2057. UMA CRÔNICA MARCIANA – por arnaldo barbosa brandão / brasilia.df

“Vem cá Brasília, deixa eu ler tua mão menina, 
tem grande destino reservado pra você”.
Adaptação do samba do Zé Catimba (carnaval de 1974)

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Logo que cheguei a Marte em 2055 tive que responder a uma pergunta que me deixou encafifado: onde anda o Edgar? Perguntou-me um escritor marciano. Não dei muito papo, porque escritores, sabem como são, gostam de conversar fiado e metem o focinho em tudo, preferi marcar um café mais tarde no meu bangalô. Diz ele que vai processar o Edgar, como nunca li o tal Edgar, pensei, por que será? Deve ter sido briguinha de intelectuais ou alguma criticazinha a Marte. Os marcianos são tão bairristas quanto os brasilienses, eles acham Marte o suprassumo do Sistema Solar, eu acho isto aqui uma merda, sem falar que não tem praia, se bem que, como trabalho pro Itamarati, moro perto do Mare Sirenum (um lago artificial criado pras elites daqui), bem próximo ao “Monte Olimpo”, com seus 26 km de altura. Em Marte é assim, ou você está por cima, nos píncaros, é um DAS-8, ou vai morar nas ‘Fossas Marianas’, para além da “Cratera do Schiaparelli”, na periferia da periferia, e leva horas no metrô para chegar ao batente. Nos últimos anos, dizem que Marte mudou, falam em tempestades solares, mau-olhado, macumba, poluição. Há os que culpam os alienígenas, dizem que tudo começou a dar errado depois que nós chegamos, que Marte era uma tranquilidade, um sossego, com os alienígenas veio a violência, a poluição, os ventos mudaram de direção, e os morros começaram a desmoronar na periferia, é claro. O “trágico acidente”, como diz o telão, foi para os lados da “Terra de Malboro”, onde a poeira vermelha sobe em redemoinhos gigantes, porque em Marte tudo é gigantesco, tudo é super, tudo é mais bonito, mais espetacular, mais trágico. O acidente foi por volta de meia noite, acordando muitos moradores de seus sonhos freudianos, os desejos reprimidos de sempre: ganhar na loteca, comprar uma TV de 50 polegadas, conseguir um emprego no governo, desfilar na Unidos do Cruzeiro, e ir pro céu. Muitos foram nessa. Confesso que me adaptei em Marte melhor do que esperava, não é dos piores lugares em que estive. Primeiro, fui mandado pra Amazônia, era como se fosse Marte, antes dos americanos baixarem lá (vazia, calor infernal, sem falar nas doenças). O pior era a distância do Rio, que, naquela época, era o centro do meu universo. Depois fui pra Brasília nos inícios, aí era Marte mesmo, sentia falta de ar, meu nariz sangrava, faltava tudo, a poeira vermelha cobria até a Esplanada dos Ministérios. Faltava até mulher, que no Brazyl (agora com z e y, é a nova nomenclatura, fazer o quê) havia em profusão nas praias lotadas, depois inventaram essa de mulheres trabalharem para adquirir liberdade, e agora estamos nesse impasse, elas querem voltar pra casa e querem liberdade. Aqui em Marte raramente são vistas, e quando aparecem, são como os pardais, andam em bandos, chilreando e com o dedinho iluminado, sinal que estão na fase fértil. Outro dia, pensando em encontrar uma marciana mulata e tentando matar a curiosidade sobre a fisiologia sexual delas, dei uma volta pelos subúrbios, fui conhecer a “Terra de Marlboro”, queria ver os tais redemoinhos gigantescos, peguei um carro-voador blindado, com dois robôs, vi muitos homens armados, usando aquelas máscaras do Darth Vader, dando bascolejo, sem mais nem menos deitavam os suspeitos no chão, pisavam nos ovos dos caras com aquelas botas pesadas, metiam a porrada e os transeuntes aplaudiam. Este passeio pelos subúrbios de Marte me deixou muito triste, tive que tomar um rivotril que trouxe do Brazyl, é recomendado pra tristeza e amargura. É que a pobreza me deixa amargurado, é a coisa de que mais tenho medo: voltar a ficar pobre, sem dinheiro, vocês podem imaginar, Nelson Rodrigues já dizia: “dinheiro compra até amor verdadeiro”. E compra mesmo, até em Marte. Paramos numa esquina barulhenta e poeirenta, e logo me apareceu um menino com uma telinha, onde a cada toque se via uma marciana, algumas belíssimas. Quanto é? Ele abriu a mão de treze dedos. Treze? Fez uns sinais dando a entender que eu poderia negociar direto com ela. Hoje não, tomei o comprimido pra ficar alegre, mas o meu tesão foi pro brejo, efeito colateral e, depois, meu motorista disse que estava escurecendo e que seria perigoso continuar naquela área.
