O SONHO DE BORGES – por jorge lescano / são paulo.sp

 

Si un hombre atravesara el Paraíso en un sueño,

y le dieran una flor como prueba de que había estado allí,

y si al despertar encontrara esa flor en su mano…

¿entonces, qué?

Samuel Taylor Coleridge,

 apud Jorge Luís Borges,

La flor de Coleridge

 

Eu tinha a certeza de que os misteriosos personagens eram anunciados durante uma entrevista das que Jorge Luís Borges concedeu a Osvaldo Ferrari e foram publicadas com o título de Diálogos pela editora Seix Barral, da Espanha. Com esta convicção fui à prateleira e com mão segura retirei o volume. Devia encontrar as páginas nas que apareciam o senhor ou a família Campbell; sabia que uma empregada ou secretária prestimosa os anunciava e reiterava sua presença em algum lugar da casa, na ante-sala, talvez na biblioteca. Nesta não, provavelmente é onde se davam os encontros entre o mestre e o entrevistador, gravador por meio.

Comecei a procurá-los no índice. Ingenuamente acreditava que os títulos poderiam me dar alguma orientação. Eu não lembrava qual era o tema tratado no caso. Confiando na intuição, pensei que relendo os títulos poderia ativar a memória e assim apressar meu encontro com o assunto procurado. Este tipo de pesquisa deu em nada, como é fácil prever. Apelei então para a memória visual.

Não é incomum reencontrar passagens de leitura ao percorrer as páginas de forma aleatória e vista panorâmica, guiado apenas pela lembrança da altura da linha e da posição da página na ordem das coisas, isto é páginas à destra ou sinistra. Novamente o resultado foi nulo. Então, já resignado a um trabalho mais minucioso, decidi encarar as 383 páginas do livro realizando algo que alguns chamam de leitura visual e que consiste em procurar palavras em negrito, em itálico ou simplesmente palavras que comecem com maiúscula. Não é necessário ser um Dupin para concluir que a letra impressa teimava em me ludibriar apesar de ter realizado a tarefa de trás para frente e em sentido inverso, e mais de uma vez, pois sabia que a citação estava ali, acaçapada mas não oculta na floresta de letras como a própria família Campbell em algum cômodo da casa. Após diversas tentativas de surpreender distraídos os escorregadios personagens, devolvi o livro à prateleira. Vi-me literalmente de mãos vazias e olhos em áscuas.

Sem dúvidas era em um livro de entrevistas e não em revista ou jornal onde havia lido o famoso nome dos Campbell. Existe na desordem de minha biblioteca algum outro volume de entrevistas?

Os djins que moram nas minhas prateleiras não só trocam os livros de lugar como, familiarizados com o ambiente e aproveitando meus lapsos de memória, vez por outra mudam a ordem dos assuntos dentro do volume e mais, transferem matérias e capítulos de um livro para outro.

Resmungando e de olhos fechados rememorei a sequência de obras que tratam de escritores: romances, contos, ensaios críticos, biografias, entrevistas. E eis que a minha memória, que já causou espanto nos amigos, mais uma vez serviu de trampolim para mergulhar no mar das belas letras.

Há na fileira de lombadas –a esta altura da crônica novamente estou de pé diante do vasto mundo do alfabeto– duas que prometem satisfazer a fome e a sede –a situação é deveras melodramática– se não do reencontro com a família Campbell, pelo menos a certeza de que a minha memória continua fiel ao seu desígnio.

Possuo os dois volumes de Os escritores, as históricas entrevistas da Paris Review, publicados pela Companhia das Letras em 1988. Peguei o primeiro volume com sofreguidão, ávido de verificar o índice dos entrevistados e ali estava ele. De pura satisfação dei um tapa na capa do livro. Devo dizer que a poeira me fez espirrar? Vá lá!, a narrativa é verídica.

Entre as páginas, uma anotação a respeito dos Campbell feita há quinze anos prova que estou no caminho certo. Mais calmo retomei –gostaria de escrever na minha poltrona preferida, infelizmente só tenho um sofá-cama e duas cadeiras desemparelhadas em minha mansarda que nem sequer foi projetada por Mansart, mas por Niemeyer e na Paulicéia desvairada–  a leitura da matéria procurando o famigerado sobrenome. E porque este relato estava no horizonte de minha procura, era imprescindível que relesse toda a entrevista para contextualizar motivo e tema, expressões com que gosto de confundir peritos em letra impressa.

