvores. O poeta que transitou nas redes sociais, amou, sonhou, iludiu e desnorteou tanta gente. O poeta que se fastou dos amigos, dos parentes, das belas mulheres que amou e se desvencilhou da aventura de viver presente, visível no seu mundo que não é o seu mundo terreno. O poeta que partiu pra outas esferas, orbes, conquistas de espaços e conteúdos, línguas, linguagens e pensamentos. Meu primo enlevado em Deus onipotente sempiterno portando armas de grosso calibre e vindo pra matar liquidar matar transferir o importuno poeta de sua vida… vida fodida vida enganadora e tranceira. Vencida a dor da vertigem a dor da descoberta da estranha doideira de meu primo soltei a arma sobre a penteadeira do quarto e espiei pela janela a mãe tratando em fala o primo reverbelíneo transurtadino ambos de pé próximo à garagem do carro, o primo recém-vindo olhos parados andar nas nuvens flutuante primo do planeta Terra egresso agora de outras esferas patrocínios chancelas. Cósmico meu primo, o acompanhei desde quando apertou a campainha pela primeira vez. Como disse: estava de campana, já o esperando. Palavra de mãe, palavra de provecção gestão dos símbolos organização dos curtos circuitos a mãe pondo o primo assassino de poeta nos trilhos o primo obsecado com a ideia de morte do primo primo poeta e salvador da vida poética recusada da Terra das Galáxias do Cosmos e mais se fosse possível. Deixa o primo viver. Deixa o primo padecer. Deixa o primo ir levando a vida nesses universos vida-morte que a poesia o leva. Atirar em meu primo Vlade, precipitar a reação à ação do mesmo, não posso não poderei… desde criancinha dos Campos do Senhor do Sul é que o acompanhei na sua vida de mãe pra vó e vó pro mundo e do mundo pra mulher e filhos e divórcio e separação e dor e incompreensão e revisão da vida que ficou pra trás repete-se transtorna o dia e sacrifica o futuro. Meu primo assassino de primo poeta assassino de poesia assassino de palavra assassino de lesma desenhando em tijolos assassino de sóis noturnos e luas do dia meu primo encafifado de ódio meu primo relimpando a Terra em suas vinganças em primeiro é o primo poeta e filósofo protonathural que deve ir em primeiro é o poeta que deve adentrar a noite grande em primeiro é a vida latente do que mexe com as palavras mexe dorme acorda trabalha encanta e tiraniza a vida dos sons e dos significados… o poeta o ser repulsivo o ser escroto da esfera o poeta o sobrado do charco o recusado da matéria e da glória da vida. O poeta que quer revolucionar subverter transverter criar problemas de entendimento. Meu primo Vlade vindo fazer a limpeza a faxina da Terra e primeiro sim… começar com seu primo o imundo o deslocado o agressivo o grosso o letargido o monstrengo insensível o transignificado que não pode ser lido aberto em luz desvelado clareado. Seu primo o sacrificado na tela clara do futuro que pouco ou tanto lhe diz. Meu primo de arma em punho arma armas calibres grossos gatilhos acionados até os estampidos ruidosos que põem fim à vida. Meu primo Vlade vindo vingar o desvingado o que não morre suspende-se para o infinito o que persegue monadas em trânsito comunica-se com o desconhecido e falseia verdades de se viver passíveis de serem salvas do mal. Meu primo contra tudo que reside na palavra tudo que mexe com sílabas metáforas semas semantemas versos semioses de ditos e imagens. Meu primo botando fogo em Roma fogo nos livros fogo nas imagens não nascidas fogo na usina produtora dos signos. Assim foi que imaginei me armei e me defendi disparando vários projéteis contra meu primo Vlade atirando e não acertanto atirando pra defender a mãe de um ataque repentino atirando pra se proteger atirando pra livrar a vida da palavra a vida da poesia da vida da carne da vida da vida transnacida da vida repartida que não encontra guarida nessa vida. Adeus, meu primo Vlade. Foi. Fui. Tamo indo. Já fomos!

 

 

 

 

(Um conto de jAiRo pEreIrA,

do livro inédito OWERLUX)

 

Argentina condena ex-militares à prisão perpétua por crimes durante a ditadura

15/10/2012 – 23h27

Da BBC Brasil

OS DITADORES:

 

Brasília – Um tribunal da Argentina condenou hoje (15) à prisão perpétua três ex-oficiais da Marinha por executar 16 presos políticos há quatro décadas.

Os prisioneiros – parte de um grupo rebelde que escapou da prisão – foram executados em 1972 na Base Naval de Trelew, apesar de dispor de proteção legal.

Os juízes responsáveis pelo caso caracterizaram as circunstâncias das mortes como crimes contra a humanidade.

Os advogados dos réus alegaram que vão recorrer da sentença.

Vem aí o banco do futuro – por ethevaldo siqueira / são paulo.sp

Embora muitos usuários não percebam, os bancos brasileiros estão entre os mais avançados do mundo, do ponto de vista tecnológico. É claro que, mesmo com toda essa modernização, o atendimento da maioria das agências bancárias do País ainda está aquém dos melhores padrões. Nosso objetivo nesta coluna, entretanto, é focalizar unicamente a evolução tecnológica do setor.

 

O processo de informatização e modernização dos bancos brasileiros começou praticamente nos anos 1970, como parte de uma estratégia de defesa contra a inflação, só parcialmente vencida em 1994, com o Plano Real. Por mais de três décadas, a desvalorização da moeda resistiu a todos os planos, cinco diferentes padrões monetários e outras medidas paliativas.

A adoção crescente de novas tecnologias acabou trazendo ainda duas vantagens preciosas: a elevação da produtividade e a criação de facilidades para os usuários. Isso explica por que os bancos brasileiros ao longo dos últimos 30 anos sempre ultrapassaram os europeus e norte-americanos quanto ao padrão de serviços cotidianos. Se o leitor brasileiro teve contato com bancos estrangeiros naquele período deve ter notado claramente o diferencial tecnológico em favor dos bancos brasileiros.

A partir dos anos 1990, a expansão das comunicações e o uso crescente de novas tecnologias permitiram a integração dos serviços bancários neste país continental com área superior a 8,5 milhões de quilômetros quadrados. Munido de um cartão magnético, qualquer usuário passou a acessar sua conta de depósito, verificar saldos, solicitar serviços ou sacar dinheiro em caixas eletrônicos, em qualquer ponto do País. Em pouco tempo, passamos a achar tudo isso muito natural e rotineiro.

Na última década, com a internet e as tecnologias de identificação e de segurança embutida em chips, os bancos brasileiros continuaram a evoluir de forma extraordinária. Na verdade, as redes digitais e, em especial, a internet, estão revolucionando os serviços e o padrão de atendimento dos maiores bancos brasileiros, do Banco do Brasil aos principais bancos privados, como Itaú, Bradesco, Santander, HSBC e outros.

