Omar e o Bolo de Côco – por omar de la roca / são paulo.sp

 

” Quando cheguei na cozinha, ao contagem regressiva estava e dez e descendo rápido.Fiquei olhando para o relógio imaginando coisas sabendo que  eu não ia sair dali. Quatro,três, dois, um…Um apito,e a água para o meu chá estava quente.”  Disse Omar rindo. Mas é preciso deixar bem claro que entre ler e ouvir ele contando havia uma grande diferença. Ele fazia questão de interpretar cada palavra. Estava sério ao entrar na cozinha, de olhos arregalados ao ver o relógio contando para baixo, a cara de espanto sem saber o que fazer e o sorriso ao retirar o copo plástico de água quente de dentro do microondas e colocar um saquinho de chá dentro. Era sua veia artística que as vezes falava alto.Ele era reservado e normalmente quieto.Mas não dispensava um brincadeira de vez em quando.O problema é que gostava de brincadeiras inteligentes e piadas que fizessem as pessoas pensarem.Mas as vezes as pessoas queriam o riso fácil,debochado com preguiça de fazer a associação correta. E as vezes era uma piada particular que só ele entendia e ria sem que ninguém entendesse o porque. Agora ia fazer uma verdadeira preleção sobre o chá. Era um chá,ou melhor uma tisana, palavra antiga que quer dizer uma infusão de ervas,já que não havia sabor de chá  que  folha de chá propriamente dita, estava ausente.Ou tisana. Como outros muitos rótulos, dava-se um nome inapropriado para algumas coisas. Era uma mistura importada de alcaçuz, menta e limão, muito saborosa que dispensava açúcar,e como Omar estava com o nível alto e precisava se conter para não sair devorando tudo que fosse doce que cruzasse seu caminho.E que apesar de ser importado custava tanto quanto um bom chá nacional. E o custo benefício era compensador. A caixa com 25 custava em torno de 8 reais.Quando achava,  e num supermercado só, comprava duas. O açúcar era um caso sério. Com freqüência, ao começar a comer já estava pensando na sobremesa. Ansiedade, stress, ele sabia o que isso tudo era. De uns tempos para cá estava tendo uns apagões e consultou um neuro que pediu exames e receitou tarja preta. Ele ficou surpreso ao comprar o produto já que não sabia que tinha tal tarja. E surpreendeu-se com os progressos da medicina já que o remédio o fazia sentir-se bem. Sono ele já tinha bastante, um pouco mais, tudo bem. Mas vamos lá, preciso estar bem mesmo que tenha que tomá-lo,pensou antes de iniciar o tratamento. Era tido como o mais sério dos três. Persignava-se três vezes ao passar por toda e  qualquer igreja, mas não entrava nelas. Só se fosse para rezar para São Jorge, o que fazia em qualquer lugar. No fundo era corinthiano mas não confessava esta paixão a ninguém dizendo que não gostava de futebol. Com certeza abominava a bagunça que faziam em seu bairro quando o timão ganhava . Dizia que fitas pornô eram indecentes. Mas assistia a um DVD escondido  em casa, nas raras vezes em que ficava sozinho e podia se            “ divertir “ . Nesse ponto era parecido dom Kevin, mas a diferença entre os pornôs… bom, é melhor deixar pra lá qual era . Gostava de música clássica e de pintura. Mas também só podia ouvir quando estava sozinho já que apenas ele gostava. Pintura a óleo estava sujeito a fazer sujeira já que ele não era tão cuidadoso assim e as vezes limpava a ponta do dedo na barra da cortina da sala, e produziam um cheiro forte,que ele camuflava misturando terebintina com secante de cobalto. E a cachorrinha estava sempre por perto pronta para pular no colo dele ou dentro da caixa de tintas. Conseguir pintar era uma ginástica. Mas o relaxava e nestes tempos nos quais ele estava, precisava disto. Mas  duas coisa fazia questão absoluta de esconder de todos. Era um incorrigível romântico. Acreditava em finais felizes. Emocionava-se ao ver um filme quando os personagens finalmente de entendiam. E detestava injustiças  Assistiu A Beira do Abismo e no fim,quando o herói afronta o bandido , ficara tão descontrolado que quase rasgou a perna da calça de tanto puxá-la de nervoso. E tinha certo talento para poesia erótica. Nestes dias estava pensando e começara a escrever uma

Escrevi  lentamente todos os meus versos de amor com a ponta do dedo em tuas costas nuas. E quando passava da cintura você ria e apertava o corpo contra o colchão. E eu apagava tudo e escrevia outra e mais outra só para ver a tua reação. Uma vez pedi que escrevesses nas minhas costas. Mas escrevias rápido e eu não conseguia ler. E você perguntou se eu queria que você desenhasse. Beijei a tua nuca.  Pensei na tua idéia, pedi que deitasses e comecei a desenhar com alguns fios de teu cabelo, enfiando na orelha de vez em quando para que não dormisses. Você disse  rindo que desenhos eróticos não valiam. E eu apaguei tudo. E comecei a desenhar uma flor com um longo caule que descia pelas tuas coxas.. Mas você não queria que eu terminasse o caule. Em determinado ponto você não deixou mais que eu continuasse. Tudo bem, eu disse, vou apagar tudo. E você disse tudo não apenas o caule. Escrevi outro poema que começava com“ Teus olhos brilham como o reflexo das estrelas na espuma do mar,e me encaram como  o  vento de calmaria,” . Teus olhos se nublaram e você disse que você não era tudo aquilo.Que você se sentia como Lady de Shallot, condenada a ver o mundo através do reflexo de um espelho,que refletia outro e mais outro até não distinguir mais realidade de fantasia.Beijei tuas espáduas.E quebrei os espelhos que refletiam o salgueiro no lago. Com jeito te deitei de costas e você meio que escondeu os seios com as mãos. Eu disse que queria escrever naquela folha também mas você resistia. Fui passando o dedo até onde alcançava, até você relaxar e segurar minha mão e escrever com ela a palavra que você queria, aonde você queria. E eu me deixei guiar.Já conhecia as rimas todas. Fui escrevendo, um pouco aqui, um pouco ali . Até que a página ficou inteira, a estória fazia sentido e eu podia continuar apenas passando o dedo em tuas costas enquanto cochilavas. E eu prestava atenção na chuva que caia. Aquela chuva  que você tanto esperava,.mas que agora não vias em teu sono. Aquela chuva que me trazia lembranças de outras chuvas, outras épocas. Épocas de águas mágicas caindo das  folhas em nossos corpos abraçados,respingando nos cabelos,nos ombros,no peito, ventre chegando aos pés nus que brincavam nas poças.

Omar olhou o relógio.Ouviu um rebuliço na cozinha.Era aniversário da loira da contabilidade e o pessoal tinha comprado um bolo para comemorar. Um bolo branco coberto com fitas de côco. “ Que pena, ia gostar mais se fosse de chocolate… “ . Mas levantou-se depressa , afinal, açúcar era açúcar !!! E, com certeza, repetiu mais de uma vez. Com dois copos de Coca Zero.

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