O encontro acontece em julho de 1966. Partcipam da cena na sala da Direção da Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, Jorge Luís Borges, diretor da instituição, a senhorita Susana Quinteros, secretária do diretor e o entrevistador Ronald Christ

A pequena figura do escritor apoiado na bengala, de boina e com um terno cinza pendurado no seu corpo parece ainda menor devido ao pé-direito alto da sala, típico das construções antigas. Decoram as paredes diversas águas-fortes de Piranesi. Acima da lareira há um retrato.

— Não importa. É uma reprodução de outra pintura –responde a secretária quando interrogada sobre a identidade do personagem retratado.

A ação sugere enredo teatral de sucesso, clássico e interessante triângulo amoroso: escritor célebre e idoso, secretária que por hábito cinematográfico imaginamos jovem, bela e loira, visitante alienígena que suspeitamos elegante e erudito. Contudo, o mundo nunca satisfaz todas as nossas esperanças. Milhões de pessoas jogam na mega-sena, apenas alguns felizardos levam a bolada.

No desconcerto do mundo não se deve esperar muito das personagens femininas. A senhorita Quinteros não ultrapassou as minhas expectativas.

 

Na página 207 de Diálogos lê-se:

SUSANA QUINTEROS (entrando): Desculpem-me. O sr. Campbell está esperando.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere um momento. Bem, há um certo sr. Campbell esperando; os Campbell estão vindo.

PERGUNTA: Quando escrevia as suas histórias, o senhor as revisava muito?

            Na página 219 temos:

SUSANA QUINTEROS (interrompendo): Desculpe. Está esperando el señor  Campbell.

BORGES: Ah, por favor, peça-lhe que espere só um momento mais. Esses Campbell continuam a chegar.  

Na página 223:

PERGUNTA: E qual dos dois o senhor é?

BORGES: Penso que sou aristotélico, mas gostaria que fosse o contrário. Acho que é o sangue inglês que me faz pensar em determinadas coisas e pessoas como sendo reais, em vez das idéias gerais serem reais. Mas agora receio que os Campbell estejam vindo.

PERGUNTA: Antes que eu vá, o senhor se importaria de assinar o meu exemplar de Labyrintes?

Na página seguinte, última da entrevista, o escritor argentino comenta a pouca freqüência dos leitores norte-americanos a certos autores do seu próprio país:

PERGUNTA: Eles são lidos, mas mais nas escolas secundárias.

BORGES: E O. Henry?

PERGUNTA: Também, sobretudo nas escolas.

BORGES: E suponho que sobretudo por causa da técnica, do desfecho surpreendente. Não gosto desse truque, você gosta? Ah, funciona bem na teoria; na prática, é uma outra coisa. Você só pode lê-los uma vez, se houver apenas a surpresa. […] Agora, nas histórias de detetives, é diferente. A surpresa está lá, sim, mas há também as personagens, o cenário ou a paisagem para nos satisfazer. Mas agora me lembro de que os Campbell estão vindo. Supõe-se que sejam uma tribo muito feroz. Onde estão eles?

Expectante, Ronald Christ se empina sobre seu cóccix. A porta abre-se lentamente. Aproveitando a brecha o entrevistador se esgueira pelo sul de Buenos Aires, Labyrintes autografado no sovaco.

Borges, como se soubesse do que se trata, ou quiçá totalmente inocente pela cegueira, relaxa-se na poltrona como quem se dispõe a tirar uma soneca. Após alguns segundos irrompe na sala Andy Warhol vestido de caubói. O rosto sarapintado torna-o parecido com um dos seus múltiplos auto-retratos em serigrafia; ostenta um enorme cocar na cabeça, as abas de plumas são tão longas que alguém fora da vista sustenta-as para que não arrastem no chão.

Quando Andy Warhol chega perto da lareira, os Campbell aparecem. São latas de sopa de vários sabores, têm o tamanho de um homem e marcham em fila indiana, séquito do artista pop. Batem na barriga com grandes colheres de metal. –Em alguma página transtrocada pelos meus djins familiares Estela Canto afirma que Georgie, nos restaurantes, só tomava sopa de arroz e bebia grandes quantidades d’água.– Enquanto Andy Warhol gargareja um som contínuo, sincopado, cobrindo e descobrindo a boca com a mão, Borges, de olhos fechados, a cabeça inclinada para trás no espaldar da poltrona, sorri beatificamente. Os Campbell dançam em círculo em volta dele como se rodeassem um grande caldeirão de água fervendo. Andy Warhol faz gestos rituais sobre o cocuruto do bibliotecário e o seu próprio. Borges balança a cabeça ritmicamente. Sob os auspícios de Coleridge, banqueteia-se com sopa de letras.

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