O banco de 2022. Mas, como será o banco da próxima década? O brasileiro Jean Paul Jacob, professor na Universidade de Berkeley, cientista emérito da IBM propõe que o banco do futuro seja uma espécie de butique. Outros visionários sugerem que o banco seja uma empresa virtual com a oferta predominante da computação em nuvem, do home ou mobile banking ou mesmo um shopping digital, que ofereça não apenas serviços financeiros mas, também, centenas de produtos e serviços, como planos de saúde, turismo, educação, empreendedorismo e entretenimento.

Com base nessas ideias, antecipemos um pouco do que poderá ser o banco de 2022, época em que a maioria das agências utilizará ferramentas digitais extraordinárias, apoiadas numa infraestrutura de banda larga totalmente dedicada aos serviços econômico-financeiros, com a velocidade de 1 Gigabit por segundo (Gbps).

O poder digital. Com a ampliação do home banking e do mobile banking, a tendência irreversível é a redução do número de pessoas que se dirige às agências bancárias. “Atualmente, mais 90% de nossas transações bancárias são feitas via canais digitais” – lembra Luca Cavalcanti, diretor do Bradesco. Esse porcentual de digitalização era impensável há 20 anos. E é provável que, em poucos anos, os clientes não precisem mais ir fisicamente às agências convencionais, em especial, para fazer coisas corriqueiras como descontar um cheque, pagar uma conta ou sacar pequenas quantias de dinheiro.

Em cinco anos, assistiremos, sem dúvida, à explosão dos serviços de mobile-banking. Com isso, o papel da maioria das agências tende a mudar. Elas deverão voltar-se, principalmente, para o atendimento a clientes interessados em conhecer os novos serviços, discutir financiamentos de longo prazo, aplicações e novas opções tecnológicas para seus dispositivos portáteis – os sucessores dos atuais smartphones e tablets.

Um exemplo. Mais do que projetos experimentais ou conceituais, já existem bons exemplos de agências bancárias brasileiras que passam a utilizar os recursos da mobilidade nos smartphones e tablets, da computação em nuvem, mesas com telas de toque, sistemas de identificação biométrica (com a palma da mão, a íris, a voz, a fisionomia e outros).

Um dos melhores exemplos que eu conheço e que sugiro ao leitor, sem qualquer sentido publicitário, é visitar a agência-conceito Next, do Bradesco, no Shopping Iguatemi JK, em São Paulo. Lá, você é recebido por um robô, apenas para simbolizar a tecnologia do futuro. Pode ter contato com os recursos e aplicativos dos diversos smartphones e tablets, sistemas biométricos e com os principais sistemas operacionais: iOS, da Appe; Android; Windows Phone; e Blackberry.

Tudo no projeto Next foi pensado para oferecer o máximo de conforto, interfaces amigáveis, segurança e funcionalidade com o uso de tecnologias de ponta. O visitante pode ir até o andar superior, ver os caixas eletrônicos do futuro, as mesas sensíveis ao toque, com a simulação de financiamentos de curto e longo prazos de casa, carro, bolsas de estudo, sistemas de saúde e outros.

E tudo sem uma única folha de papel.

 

 

.

agencia E.

Para BERNARDO QUEIROZ de ANDRADE – de almandrade / salvador.ba

(para Bernardo Queiroz de Andrade de  4 anos)

1-

De olhos bem abertos
atentos
para ver
pela primeira vez
o mundo
a mãe
a vida
a luz.
O espetáculo
do seu próprio
nascimento.

Almandrade

—–
2-

Uma criança
e um rosto alegre
brincadeira e sonho
talvez eu
não seja
segredo
o menino distante
os olhos
descobrindo
as mãos
inventando
saudade e tempo
o futuro espera
e revela.

Almandrade
—–
3-

A CRIANÇA E A JANELA

De uma pequena fresta
da  esquadria
a imaginação infantil
não avista
descobre
o mar
horizonte comprometido
com a ingenuidade.
O que é visto
ganha um nome
olha o desconhecido
é o mundo
com seus pássaros.

Almandrade

“Divulguem a teoria política do Supremo” – por wanderley guilherme dos santos / sãopaulo.sp

Licitamente derrotados, os conservadores e reacionários encontraram no STF o aval da revanche. O Legislativo está ameaçado pelo ressentimento senil da aposentadoria alheia. Em óbvia transgressão de competências, decisões penais lunáticas estupram a lógica, abolem o universo da contingência e fabricam novelas de horror para justificar o abuso de impor formas de organização política, violando o que a Constituição assegura. Declaram criminosa a decisão constituinte que consagra a liberdade de estruturação partidária.

Diante de um Legislativo pusilânime, Odoricos Paraguassú sem voto revelam em dialeto de péssimo gosto e falsa cultura a raiva com que se vingam, intérpretes dos que pensam como eles, das sucessivas derrotas democráticas e do sucesso inaugural dos governos enraizados nas populações pobres ou solidárias destes. Usando de dogmática impune, celebram a recém descoberta da integridade de notório negocista, confesso sequestrador de recursos destinados a seu partido, avaliam as coalizões eleitorais ou parlamentares como operações de Fernandinhos Beira-mar, assemelhadas às de outros traficantes e assassinos e suas quadrilhas.

Os quase quarenta milhões de brasileiros arrancados à miséria são, segundo estes analfabetos funcionais em doutrina democrática, filhos da podridão, rebentos do submundo contaminado pelo vírus da tolerância doutrinária e pela insolência de submeter interesses partidariamente sectários ao serviço maior do bem público. Bastardos igualmente os universitários do Pró-Uni, aqueles que pela primeira vez se beneficiaram com os serviços de saúde, as mulheres ora começando a ser abrigadas por instituições de governo para proteção eficaz, os desvalidos que passaram a receber, ademais do retórico manual de pescaria, o anzol, a vara e a isca.

Excomungados os que conheceram luz elétrica pela primeira vez, os empregados e empregadas que aceitaram colocações dignas no mercado formal de trabalho, com carteira assinada e previdência social assegurada. Estigmatizados aqueles que ascenderam na escala de renda, comparsas na distribuição do butim resultante de políticas negociadas por famigerados proxenetas da pobreza.

Degradados, senão drogados, os vitimados pelas doenças, dependentes das drogas medicinais gratuitas distribuídas por bordéis dissimulados em farmácias populares. Pretexto para usurpação de poder como se eleições fossem, maldigam-se as centenas de conferências locais e regionais de que participaram milhões de brasileiros e de brasileiras para discussão da agenda pública por aqueles de cujos problemas juízes anencéfalos sequer conhecem a existência.

