A EUROPA E A DÍVIDA – por paulo timm / portugal.pt

 

Em Portugal, acompanho diariamente a evolução das reações populares frente à crise econômica em toda a Europa. Preocupante!

Tudo começou, em 2008,  quando estourou a bolha imobiliária nos Estados Unidos. País de economia e instituições sólidas, com uma moeda mais forte do que sua própria economia – o dólar -, de emissão fácil pelo Tesouro Americano e circulação no mundo inteiro, os americanos vão levando a crise de barriga. Mesmo insatisfeitos, parece que vão reeleger Obama para mais quatro anos. E continuar entulhando o mundo de dólares fáceis…É o tal “tsuname” monetário do qual tanto fala a Presidente Dilma e sobre o qual voltou em seu discurso na Abertura da Assembléia Geral da ONU nesta semana.

A União Europeia- EU – , com seus 27 países independentes e com estruturas econômicas e tamanhos  muito  diferentes, vem sofrendo mais.   É mais difícil de administrar a crise sem unidade política efetiva e centralização do Poder. No fundo, a União Europeia ainda é um Projeto. Tem um mercado de 500 milhões de consumidores, mas sua moeda, o euro, comum a 17 países, convive com outras 10, de países que a rejeitaram, como a Inglaterra. Fez também esta região um grande esforço de equalização interna  de infraestrutua física e social, nos últimos 20 anos, com o objetivo de facilitar a unificação de direitos e a circulação de mercadorias. É impressionante verificar o Portugal de hoje, com o país que conheci em 1979. As estradas e as pontes são simplesmente impressionantes. E são exatamente esses países menores e que se incorporaram à União Europeia os que mais sofrem com a crise. E que, à falta de mecanismos de Política Monetária soberana, com economias mais frágeis, mais afundam. Já se diz que a Grécia sairá do bloco até o final do ano.  Endividados, enfim, seus Governos são obrigados pela chamada Troika, as três instituições que lhes socorrem impondo condições – O Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a União Europeia , à severas medidas de austeridade. Governos de esquerda e de direita se sucedem a cada ano, sem conseguir resultados palpáveis. A eleição de um Presidente Socialista na França, recentemente, vem trazendo alguma esperança de um modelo alternativo para enfrentar a crise, mas ainda não há certeza absoluta se vai dar certo.

Enquanto isso, as manifestações vão às ruas contra a austeridade que corta benefícios sociais, diminui o valor de aposentadorias e pensões e eleva os impostos.

Dia 15 de setembro Madrid e Lisboa presenciaram mobilizações gigantescas. Na Grécia elas são quase diárias. Em Barcelona, capital catalã, soma-se o repúdio às medidas do Governo de Madrid, um forte sentimento de independência da região.

Ontem de novo, pelo que nos conta a  Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, um Movimento que pretende questionar as dívidas governamentais ,  a economista brasileira Maria Lucia Fattorelli,  quem se encontra na Espanha, participando de eventos com os grupos de Auditoria Cidadã da Dívida europeus:

 Os jornais noticiam as grandes manifestações ocorridas na Espanha e na Grécia, contra severos cortes de gastos na previdência, salários dos servidores públicos e outros programas sociais. Tais cortes servem para permitir o pagamento de questionáveis dívidas, feitas para o salvamento de bancos falidos. Na Espanha, os manifestantes cercaram o Congresso, exigindo a rejeição do pacote, onde 64 pessoas ficaram feridas e 35 foram presas. Na Grécia, onde os trabalhadores fazem uma greve-geral, 70 mil pessoas foram em passeata ao Parlamento, e também ocorreram violentos confrontos com a polícia.

Em Portugal, a crise traz de volta o fantasma da emigração, reverberando novos acordes de melancolia no fado tradicional. Mais de 70.000 jovens saem anualmente do país em busca de oportunidades. Só que eles não são mais como os patrícios pobres do norte do país que emigraram em massa no século passado para Europa e Brasil. São engenheiros, administradores, médicos, cérebros , enfim, que drenam uma energia vital para a renovação da vida portuguesa. Uma catástrofe. E os que não saem, acicatados por uma taxa de desemprego média de 16% mas que chega a 30% entre eles,  retornam para as casas de suas famílias no interior, esvaziando as cidades maiores, levando o pequeno comércio à falência e produzindo uma sensação de frustração muito grande da população com o processo de integração europeia.  

Tínhamos começado este século sob os auspícios do coroamento de um projeto de modernização do mundo que parecia triunfante, sob hegemonia liberal americana. Em menos de cinco anos tudo parece miragem. O castelo está desmoronando a olhos vistos. Em outros tempos, uma Revolução Social seriam inevitável. Hoje, todo mundo sabe o que não quer, mas, exceção aos fundamentalistas religiosos ou ideológicos, ninguém sabe o que quer. O povo enraivecido, os governos titubeantes, a inteligência, perplexa…

 

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