Próximo a minha casa, nas margens do Mare Sirenun, reencontrei o escritor, disse chamar-se Lorquas Ptomel, pedi à robozinha (coisa linda, só vendo), pra servir um café, estava um tanto curioso para conhecer a cultura local. Ele era o rei das perguntas chatas: perguntou-me pelo Ray, eu nem consegui dizer que ele morreu em 2012, insistiu com a pergunta sobre o Edgar, pensei que ele queria saber alguma coisa do Tarzan ou então estava falando do outro Burroughs, filho do inventor da máquina de escrever (acho que vocês não sabem o que é), mas não, me disse que o cara escreveu vários livros sobre Marte. Fingi que já sabia, fiquei saboreando o café e apreciando a bunda da robô, nem ouvia as abobrinhas que o marciano falava, com aquele ar entediado, comum aos escritores, sejam de Marte ou de Brasília. Botei a vassoura atrás da porta e aguardei (é o verbo mais usado por aqui). Assim que o escritor marciano deu a entender que ia embora, pensei: hoje eu pego essa robô de qualquer maneira. Vocês não fazem ideia do que seja fazer amor com uma robô, sim, porque com ela eu fiz amor e não sexo, é como se tivesse voltado aos inícios dos anos 70 do Brazyl. Não fazem ideia do que seja fazer amor olhando pro céu estrelado de Marte, sem nenhuma nuvem, nada, céu azulíssimo. Agora começo a entender porque os dois Impérios que mandam na Terra gastaram bilhões de dólares e outros tantos de Yuanes pra se estabelecer aqui. Só fazer amor em Marte com a Seane (coisa mais linda) já teria valido a pena. Lembram-se da Rachael, do Blade Runner, é a cara e o corpo dela, só que “com uns quilinhos a mais” como ela me disse, quando a escolhi na tela da minha sala, olhando-me com aquele olhar marrom-claro e os cabelos presos na nuca. Quando ela levanta a cabeleira negra liberando a nuca, é o céu, o céu de Marte. Depois de uma noite de sono, que há muito não tinha tido, sem ter nem porquê, meu pensamentos voaram pro Brazyl, tenho essas recaídas, dizem que a palavra só existe na língua marciana: saudade. Nessas horas, sempre lembro de uma frase do Gregório de Matos (não deve haver mais vestígios nem no Google): “Que me quer o Brasil, que me persegue?” Parece papo do Lorquaz Ptomel, o escritor marciano, mas a frase me empurra para o passado distante, mesmo que eu não queira ir. Acordei tarde, botei meus óculos protetores, sapatos de chumbo, pra me segurar no chão, olhei pela janela e quem estava na porta pra me importunar? O Ptomel, com aquela cara de interrogador, querendo saber como era Brasília. Pensei: porra, esse cara vai infernizar minha vida por aqui, logo agora que a minha robozinha está no período fértil. Vou contar logo o básico e ver se me livro deste chato.
