ARTISTAS E VACAS – por jorge lescano / são paulo.sp

O analista revelara à paciente que ela sofria de falsa identidade – ou como esses profissionais da escuta esotérica chamem esta perturbação da personalidade –: era uma vaca presa num corpo de mulher. Ela decidiu assumir seu verdadeiro EU. Começou a mugir e se fazer tatuar grandes manchas negras na pele branca.

Sem que se conhecessem, ela vivia a metamorfose almejada pelo poeta. Este, em protesto pelo descaso da plebe ignara com a ninfa Eco, sonhava ser uma vaca, malhada, de nome Gertrudes, como os irlandeses chamam as fêmeas do seu gado bovino, segundo James Joyce num romance do argentino Ricardo Piglia

 

O pintor Paul Klee, nascido na Suíça, herdou do pai a nacionalidade alemã e só recebeu a cidadania do seu país natal, solicitada sete anos antes, um dia depois de sua morte.

Alguém comentou – talvez seja apenas uma boutade, com esta ressalva figura numa biografia do artista – que a demora teve origem em um quadro no qual o pintor retratou um rebanho de vacas empilhadas, sugerindo que o país não tinha espaço suficiente para sua pecuária. Isto numa nação que se orgulha da qualidade do seu queijo e criou um gênero de canções dedicadas a este ruminante.

 

O romancista acordou e deu pela falta do seu manuscrito. O jornal não fornecia o título do romance. Um pouco afastada da árvore sob a qual o escritor dormira sua sesta de verão, uma vaca ruiva ruminava a sua merenda.

Tarde demais ele ficou sabendo que os nutrientes que este animal encontra no capim também estão no papel.

 

Com o passar das gerações a anedota ficou mais ou menos assim:

A senhora interrogava Claude Debussy sobre o método utilizado para suas composições.

– É muito fácil, eu pego todos os sons e retiro aqueles que não desejo usar – teria respondido o músico.

– Confesso que não entendo as suas melodias – disse a dama. – Eu apenas sei do que gosto e do que não gosto.

E o compositor:

– Como as vacas, minha senhora!

 

 

O ator dirigia a sua motocicleta em alta velocidade quando o ruminante estacionou no meio da estrada. Não houve tempo para desviar ou frear. O veículo bateu em cheio na massa de carne que na hora do impacto ganhou solidez de concreto.

A polícia rodoviária contou com a serra e a habilidade de um magarefe para extrair a cabeça e os ombros do motoqueiro do flanco da vaca.

Aquela noite foi de consagração do ator substituto. Em turnê pelo interior do estado, a companhia representava Androcles e o leão, de George Bernard Shaw.

 

Como descrever o assombro da vaca solitária ao contemplar com seu olhar bovino o jovem negro atravessar a cerca, armar seu saxofone e totalmente concentrado improvisar alguns compassos na sua frente e para seu exclusivo prazer, enquanto seus colegas, não menos surpresos que ela, esperavam o final do breve concerto à beira da estrada?

Quem disse que as vacas gostam de música?, deve ter pensado o animal ao ver o carro se afastar levantando uma nuvem de poeira.

A cena foi narrada por um integrante da banda de Charlie Parker presente na ocasião.

Uma resposta

  1. Cada um de seus textos instiga, intriga, obriga o pensamento a exercer a própria função, que é a de pensar rsrsrs

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