O FIM DO MUNDO ou a explosão global de 21 / 12 / 2012

 

a explosão

 

“Para encontrar a alma é necessário perdê-la”. (Alexander Luria, neuropsicólogo russo)

Segundo muitos exotéricos que interpretam tragicamente o calendário maia, produto de uma avançada civilização pré-colombiana da América Central, o mundo terá – ou teria ! – explodido no dia 21 de dezembro de 2012. No mundo inteiro há quem leve a sério esses maus presságios e locupletam algumas cidades, consideradas à salvo da apocalipse, congestionando estradas e devorando os escassos mantimentos que seus modestos estabelecimentos comerciais dispõem.  Uma delas aqui no Brasil, em Goiás: Alto Paraíso. Trata-se de uma bela cidade situada a nordeste do Estado de Goiás, a 230 km de Brasília, na Chapada dos Veadeiros, numa região rude e violenta que serviu de inspiração aos melhores contos e romances regionais do escritor Bernardo Ellis, o melhor deles “O Tronco”, levado às telas por J.Batista de Andrade.  Prova disso foi o assassinado do Prefeito da cidade há dois anos. Não obstante, situada sobre uma plataforma de cristal de rocha, no ponto mais alto do Planalto Central, Alto Paraíso há muitos anos atrai místicos do mundo inteiro que ali semeiam templos, tribos ou oficinas individuais dando um colorido diferente à pacata sociedade local. Lá encontrei, também,  em minhas inúmeras viagens,  vários gaúchos que povoam  o Centro Oeste lavrando o cerrado e contribuindo para fazer do Brasil o celeiro do mundo. Bom para o agro-business, ruim para a natureza, que se molda à mão do homem.

Para a Ciência, avessa às superstições e especialmente à Astrologia, o que haverá na fatídica data é apenas um mero alinhamento sideral. Entre os dias 21 e 23 de dezembro, com  ápice entre 11:16 hs e 11:26 hs da manhã do dia 22/12. nosso planeta Terra, a Lua e o Sol estarão alinhados com Alcyone, a estrela maior da Via Láctea, fato que ocorre a cada 25 mil anos. Mas , para os místicos, este seria um momento especial porque as energias planetárias estariam  se reorganizando  levando-nos à possibilidade de vivenciar  um momento cósmico  especial, com uma suposta extraordinária ortunidade para que muitos se iluminem passando  a vibrar em outras dimensões. “É esperado que milhões de almas se beneficiem desta oportunidade espiritual única”afirmam.

As religiões monoteístas firmemente estabelecidas também refutam essas proclamações de uma Nova Era e a condenam , tanto quanto a Astrologia, como mera superstição.  Alguns Governos laicos, como o da China, vai mais longe e está perseguindo com severidade as seitas que divulgam os prognósticos do fim do mundo.

Ciência, Governos laicos e Igrejas se unem, portanto, na reafirmação do destino não como fatalidade, mas como possibilidade, ou seja,  como resultado de  complexos fatores biológicos , ambientais e psicológicos sobre os quais se interpõe o livre arbítrio. Não fora isto, como julgar as ações humanas? Os filósofos vão mais longe: A condição humana assinalaria o aparecimento da consciência mediada pelo desejo, cuja raiz etimológica – de-sidere – marcaria a afirmação da vontade livre frente aos desígnios siderais, ou seja, a idéia mesma  de destino.   Para o Iluminismo, enfim,  sob cujas luzes ainda nos “ iludimos “, o homem é um ser moral dotado de plena capacidade para legislar com  autonomia sobre suas ações. A pós-modernidade já sepultou esta crença na capitulação do sujeito. Mas não capitulou à astrologia… E um novo fisicismo científico, igualmente pós-moderno, descrito como “tumor metafísico”por Eduardo Gianetti em seu livro “A Ilusão da Alma”, Cia. Das Letras. e cantado em verso  por Fernando Chuí, relança o tema da pré-destinação, mas mais  como determinação bio-genética do que rastro estelar  :

A Invenção da Alma

                                                                                                                                              Fernando chuí

                                                                                                    

 

Certa vez, um amontoado de átomos

adquiriu inexplicavelmente o desejo

de ser mais do que matéria em movimento.

.

O criador, curioso ao perceber tal rebeldia

submergindo da luz e do caos,

decidiu, quase em um tom lúdico,

enviar àquela manifestação sete fadas

para lhe presentearem com dotes que o auxiliassem

na engenharia daquele novo e improvável universo.

.

Voz, a primeira fada,

voou por entre os orifícios da cabeça

e soprou-lhe o dom de inventar sentidos próprios

nos sons que era capaz de emitir.

.

Mãos, a segunda fada,

atravessou seus poros até atingir seus ossos,

seguindo os braços até as suas extremidades

e lá deixou a habilidade de transformar as formas à sua volta

apenas pelo contato com seus dedos.

.

Paixão, a terceira fada,

rasgou-lhe o peito para lhe enfiar sua adaga

que continha o poder de se entorpecer e se entregar à cegueira

diante de um outro ser.

.

Conhecimento, a quarta fada,

nadou por toda a sua carne

espalhando por todo o corpo

a capacidade de salvar a sua história

por meio de escritos, imagens e objetos.

.

Política, a quinta fada,

mergulhou em seu sangue

e lhe inoculou a aptidão de se organizar socialmente

em sistemas, classes e disciplinas.

.

Karma, a sexta fada

(que também respondia pelo nome de Neurose),

escorregou pelo couro cabeludo para lhe derramar

a capacidade de lutar contra a própria felicidade.

.

Dor, a sétima e última fada,

beijou seus olhos

e lhe ofertou a capacidade de chorar.

.

Feliz com seu feito, o criador agradeceu

e despediu-se das fadas.

Porém, temeroso de ser alcançado

pelos poderes concedidos àquela nova criatura,

o criador lançou àquele ser um feitiço:

Não teria jamais a certeza de coisa alguma.

.

Feito isto, pôs-se a dormir, invisível.

.

E aquele ser que acordava

e já não aceitava mais a sua pureza atômica,

passava seus dias a inventar, tal qual vício ou peste,

novas estruturas lingüísticas, estéticas, políticas e tecnológicas

para a dominação de seu povo e da natureza à sua volta.

Estas que, via de regra,

sempre geravam indefectíveis desastres

faziam-no passar todo o tempo buscando novas invenções

para consertar os próprios erros de outrora.

.

E mesmo se multiplicando em ritmo absurdamente acelerado,

o ser inventou a solidão.

Sentia-se agora tão só

que inventou em si um novo talento,

o dom de inventar deuses.

.

Da voz, compôs uma reza.

Das mãos, moldou o altar.

Da paixão, lançou-se ao culto.

Do conhecimento e da política, teceu a religião.

Da neurose, fez a culpa, a vergonha e o castigo.

.

O ser derramou assim

sobre a terra azul e seca,

de alegria e melancolia,

a primeira e doída lágrima,

junto à primeira prece.

.

.

Elas, que aí estão;

Elas, que não têm mais fim.

Entre crenças, princípios científicos e vã filosofia enfrentemos, pois, o 21 de dezembro. E, se o mundo sobreviver e nós com ele, preparemo-nos para a boa semana de celebrações que lhe seguirá.

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