Houve uma época em que se imaginou que seríamos um Império grandioso: “O Império do Meio do Mato.” Lá se vão cem anos, foi no reinado de Ramsés de Oliveira e Marte ainda era chamado de Planeta Vermelho e só existia nos sonhos do Schiaparelli (deve ter no Google) e nas histórias do Bradbury, que não tenho saco pra ler, detesto ficção científica. Para entender o presente, e o que vim fazer em Marte, é preciso dar uma olhada no passado. Infelizmente, é o passado que cria o futuro, se o passado foi uma merda, porque o futuro seria diferente? Está nos livros de história, tudo começou com o príncipe Ramsés, que subiu no Morro do Cruzeiro e disse com a pompa de sempre: “daqui, deste curral, que será o palco das grandes decisões nacionais, fica criada esta ilha chamada Brasília, onde, como disse Dom Bosco, correrá muita grana e muito mel”. Desculpe Ptomel, mas li a frase antes de derrubarem a Rodoviária, não me lembro com exatidão. Chamou então o grande arquiteto do universo (Deus), e disse-lhe ao pé do ouvido: “Oscar, quero uma cidade bem egípcia, muitas pirâmides, muitos palácios e o Rio Nilo em volta, não importa quanto vai custar”. Está claro nos textos bíblicos que ele se referia ao grande Oscar Niemeyer, que hoje está com 200 anos, completamente lúcido. Oscar convocou seu compadre, o resto, todo o mundo sabe: ele fez uns rabiscos e um pouco de literatura. Alguns criadores de caso avisaram: “isto vai dar merda”. Os empreiteiros e fazendeiros berraram bem alto, cada qual defendendo seus pastos. Ramsés não quis nem saber, pediu grana emprestada aos gringos pela tabela Price, os gringos achavam que valia o risco, queriam ordem no seu quintal, pensavam que poderíamos ser um grande “mercado” para seus produtos. Ramsés chamou os pelegos-chefes do IAPI, IAPETEC, IAPC e outros IAPs e exigiu a grana acumulada na CAIXA para pagar a aposentadoria dos trabalhadores. Não, príncipe, é para o nosso futuro, disseram os pelegos. Ramsés retrucou na bucha: o futuro é agora, lasca o pau e manda rodar a manivela. Por essas e outras é que chamam a cidade de “O Túmulo do Faraó”. O problema é que o príncipe que sucedeu Ramsés, um magrelo apelidado “Vassourada”, um dia acordou de ressaca e cismou que não ia morar mais no Palácio da Alvorada, reclamava daquele silêncio de túmulo e do frio cortante do cerrado. Dizia que mandava menos que o prefeito de São Paulo e tinha razão, como alguém ia comandar um continente de dentro de um palácio a beira do Lago Paranoá, sem o Google, sem Facebook, sem o MSN e sem o Badoo? Era o problema de sempre, as legiões não o levavam a sério. Resultado: foi varrido do poder. Renunciado. Um espanto, nunca se soube de alguém que tivesse renunciado a nada em Brasília, no máximo o sujeito pede licença sem vencimentos. Enquanto rolavam essas complicações nos altos escalões, o povo (sempre mal informado, só viam o programa do Chacrinha e ouviam o futebol), chegava aos borbotões, em busca da grana e do melado, mal sabiam que a grana tinha dono e o melado estava sendo disputado em recinto fechado, no Palácio das Duas Tigelas, também conhecido como Vinte e Oito, em homenagem aos 28 que caíram lá de cima na sua construção (alguns, de vez em quando, saem da tumba e desempatam a votação). Os gringos, que já andavam ressabiados por causa dos cubanos, a essas alturas começaram a desconfiar que não receberiam a grana, e que aqui dentro, caberiam umas seiscentas Cubas. Se uma, comandada por um lunático, já dava um trabalho danado, calcule seiscentas. Então chamaram os militares. Estávamos na época do “nacional-devedorismo” (devo, não nego, pagarei quando puder), doutrina criada pelos militares nos anos 40 do século passado. A proposta era crescer endividando-se, como faz o povo até hoje no Ponto Frio e nas Casas Bahia, confiando que amanhã vai estar tudo muito mais caro. A ideia era construir uma cidade que fosse o contrário da bagunça brasileira. Tudo certinho, organizado (cada coisa em seu lugar, um lugar para