Arquivos Diários: 6 novembro, 2012

SOU RAIZ – de cora coralina / goiania.go

SOU RAIZ      –     CORA CORALINA

 

 

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Sou raiz, e vou caminhando

sobre as minhas raízes tribais.

Velhas jardineiras do passado …

Condutores e cobradores, vós me levastes de mistura

com os pequenos e iletrados, pobres e remendados …

Destes-me o nível dos humildes em tantas lições de vida.

Passante das estradas rodageiras, boiadeiros e comissários,

aqui fala a velha rapsoda.

Escuto na distância o sonido augusto do berrante que marca

o compasso das manadas que vão pelas estradas.

O mugido, o berro, o chamado da querência, a aguada,

o barreiro salitrado, a solta, o curral, a porteira,

a tronqueira, o cocho, o moirão, a salga, o ferro de marcar,

rubro, esbraseado. A castração impiedosa.

Eu sou a gleba e nada mais pretendo ser.

Mulher primária, roceira, operária, afeita à cozinha,

ao curral, ao coalho, ao barreleiro, ao tacho.

Seguro sempre nas mãos cansadas a velha candeia

de azeite veletudinária e vitalícia do passado.

Viajei nas velhas e valentes jardineiras

do interior roceiro, suas estradas de terra,

lameiros e atoleiros, seus heróicos e anônimos condutores

e cobradores, práticos, sabidos daqueles motores desgastados,

molas e lataria rangentes.

Santos milagreiros eram eles. Onde estarão?

Viajei de par com os humildes que tanto me ensinaram.

Viajantes das velhas jardineiras, meus vizinhos

das estradas viaje iras …

Meus trabalhadores: Manoel Rosa, José Dias, Paulo, Manoel,

João, Mato Grosso, plantadores e enxadeiros, meus vizinhos sitiantes,

onde andarão eles?

Andradina, Castilho, Jaboticabal, comissários e boiadeiros, tangerinos,

esta página é toda de vocês.

Fala de longe a velha rapsoda.

“O palhaço não sou eu, mas sim esta sociedade monstruosamente cínica e tão ingenuamente inconsciente que joga o jogo da seriedade para melhor esconder a loucura.” SALVADOR DALI (Salvador Domingo Felipe Jacinto Dali e Domènech – Marquês de Dali de Púbol – Figueres, Catalunha, 11 de Maio de 1904 — Figueres, 23 de Janeiro 1989.

 

A ÚLTIMA CEIA  –  THE LAST SUPPER  –   de SALVADOR  DALÍ.