Arquivos Diários: 15 novembro, 2012

A ESTRANHA FIGURA DO ANALISTA POLÍTICO – por luis fernando pereira / curitiba.pr

O analista político é uma figura estranhíssima. Quase sempre tudo sabe sobre comportamento do eleitor; quase nunca sabe antes de ter acontecido. É invariavelmente um engenheiro de obra feita, para usar uma expressão bem ao gosto de FHC. Simulam perfeição em diagnósticos, mas são sempre péssimos em prognósticos. Em campanhas eleitorais são todos (eu disse todos) reféns da última pesquisa publicada. Com os números em mãos, lá está o analista político a explicar ao pobre diabo do eleitor-leitor-telespectador-ouvinte porque teria havido a subida daquele candidato e a descida do outro. Com uma linguagem generalizante e subjetiva (similar à linguagem de horóscopo) explicam, em detalhes que parecem óbvios, o porquê de tudo. Sabem impressionar.

A eleição no primeiro turno aqui em Curitiba pregou uma peça em alguns videntes do acontecido. Minutos depois de encerrada a votação, Ibope divulgou pesquisa com diferença de cinco pontos entre Luciano Ducci e Gustavo Fruet – que disputavam vaga para acompanhar Ratinho na disputa de segundo turno. Acreditando na pesquisa (eu também acredito e acreditei, advirto), todos os analistas de popular canal de TV passaram imediatamente a explicar aos neófitos (como são tratados os telespectadores) as óbvias razões pelas quais Gustavo não tinha ido ao segundo turno. A explicação foi complexa e exaustiva, de forma tal a classificar como estúpido o simples cogitar de uma vitória de Gustavo Fruet. O candidato do PDT teria errado desde o início ao aliar-se ao PT. A campanha foi toda sem rumo. Os ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann eram os grandes perdedores, pois tinham sido incompetentes na condução da campanha. E mais tantos outros argumentos científicos. Tão científicos quanto feng shui, para citar um bom chiste de Ivan Lessa (minhas homenagens ao Ivan Lessa, morto em 2012).

Nossos analistas não contavam com a surpresa. O Ibope tinha errado a pesquisa de boca de urna. Gustavo foi ao segundo turno, por pequena margem. Constrangimento geral no estúdio. Mas por pouco tempo. Não demorou para que nossos ilustres analistas políticos já tivessem outra explicação completamente diferente para elucidar as, também óbvias, razões pelas quais Luciano Ducci havia ficado fora do segundo turno. E assim foram “analisando” (notem as aspas) os demais resultados eleitorais, sempre com o mesmo semblante de quem entende das coisas. Mais do que constrangedor, foi engraçado.

Que me perdoe Paulo Bonavides, mas política não é ciência. E mesmo que seja, o diabo é que tem o homem como variável. Com isso saímos do campo das ciências mais rígidas. O imponderável ocupa um espaço muito grande para autorizar previsões. Dia desses Hélio Schwartsman citou na Folha de S. Paulo estudo de Philip Tetlock. Segundo Schwartsman, Tetlock (de quem eu nunca tinha ouvido falar) coletou durante 20 anos cerca de 28.000 previsões acerca da economia e de eventos políticos feitas por 284 experts em diversos campos e de diversas orientações políticas. A conclusão básica é que eles se saíram milimetricamente melhor do que o acaso. Repito: milimetricamente melhor do que o acaso! Noutras palavras: previsão em política é pouco mais do que palpite.

Façam vocês mesmos uma pequena experiência ao estilo de Tetlock. Peguem as análises políticas no pós-pesquisa de qualquer eleição municipal deste ano. Escolha os casos de maiores variações nos índices de popularidade. Compare as diferentes análises e projeções dos analistas no período da campanha. Tudo se altera na medida exata do novo cenário revelado pela pesquisa mais recente. A explicação é sempre científica, como se fosse um cálculo estequiométrico entre diferentes compostos (exemplo de Schwartsman). Nada disso. É pura engenharia de obra feita.

Na política o imponderável ocupa um espaço infinitamente maior do que admitem os analistas políticos. E por que, afinal, os tais analistas não confessam logo que previsão em campanha eleitoral é pouco mais do que palpite? Ora, isso significaria diminuir a importância da própria profissão. E é claro que não podemos exigir dos analistas políticos um suicídio profissional coletivo. A propósito, os analistas políticos têm um protocolo silencioso. Jamais criticar previsão equivocada de outro analista. Esprit de corps, como dizem os franceses.

O comportamento humano é caótico. Mínimas alterações numa variável, explica Schwartsman, podem modificar dramaticamente os resultados. Previsões em campanhas eleitorais estão no campo da adivinhação. Ao abordar o passado nossos analistas políticos são perfeitos. Quando quisessem falar sobre prognósticos deveriam usar turbantes de vidente. Seria mais sincero.

 

LUIS FERNANDO PEREIRA é advogado doutor em direito, professor e escritor.