O Legislativo está seriamente ameaçado pelo ressentimento senil da aposentadoria alheia. Em óbvia transgressão de competências, decisões penais lunáticas estupram a lógica, abolem o universo da contingência e fabricam novelas de horror para justificar o abuso de impor formas de organização política, violando o que a Constituição assegura aos que sob ela vivem. Declaram criminosa a decisão constituinte que consagra a liberdade de estruturação partidária. Vingam-se da brilhante estratégia política de José Dirceu, seus companheiros de direção partidária e do presidente Lula da Silva, que rompeu o isolamento ideológico-messiânico do Partido dos Trabalhadores e encetou com sucesso a transformação do partido de aristocracias sindicais em foco de atração de todos os segmentos desafortunados do país.

Licitamente derrotados, os conservadores e reacionários encontraram no Supremo Tribunal Federal o aval da revanche. O intérprete, contudo, como é comum em instituições transtornadas, virou o avesso do avesso, experimentou o prazer de supliciar e detonou as barreiras da conveniência. Ou o Legislativo reage ou representará o papel que sempre coube aos judiciários durante ditaduras: acoelhar-se.

Imprensa independente, analistas, professores universitários e blogueiros: comuniquem-se com seus colegas e amigos no Brasil e no exterior, traduzam se necessário e divulguem o discurso do ministro-presidente Carlos Ayres de Britto sobre a política, presidencialismo, coalizões e tudo mais que se considerou autorizado a fazer. Divulguem. Divulguem. Se possível, imprimam e distribuam democráticamente. É a fama que merece.

Os vencedores – por mino carta / são paulo.sp

É da percepção até do mundo mineral que Dilma Rousseff, Lula e a base governista são os vencedores deste primeiro turno das eleições municipais, e que a mídia nativa, além de mentir, omitir e inventar, consegue também ser patética. As lucubrações dos comentaristas no vídeo da noite de domingo último evocaram os melhores programas humorísticos do passado com suas tentativas de explicar o inexplicável.

No palanque. Para Haddad, daqui para a prefeitura. Foto: Nelson Almeida/AFP

E o mundo mineral sabe que a eleição de Lula em 2002 abriu uma nova temporada na política brasileira ao abalar os alicerces da casa-grande. Nesta moldura há de ser analisado o que aconteceu nos últimos dez anos e o que acontece neste exato instante. Inclusive o fato de que o PSB consiga resultados extraordinários em todo o País. Ocorre que Lula abriu as cancelas da fazenda e Dilma dá perfeita continuidade ao governo do antecessor.

Está claro, na minha visão, que na aliança governista o PMDB destoa e creio não ser necessário esclarecer por quê. Em todo caso, para usar terminologias dos dias de hoje, o governo de Dilma Rousseff poderia ser definido como de centro-esquerda, o que no Brasil assume significados mais profundos que em outros países. E a respeito, desta vez, esclareço. Este tempero de esquerda, esta alteração nítida nos rumos da política social e econômica e da política exterior é francamente subversiva segundo a casa-grande, inexistente em outros cantos, e como tal tem de ser enfrentada.

Toma-me o irresistível
 impulso de mencionar o Instituto Millenium. Tem o poder de recuar aos tempos do Ibad, que nos primeiros anos da década de 60 do século passado tramou decisivamente a favor do golpe. Precisamos falar mais do Instituto Millenium, mostrar a que vem com este seu sombrio nome nostradâmico. Para ele confluem polpudas contribuições de empresários graúdos, bem como o apoio das Organizações Globo e da Editora Abril. O conúbio assusta, mesmo porque sabemos que se recomenda neutralizar a lâmpada skuromatic e, ao apagá-la de vez, produzir a luz ao meio-dia, como convém.

Estranhas contradições vicejam no Millenium, promovidas pelos prestimosos emolumentos (mensalões) até de notáveis dispostos a se dizerem democratas convictos, amigões de Dilma e Lula. Espanto? Ou serei eu um ingênuo? Às vezes meus críticos botões me asseguram que sou mesmo. Não me iludo, porém, quanto ao significado dos resultados eleitorais. Falam por si, embora editorialistas, articulistas, colunistas não concordem.

Em São Paulo, digamos, praça onde Lula foi determinante, embora tenha entrado tarde na arena, e onde Dilma deu o arremate. Eu não hesito em vaticinar a vitória final de Fernando Haddad. Sei que com isso alimento os rancores de José Serra, e dele permito-me dizer algo, em ótima fé e boa consciência. Do ponto de vista ideológico, Serra já foi muito mais sincero do que Fernando Henrique Cardoso. Há uma diferença sensível, creio eu, nos temperamentos. FHC é um bon vivant, Serra um sofrido. FHC pode negar a si mesmo. “Esqueçam o que eu disse”, recordam? Serra, por injunção avassaladora nascida nas entranhas, tem de se explicar a si próprio o tempo inteiro.

Acredito na boa-fé
 do candidato tucano à prefeitura paulistana. Vítima de suas ambições mooquenses (da Mooca), por amarguras e decepções frequentes e até por dissabores buscados e cultivados, José Serra tornou-se intérprete do pior reacionarismo da extrema-direita brasileira, feroz sempre que esteja com as costas protegidas, pronta ao engodo e à mentira em nome do êxito da casta.

E aí está, já exposto na fala de Serra, o argumento do “mensalão”. CartaCapital está à vontade neste campo: sempre deixou claro desejar justiça, agora e sempre, além e aquém do processo em curso. É evidente que na conta da casa-grande o julgamento atual encerra o assunto.

Enganam-se. As urnas mostram que o País espera por mudanças e pouco, ou nada, se interessa pelo “mensalão”. Que se desate este nó, mas que se desatem todos os demais. Creio que os barões midiáticos deveriam cogitar da aposentadoria dos seus analistas. E que o Instituto Millenium desista de se dedicar à arqueologia.

