A ESTRANHA FIGURA DO ANALISTA POLÍTICO – por luis fernando pereira / curitiba.pr

O analista político é uma figura estranhíssima. Quase sempre tudo sabe sobre comportamento do eleitor; quase nunca sabe antes de ter acontecido. É invariavelmente um engenheiro de obra feita, para usar uma expressão bem ao gosto de FHC. Simulam perfeição em diagnósticos, mas são sempre péssimos em prognósticos. Em campanhas eleitorais são todos (eu disse todos) reféns da última pesquisa publicada. Com os números em mãos, lá está o analista político a explicar ao pobre diabo do eleitor-leitor-telespectador-ouvinte porque teria havido a subida daquele candidato e a descida do outro. Com uma linguagem generalizante e subjetiva (similar à linguagem de horóscopo) explicam, em detalhes que parecem óbvios, o porquê de tudo. Sabem impressionar.

A eleição no primeiro turno aqui em Curitiba pregou uma peça em alguns videntes do acontecido. Minutos depois de encerrada a votação, Ibope divulgou pesquisa com diferença de cinco pontos entre Luciano Ducci e Gustavo Fruet – que disputavam vaga para acompanhar Ratinho na disputa de segundo turno. Acreditando na pesquisa (eu também acredito e acreditei, advirto), todos os analistas de popular canal de TV passaram imediatamente a explicar aos neófitos (como são tratados os telespectadores) as óbvias razões pelas quais Gustavo não tinha ido ao segundo turno. A explicação foi complexa e exaustiva, de forma tal a classificar como estúpido o simples cogitar de uma vitória de Gustavo Fruet. O candidato do PDT teria errado desde o início ao aliar-se ao PT. A campanha foi toda sem rumo. Os ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann eram os grandes perdedores, pois tinham sido incompetentes na condução da campanha. E mais tantos outros argumentos científicos. Tão científicos quanto feng shui, para citar um bom chiste de Ivan Lessa (minhas homenagens ao Ivan Lessa, morto em 2012).

Nossos analistas não contavam com a surpresa. O Ibope tinha errado a pesquisa de boca de urna. Gustavo foi ao segundo turno, por pequena margem. Constrangimento geral no estúdio. Mas por pouco tempo. Não demorou para que nossos ilustres analistas políticos já tivessem outra explicação completamente diferente para elucidar as, também óbvias, razões pelas quais Luciano Ducci havia ficado fora do segundo turno. E assim foram “analisando” (notem as aspas) os demais resultados eleitorais, sempre com o mesmo semblante de quem entende das coisas. Mais do que constrangedor, foi engraçado.

Que me perdoe Paulo Bonavides, mas política não é ciência. E mesmo que seja, o diabo é que tem o homem como variável. Com isso saímos do campo das ciências mais rígidas. O imponderável ocupa um espaço muito grande para autorizar previsões. Dia desses Hélio Schwartsman citou na Folha de S. Paulo estudo de Philip Tetlock. Segundo Schwartsman, Tetlock (de quem eu nunca tinha ouvido falar) coletou durante 20 anos cerca de 28.000 previsões acerca da economia e de eventos políticos feitas por 284 experts em diversos campos e de diversas orientações políticas. A conclusão básica é que eles se saíram milimetricamente melhor do que o acaso. Repito: milimetricamente melhor do que o acaso! Noutras palavras: previsão em política é pouco mais do que palpite.

Façam vocês mesmos uma pequena experiência ao estilo de Tetlock. Peguem as análises políticas no pós-pesquisa de qualquer eleição municipal deste ano. Escolha os casos de maiores variações nos índices de popularidade. Compare as diferentes análises e projeções dos analistas no período da campanha. Tudo se altera na medida exata do novo cenário revelado pela pesquisa mais recente. A explicação é sempre científica, como se fosse um cálculo estequiométrico entre diferentes compostos (exemplo de Schwartsman). Nada disso. É pura engenharia de obra feita.

Na política o imponderável ocupa um espaço infinitamente maior do que admitem os analistas políticos. E por que, afinal, os tais analistas não confessam logo que previsão em campanha eleitoral é pouco mais do que palpite? Ora, isso significaria diminuir a importância da própria profissão. E é claro que não podemos exigir dos analistas políticos um suicídio profissional coletivo. A propósito, os analistas políticos têm um protocolo silencioso. Jamais criticar previsão equivocada de outro analista. Esprit de corps, como dizem os franceses.

O comportamento humano é caótico. Mínimas alterações numa variável, explica Schwartsman, podem modificar dramaticamente os resultados. Previsões em campanhas eleitorais estão no campo da adivinhação. Ao abordar o passado nossos analistas políticos são perfeitos. Quando quisessem falar sobre prognósticos deveriam usar turbantes de vidente. Seria mais sincero.

 

LUIS FERNANDO PEREIRA é advogado doutor em direito, professor e escritor.

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Uma resposta

  1. Excelente o texto de Dr. Luis Fernando Pereira! [ ]’s Juca

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