cada coisa). Só que a bagunça brasileira também foi planejada, não se cria uma esculhambação como o Rio, Salvador, São Paulo, Recife, Belém, de uma hora pra outra, são coisas planejadas, de séculos. No final do mandato, Ramsés fez uma viagem (ele gostava muito de viajar) pra Paris. Os milicos entraram e trataram de consolidar a cidade, afinal iam morar nela por muitos anos. Logo notaram que O Vassourada nada tinha feito e Jango, como percebeu Glauber Rocha, era um fazendeiro-poeta, mais fazendeiro que poeta, queria mudar o imutável sem sair da fazenda. A capital cresceu mais do que qualquer outra cidade em todos os tempos, os súditos do príncipe Ziror, que governou a cidade nos começos, passaram de 140 mil almas, em 1970, para mais de 10 milhões. O problema é que as cidades tem o péssimo hábito de mudar o tempo todo. São como caleidoscópios (uma metaforazinha que o Lorquas Ptomel gosta, ele adora também o verso do poeta Saint-John Perse: “As cidades crescem, enquanto as mulheres sonham”), diz ele que os sonhos femininos são confusos. Pensei: este Ptomel parece misógino, acostumou-se mal com a obediência das robôs, vive no passado distante, talvez pra se proteger, quem sabe, ou talvez porque os marcianos são assim mesmo, quando ficam velhos. Os marcianos são pessimistas, só falam em problemas, o Ptomel chegou ao ponto de me dizer que problema algum tem solução definitiva, diz ele que apenas mudam a forma. Ele falando estas abobrinhas e eu pensando na minha robô (coisa mais linda), depois que ela dorme fico observando Brasília aqui de cima, o mais interessante é que ela dorme com os olhos abertos. O Ptomel quer saber quais são nossos problemas. Sei lá, a minha robozinha deitada me esperando e eu tendo que falar de problemas em Brasília, quero lá saber daquela politicagem, esse Ptomel tem cada uma. Acho que o problema principal de que acusam o príncipe Ziror é a “Grande Muralha Medieval”, construída em 2030, para controlar a entrada dos bárbaros. É que não só os DAS estão dentro da Muralha, mas também os hospitais, cinemas, teatros, universidade, restaurantes, lago, zoológico e até o melhor cemitério. Até o samba está do lado de dentro. De vez em quando, alguém pula a “Muralha”, geralmente no Natal e Carnaval, mas logo as legiões do príncipe Ziror III tratam de expulsá-los. Apesar dos contratempos, tudo ia bem, mas como diz um ditado marciano: “depois da tempestade, sempre vem outra”. O horóscopo do príncipe Ziror III dizia que Netuno estava na sua casa e que sua eleição estava garantida, aí, não mais que de repente, os centuriões do Rei Lulácio, também chamado “Sapo Barbudo”, o matador de andróides, mandaram prender o príncipe Ziror III, período que ficou conhecido como “Arrudaço”. Daí pra frente, as coisas se acalmaram e a vida continuou como sempre foi, Marte brilhando no firmamento, Vênus tranquila desfilando sua beleza e minha robozinha dormindo de olhos e pernas abertos. Confirmando o ditado marciano, aconteceu o improvável, a inflação voltou com tudo, pegou a Rainha Dilma com as calças na mão, não teve jeito, a Rainha, apelidada de “a imutável”, jogou nas telas o plano “Real Novo 2.0-Turbo Flex”. Isto foi bem antes da Copa do Mundo de 2052. Brasília sediou uma das chaves, construíram um estádio pra um milhão de torcedores. O Rei Lulácio VI, que voltou a governar, deu o pontapé inicial, errou a bola, mas acertou no discurso, dizendo ser candidato a Imperador de Marte. Já me cadastrei (em Marte você não faz nada sem se cadastrar), pra votar. Mas vocês devem estar perguntando: por que fui transferido pra Marte? Simples, é que morri, e pra lá vão os espíritos superiores. Ou não leram o livro do Ramatis, o escritor preferido do Lorquas Ptomel, meu vizinho?

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Uma resposta

  1. muito bom o texto. longe de ser uma crônica, é um conto trans-onírico.
    criativo, com distanciamento de visão. gostei.

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