Omar e o Bolo de Côco – por omar de la roca / são paulo.sp

 

” Quando cheguei na cozinha, ao contagem regressiva estava e dez e descendo rápido.Fiquei olhando para o relógio imaginando coisas sabendo que  eu não ia sair dali. Quatro,três, dois, um…Um apito,e a água para o meu chá estava quente.”  Disse Omar rindo. Mas é preciso deixar bem claro que entre ler e ouvir ele contando havia uma grande diferença. Ele fazia questão de interpretar cada palavra. Estava sério ao entrar na cozinha, de olhos arregalados ao ver o relógio contando para baixo, a cara de espanto sem saber o que fazer e o sorriso ao retirar o copo plástico de água quente de dentro do microondas e colocar um saquinho de chá dentro. Era sua veia artística que as vezes falava alto.Ele era reservado e normalmente quieto.Mas não dispensava um brincadeira de vez em quando.O problema é que gostava de brincadeiras inteligentes e piadas que fizessem as pessoas pensarem.Mas as vezes as pessoas queriam o riso fácil,debochado com preguiça de fazer a associação correta. E as vezes era uma piada particular que só ele entendia e ria sem que ninguém entendesse o porque. Agora ia fazer uma verdadeira preleção sobre o chá. Era um chá,ou melhor uma tisana, palavra antiga que quer dizer uma infusão de ervas,já que não havia sabor de chá  que  folha de chá propriamente dita, estava ausente.Ou tisana. Como outros muitos rótulos, dava-se um nome inapropriado para algumas coisas. Era uma mistura importada de alcaçuz, menta e limão, muito saborosa que dispensava açúcar,e como Omar estava com o nível alto e precisava se conter para não sair devorando tudo que fosse doce que cruzasse seu caminho.E que apesar de ser importado custava tanto quanto um bom chá nacional. E o custo benefício era compensador. A caixa com 25 custava em torno de 8 reais.Quando achava,  e num supermercado só, comprava duas. O açúcar era um caso sério. Com freqüência, ao começar a comer já estava pensando na sobremesa. Ansiedade, stress, ele sabia o que isso tudo era. De uns tempos para cá estava tendo uns apagões e consultou um neuro que pediu exames e receitou tarja preta. Ele ficou surpreso ao comprar o produto já que não sabia que tinha tal tarja. E surpreendeu-se com os progressos da medicina já que o remédio o fazia sentir-se bem. Sono ele já tinha bastante, um pouco mais, tudo bem. Mas vamos lá, preciso estar bem mesmo que tenha que tomá-lo,pensou antes de iniciar o tratamento. Era tido como o mais sério dos três. Persignava-se três vezes ao passar por toda e  qualquer igreja, mas não entrava nelas. Só se fosse para rezar para São Jorge, o que fazia em qualquer lugar. No fundo era corinthiano mas não confessava esta paixão a ninguém dizendo que não gostava de futebol. Com certeza abominava a bagunça que faziam em seu bairro quando o timão ganhava . Dizia que fitas pornô eram indecentes. Mas assistia a um DVD escondido  em casa, nas raras vezes em que ficava sozinho e podia se            “ divertir “ . Nesse ponto era parecido dom Kevin, mas a diferença entre os pornôs… bom, é melhor deixar pra lá qual era . Gostava de música clássica e de pintura. Mas também só podia ouvir quando estava sozinho já que apenas ele gostava. Pintura a óleo estava sujeito a fazer sujeira já que ele não era tão cuidadoso assim e as vezes limpava a ponta do dedo na barra da cortina da sala, e produziam um cheiro forte,que ele camuflava misturando terebintina com secante de cobalto. E a cachorrinha estava sempre por perto pronta para pular no colo dele ou dentro da caixa de tintas. Conseguir pintar era uma ginástica. Mas o relaxava e nestes tempos nos quais ele estava, precisava disto. Mas  duas coisa fazia questão absoluta de esconder de todos. Era um incorrigível romântico. Acreditava em finais felizes. Emocionava-se ao ver um filme quando os personagens finalmente de entendiam. E detestava injustiças  Assistiu A Beira do Abismo e no fim,quando o herói afronta o bandido , ficara tão descontrolado que quase rasgou a perna da calça de tanto puxá-la de nervoso. E tinha certo talento para poesia erótica. Nestes dias estava pensando e começara a escrever uma

Escrevi  lentamente todos os meus versos de amor com a ponta do dedo em tuas costas nuas. E quando passava da cintura você ria e apertava o corpo contra o colchão. E eu apagava tudo e escrevia outra e mais outra só para ver a tua reação. Uma vez pedi que escrevesses nas minhas costas. Mas escrevias rápido e eu não conseguia ler. E você perguntou se eu queria que você desenhasse. Beijei a tua nuca.  Pensei na tua idéia, pedi que deitasses e comecei a desenhar com alguns fios de teu cabelo, enfiando na orelha de vez em quando para que não dormisses. Você disse  rindo que desenhos eróticos não valiam. E eu apaguei tudo. E comecei a desenhar uma flor com um longo caule que descia pelas tuas coxas.. Mas você não queria que eu terminasse o caule. Em determinado ponto você não deixou mais que eu continuasse. Tudo bem, eu disse, vou apagar tudo. E você disse tudo não apenas o caule. Escrevi outro poema que começava com“ Teus olhos brilham como o reflexo das estrelas na espuma do mar,e me encaram como  o  vento de calmaria,” . Teus olhos se nublaram e você disse que você não era tudo aquilo.Que você se sentia como Lady de Shallot, condenada a ver o mundo através do reflexo de um espelho,que refletia outro e mais outro até não distinguir mais realidade de fantasia.Beijei tuas espáduas.E quebrei os espelhos que refletiam o salgueiro no lago. Com jeito te deitei de costas e você meio que escondeu os seios com as mãos. Eu disse que queria escrever naquela folha também mas você resistia. Fui passando o dedo até onde alcançava, até você relaxar e segurar minha mão e escrever com ela a palavra que você queria, aonde você queria. E eu me deixei guiar.Já conhecia as rimas todas. Fui escrevendo, um pouco aqui, um pouco ali . Até que a página ficou inteira, a estória fazia sentido e eu podia continuar apenas passando o dedo em tuas costas enquanto cochilavas. E eu prestava atenção na chuva que caia. Aquela chuva  que você tanto esperava,.mas que agora não vias em teu sono. Aquela chuva que me trazia lembranças de outras chuvas, outras épocas. Épocas de águas mágicas caindo das  folhas em nossos corpos abraçados,respingando nos cabelos,nos ombros,no peito, ventre chegando aos pés nus que brincavam nas poças.

Omar olhou o relógio.Ouviu um rebuliço na cozinha.Era aniversário da loira da contabilidade e o pessoal tinha comprado um bolo para comemorar. Um bolo branco coberto com fitas de côco. “ Que pena, ia gostar mais se fosse de chocolate… “ . Mas levantou-se depressa , afinal, açúcar era açúcar !!! E, com certeza, repetiu mais de uma vez. Com dois copos de Coca Zero.

Poeta GILDA E. KLUPPEL homenageia HELENA KOLODY no mes de seu aniversário de nascimento.

