ATIRAR EM MEU PRIMO VLADE – por jairo pereira / quedas do iguaçu.pr

 

Não. Não posso fazer isso, pensei. Não posso, atirar em meu primo Vlade, de jeito algum.Os maus pensamentos que me tomavam naqueles minutos foram pouco a pouco evanescendo em nada e voltei ao normal. Ainda trazia às mãos a arma carregada. Meu primo egresso de certa Casa de Orates recém tinha fugido e perambulou pela BR 277, adentrou bares sujos, capões de mato, como um perseguido da polícia, um cão, um lobo feroz, um monstro evadido das profundas da Terra, até chegar em nossa casa. A mãe (minha mulher a anja) atendeu o tranhinho, como mãe, amiga do ser reverbelíneo. Acelerou acelerado o desgringonado do bem. Louqueou, sofregou na dor e na compulsão ao desconhecido. Atirar em meu primo, eu não, não… não posso fazer isso. Mas cheguei a pensar no retorno do vingadorzinho não se sabe do que, iria ele se vingar, meu primo não veio me visitar nas casas de insanos, nas criptas do reencontro do ser com o ser remixado, transmixado, acelerado que se venceu, transvenceu em mente/corpo. Poderia haver pensado isso o meu primo Vlade, e fiquei de campana ao seu retorno. Poderia pensar o tranhinho, agora vou lá, escapei das amarras, das sessões de choque, dos empurrões, do gesto brusco do são para o insano e vou me vingar matando meu primo esse poeta de merda, abduzido, poeta iludido e doido e anjo vingador dos poetas recusados. Pra mim é fácil, pensar pensou o tranhinho e vinha olhos arregalados passos longos pra encurtar distância de lá pra cá da fronteira do sul para o sul do sul onde lido com meus cavalinhos de pouca venda e muito comer. Tinha pressa o meu primo Vlade… pressa em resolver tudo. Ele sabe onde me encontrar. Sabe. No trabalho sabe, no Nosso Bar, do Altomir Kurek, sabe, na beira do rio Iguaçu, sabe, no mato, sabe, nas estradas sabe, na fazenda sabe. Meu primo retornado pra se vingar do que nunca lhe fiz transfiz refiz deliberei não resolvi atendi o tranhinho bom mas acelerado nos princípios meios e fins base de lítio na pegada diária que nunca termina como é de terminar sarar acalmar desacelerar o bólido atentadinho. Meu primo vindo obssessivamente pra se vingar de mim o poeta que não deu certo o poeta iludido que tanto tentou não conseguiu ganhar a mídia e notoriedade no seu tempo transtempo finistempo destempos. O poeta arrogante megalômano que sempre quis ser mais do que realmente é projetou ousou realizou. Meu primo vindo de arma em punho tenso determinado a findar a vida de seu primo o poeta amargurado o poeta de não ser não conseguir resolver os problemas sérios do mundo o poeta participante o poeta sem-terras daquela vez transvez revez o poeta atentado que acredita piamente em seres extraterrestres e que já foi abduzido o poeta messiânico que foi um dia salvador dos mundos o poeta contraditório nos ditos o poeta construtor de estéticas e filosofias que não grassaram entre os ímpios. Meu primo assassino de primo vindo com uma ideia de só matar seu primo poeta liquidar a besta das palavras não assimiladas pelos puros não entendidas pelos gramáticos não amada pelos simples não estudada pelos estudiosos o poeta da vida nova da palavra o poeta da esteira lúmina da poesia crispado de cipós-açus e veios vias vasos meios de conhecer outros mundos no cimo das árvores. O poeta que transitou nas redes sociais, amou, sonhou, iludiu e desnorteou tanta gente. O poeta que se fastou dos amigos, dos parentes, das belas mulheres que amou e se desvencilhou da aventura de viver presente, visível no seu mundo que não é o seu mundo terreno. O poeta que partiu pra outas esferas, orbes, conquistas de espaços e conteúdos, línguas, linguagens e pensamentos. Meu primo enlevado em Deus onipotente sempiterno portando armas de grosso calibre e vindo pra matar liquidar matar transferir o importuno poeta de sua vida… vida fodida vida enganadora e tranceira. Vencida a dor da vertigem a dor da descoberta da estranha doideira de meu primo soltei a arma sobre a penteadeira do quarto e espiei pela janela a mãe tratando em fala o primo reverbelíneo transurtadino ambos de pé próximo à garagem do carro, o primo recém-vindo olhos parados andar nas nuvens flutuante primo do planeta Terra egresso agora de outras esferas patrocínios chancelas. Cósmico meu primo, o acompanhei desde quando apertou a campainha pela primeira vez. Como disse: estava de campana, já o esperando. Palavra de mãe, palavra de provecção gestão dos símbolos organização dos curtos circuitos a mãe pondo o primo assassino de poeta nos trilhos o primo obsecado com a ideia de morte do primo primo poeta e salvador da vida poética recusada da Terra das Galáxias do Cosmos e mais se fosse possível. Deixa o primo viver. Deixa o primo padecer. Deixa o primo ir levando a vida nesses universos vida-morte que a poesia o leva. Atirar em meu primo Vlade, precipitar a reação à ação do mesmo, não posso não poderei… desde criancinha dos Campos do Senhor do Sul é que o acompanhei na sua vida de mãe pra vó e vó pro mundo e do mundo pra mulher e filhos e divórcio e separação e dor e incompreensão e revisão da vida que ficou pra trás repete-se transtorna o dia e sacrifica o futuro. Meu primo assassino de primo poeta assassino de poesia assassino de palavra assassino de lesma desenhando em tijolos assassino de sóis noturnos e luas do dia meu primo encafifado de ódio meu primo relimpando a Terra em suas vinganças em primeiro é o primo poeta e filósofo protonathural que deve ir em primeiro é o poeta que deve adentrar a noite grande em primeiro é a vida latente do que mexe com as palavras mexe dorme acorda trabalha encanta e tiraniza a vida dos sons e dos significados… o poeta o ser repulsivo o ser escroto da esfera o poeta o sobrado do charco o recusado da matéria e da glória da vida. O poeta que quer revolucionar subverter transverter criar problemas de entendimento. Meu primo Vlade vindo fazer a limpeza a faxina da Terra e primeiro sim… começar com seu primo o imundo o deslocado o agressivo o grosso o letargido o monstrengo insensível o transignificado que não pode ser lido aberto em luz desvelado clareado. Seu primo o sacrificado na tela clara do futuro que pouco ou tanto lhe diz. Meu primo de arma em punho arma armas calibres grossos gatilhos acionados até os estampidos ruidosos que põem fim à vida. Meu primo Vlade vindo vingar o desvingado o que não morre suspende-se para o infinito o que persegue monadas em trânsito comunica-se com o desconhecido e falseia verdades de se viver passíveis de serem salvas do mal. Meu primo contra tudo que reside na palavra tudo que mexe com sílabas metáforas semas semantemas versos semioses de ditos e imagens. Meu primo botando fogo em Roma fogo nos livros fogo nas imagens não nascidas fogo na usina produtora dos signos. Assim foi que imaginei me armei e me defendi disparando vários projéteis contra meu primo Vlade atirando e não acertanto atirando pra defender a mãe de um ataque repentino atirando pra se proteger atirando pra livrar a vida da palavra a vida da poesia da vida da carne da vida da vida transnacida da vida repartida que não encontra guarida nessa vida. Adeus, meu primo Vlade. Foi. Fui. Tamo indo. Já fomos!

 

 

 

 

(Um conto de jAiRo pEreIrA,

do livro inédito OWERLUX)

 

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