ESCREVER À MÃO é um hábito em declínio – por marcelo gonzatto – porto alegre.rs

Escrever à mão é um hábito em declínio PDF Imprimir E-mail
12-NOV-2012

Pesquisador diz que escrever a punho continuará a ter um papel decrescente na escola se cada criança tiver um computador

O declínio do hábito de escrever à mão, provocado pelo avanço da tecnologia digital, despertou um debate sobre que tipo de tecnologia deve prevalecer nas escolas: a velha caneta ou os novos teclados.

Apesar da ofensiva crescente dos computadores, tablets e smartphones sobre o cotidiano, estudos científicos vêm apontando que escrever à mão produz efeitos no cérebro e no aprendizado diferentes daqueles provocados pela digitação.

— Escrever à mão continuará a ter um papel decrescente na escola se cada criança tiver um computador. Nas casas onde há computador, isso já aconteceu — sustenta um dos principais especialistas mundiais no assunto, o pesquisador americano e professor da Universidade do Estado do Arizona Steve Graham.

Nos Estados Unidos, o ensino do estilo cursivo deixou de ser obrigatório na maioria dos Estados — o que desperta temores de que futuras gerações não consigam ler documentos históricos. Para Graham, o desafio atual é que “seja escrevendo à mão ou teclando, os estudantes precisam ser fluentes com ambos”. No Rio Grande do Sul, conforme o presidente do Sindicato do Ensino Privado (Sinepe/RS), Osvino Toillier, as escolas começam a revalorizar as redações manuscritas:

— Antigamente, não se aceitava trabalho feito com garrancho. Acho que a escola descuidou um pouco disso. Em certo momento, entrou em um fascínio tecnológico em que o importante era ter computador. O pêndulo foi de um lado para o outro, e acho que agora devemos nos situar em uma posição intermediária.

Razões para fazer isso vem sendo sugeridas por estudos recentes, segundo os quais o ato de desenhar uma letra à mão cria uma espécie de “memória muscular” que facilita o posterior reconhecimento do alfabeto, e desencadeia no cérebro reações diferentes de teclar (leia entrevista na página ao lado). Um estudo feito na Universidade Internacional da Flórida demonstrou que escrever bem à mão está relacionado com um melhor desempenho em leitura e matemática.

Mas o uso da tecnologia também traz vantagens. Conforme a pedagoga Patrícia Camini, mestre em Educação e professora da rede municipal de Porto Alegre, suportes digitais ajudam as crianças em áreas como pontuação e acentuação. A solução é encontrar tempo e espaço para as duas formas de escrita.

— O que tem ocorrido nas escolas é ou um descaso com o investimento na legibilidade da escrita dos alunos ou um apego ferrenho às práticas antigas de caligrafia como única opção a isso. Ainda precisamos alcançar um equilíbrio — avalia.

A necessidade de redigir à mão em provas como a do Enem também ajuda a resgatar a importância de lápis e canetas. A estudante do 3º ano do Ensino Médio Daniela Casaril, 17 anos, exercita a caligrafia regularmente. Mesmo sem o rigor das aulas da época do pai, Sérgio Casaril, considera fundamental saber se expressar de próprio punho:

— Tenho colegas que não dá para entender o que escrevem. É importante saber escrever à mão.

Projeto escolar estimula crianças a trocar cartas


Em colégio da Capital (POA), alunos da 6ª série trocam correspondências
Foto: Fernando Gomes, Agência RBS

Em plena era digital, as cartas manuscritas voltaram a ser utilizadas por crianças da Capital. Não para manter contato com amigos ou parentes distantes, mas com fins pedagógicos. Um projeto do Colégio Marista Assunção, na Capital, estimula os alunos de três turmas de 6ª série do Ensino Fundamental a trocarem correspondências entre si ao longo do ano. As folhas preenchidas à mão, com direito a envelope, são recolhidas pela professora, reunidas em uma caixa, e periodicamente entregues aos seus destinatários.

Graças ao correio escolar coordenado pela professora Ana Lúcia Furtado, estudantes como Mariana Remião, 11 anos, e Eduardo Severini, 12, experimentam a antiga prática de enviar um texto sem resposta imediata — diferentemente de ferramentas eletrônicas como e-mail ou mensagens de celular. Além disso, procuram caprichar na caligrafia para serem compreendidos e evitam as abreviações comuns na internet.

— A minha letra até melhorou depois que começamos a fazer as cartas. Hoje prefiro escrever à mão do que usar o teclado — conta Mariana.

Eduardo, que costuma utilizar Facebook e MSN, também gostou da experiência:

— A gente treina a escrita e procura se expressar melhor.

A professora explica que os estudantes são orientados a escrever sobre determinados temas, como sugestões de livros, e por vezes escolhem quem vai receber o texto. Outras vezes, o destinatário é determinado arbitrariamente.

— Assim, garantimos que ninguém fique sem receber uma carta — explica.

Para aumentar a familiaridade dos alunos do século 21 com as cartas, leram livros escritos no formato de troca de correspondência.