Na Janela com Helena

 

 

 

 

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De olhos azuis

Helena ucraniana

Helena de luz

plena em frases curtas

rasgando o tédio do frio

Helena de cabelos brancos

neblina ao amanhecer

Helena curitibana

pelas entranhas da cidade

da janela para a praça

sonhava poemas

entre suas estrelas

traçadas em vidraças

compostas por gotas de orvalho

pintadas em muros

presenciou tantas mudanças

dos bondes elétricos

aos ônibus vermelhos

estações em cilindros de plástico

os arranha-céus cada vez mais altos

escondendo as torres da Catedral

e as carroças de Santa Felicidade

ainda trepidavam em suas lembranças

o tempo passa, Helena fica

nas palavras chamadas de pássaros

formaram em Curitiba

o ninho para seus versos.

A EUROPA E A DÍVIDA – por paulo timm / portugal.pt

 

Em Portugal, acompanho diariamente a evolução das reações populares frente à crise econômica em toda a Europa. Preocupante!

Tudo começou, em 2008,  quando estourou a bolha imobiliária nos Estados Unidos. País de economia e instituições sólidas, com uma moeda mais forte do que sua própria economia – o dólar -, de emissão fácil pelo Tesouro Americano e circulação no mundo inteiro, os americanos vão levando a crise de barriga. Mesmo insatisfeitos, parece que vão reeleger Obama para mais quatro anos. E continuar entulhando o mundo de dólares fáceis…É o tal “tsuname” monetário do qual tanto fala a Presidente Dilma e sobre o qual voltou em seu discurso na Abertura da Assembléia Geral da ONU nesta semana.

A União Europeia- EU – , com seus 27 países independentes e com estruturas econômicas e tamanhos  muito  diferentes, vem sofrendo mais.   É mais difícil de administrar a crise sem unidade política efetiva e centralização do Poder. No fundo, a União Europeia ainda é um Projeto. Tem um mercado de 500 milhões de consumidores, mas sua moeda, o euro, comum a 17 países, convive com outras 10, de países que a rejeitaram, como a Inglaterra. Fez também esta região um grande esforço de equalização interna  de infraestrutua física e social, nos últimos 20 anos, com o objetivo de facilitar a unificação de direitos e a circulação de mercadorias. É impressionante verificar o Portugal de hoje, com o país que conheci em 1979. As estradas e as pontes são simplesmente impressionantes. E são exatamente esses países menores e que se incorporaram à União Europeia os que mais sofrem com a crise. E que, à falta de mecanismos de Política Monetária soberana, com economias mais frágeis, mais afundam. Já se diz que a Grécia sairá do bloco até o final do ano.  Endividados, enfim, seus Governos são obrigados pela chamada Troika, as três instituições que lhes socorrem impondo condições – O Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a União Europeia , à severas medidas de austeridade. Governos de esquerda e de direita se sucedem a cada ano, sem conseguir resultados palpáveis. A eleição de um Presidente Socialista na França, recentemente, vem trazendo alguma esperança de um modelo alternativo para enfrentar a crise, mas ainda não há certeza absoluta se vai dar certo.

Enquanto isso, as manifestações vão às ruas contra a austeridade que corta benefícios sociais, diminui o valor de aposentadorias e pensões e eleva os impostos.

Dia 15 de setembro Madrid e Lisboa presenciaram mobilizações gigantescas. Na Grécia elas são quase diárias. Em Barcelona, capital catalã, soma-se o repúdio às medidas do Governo de Madrid, um forte sentimento de independência da região.

Ontem de novo, pelo que nos conta a  Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, um Movimento que pretende questionar as dívidas governamentais ,  a economista brasileira Maria Lucia Fattorelli,  quem se encontra na Espanha, participando de eventos com os grupos de Auditoria Cidadã da Dívida europeus:

 Os jornais noticiam as grandes manifestações ocorridas na Espanha e na Grécia, contra severos cortes de gastos na previdência, salários dos servidores públicos e outros programas sociais. Tais cortes servem para permitir o pagamento de questionáveis dívidas, feitas para o salvamento de bancos falidos. Na Espanha, os manifestantes cercaram o Congresso, exigindo a rejeição do pacote, onde 64 pessoas ficaram feridas e 35 foram presas. Na Grécia, onde os trabalhadores fazem uma greve-geral, 70 mil pessoas foram em passeata ao Parlamento, e também ocorreram violentos confrontos com a polícia.

Em Portugal, a crise traz de volta o fantasma da emigração, reverberando novos acordes de melancolia no fado tradicional. Mais de 70.000 jovens saem anualmente do país em busca de oportunidades. Só que eles não são mais como os patrícios pobres do norte do país que emigraram em massa no século passado para Europa e Brasil. São engenheiros, administradores, médicos, cérebros , enfim, que drenam uma energia vital para a renovação da vida portuguesa. Uma catástrofe. E os que não saem, acicatados por uma taxa de desemprego média de 16% mas que chega a 30% entre eles,  retornam para as casas de suas famílias no interior, esvaziando as cidades maiores, levando o pequeno comércio à falência e produzindo uma sensação de frustração muito grande da população com o processo de integração europeia.  

Tínhamos começado este século sob os auspícios do coroamento de um projeto de modernização do mundo que parecia triunfante, sob hegemonia liberal americana. Em menos de cinco anos tudo parece miragem. O castelo está desmoronando a olhos vistos. Em outros tempos, uma Revolução Social seriam inevitável. Hoje, todo mundo sabe o que não quer, mas, exceção aos fundamentalistas religiosos ou ideológicos, ninguém sabe o que quer. O povo enraivecido, os governos titubeantes, a inteligência, perplexa…

 

Morre poeta peruano Antonio Cisneros

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina

06/10/2012 | 14:10 | AFP

O poeta peruano Antonio Cisneros, vencedor do Prêmio Iberoamericano de Poesia Pablo Neruda 2010 e uma das mais importantes vozes de língua espanhola dos últimos anos, faleceu neste sábado em Lima aos 69 anos em consequência de um câncer pulmonar, informaram seus familiares.

Cisneros era considerado um dos mais importantes poetas da América Latina e sua obra também foi reconhecida com o prêmio Poeta do Mundo Latino Víctor Sandoval no México, com o prêmio Gabriela Mistral da OEA e com o prêmio Rubén Darío na Nicarágua, entre outros.

O poema “Canto ceremonial contra un oso hormiguero”, com o qual obteve em 1968 o prêmio Casa de Las Américas, o catapultou ao pódio latino-americano das letras, a partir do qual conquistou um reconhecimento internacional.

Uma de suas filhas informou à AFP que Cisneros morreu ao amanhecer na casa onde vivia em Lima, rodeado por seus três filhos e por sua esposa.

A espetacularização e a ideologização do Judiciário – por leonardo boff / são paulo.sp

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa.

 

É com muita tristeza que escrevo este artigo no final da tarde desta quarta-feira, após acompanhar as falas dos ministros do Superemo Tribunal Federal. Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades e o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A Ideologia Alemã, de Marx/Engels (1846), até o Conhecimento e Interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.

Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.

Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se a aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros. Mas nunca como presidente.

Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.

Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminossísima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.

 

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

HOMENAGEM FINAL à GAUCHADA PELAS COMEMORAÇÕES DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

Uma cortesia dos Torpedos ao facebook.

Pois é meus amigos, temos que aceitar a situação, o mundo não é mais de professores, muito menos dos políticos, e olha que eles se esforçam. E muito menos de escritores, filósofos ou de artistas plásticos ou de músicos ou poetas. De economistas, de sociólogos, antropólogos? Nem pensar. Já foi tempo em que até arquitetos ficavam famosos, cansei de dar entrevistas no Correio e na Tv, nos anos 70 e 80. Isso tudo já era. O mundo agora é dos jogadores de futebol, dos cantores populares, dos atores de Tv e das chamadas celebridades, uma profissão nova que circula por aí e acumula funções com as outras, inclusive com a mais antiga de todas. Pra vocês verem, até uns programinhas bem discretos sobre literatura que havia na Tv a cabo, de repente foram tomados pelos Caetanos, Gils e Chicos e Martinhos, etc. É a Tv em busca de audiência. Até o Paulo Coelho, que veio da canção popular (fazia letras pras maluquices do Raulzito), e diz ter sido escritor, está tendo que dizer umas coisas de quando ele se internava no Pinel, pra tentar atrair o olhar da mídia.

Então, nesta última homenagem, me desculpem os gaúchos mais letrados, mas vou ter que apelar. Vou falar um pouco de um grande cantor popular do Rio Grande. Vou logo avisando: não é o Lupicínio, muito menos Kleiton e Kleidir, que têm sotaque dos Beatles, que, como vocês sabem, iniciaram o processo de aveadagem do rock, com aquelas franjinhas e terninhos abichalados, cantando, “deu pra ti, baixo astral, Ciao”. Devem ser de Pelotas, não sei não.
O cara a que me refiro, começou com um “tiro ao alvo” em Passo Fundo, tinha um programa de rádio por lá, foi passear em Porto Alegre, voltou, vendeu o “tiro ao alvo”, gravou “Coração de Luto” que o pessoal mais refinado, fã dos Beatles e do Michael Jackson, chamava pejorativamente de “churrasco de mãe”. Teixeirinha comprou uma produtora de cinema, e fez doze filmes, felizmente ainda não vi nenhum. Bem, Teixeirinha foi o sujeito que mais vendeu discos no Brasil, e quiçá no mundo, vendeu mais do que o Michael e a Madona. Falam em 120 milhões de cópias, sabem como são os gaúchos. Pois é, entre ele e o Michael e a Madona, fico com Teixeirinha. Quer dizer, sugiro que a gauchada fiquem com Teixeirinha, porque eu fico mesmo é com a Angelina Jolie.

 

Helena Kolody: Biblioteca Pública promove atividades pelos 100 anos

Biblioteca Pública do Paraná (BPP) promove, de segunda (8) a quinta-feira (11), a Semana Helena Kolody 100 anos, com atividades grátis para celebrar o centenário do nascimento da autora, comemorado em 12 de outubro. No hall térreo e nas escadarias do prédio, até o dia 26, estarão expostas fotografias, poemas e depoimentos da autora. Durante toda a semana, o elenco do Grupo Delírio Cia de Teatro fará leituras de poemas da autora em diversas salas da biblioteca, em horários variados.

Serviço: Semana Helena Kolody 100 anos. De 8 a 11 de outubro. Diversas atividades com entrada franca. Biblioteca Pública do Paraná – Rua Cândido Lopes, 133. Curitiba. Horário: 2.ª a 6.ª, das 8h30 às 20 horas. Sábado, das 8h30 às 13 horas. Mais informações: (41) 3221-4900 ou

EM TEMPO DE ELEIÇÕES – por paulo timm / portugal.pt

 

Em tempo de eleições, candidatos e eleitores ficam de olho nas pesquisas eleitorais. Elas reinam   soberanas nas campanhas. Depois são esquecidas, como são esquecidos os números da própria eleição.  Lá ficam eles arquivados nos sites da Justiça Eleitoral, como meras estatísticas, desprovidas de encanto. Mas agora é campanha e pesquisa eleitorais…

Muitos têm se debruçado ao estudo da importância das pesquisas eleitorais. Um sociólogo francês , Patrick Champagne, costumava  dizer que  estávamos diante de  grave inversão no processo político, como se fosse o rabo a abanar o cachorro e não vice-versa:  “ As pesquisas de opinião passaram a ser divulgadas como se fossem a própria opinião pública e substituíram a opinião qualitativa dos acadêmicos” (Cesar Maia,Newsletter). Os próprios analistas políticos, de formação jornalística, senhores das colunas nobres em todos os níveis da imprensa, do nacional ao local, desaparecem nesse processo e acabam rendendo-se à análise dos números das pesquisas. Muitos acabam chegando à conclusão de que, no futuro, nem haverá mais necessidade de se fazer eleições diretas, secretas e universais. Basta aplicar pesquisas, cada vez mais refinadas. Será..? Não acredito. De qualquer forma é importante se discutir um pouco sobre como se forma a opinião pública sobre um candidato. Mais do isso: Como se forma o estado de espírito do eleitor no processo eleitoral?

O ponto de partida é a cultura política e a confiança nas instituições a ela associadas: Partidos, Congresso e Camaras legislativas , políticos etc.

Uma cultura política não se constrói de uma hora para outra. Ela responde pelo longo processo através do qual os mecanismos de poder se constituem, ou seja, da forma como uma comunidade se organiza para formular , implantar a Lei e produzir resultados sociais comuns. Outro sociólogo, alemão, Max Weber, muito mais agudo no estudo dos sistemas de dominação política do que seu conterrâneo mais famoso – Karl Marx – , nos deixou o entendimento deste processo, que vai do  encantamento com o líder carismático ao desencanto racional, embora institucionalizado ,  do Estado Moderno. Permeando este trânsito, as próprias transformações de uma sociedade tradicional, pouco desenvolvida em termos de produtividade econômica e complexidade social, rumo à modernidade. Ou seja, a cultura política numa sociedade tribal  será inevitavelmente diferente da política numa sociedade industrial pós-moderna, onde aliás, se incorpora à agenda dos espetáculos.

