O RESSURGIMENTO DA ESQUERDA – por paulo timm / portugal.pt

 

Há poucos anos era comum ouvir-se, no mundo inteiro, que as diferenças ideológicas haviam desaparecido. Um autor famoso até arriscou: “É o fim da História”. Com isso queria ele  dizer dizer que, doravante, o mundo fluiria como uma nave no espaço, sem conflitos, sem guerras, ao sabor apenas da paz e do progresso. O grande fator de desestabilização política da modernidade, o comunismo, que rondou como um fantasma a Europa na segunda metade do séculoXIX e depois converteu-se em ameaça vermelha em países como União Soviética, China ou Cuba,  sucumbira nos escombros do Muro de Berlim, em 1989. Quem dera…!!! Nem 20 anos se passara e a Crise Econômica de 2008, nos Estados Unidos, reacenderia todo o debate de novo. Até o velho Profeta do socialismo moderno, Karl Marx, saiu das bibliotecas e começou , de novo, a povoar análises e prognósticos. E não só como inspiração, mas como doutrina ortodoxa.  Os primeiros sinais deste revival veio da América Latina. Chavez reinventou Bolívar como ideólogo de um novo tipo de socialismo, inspirando correntes e lideranças em vários países: Bolívia, Equador, alguns outros. Lula subiu ao poder em 2003, no Brasil, e fez Dilma sua sucessora. Os Kirchner reacenderam a fé e esperança peronista na Argentina, também no início da década passada e lá continuam, mesmo enfrentando panelaços de descontentamento social.  Mas a esquerda não cresceu apenas do lado de baixo do Equador. Nos Estados Unidos, Barack Obama, que é um liberal de esquerda, negro,  com vínculos com movimentos sociais, ganhou as eleições em 2008 e reelegeu-se, agora , de novo, enfrentando sérias acusações de seu oponente de que não só é socialista, como mantém vínculos com Fidel, Chavez e Lula… E a Europa, castigada pelo repique da crise financeira americana,  segue o curso. Elegeu, há pouco um novo Presidente da França, F. Hollande, do Partido Socialista e criou, com isso, uma nova polarização em todo o continente. Dentro de pouco tempo Espanha e Portugal devem , também, enfrentar eleições e tudo indica o retorno da esquerda ao Poder nesses países.  Enfim, a História revive em seu clássico confronto de idéias e interesses.

Mas, o que vem a ser exatamente o confronto esquerda x direita e , em que medida, se pode falar, hoje, numa “Nova Esquerda”?

Não há , aqui, espaço para grandes considerações filosóficas. Sejamos, pois, breves.

Há uma Lei Geral no Universo, sobre a qual não há controvérsias: a do Movimento. “E, no entanto, se move”, teria dito, entredentes, Galileu, ao enfrentar o Tribunal de Inquisição da Igreja de Roma, para o qual o mundo era estático, com a Terra no centro do sistema solar. Heráclito, filósofo grego, das calendas  clássicas, já havia advertido: “Tudo flui”.  Pode-se, até, discutir quem deu o pontapé inicial, mas, isso posto, o mundo gira e se expande. Não há ordem, neste processo. Reina a mais sublime anarquia, na qual resultam choques de estrelas e até Galáxias inteiras, num frenesi tão impressionante quanto sinistro. Enquanto isto, em outras partes do Universo, reina paz celestial. Graças a ela, deste lado do sol, estamos vivendo nosso doce e bela vida, embora expulsos do Paraíso e sujeitos ao suor para ganhar o pão de cada dia.

Criamo-nos, pois, e multiplicamo-nos, sobre a delicada pele do planeta que habitamos.  Constituímos sociedades, das primitivas às complexas; desenvolvemos crenças, instituições, uma cultura invejável; formamos, a partir de hordas e tribos, grandes Impérios Teocráticos, que deram lugar aos modernos regimes constitucionais ; e dominamos, como o conhecimento, a natureza, até castigá-la com o excesso de gentes e seus artefatos e rejeitos. Mas, como somos feitos da mesma matéria que as estrelas, tudo isto também ocorreu em meio à tormentos humanos, com flagelos de toda ordem. No início predominou nas sociedades a lei natural do mais fortes. E eles eram “escolhidos” pelas mulheres para formar suas proles. Criavam-se , assim, famílias poderosas, com grande capacidade de  impor sua vontade aos demais, daí resultando inevitáveis entrechoques de vontades. Era o começo da História. E da Política, pois o homem é um animal social que interage para viver e se reproduzir, jamais abdicando destes imperativos. E o faz “naturalmente”, sem qualquer recurso intelectual, como um pássaro, uma flor ou um dinossauro. Mas neste processo de se reproduzir em sociedade acabou substituindo a força pela Lei, de forma a reduzir a violência da dominação e a guerra de todos contra todos. Com isto “desnaturalizou” o seu próprio mundo. Fê-lo humano… E assim chegamos ao Estado Moderno, que necessita da força para se impor, por delegação pactuada de seus súditos, mas que subordina a força à Lei para se legitimar. E a Lei é para Todos, não só para os mais fortes, que no curso de seu poder acumulam privilégios, ou os transferem a grupos sociais sob seu estrito controle. Ou ainda cristalizam preconceitos, convenções discriminatórias e instituições em benefício próprio.  E desta forma emergem idéias divergentes sobre o conteúdo da Lei e sua abrangência como forma civilizada do ser social. Aqueles que se acham confortáveis numa situação histórica qualquer, serão conservadores, resistindo às mudanças que lhe poderão tolher benefícios. Os que se sentem desconfortáveis, perseguirão  mudanças.  E enquanto houver sociedade, haverá sempre este conflito, que levado ao extremo poderá gerar à exaltações como golpes “reacionários” e revoluções sangrentas. E aqui, a atualidade da esquerda contemporânea: Talvez tenha compreendido que melhor ir devagar com o andor, porque o santo é de barro…E que a utopia serve mais como uma bússola a indicar o caminho do que como paradigma de chegada. Mas não abdicará jamais de seu papel no fazer histórico, que é, fundamentalmente, a luta pela maior igualdade entre os homens que cultivam e almejam um mundo livre. Livre da fome, livre das diferenças , livre dos preconceitos…

PAULO TIMM é economista, professor da UNB e técnico em planejamento.

Uma resposta

  1. Uma Nova Esquerda, pois, seria universal, unindo todos os pensamentos socialistas e conseguindo um consenso maravilhoso? Eis então uma ótima ideia!

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