A maior ameaça à paz mundial / por simon jenkis / londres.england

Drones são como ouro de tolo: prolongam guerras que não conseguimos vencer

Nomeações da Casa Branca indicam a era da guerra por controle remoto, que não traz vitória, mas retaliação

 

jenkisA maior ameaça à paz mundial não são as armas nucleares e sua possível proliferação. São os aviões não-tripulados e sua garantida proliferação.

As bombas nucleares são armas inúteis, brincadeira de poderosos ou dos que aspiram ao poder. Os drones estão tomando conta dos mercados globais de armas.

Existem 10 mil em serviço, dos quais mil armados, a maioria dos Estados Unidos. Alguns relatórios dizem que os drones já mataram mais civis não combatentes que os atentados de 11 de setembro.

Não li nenhum estudo independente das guerras por controle remoto no Afeganistão, Paquistão e no chifre da África que diga que estas armas sirvam a algum objetivo estratégico. Seu “sucesso” é expresso apenas pela contagem dos mortos, o número dos assim-chamados “comandantes ligados à al-Qaeda” que foram abatidos. Se a contagem dos mortos representasse vitória, os alemães teriam ganho em Stalingrado e os norte-americanos no Vietnã.

Nem a legalidade nem a ética justificam os ataques com aviões não tripulados. O exaustivo estudo do ano passado feito por advogados das universidades de Stanford e Nova York concluiu que houve muitos ataques ilegais, que mataram civis e que são contraproducentes. Entre os mortos há 176 crianças. Tal matança levaria uma unidade de infantaria à corte marcial. As forças aéreas tem tanto prestígio que as mortes de civis são consideradas um preço a pagar para não colocar em risco a vida de pilotos.

Esta semana o presidente Obama nomeou dois “entusiastas”  dos drones como secretário de Defesa — Chuck Hagel — e chefe da CIA — John Brennan. A guerra dos não-tripulados é o sabor do momento e o complexo industrial militar está lambendo os beiços. Se Obama, que é advogado, tinha qualquer dúvida sobre a legalidade do uso destas armas, com certeza a superou.

Além das questões da ética e da lei, acho impossível descobrir a contribuição destas armas à vitória. A morte de combatentes leva à substituição deles por outros, que buscam vingança. O Predator original, destinado à vigilância, foi adaptado para fazer bombardeios especificamente para matar Osama bin Laden. Quando Osama foi finalmente encontrado, o drone foi considerado um aparelho muito impreciso e as velhas botas-com-armas foram despachadas para fazer o serviço.

Quanto à morte inevitável de civis, por menor que for o número, isso não é apenas “dano colateral”, mas uma questão crítica para a vitória ou a derrota. Os drones não ocupam ou asseguram território, mas devastam corações e mentes. Os bombardeios aéreos sempre foram uma arma de guerra questionável. Não levam à derrota do inimigo, mas à retaliação.

Na segunda-feira um documentário da BBC sobre o cerco de Malta analisou o devastador ataque aéreo alemão, o mais intenso da segunda guerra mundial. Embora tenha causado danos à infraestrutura da ilha, não freou a resistência. A crença no bombardeio e o fracasso em invadir Malta custaram à Alemanha a campanha da África. Uma arma de terror aéreo que não acovarda o inimigo mas apenas convida ao desafio não é eficaz. Três quartos dos paquistaneses podem agora ser considerados inimigos dos Estados Unidos.

Ainda assim, toda semana Obama aparentemente consulta a “lista de morte” dos muçulmanos que pretende eliminar, sem processo judicial e com uma identificação que se baseia na palavra meia boca de um espião em solo. Pelo menos os drones britânicos em Helmand [província do Afeganistão], nos dizem, são usados apenas para dar apoio aéreo a tropas em solo.

Desde que a guerra dos não-tripulados começou para valer, em 2008, houve um declínio na atividade do Talibã e da al-Qaeda. Qualquer redução de recrutamento está apenas esperando a saída da Otan. O presidente afegão, Hamid Karzai, descreve os ataques como “injustificáveis”. O governo do Paquistão, contra o qual os ataques tem sido crescentemente direcionados, retirou qualquer permissão para o uso dos drones.

O jovem escritor iemenita Ibrahim Mothana protestou no New York Times contra a carnificina que os drones estão promovendo na política de seu país, apagando “anos de progresso na construção de confiança entre as tribos”. Os iemenistas agora encaram recrutadores da al-Qaeda com fotos de mulheres e crianças destroçados. O número de integrantes da al-Qaeda no Iêmen triplicou desde 2009. Jimmy Carter declarou que “as violações dos direitos humanos internacionais pelos Estados Unidos reforçam nossos inimigos e alienam nossos amigos”.

A guerra dos drones parece sem sentido, mas impossível de deter. O apelo deles para os líderes ocidentais se baseia parcialmente na novidade e parcialmente na esperança de que as derrotas pareçam menos ruins. São como o bombardeio do USS New Jersey contra as montanhas Chouf do Líbano, em 1984, uma demonstração de força sangrenta para dar cobertura à retirada. Os drones não ajudam na vitória, facilitam a derrota que seu uso tornou mais provável.

O Tabilã no Waziristão não é uma ameaça para Londres ou Washington. A al-Qaeda não tem mais capacidade de solapar um estado, a não ser com a bomba ocasional, que pode ser evitada com inteligência doméstica. As “guerras de escolha” de hoje refletem um aspecto sinistro da democracia. Líderes eleitos parecem buscá-las, desafiando todos os alertas de como é difícil acabar com uma guerra. Hipnotizados pela vitória de Margaret Thatcher nas Malvinas, todos buscam uma boa guerra.

Nisso, os drones são o ouro de tolo. Guiados pela pressão dos vendedores de armas, Obama (e David Cameron) são informados de que os drones representam a guerra à distância, do futuro, segura, fácil, limpa, “com alvos precisos”. Ninguém do nosso lado se fere. Terceiros podem fazer o trabalho sujo em solo.

A legalidade tênue desta forma de combate requer que o agressor “declare guerra” contra outro estado. Mas a al-Qaeda não é um estado. Como resultado, estes ataques em solo estrangeiro não são apenas guerras de nossa escolha, são guerras auto-inventadas. Quanto tempo vai demorar até que os Estados Unidos “se achem” em guerra com o Irã e a Síria e despachem os drones? Quando isso acontecer e a matança começar, não terão como reclamar se as vítimas retaliarem com ataques suicidas.

Mas não apenas com suicidas. Os aviões não tripulados são baratos e fáceis de proliferar. Onze estados já os utilizam. Os Estados Unidos vendem drones para o Japão, para ajudá-lo com a China. A China está construindo 11 bases para seus drones Anjian na costa. O Pentágono agora treina mais operadores de drones que pilotos. O que vai acontecer quando toda nação com uma força aérea fizer o mesmo e todas as fronteiras combustíveis estiverem cheias deles?

Nunca temi proliferação nuclear por acreditar que tais bombas são aquisições de prestígio, tão horríveis que nem lunáticos as usariam. Os drones são diferentes. Quando eram chamados de mísseis teleguiados, eram governados em certo grau por protocolos e leis internacionais, assim como era a prática de assassinatos.

Obama rejeita tudo isso. Ele e os Estados Unidos estão ensinando ao mundo que uma aeronave não tripulada é auto-justificável, auto-desculpável, uma arma legal e eficaz de guerra. Por mais que um drone seja contraproducente do ponto de vista da estratégia, tem glamour com os eleitores em casa. Difícil imaginar algo mais perigoso para a paz mundial.

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