Mas tanto numa sociedade tradicional como numa sociedade contemporânea a Política terá seus valores, seus rituais, seus mecanismos de realimentação e até mudança. Mesmo nos modelos hierárquicos de inspiração divina, por exemplo, como as monarquias chinesas antigas, os Reis eram obrigados a interpretar os desígnios insondáveis à luz das necessidades terrenas, sob pena de serem sumariamente destituídos diante de catástrofes e grandes dificuldades sociais. A flexibilidade para a destituição do líder diante da frustração dos liderados é, aliás, uma das chaves principais na construção de uma vontade popular no processo político, sendo uma das vantagens apontadas pelos parlamentaristas sobre os presidencialistas.  A rotatividade, enfim, dos representantes dos eleitores, é também um indicador da permeabilidade do sistema político à novos agentes no processo político, sejam por classes , gênero ou idade. Um sistema político que eterniza, por exemplo, grandes proprietários que se profissionalizam e se encastelam em posições políticas, impedindo a renovação de lideranças, será, fatalmente, fadado ao fechamento de seus horizontes de mudança.

Tudo isto se reflete, por fim, nos índices de confiança nas instituições políticas de um país.

As pesquisas, no Brasil, a este respeito são preocupantes. Há um descrédito muito grande das instituições políticas e este descrédito pode levar ao desinteresse da cidadania pelas eleições e pelo futuro da coisa pública. Basta, aliás, consultar as Redes Sociais e se perceberá o que estou dizendo. Políticos e instituições como Congresso Nacional e até o Judiciário são verdadeiramente achincalhados. Veja-se, pois, o último resultado de uma Pesquisa Datafolha, divulgada pela Folha de Sáo Paulo no último dia 12 e que evidencia o descrédito da opinião pública sobre o Congresso e os Partidos Políticos:

Pela ordem: Confia Muito x Confia um Pouco x NãoConfia.

a) Presidência da Republica 33% x 52% x 15%

b)Imprensa: 31% x 51% x 18%

c) Supremo Tribunal Federal 16% x 51% x 32%

d) Congresso Nacional 8% x 40% x 52%

e) PartidosPolíticos 7% x 41% x 52%.

Preocupante…

 

 

“Um País justo e desenvolvido” – por Dilma Rousseff / brasilia.df

Presidenta Dilma Rousseff.

O Brasil de 2030 estará entre os países mais desenvolvidos e mais democráticos do mundo. Será mais justo e menos desigual, como nunca antes em sua história. 

Na última década, adotamos um modelo de desenvolvimento baseado no crescimento, na estabilidade e na inclusão social. Hoje somos a sexta economia mundial e estamos nos tornando um país de classe média, oferecendo oportunidades para todos os brasileiros. O Brasil de 2030 será a tradução de todo esse esforço que temos feito.

Não haverá pessoas vivendo em extrema pobreza no Brasil de 2030. Desde 2003 perseguimos radicalmente esse objetivo. Por meio do crescimento consistente da economia, da geração de empregos e de instrumentos efetivos de distribuição de renda, estamos chegando lá. Começamos com o Bolsa Família, no governo Lula, que abriu caminho para o Brasil sem Miséria. Elevamos 40 milhões de pessoas à classe média e continuamos, a cada dia, superando metas e desafios para garantir a inclusão dos que ainda vivem na extrema pobreza.

O Brasil de 2030 será um país que cuida de todas as suas crianças. Para isso, demos um grande passo com a criação do Brasil Carinhoso, que complementa a renda das famílias que tenham crianças até 6 anos de idade e uma renda menor que 70 reais per capita.

O Brasil de 2030 será também o país que garante acesso à creche, à educação em tempo integral, à formação técnica e superior a todos os brasileiros. Certamente, farão parte desse futuro os estudantes brasileiros que, por meio do programa Ciência sem Fronteiras, terão ampliado seus conhecimentos nas melhores universidades do mundo.

No Brasil de 2030, qualquer cidadão terá acesso a bons serviços e a um atendimento ágil na rede pública de saúde. Com mais recursos e investimentos numa gestão eficiente, estamos aprimorando e fortalecendo o SUS, um dos maiores sistemas públicos de atendimento universalizado do mundo.

Daqui a 18 anos, o Brasil será um país inovador e tecnologicamente desenvolvido, e também o país do pleno emprego e do empreendedorismo.

Manterá o ritmo de sua evolução nesta primeira década do século, quando foram criados mais de 19 milhões de empregos e formalizados mais de 2 milhões de microempreendedores.

Conseguimos antever também um Brasil mais moderno e competitivo na área de infraestrutura, na qual estamos investindo fortemente. O Plano de Investimento em Logística nas áreas de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos dará ao Brasil uma infraestrutura compatível com o seu tamanho e com as necessidades de sua população. Sem abrir mão de seu papel de planejamento e fiscalização, o Estado continuará, em parceria com a iniciativa privada, executando as medidas necessárias para sustentar o crescimento da economia, do emprego e da renda de todos os brasileiros.

O Brasil de 2030 estará colhendo os frutos da opção pela sustentabilidade. Crescer, incluir, proteger e preservar continuará sendo a base de nosso modelo de desenvolvimento. Ainda seremos um país com grandes reservas naturais, que explora racionalmente a sua biodiversidade e tem a matriz energética mais limpa e eficiente do mundo. Ao mesmo tempo, nas próximas décadas, o Brasil alimentará o mundo como maior produtor agropecuário do planeta.

Mantido o ritmo do nosso crescimento, a pujança da nossa democracia e a constante evolução social e econômica do nosso povo – e não vejo motivo para que essa trajetória venha a ser interrompida -, tenho certeza de que no Brasil de 2030 viverão os filhos da igualdade, da inclusão e da justiça social. Uma geração preparada para assumir as rédeas do seu país e viver os benefícios de uma era de prosperidade.

E assim que vejo o país do meu neto. Olho para o Gabriel com um misto natural de curiosidade e preocupação, como acontece com todos os avós. E toda vez que tento imaginá-lo com 20 anos, iniciando a sua vida adulta, começando a lutar para construir sua história pessoal, sou otimista. Eu o vejo, como a milhões de jovens de sua geração, vivendo bem em um Brasil feliz, generoso e justo com todos os seus cidadãos e cidadãs. Um Brasil orgulhoso de ser o que é: um grande país.

Catarinense de 19 anos se destaca com texto montado pelo Club Noir – curitiba.pr

“A obra de Martina Sohn Fischer avança em direções até agora não trilhadas pela dramaturgia, ampliando a experiência estética do nosso tempo, através da invenção de outras linguagens, isto é: de outras formas de vida.”

Crítica: “Aqui” é um acontecimento extraordinário na dramaturgia

Receber um elogio desses de um dos mais importantes diretores teatrais do Brasil atualmente, Roberto Alvim, não é pouca coisa. Ainda mais para quem tem apenas 19 anos e, até um ano e meio atrás, levava uma vida tranquila em uma cidade do interior de Santa Catarina.

Nascida em Porto União, descendente de família alemã, Fischer viu muita coisa mudar em sua vida após se transferir para Curitiba em 2011 e, principalmente, ter sua peça “Aqui” montada neste ano pelo Club Noir (grupo de Alvim e Juliana Galdino) –como parte da Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea.

“Bah, foi lindo demais. Tudo isso aconteceu muito rápido e, quando o Roberto me deu a notícia de que tinham selecionado o meu texto, foi realmente uma surpresa!”, escreve ela em entrevista feita através do Facebook, ao qual está sempre conectada.

Guilherme Pupo/Folhapress
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba
A dramaturga Martina Sohn Fischer em sua casa em Curitiba

INFÂNCIA

Revezando seu tempo entre a vida em casa, a escola, as brincadeiras nas ruas e as leituras por todos os cantos, Fischer conta que cresceu tomando gosto por manipular as palavras, o que relaciona com o próprio modo de vida que levava no interior.

“Sempre fui uma criança muito livre. Lembro que, desde que comecei a escrever, o que eu mais gostava era de ter essa liberdade. Essa mesma liberdade infantil, de inventar coisas e viver nelas.”

A escrita, naquele momento, surgiu ainda sem relação direta com a dramaturgia, já que a maior escola era a literatura, não o teatro. “Eu até frequentei algumas aulas de atuação, mas nunca levei jeito para a coisa”, conta.

Na leitura, por outro lado, Fischer partiu logo cedo dos livros de Júlio Verne e dos romances policiais para seguir pelos mundos de Bukowski, Jack Kerouac, John Fante, Faulkner e Kafka.

Foi em 2010, através de um projeto oferecido por sua escola, que acabou caindo “por total acaso” em um núcleo de dramaturgia desenvolvido na cidade vizinha (União da Vitória), onde assistiu a uma palestra de Roberto Alvim.

Quando se mudou para Curitiba, em 2011, Fischer passou a frequentar o curso quinzenal que o diretor ministra na cidade. Em contato cada vez maior com o mundo teatral –e com as obras de Heiner Müller, Strindberg, Sarah Kane, Beckett etc.–, a nova dramaturga começou a “parir” suas primeiras peças, entre elas “Aqui”.

PERDER O CONTROLE

“Eu sentava para escrever e eu era mil coisas, menos a Martina”, conta. “Começo a escrever por pulsões desconhecidas e, quando vejo, sinto que sou parasita da obra. Eu peço mais a ela e ela me dá. Esse tipo de relação é uma loucura, perder o controle da própria obra é uma experiência que também está ligada com a liberdade.”

Questionada sobre o temor de perder algo dessa liberdade após o reconhecimento precoce e com a expectativa que pode se criar em torno de seu nome, Fischer responde:

“A responsabilidade é da obra, então, depois de terminada, eu só tenho que continuar escrevendo. E as obras se criam sozinhas, só preciso parir. Não que seja fácil! Mas esse ‘fazimento’ acontece em um lugar desconhecido, onde não é nem possível pensar na recepção que a obra vai ter, ela simplesmente se dá, é imprevisível e instável.”

Preocupação maior, por enquanto, é se preparar para prestar o vestibular no fim do ano, para entrar no curso de filosofia na Universidade Federal do Paraná.

 

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MARCOS GRINSPUM FERRAZ
COLABORAÇÃO DE

ERIC HOBSBAWN, UM DOS MAIORES HISTORIADORES DO SÉCULO XX, MORRE AOS 95

Mente brilhante e autor do clássico “A era dos extremos”, ele foi um dos principais observadores do século XX; sua morte foi anunciada nesta manhã em Londres, pela filha Julia

1 DE OUTUBRO DE 2012 ÀS 07:40

247 – Acaba de ser anunciada a morte de Eric Hobsbawn, um dos maiores historidadores de todos os tempos, autor do clássico “A era dos extremos”.Marxista, Hobsbawn influenciou uma longa geração de historiadores e políticos e teve sua morte anunciada nesta manhã pela filha Julia, em Londres.

De acordo com o também historiador Nial Ferguson, os livros de Hobsbawn são o melhor ponto de partida para qualquer pessoa disposta a conhecer o que foi o século XX, marcado por guerras e revoluções.

Nascido em Alexandria, no Egito, e filho de uma família judia, ele foi criado em Viena e Berlim e se mudou para Londres em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder. Desde 1978, ele era membro da British Academy.

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Veja os livros de Eric Hobsbawm publicados no Brasil

01 de outubro de 2012 

Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008. Foto: EFE
Eric Hobsbawn, um dos maiores historiadores do último século, em foto de 2008
Foto: EFE

Falecido nesta segunda-feira em Londres aos 95 anos, o historiador britânicos Eric Hobsbawm é referência unânime para o estudo da história moderna e o marxismo. Confira abaixo algumas suas obras publicadas no Brasil:

A era das revoluções – 1789-1848 (2009, Paz e Terra)

A era do capital – 1848-1875 (2009, Paz e Terra)

A era dos impérios – 1875-1914 (2009, Paz e Terra)

A era dos extremos – O breve século XX (1995, Cia. das Letras)

História do marxismo – 12 volumes (1985-1989, Paz e Terra)

Estratégias para uma esquerda racional – Escritos políticos – 1977-1988 (1991, Paz e Terra)

A revolução francesa (1996, Paz e Terra)

História social do jazz (1990, Paz e Terra)

Ecos da Marselhesa – Dois séculos reveem a Revolução Francesa (1996, Cia. das Letras)

Pessoas extraordinárias – Resistência, rebelião e jazz (1998, Paz e Terra)

Sobre história (1998, Cia. das Letras)

Mundos do trabalho (2000, Paz e Terra)

O novo século – Entrevista a Antonio Polito (2000) – também em edição de bolso (2009, Cia. das Letras)

Tempos interessantes – Uma vida no século XX (2002, Cia. das Letras)

Revolucionários – Ensaios contemporâneos (2003, Paz e Terra)

A transição do feudalismo para o capitalismo – Um debate (com outros autores) (2004, Paz e Terra)

Depois da queda – O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo (com outros autores) (2005, Paz e Terra)

Globalização, democracia e terrorismo (2007, Cia. das Letras)

A invenção das tradições (2008, Paz e Terra)

Nações e nacionalismo desde 1780 (2008, Paz e Terra)

Da revolução industrial inglesa ao imperialismo (2009, Forense Universitária)

Bandidos (2010, Paz e Terra)

Os trabalhadores – Estudos sobre a história do proletariado (2010, Paz e Terra)

Como mudar o mundo – Marx e o marxismo 1840-2011 (2011, Cia. das Letras)

AO PÉ do TÚMULO – auta de souza / natal.rn

Ao Pé do Túmulo 

 

 

 

 

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós… Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais…

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
“Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais”.